E agora, Mr. Jobs?

Apple
E agora, Mr. Jobs?
1
Ju Polimeno · São Paulo, SP
24/2/2007 · 151 · 8
 

Como uma fagulha esperta despejada sobre a palha digital, a carta de Steve Jobs, presidente-executivo da Apple, sobre a possível extinção do DRM (Digital Rights Management) ampliou o debate sobre o assunto e parece ter pousado sobre as mesas das gravadores e outros provedores de música online legalizada. É bom deixar claro que este debate não é novo, consumidores de música (honestos ou não) já sabem - ou presentem - há alguns anos que o DRM navega na corrente contrária à demanda e expectativa de um mercado na qual reina a dúvida sobre o futuro dos negócios e a preservação de um “extrativismo rústico” .

Digital Rights Management

O clássico sistema de DRM é aquele na qual o usuário obtém conteúdo em formato protegido (tipicamente encriptado) com uma licença que especifica os usos permitidos para este conteúdo. Pode-se, por exemplo, permitir que o conteúdo seja executado em apenas 2 ou 3 computadores, utilizado por períodos determinados de tempo, impedir a execução em alguns aparelhos ou softwares, etc. Basicamente, a responsabilidade do DRM é fazer com que:
a. O usuário não possa remover a encriptação do arquivo e enviá-lo para um servidor P2P;
b. O usuário não possa “clonar” o sistema de DRM para fazê-lo ser executado em outro servidor;
c. O usuário obedeça as regras estipuladas pela licença e;
d. O usuário não possa separar as regras do conteúdo protegido.

De acordo com o próprio Steve Jobs, não há outra teoria para proteger conteúdos que não a “manutenção do segredo”. Mesmo com a utilização da mais sofisticada trava criptográfica para proteger a música, a chave que destrava o arquivo deve sempre manter-se em segredo. “Ninguém ainda implementou um sistema DRM que não dependa de segredos para sua operação”, explica Jobs.
A questão é que existem diferentes e incompatíveis sistemas de DRM em operação. A Apple desenvolveu o FairPlay DRM e a Microsoft criou o WMA DRM. Isso só para citar os dois principais concorrentes no mercado de música digital. O problema? A incompatibilidade dos sistemas DRM, aquilo que a indústria passou a chamar de ausência de interoperabilidade entre sistemas de DRM e devices/players.

A carta aberta de Mr. Jobs

Publicada no site da Apple no dia 6 de Fevereiro de 2007, a carta apresenta três possíveis saídas para a questão do FairPlay DRM, a trava criada pela empresa a pedido das “big four” (Universal, Sony BMG, Warner e EMI) que, além das restrições básicas citadas acima, impede a execução de músicas vendidas pelo iTunes em equipamentos que não utilizem o mesmo sistema do iPod e permite a reprodução em apenas 5 computadores diferentes. Em resumo, as saídas apresentadas por Jobs em sua carta são:

• A manutenção do sistema atual, ou seja, manter o DRM da forma como hoje é utilizado, o que implicaria na multiplicação de diferentes sistemas de DRM e na consequente manutenção da incompatibilidade entre arquivos e players;
• O licenciamento da tecnologia FairPlay DRM para outras companhias afim de torná-lo uma “trava universal” o que, segundo o próprio Jobs afirma, seria um ótimo negócio para sua companhia, mas a “abertura” - e o vazamento - da tecnologia possibilitaria o surgimento de ferramentas capazes de quebrar o sistema;
• Enfim, Jobs propõe a abolição do DRM.

Steve Jobs deixa claro que a Apple estaria disposta a acatar a última alternativa, ou seja, a extinção do sistema DRM. Segundo suas próprias palavras: “Apple will embrace this wholeheartedly”. Esta alternativa para a venda legal de músicas possibilitaria que qualquer equipamento fosse capaz de tocar os arquivos adquiridos em qualquer loja online, encerrando o problema da “incompatibilidade de gênios”.

As possíveis razões de Mr. Jobs

A possibilidade mais ingênua para justificar a iniciativa de Steve Jobs pode ser a de que ele finalmente reconheceu que o usuário/consumidor detesta o DRM e as restrições impostas pelo sistema, ou seja, Mr. Jobs não avaliou as consequências positivas ou negativas da abolição do DRM para seu próprio negócio e simplesmente se colocou no lugar do usuário honesto. Comparativamente, as travas nos arquivos digitais o tornam um produto supostamente menos atraente do que o CD que pode ser extraído para diferentes hardwares, em diferentes formatos e copiado inifinitas vezes. O próprio Jobs deixa claro em sua carta que a solicitação das “big four” para que toda música vendida online fosse protegida com DRMs guarda em si uma contradição, pois “essas mesmas companhias continuam a vender bilhões de CDs por ano que contém músicas desprotegidas”. Nenhum sistema realmente eficaz de proteção de CDs foi criado até agora.

