"A obra de arte como espaço de reflexão e não como retrato
de um gueto, isolado, à parte do contexto geral da sociedade."
Com a citação dessa frase de Jessé Oliveira, Fabio Gomes iniciou matéria de cobertura do 2º Encontro de Arte de Matriz Africana, realizado de 12 a 16 de dezembro de 2007 no Teatro de Arena em Porto Alegre.
Bem baixinho, só aqui pra nós do Overmundo, a cobertura é um espetáculo a mais, embora não fizesse parte da programação. Um estouro, como diz vovó Marinalva.
Fabio (ele não acentua o nome e que eu vou fazer com a proparoxítona relativa, a quebra de ditongo, o escambáu), pois o homem diz que Jessé Oliveira escreveu a frase “a propósito de justificar a escolha do texto Transegun, de Cuti, como primeira peça montada pelo grupo CaixaPreta, criado em 2002 a partir da reunião de artistas negros atuantes em Porto Alegre.
Aí eu me derreti toda, por que tenho paixnão pelo Cuti desde que sentei no colo dele. Calma pessoal, calminha aí. Eu tinha dois aninhos de idade, quando ele participou em um encontro em Porto, na Câmara de Vereadores, e Papá estava lá comigo e eu só queria saber do colo do moço lindão, conforme a resenha da época. Não vamos desviar do assunto que quer tratar é da presença nossa, humana, nos palcos da vida.
É disso mesmo, de diálogo e reflexão que se falou um tantão da abertura ao encerramento do encontro. Fabio diz que foi assim no monólogo Madrugada, me Proteja, também de Cuti, interpretado no sábado, 15, pelo ator Sílvio Ramão; na única atração musical do Encontro, o show Epahei!, da cantora e compositora Karine Cunha, na quinta, 13, de quem nem vou falar muito porque vira prosa de fã e não tô aqui pra torrar vocês com meu gostinho particular e sim pra reportar as coisas como foram vistas pelo Fabio, né?
Diz ele:
Em Madrugada..., Sílvio vive um negro de alta classe média que, julgando-se inalcançável pela insegurança que (infelizmente) tem sido a marca das noites nas grandes cidades, é humilhado durante um assalto. Já o show de Karine se apoiou nas canções em homenagem a diversos orixás que estruturam seu segundo CD, Epahei!, lançado em agosto. (Palhinha dela no linque, di grátis)
O Fabio contou que um destaque do Encontro foi a apresentação na sexta, 14, da peça Taba-Taba, texto do francês Bernard Koltès, que marca a estréia da atriz Renata de Lélis na direção.
Teve também Sortilégio Negro, de Abdias do Nascimento, fundador do Teatro Experimental do Negro (TEN), referência histórica assumida pelo CaixaPreta já na época do lançamento de Transegun. E recital de poemas de Oliveira Silveira que já nos foi muito bem apresentado aqui nas nossas overmundanas paragens pelo meu poeta querido dos mais mais.
Aquela história da presença nossa nos palcos, nós na cena, nós brilhando, nós dirigindo, nós na fita foi assunto a partir da trajetória de Abdias e do TEN, temas abordados na única palestra do Encontro, feita pela atriz Vera Lopes.
Uma das fundadoras do CaixaPreta, Vera falou, segundo Fabio, que não consegue entender porque alguns consideram a arte européia como superior, dando como exemplo que o teatro grego surgiu a partir de ritos - em que animais sacrificados eram oferecidos Dionísio - muito semelhantes às oferendas dos cultos afro-brasileiros para os orixás.
Vera Lopes deixou o povo presente acabrunhado quando protestou firme porque não consta imagem alguma do teatro africano num dos raros livros brasileiros que falam do assunto - História do Teatro (1978), de Nélson Araújo.
Eu, meio miolo mole até nem sei porque um estudo sério, em profundidade sobre a questão esqueceu esse detalhezinho. Vai ver que... Ah! Não pode ser por...
Será?
Deixemos esse outro assunto sério para lá, amizades.
O final do 2º Encontro de Arte de Matriz Africana teve a apresentação de Hamlet Sincrético. Golaço da produção, conforme Fábio Gomes.
Para ele a peça dirigida por Jessé Oliveira é "primorosa; a montagem relê o clássico a partir de uma estética negra, com elementos da cultura afro-brasileira ajudando a contar a história imortalizada por William Shakespeare. É notável o equilíbrio que Jessé conseguiu ao mesclar todos estes elementos".
E segue:
- Cada personagem encarna um tipo ou um mito da cultura negra, em especial das religiões afro-brasileiras: Hamlet é Xangô; o rei Cláudio, Zé Pelintra; e Polônio, um ex-babalorixá que se tornou pastor evangélico. A música ao vivo (o próprio elenco manda ver em cânticos de umbanda, sambas, hip-hop, ladainhas de capoeira e até cantos evangélicos), além de ajudar a contar a história, torna o nível de comunicação do espetáculo com a platéia algo digno de nota.
Fiquei sabendo, também pela matéria do Fabio, de duas boas notícias.
