E aí caboclo, vai pra praia?

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Michelle Portela · Manaus, AM
3/11/2006 · 97 · 4
 

O sol intenso durante os dias, o céu estrelado e o luar nas noites formavam o cenário ideal para o Festival de Verão de Maués, cidade a 260 quilômetros de Manaus, capital do Amazonas. O festival marca a abertura oficial da estação que produz opostos às imagens amazônicas que circulam o país e o mundo. Começou a época das praias de rio, do esporte praticado na areia e dos reis da praia, tudo adequados ao modo de vida da região. Se por aí o que rola é pegar a estrada para encontrar as melhores praias, aqui o lance é ligar o motor de popa e subir o rio Maués Açú.

A vida em Maués não é nada monótona. A cidade vive sobre intensa agitação causada pelas constantes festas realizadas no município, via de regra parcerias entre a prefeitura e a Ambev, empresa que explora o guaraná a 40 anos, e que há cinco aceitou abrir mão de R$10 milhões em incentivos fiscais.

O acordo mudou o planejamento da cidade. O dinheiro foi distribuído para os setores de Turismo e Cultura, proporcionando a criação e incentivo às festas populares. Foram ampliadas as manifestações religiosas, como o Festival da Vera Cruz, comunidade católica localizada à outra margem do rio, e "pagãs", Festa do Guaraná e Festival de Verão.

Estas duas últimas festas são os grandes eventos do município e recebem os maiores recursos – que cobrem a vinda de atrações nacionais como Jota Quest, Araketu e Ivete Sangalo-, divulgação e que, por isso mesmo, atraem maior público. São milhares de visitantes vindos de cidades vizinhas, de Manaus e de outros estados, especialmente do Pará – de acordo com a Secretária de turismo.

O Festival de Verão de Maués, realizado nos últimos quatro anos durante o feriado da “Semana da Pátria”, marca oficialmente o início da estação na cidade. Nessa época, a rápida vazante dos rios e a escassez de chuvas aceleram o aparecimento dos bancos de areia, as praias de rio.

No mesmo compasso vem a cultura de praia e todas as suas relações simbólicas. Aqui está aliado o universalismo alcançado pelo biquíni ao localismo da ornamentação do mesmo biquíni com artesanato de origem Sateré-Mawé, grupo indígena dominante no município.

A Garota Verão do Festival de Maués, Josely Medeiros, 17 anos, desfilou com um biquíni de cor laranjada, que contrastava com a pele morena e os cabelos negros e lisos, tão típica quanto exótica. “Represento bem a região, considerando os aspectos do meu tipo de beleza. Não tenho descendência indígena, mas de ribeirinhos sim, com certeza”, disse.

Josely foi declarada vencedora a partir dos critérios de desfile, beleza, simpatia e bronzeado – este, confesso, me surpreendeu, mas é perfeitamente compreensível. “Esse era meu sonho desde criança, porque pretendo seguir carreira de modelo. Também quero continuar estudando e, nesse ano, vou fazer vestibular para Direito”, disse a nova musa da cidade.

A morenice de Josely é exatamente o oposto da vencedora do ano passado, Denise dos Santos Lopes, 18, branca e loira, que disse ter aproveitado a temporada de musa. “As pessoas da cidade passam a tratar você de um modo diferente, mais especial. Aproveitei para conhecer mais pessoas e estreitar minha relação com outros”.

As duas musas de diferentes verões, uma loira e outra morena, caracterizam bem a formação social da cidade. Entre a população, há predomínio de caboclos, com seus olhos puxados e pele morena; mas também há brancos de sardas, atraídos há tempos pela movimentação do capital em torno do guaraná.

Aos poucos, a festa de verão, toma ares de cultural e familiar. A empresária Fátima Sherer levou os filhos para o Festival nas quatro noites de festa.

“Assim, a gente pode aproveitar para pegar uma praia também. A gente aqui na cidade gosta muito essa época, porque tem chance de aproveitar esse visual lindo que são as formações de praias de rio. O pessoal também ganha dinheiro, tem gente que vai lá para a Vera Cruz (praia da comunidade na outra margem do rio) para vender churrasquinho, cerveja”, diz.

Turista de primeira viagem na região, o visualizador gráfico Raphael Maia elogiou a localidade. “Fiquei muito impressionado com esse visual da cidade, que incorporou essa vida de praieiro. Toda a infra-estrutura que eles tem é voltada para praia”, disse, referindo-se aos hotéis, restaurantes, etc..

Durante os dias do festival, essa cultura de praia se torna um superespetáculo, com um grande palco instalado na praia para a apresentação das bandas – interrompida a cada chuva de verão (afinal, é praia).

Nesse ano, foram mais de 60 horas de música ao vivo na praia Ponta da Maresia, com a participação do cantor e compositor baiano Ricardo Chaves, como atração nacional – outro da turma dos surpreendidos. “Me chamou a atenção o visual da cidade e da praia. Para mim, que venho de uma região litorânea, é maravilhoso poder conhecer as praias de rio. A praia, o rio, a lua compõem um visual muito bacana”, afirmou.

A multidão que lotou a praia da Ponta da Maresia foi contagiada pelo axé. Enquanto muitos pulavam na areia, boa parte do público preferiu ancorar seus barcos e lanchas em frente à praia, de onde assistiram ao show.

Em tempo, o Festival de Verão de Maués teve investimento de R$400 mil, recursos da Prefeitura e da Ambev, mas precisa ter o formato rediscutido, principalmente, quanto ao retorno que traz ao município.

O evento - por ser grande, atrair turistas e atrações nacionais – aumenta a auto-estima da população, mas apenas superficialmente. Efetivamente, fica muito pouco e não existem políticas públicas eficazes sobre o uso comum da localidade. Não há salva-vidas ou atendimento de saúde, nem conscientização ambiental, por exemplo.

Após a pirotecnia, a praia está suja, a orla contaminada. Os prejuízos em longo prazo serão tão notados quanto os benefícios, porém mais desastrosos.




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Georgia Cynara
 

O turismo é algo que só é construtivo quando há retorno para a cidade. Turistas vêm e vão, mas os recursos precisam circular dentro das cidades.
Isso só é possível se se investe em políticas públicas locais!
Parabéns pelo texto!

Georgia Cynara · Goiânia, GO 1/11/2006 13:21
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daniel valentim
 

oi michelle,

só uma dica: coloque mais tags no texto, pra ficar mais fácil do pessoal encontrar a matéria em buscas específicas (mais tarde), como por exemplo maués, festival de maués, praia de rio, sateré-mawé, garota verão, e por aí vai

beijos e seja bem-vinda

daniel valentim · Juiz de Fora, MG 1/11/2006 17:54
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Juliana Pádua
 

Parabéns, gostei muito.

Juliana Pádua · Iturama, MG 2/11/2006 17:06
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Yusseff Abrahim
 

Bem vinda, Michelle!!!!!!!!!!
Para variar, ótimas informações com uma visão crítica sobre o Amazonas que não encontra eco na imprensa local.
Muito bom ter vc reverberando essa visão aqui no Over.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 3/11/2006 17:44
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