Outra possível razão já abordada em artigos que trataram do assunto é a de que a Apple estaria prestes a perder milhares de potenciais consumidores na Europa. A hipótese é a de que alguns paises europeus estariam alinhando forças para acabar com o DRM, reinvindicando que tais práticas são proprietárias e eliminam a competição. O argumento utilizado seria o de que se o iPod possui 85% do mercado e você deve necessariamente utilizar o iTunes para adquirir músicas online significa que o uso do iPod reitera a prática proprietária quer você se dê conta ou não. Acatando este ponto de vista, a carta de Mr. Jobs configura-se como uma ação estrategicamente calculada para prevenir o desgaste da Apple no mercado Europeu, afinal, a carta transmite a responsabilidade da preservação do DRM para as “big four” que dominam o mercado mundial da música e cuja maior parte do capital é europeu.

Terceira alternativa: a abolição do DRM faria com que o iTunes ampliasse sua base de vendas, hoje focada nos donos de iPod. A esta possibilidade devemos agregar um fato importante e síncrono: a Apple Inc. de Mr. Jobs resolveu uma antiga pendência com a Apple Corps Ltd. dos Beatles sobre o uso da marca. A Apple Inc deterá agora todas as marcas registradas relacionadas a "Apple" e irá autorizar o uso de algumas dessas marcas à Apple Corps. A grande virada? Agora Mr. Jobs poderá vender e até produzir música. Até então, o iTunes configurava-se como uma empresa de “transmissão de dados”. Como indagou Pena Schmidt na entrevista concedida para este artigo: “Um iPod que vem com músicas dos Beatles. Um Ipod com a obra completa dos Beatles, irresistivel.... por apenas quanto? Com DRM ou sem DRM?”. Não só um iPod, mas agora também um iPhone e mais quantos “i’s” Mr. Jobs for capaz de criar.

Para finalizar as possibilidades que justificariam a carta, temos a hipótese da ampliação nas vendas de iPod’s, iPhone’s e os futuros etceteras da Apple. O aceite da abolição do DRM por toda e qualquer companhia de produção e/ou distribuição de música cria um ambiente amplo para a Apple incrementar ainda mais as vantagens de seu player. Algo como “seu iPod agora realmente pode tocar qualquer coisa em qualquer lugar”. Um fato parece importante para desenvolver o trabalho com esta hipótese: a multiplicação dos players disponíveis atualmente no mercado que abrange desde o Zune da arqui-rival Microsoft até os aparelhos produzidos pelos asiáticos disponíveis a um custo bem menor. Copio e colo o comentário de Pena Schmidt que despeja luz sobre esta questão:

“Enquanto isso, na rua, o custo de memória RAM cai sem parar e o iPod se transforma num “EuPosso” de 1 Gb que custa 100 reais (fevereiro de 2007) e carrega 15 CDs, toca rádio, grava aulas e serve de transporte USB de programas e fotos, do tamanho de um isqueiro Bic, tão revolucionário e popular quanto. Diz a Apple que cada iPod vendeu 22 músicas, porem está cheio de músicas que foram tiradas dos CDs, sem DRM. Estas são as músicas que encherão os bilhões de EuPosso que saem aos borbotões das fábricas asiáticas. Este mercado de rua vai definir - mais do que o charme e acabamento dos iPods - o que, de verdade, vai acontecer no futuro do licenciamento de arquivos digitais de música. Há uma barreira transposta dos “100 dólares” que traz para o consumo as classes B, C e D. Isto já aconteceu com o celular, com o VHS, com o DVD, com o walkman, com o microondas, com os perfumes, os tênis e os óculos escuros. A música digital passa a ser fenômeno de massa, várias vezes maior que a penetração da internet, bem mais rapidamente. Sem DRM, sem loja, logo mais dentro do celular, o PC vira posto de gasolina.”

