Atendendo à sugestão feita no final do mês de maio por ilhandarilha, daqui do Overmundo, a seção "E a teledramaturgia contou..." retira da história da telenovela brasileira uma trama muito bem sucedida da década de 1970. Caso o leitor queira fazer o mesmo, e ver neste espaço alguma história especÃfica da teledramaturgia brasileira, é só dizer nos comentários, que atendo as sugestões a cada publicação do final do mês (excepcionalmente, não pude escrever semana passada, em função de compromissos pessoais).
Bem, mas vamos à história pedida por ilhandarilha. E a teledramaturgia contou... Os ossos do barão.
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O escritor paulista Jorge Andrade já era um consagrado autor de teatro (em peças como A moratória, sua primeira peça, datada de 1954, Vereda da salvação e Pedreira das almas) quando foi chamado pela TV Globo para fazer parte de sua equipe de teledramaturgia. Três décadas atrás, a emissora tinha hábito de "buscar" autores no teatro e na literatura - ao contrário dos dias de hoje, no qual a cúpula global dá espaço apenas a quem é aluno de sua "oficina de autores".
Em sua estréia na dramaturgia para televisão, Jorge Andrade recorreu a histórias que já havia contado nos palcos para entreter os espectadores que, em vez de aplausos, davam audiência às obras exibidas na telinha. Em 10 de outubro de 1973, no horário das 22h, a TV Globo estreou Os ossos do barão, uma mescla feita pelo autor de duas de suas peças - a que deu nome à novela e A escada.
De Os ossos do barão, foi mostrada a história de Egisto Ghirotto (papel de Lima Duarte), um descendente de italianos e ex-empregado da fazenda de propriedade do Barão de Jaraguá, e que havia feito fortuna com a Revolução Industrial em São Paulo. Entretanto, embora fosse dono de tudo o que no passado pertenceu ao Barão (inclusive os ossos de sua cripta mortuária), Egisto não possuÃa um tÃtulo de nobreza. Do outro lado, o herdeiro direto do Barão de Jaraguá, o já idoso Antenor (feito por Paulo Gracindo), vivia das lembranças do passado, ignorando a falência do pai e a decadência do ciclo do café. Antenor fez parte da trama inspirada na peça A escada: seus filhos conviviam com o dilema de o colocar (junto com a esposa Melica, vivida por Carmem Silva) em um asilo. Através desta história, Jorge Andrade colocava em cena a discussão da hierarquia familiar.
O decorrer da história (que teve seu ponto final em 31 de março de 1974) mostrou uma prática feita entre as famÃlias quatrocentonas de São Paulo e os ricos emergentes depois que a Revolução Industrial passou pela cidade. Para que os nobres não continuassem falidos e os atuais endinheirados recebessem o tÃtulo de nobreza, a solução era fazer a união matrimonial dos herdeiros de ambas as partes - no caso de Os ossos do barão, representados por Martino (filho de Egisto, vivido por José Wilker) e Isabel (bisneta no Barão de Jaraguá, interpretada por Dina Sfat) - atitude que Egisto se empenhava em fazer.
Outro dado polêmico mostrado por Andrade em sua história foi o amor proibido entre Zilda e Omar (vividos por Sandra Bréa e Gracindo Júnior, respectivamente). Ela, uma moça de origem aristocrática, e ele, um mulato (o ator teve a pele escurecida para fazer o personagem). Mais um retrato do tema que permeou a obra deixada por Jorge Andrade - que faleceu em 1984, aos 62 anos - no teatro e na teledramaturgia brasileira: o reconhecimento social (em sua busca ou na tentativa em mantê-lo), mesmo que seja através das aparências.
Os bastidores da novela das 22h da TV Globo trazem alguns dados curiosos. Uma parcela do público que gostou da interpretação de Otelo Zeloni para Egisto Ghirotto na montagem teatral de Os ossos do barão protestou porque o ator não foi escalado para o papel - mas, dois meses depois de a novela ter estreado, Zeloni veio a falecer. No meio da trama, o escritor Jorge Andrade sofreu um infarto, e não pôde escrever alguns capÃtulos. A trama foi seguida por Bráulio Pedroso - mas, recuperado, o dramaturgo escreveu sua novela até o fim.
Os ossos do barão é considerada a melhor novela assinada por Jorge Andrade. De acordo com o pesquisador Ismael Fernandes, a fusão das peças A escada e Os ossos do barão tornou possÃvel a criação de uma trama bem ajustada, na qual uma completava as indagações da outra e criava uma obra "estruturada, crÃtica, intelectualizada, sem os habituais esticamentos". Fernandes completa dizendo que esta foi a primeira vez em que o público aprovou uma novela escrita por um autor considerado intelectual.
Entre abril e agosto de 1997, Os ossos do barão foi reeditada pelo SBT, cerca de 15 anos após a morte de Jorge Andrade. Na adaptação da história, feita por Walter George Durst, a trama sofreu uma mudança considerável: em vez de ser ambientada no tempo atual, ela se passava na década de 1950. Também foram acrescentadas tramas e personagens de duas outras novelas assinadas por Andrade: Gaivotas (exibida originalmente na TV Tupi em 1979) e Ninho da serpente (no ar em 1982 pela TV Bandeirantes). Egisto e Antenor foram vividos, respectivamente, por Juca de Oliveira e Leonardo Villar, e o casal Martino e Isabel teve a interpretação de TarcÃsio Filho e Ana Paula Arósio. Embora tivesse uma produção bem cuidada e um elenco bom, a novela passou despercebida pela audiência.
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Fontes consultadas:
Site
Teledramaturgia www.teledramaturgia.com.br
Livros
A Hollywood brasileira, de Mauro Alencar
Memória da telenovela brasileira, de Ismael Fernandes
Vinicius, que legal você ter atendido meu pedido e pesquisado tanto para falar dos Ossos do Barão. Lembro vagamente dessa novela, mas é uma boa lembrança. Tenho bem poucas boas lembranças de novelas, e quase todas dessa época, quando, ainda garota, tinha mais paciência para a TV.
Não sei se é saudosismo meu, mas acho que a tv era bem melhor. Até os seriados enlatados eram melhores: túnel do tempo, terra de gigantes, Jeanne é um gênio e aquele maravilhoso e hilário Batman da tv sabiam mexer com a imaginação da gente.
Ossos do barão talvez tenha sido a primeira novela que vi inteira, como uma obra, mesmo. A segunda foi Saramandaia, que deveria ser relançada em DVD.
Bacana esse seu resgate da história da TV.
Um abraço!
oi Ilhandarilha: sou suspeito para falar sobre TV, pois também trabalho com ela... Mas você não acha que a garotada de hoje vai se lembrar de Pokemon etc. com o mesmo carinho que você devota pela Jeanne?
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 7/7/2007 23:11
Acho que vc tem razão, Hermano. Além do mais, hoje não tem só pokemon na tv, né? Eu adoro o Bob Esponja, por exemplo (rsrsr). E é claro que quem muda não é a tv, mas a gente.
A tv, passam os anos, parece que continua com a mesma fórmula, com rarÃssimas exceções. Como só tenho tv aberta, faz tempo que não consigo ver nem jornal na telinha. O que é uma pena, pq sinto, à s vezes, que não estou acompanhando a linha de raciocÃnio de quem vê tv todos os dias.
E por falar no seu trabalho na tv, central da periferia não vai mais continuar?
Um abraço!
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