E a criatura criou o criador

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Satu · Marília, SP
12/10/2007 · 16 · 3
 


Não mentiram as escrituras quando, no Gênesis, uma terceira e enigmática pessoa do discurso narrou que, no princípio, era o verbo. Sim, e o verbo ser, intransitivo, reveste-se de uma semântica de autoridade inabalável, de modo a catapultar para acima de quaisquer interrogações uma certeza que alimentará muitos povos do mundo, por séculos e milênios: existe um Deus, perante o qual todo homem deverá se curvar e se calar. Calar..., no sentido de não questionar esta autoridade discursiva, intransitivamente constituída como molde para o estabelecimento dos padrões e das práxis, do ethos e, sobretudo, daquilo a que se outorgou valor de verdade. Intransitivos são, portanto, tais conceitos: verdade, Deus e verbo.
Generoso, Deus nos lega o poder de criação: metagenética, metafísica, metáfora. Criamos bichos-papões para que adormeçam nossas crianças, cegonhas que as trazem ao mundo, vigias e punições que as transformam em homens fracos e manipuláveis, marionetes de obscuras intenções, assim como um perdão concreto que os redime de supostas quedas. O filho herdará do pai suas características. O homem herdará de Deus sua onipresença, onipotência e onisciência. Quiçá, sua oniarrogância.
No texto de Gênesis, Deus se consubstancia numa tríade: desejo, autoridade e verbo, este último, percurso e processo para reificação da obra determinada pelos dois primeiros, modalizados no querer e no poder. O verbo, e somente ele, é capaz de substantivar Deus como O Criador; assim, se desejo e autoridade (querer-fazer e poder-fazer, respectivamente) assinalam a essência onipotente do Divino, o fazer aponta para a sua substância, de forma a concretizá-lo como verdade indelével, tal e qual o revólver e o projétil, que nada significam se subtraídos da possibilidade do tiro.
Homens do Ocidente teorizam sobre a estrutura do mito e chamam primitivas culturas que figurativizam em entes sobrenaturais explicações para certas expressões do plano fenomênico: o raio, o trovão, as grandes chuvas... Nascem as narrativas de Martes e Xangôs, Kanashiwues e Mikaiás, todos, por fim, deuses em algum sentido e aspecto, a direcionarem nossa interpretação do mundo e sua conseqüente manutenção. Transitamos de um deus para outro, ao sabor de nossas vicissitudes; suplantamos um e perpetuamos outro, afigurando-o, amoldando-o segundo a ordem pragmática do momento: circunstâncias que atualizam uma existência tristemente adverbial, substantivamente humana.
A sociogênese encontra na ordem sua prerrogativa. Um governo pressupõe governante e governado, de quem extrai sua forma binária e sua constituição bi-transitiva. Paramentado dos dogmas construídos a partir das convenções a que a grande massa nunca foi convidada a tomar parte, reclama para si um discurso que não se pode argüir ou redargüir. O discurso é o re-verbo: onisciente de todos os conceitos, onipresente em sua extensão social, onipotente na vigilância de sua própria perpetuação e no estabelecimento dos mecanismos de controle e de distribuição das quotas de direitos e de deveres.
Metonímia, o poder político, que detém em seu domínio hegemonias sobre os mais diversos bens (culturais, econômicos, tecnológicos, etc.), necessita ser diuturnamente retro-alimentado a fim de que não pereça ou transite para fora do grupo e da órbita que o centralizam. Dessarte, custeia sua manutenção por meio de crenças que se prescrevem para a grande massa, o segmento cuja razão de ser outra não é senão a de obedecer aos desígnios de quem não apenas faz uso do verbo, mas é o próprio verbo.
O discurso, por fim, significa detenção do poder e do querer. Representa a propriedade mais valiosa a ser conquistada. Ter a sua posse implica criar verdades e sancioná-las de modo ininterrogável, cujo processo denomina-se mito, cujo suporte denomina-se crença e cuja manutenção denomina-se dogma. O homem, ao inventar a propriedade, criou também interesses que o conflitaram relativamente à distribuição dos direitos. Criou a bala e o revólver, desferiu o tiro. E assim, Deus foi criado à sua imagem e semelhança. Triste Deus, oh quão dessemelhante.

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Léo Lago
 

Teve um errinho de digitação no título, "E a critura criou o criador": criatura.

Léo Lago · Rio de Janeiro, RJ 10/10/2007 16:37
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carlos magno
 

Olá amigo Satu,

o seu comentário ao meu poema me ipressionou tanto que eu tive a curiosidade de conhecer alguns dos teus escritos. por isso vim até aqui pra conferir. Este seu texto está maravilhoso. Porque você não tenta uma reedição e me convida que eu compareço quando você postar.
Abraços.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 19/10/2007 23:59
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Renato Bandeira
 

Fala, Satu

Como te acho?

Renato Bandeira · Rio de Janeiro, RJ 30/6/2008 13:30
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