Estaria Mr. Jobs preocupado com a concorrência? Nos primeiros nove meses de 2006, a Apple contabilizou um aumento de 91% nas vendas unitárias do iPod, passando de 16 milhões de unidades no mesmo período de 2005 para 30,7 milhões em 2006. Parece incrível, não? Mas qual o potencial do mercado de players portáteis? A irritação da Europa com o DRM não poderia conduzir o usuário a optar por outro dispositivo? E se isso se estender para o resto da maça?
Enquanto o iTunes vende músicas com DRM que só tocam nos iPods, outros players já aboliram o DRM antes mesmo de criá-lo. Mas uma coisa é certa: Mr. Jobs já tornou o processo de venda de seu produto supérfluo. Criou o desejo de aquisição com maestria. Palmas para a equipe de marketing da Apple.

Repercussão

Logo após a publicação da carta, multiplicaram-se os comentários na rede sobre o tema e a proposta de abolição do sistema DRM. Para começar, o diretor-executivo da Warner Music, Edgar Bronfman, afirmou que o argumento de Jobs não tem “nenhuma lógica” e que sua companhia acredita na contínua proteção da propriedade intelectual de nossos artistas. "Acreditamos na interoperabilidade", disse ele.
A Recording Industry Association of America (RIAA) também afirmou que a resposta ao problema está no licenciamento pela Apple do sistema FairPlay DRM para outras empresas, acatando a segunda saída proposta por Jobs. O mesmo argumento aparece no recém divulgado relatório da IFPI sobre música digital. Está lá em um tópico específico denominado “DRM promotes consumer flexibility and protects content” (DRM promove flexibilidade para o consumidor e protege o conteúdo) que fecha o relatório: “Um aspecto chave é a limitação da oportunidade para que os consumidores transfiram a música adquirida legalmente entre serviços e dispositivos. Entretanto, este não é um problema causado pelo próprio DRM, mas pela distribuição feita por algumas companhias de tecnologia de sistemas DRM sem interoperabilidade.”

Rumores no mercado dizem que a gravadora EMI estaria negociando o lançamento de grande parte de seu catálogo de músicas para venda na web sem DRM. Uma porta-voz da EMI informou que a empresa não comenta rumores. Entretanto, disse que a gravadora já experimentou o lançamento de músicas em MP3 e tem lançado singles de artistas populares como Norah Jones e Lily Allen nesse formato. "Os resultados foram positivos", afirmou a porta-voz da EMI, acrescentando que "a falta de interoperabilidade entre uma crescente variedade de hardware e plataformas digitais de entrega de música está se tornando um problema cada vez mais importante para os consumidores e a EMI tem trabalhado com vários parceiros para encontrar uma solução".

Indagado pelo editor da revista Playlist sobre o assunto, o vice-presidente sênior de música da RealNetwork (mantenedora do Rhapsody) e um dos principais concorrentes do iTunes, Dan Sheeran, disse acreditar que a abolição do DRM “é apenas uma questão de tempo”.

Um estudo da consultoria Jupiter Research feito na Europa com representantes de pequenas e médias gravadoras, serviços de venda de música e organizações de direitos digitais antes da publicação da carta de Mr. Jobs (durante os meses de dezembro e janeiro) mostra que quase dois terços dos executivos do setor acham que a remoção do DRM aumentaria a venda digital de música. Lê-se no site da BBC News: "O estudo revelou que cerca de 54% desses executivos acham que os atuais sistemas DRM são restritivos demais. Também, 62% deles crêem que eliminar o DRM e lançar faixas que podem ser tocadas em qualquer tocador MP3 daria impulso à decolagem da música digital no geral". Os resultados da pesquisa revelam também que, fora das gravadoras, 73% dos pesquisados concordam que a eliminação do DRM aumentaria as vendas de músicas em serviços online em todo o mercado. 70% deles acham que o futuro da música online depende de tornar as faixas compatíveis com qualquer tocador, mas 40% acham que governos ou órgãos de defesa do consumidor deverão intervir para que isso aconteça.

No Brasil

Felippe Llerena do site iMusica, pioneiro na venda legalizada de música digital no Brasil, acredita que “a interoperabilidade é fundamental para o crescimento da indústria da música digital. Se isto significa abolir o uso do DRM que seja, portanto, apreciada esta possibilidade pelas majors. Como exemplo, temos o site da eMusic (USA) que hoje vende em MP3 aberto, somente com conteúdo independente, sem nenhuma restrição, pois o usuário tem a possibilidade de ouvir a musica em qualquer device”.

Maurício Bussab, da distribuidora Tratore, diz achar espetacular a abolição do DRM. “Na ausência de um DRM único, de aceitação universal e fácil uso, acho que o modelo de distribuição digital vai funcionar, sem DRM. Parafraseando o dito popular: "quem tem dois padrões não tem nenhum". Eu sou assinante do eMusic e apóio a venda de MP3 como uma das possíveis saídas para a distribuição digital. A Tratore já tem boa parte de seu catálogo como MP3 destravado à venda no eMusic. E existem boatos que no Brasil uma empresa vai começar a oferecer isso também".