A primeira: o CaixaPreta estréia em maio de 2008 sua terceira montagem, Antígona.Br.
A segunda: o 2º Encontro de Arte de Matriz Africana continua. Até o final de fevereiro a exposição Artistas Negros de Porto Alegre, do fotógrafo Bruno Gomes, ficou na administração do Teatro de Arena. Visitação nas tardes dos famigerados dias úteis da semana (menos segundas-feiras).
Diony Maria tem uma excelente entrevista com Jessé Oliveira, mais de 30 espetáculos em 17 anos de teatro e 37 anos de idade. Neto e filho de militares. Filho de mãe cantora premiada como melhor intérprete em vários festivais de música. Nascido em uma família pobre, em Porto Alegre, no bairro Partenon, morador do bairro Restinga, dos 12 aos 20 anos. Estudante interno do Colégio Militar, da quinta-série do fundamental ao segundo ano do ensino médio. (Dos 11 aos 17, ele só voltava para casa nos finais de semana.) Ariano com ascendente em aquário, torcedor do Sport Club Internacional. Solteiro, pai-presente de Guilherme Gravina Oliveira, três anos.
E por aí vai e é cumprida feita a esperança nossa que somos pobres, que não quer dizer que não seja tão boa como nós somos. Eu gostei. Tão convidados, apresentados.
Bom proveito!
FICHA TÉCNICA
Hamlet Sincrético (indicado na categoria de melhor espetáculo)
• Texto: Criação coletiva
• Direção e roteiro: Jessé Oliveira (indicado na categoria de melhor diretor)
• Elenco: Vera Lopes, Marcelo de Paula, Sílvio Ramão (indicado na categoria de melhor ator coadjuvante), Juliano Barros, Adriana Rodrigues, Leandro Daitx, Kdoo Guerreiro, Eder Santos, Glau Barros (indicada na categoria de melhor atriz coadjuvante), Vagner Santos, Rodrigo Oná Abadiaxé, Flávio Oyá Tundê
• Direção musical: Luiz André (indicado na categoria de melhor trilha sonora original)
• Figurinos: Adriana Rodrigues e Gil Collares (indicados na categoria de melhor figurino)
• Execução de Axós: Clecí Oxalá Temi Layó, Rosângela Ogun Pelê, Adriana Rodrigues
• Ambientação cenográfica: Jessé Oliveira
• Iluminação: Miguel Tamarajó
• Coreografias: Adriana Rodrigues
• Fotografia e Criação Gráfica: Irene Santos
• Produção Geral: Jessé Oliveira.
Menina, quematéria!
Emocionante de tão rica.
Obrigada.
beijos, feliz ano novo
Saramar, querida, agradecida.
Belo trabalho menina. Fico feliz por ti.
Tenha boas entradas de ano e felicidades mais que queiras.
beijo, guriazinha.
Essa Juli ainda vai dar o que falar!
A gente começa a ler a matéria e nem precisa ver quem escreveu!
Estilo, personalidade, humor!
Parabéns Juli!
Juli,
Entrastes bem demais o ano 10.
Só pra assinalar, o Cuti é um monstro sgrado para mim. Foi o primeiro poeta maior da negritude brasileira, que eu conheci, depois do Solano Trindade. tantos há poucos como eles. Mestres da cor e da dor.
Spirito, querido grande amigo dos bão e do bem, saravá pelo ano 10!
Espero que seja pra ti e pras demais pessoas do bem 10+tri.
O Cuti, sem tirar nem pôr, como diz vovó Marinalva, é homem inteiro. Eu ouço falar dele desde neném, que ele teve aqui num encontro do 20 de Novembro numa Roda de Poesia promovida pelo nosso querido Oliveira Silveira.
E é sério que eu, com dois aninhos só, não queria sair do colo dele, numa das rodas em que Papá Bauer participou, que ele era ainda vereador e ajudou a promover aquela programação lá com uns trocos da mesa da Câmara que ele integrava e tinha verba para apoio ao Dia da Consciência Negra na casa.
Depois é que ele fez a lei que obriga o Executivo a destinar recurso, pela Cultura, Assistência Social e Educação para a programação de uma Semana do 20, anualmente, que tem de ser feita com a população interessada.
Um golaço que dá repeteco até hoje, desde 1989.
Acho que o Cuti, pelo prestígio que já tinha na época, meio que ajudou, como o Oliveira Silveira e o Dionísio, do Produto Nacional, uma banda de regae legal daqui, a dar uns empurrões nas bancadas para aprovar a lei.
Essa história eu já ouvi umas cem vezes o Bauer contar.
Gostamos muito aqui em casa do Solano Trindade, também, como do Cruz e Souza, do Ronald Augusto e, nem cai de costas, também de ti ô rapá!
beijin, de olho numa vaga em Pequim.
Cris,
Eu tô dizendo lá em edição que já dei, mas não leva a sério que eu não sou de me gambá muito.
Fico toda prosinha-poética com teu elogio.
Já corei..
Agradecida.
Beijin.
Show, Juli!
linda a citação no início do texto.
beijos pra você, poeta.
Frann
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