Para a Gerência de Informações Estratégicas do Ministério da Cultura, o tema específico da utilização do DRM pelas gravadoras é da esfera privada e não cabe ao MinC interferir diretamente. Para o Ministério, a promoção de um evento como a Feira Música Brasil, realizada em Recife de 7 a 11 de fevereiro de 2007, é a resposta que adequada ao impasse causado pelo paradigma digital na indústria da música. De acordo com José Murilo Junior, editor da seção Cultura Digital no site do MinC, está claro para (quase) todos que DRM não é o caminho, e que o fenômeno da 'cauda longa' combinado com a maior disponibilidade dos meios de produção digital cria um cenário completamente novo para os músicos. “O Ministro Gil acredita que o novo contexto deve ser amplamente debatido e explorado (objetivo da FMB), entendendo que as novidades são favoráveis aos agentes criadores do segmento, e em última instância também para a indústria. Fato é que neste novo contexto os músicos aumentam a possibilidade de participação direta no negócio, enquanto à indústria da música cabe perceber que o jogo mudou e que suas inclinações não mais definem o mercado. Prova disso (além da manifestação do Steve Jobs) é a realização de uma feira de negócios do setor musical no Brasil sem a participação das grandes gravadoras, o que certamente seria impensável há alguns anos atrás”.

Após uma série de tentativas, a ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Discos) não se pronunciou sobre o assunto. Também não foi possível entrar em contato com a UOL Megastore e com representantes do serviço Sonora do portal Terra.


Agradeço o auxílio imprescindível de Pena Schmidt e José Murilo Junior durante a pesquisa e redação deste artigo.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Egeu Laus
 

Ju,
Acompanho com interesse o assunto.
Valiosa e imprescindível a sua matéria neste momento.
Um abraço!
Mande um abraço também para o Pena.

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 22/2/2007 11:50
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
penas
 

Ju
Obrigado por disparar a discussào. O assunto ferve em todos os blogs e graças a materias como esta sua, DRM pode deixar de ser um assunto nerd e vira pauta. Vejo a manchete: DRM Já Era!
Se alguem for perguntar para o consumidor o que ele quer - acho que o Jobs é bom nisso - não há duvida sobre a resposta. Tanto é que hoje é noticia que o site local de venda de música no Canadá aderiu ao mp3 sem DRM e que a EMI, prestes a ser comprada, tambem prenuncia aderir ao movimento. Como faz para nossos consumidores se manifestarem?
Egeu, abraços e sentimos sua falta em Recife no Porto Musical/FMB.

penas · São Paulo, SP 23/2/2007 09:30
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Ju Polimeno
 

Obrigado Egeu e Pena pelos comentários. Um adendo ao adendo do Pena: o serviço canadense citado é o Puretracks e notícia sobre a abolição do uso de DRM pode ser lida AQUI. Abraços a todos.

Ju Polimeno · São Paulo, SP 23/2/2007 14:33
sua opinião: subir
Delfin
 

Excelente explanação.
Mas é bom ver RIAA e companhia perdendo mais essa.
Quem sabe, no futuro, isso vá tão longe que a RIAA perca seu senso de existência?
Ganharam (d)o Napster. O que eles conquistaram foi, a seguir, apenas paulada na cabeça.
Que venga la libertad (em formato mp3 ou ogg, que seja)!

Delfin · São Paulo, SP 24/2/2007 21:41
sua opinião: subir
Egeu Laus
 

Pena,
O velho problema ($) não me permitiu ir a Recife. Você conheceu o Gerald Seligman?
Abraços.

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 24/2/2007 23:25
sua opinião: subir
Ju Polimeno
 

Mais um capitulo da saga: EMI x DRM.

Ju Polimeno · São Paulo, SP 27/2/2007 12:22
sua opinião: subir
penas
 

Oi Egeu, vi o Seligman por lá.
Enquanto isso, depois destas provocações, abri o meu blog de novo, fazia um certo tempo, o penultimo post dizia; "foi oficialmente fundada a abmi"... mas enfim. Vou tentar manter esta critica de costumes tecnologicos. Apareçam.
baccios

penas · São Paulo, SP 28/2/2007 10:58
sua opinião: subir
Ju Polimeno
 

E a EUROPA começa seu ataque...

Ju Polimeno · São Paulo, SP 12/3/2007 17:30
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados