Faz umas duas semanas, publiquei aqui um artigo mostrando a quem quisesse ler das virtudes de Santa Catarina, mais precisamente do Vale do Itajaí, em relação às Casas de Cultura, a eventos artístico-culturais e a promoções culturais de caráter educativo. Vejo que o texto coube bem para o momento. Afinal, Santa Catarina não é apenas o estado que separa o Paraná do Rio Grande do Sul, como muitos pensam, nem é o estado que somente abriga Florianópolis como capital. E muitas pessoas precisavam sabê-lo. Não é de hoje, como diz o texto, que municípios como Itajaí e Blumenau investem em ações artístico-culturais, da mesma forma como há algum tempo, mesmo com dificuldade, municípios menores tentam burlar a estagnação de suas populações para promover eventos interessantes (veja-se o exemplo de Brusque e suas esculturas, ou as estações culturais de Rio do Sul). Mas é necessário que se diga que nem tudo são flores. Infelizmente. E acho necessário mostrar o outro lado da moeda.
Blumenau tem um museu de arte, o MAB. Contando com um acervo de artistas basicamente locais, o MAB ocupa dois terços de uma ala da Fundação Cultural de Blumenau. Espaço, este, insuficiente para fazer a exposição completa do acervo, que tem de ser exposto aos poucos, em sessões de dois, três artistas. Sem falar do horário de funcionamento (lembrando que o que discutimos aqui são as ações culturais e a forma de acessar essas ações) que é o próprio reflexo do servidorismo público: segunda à sexta das 8h às 12h e das 13h30min às 17h; sábado, domingo e feriados das 10h às 16h. Pelo menos trabalham durante a semana, não?! Mas quem, em comum estado de empregabilidade, está livre às 16h de segunda-feira, por exemplo, para visitar o museu e parte de seu acervo exposto?
Brusque, no médio-vale, sedia há seis anos o Simpósio Internacional de Escultura. Iniciativa do então prefeito (hoje, reeleito) Ciro Roza (PFL). Para abrigar as obras, foi criado o Museu Internacional de Escultura a Céu Aberto (Parque das Esculturas). Mas não faltam denúncias, o que é uma pena, do abandono que sofrem as obras expostas; depredação, vandalismo e desrespeito mesmo, da parte pública, em não conseguir sustentar a exposição das obras — ou mesmo sustentar as obras, que inclinam, caem, racham e têm ser restauradas (?) para voltarem aos seus respectivos lugares. Como não poderia deixar de ser, pois falamos do poder público, há erros e omissões que não podem ser relevados. E como não poderia deixar de ser, também, o pouco que se faz na área artístico-cultural é passivo de defeitos de planejamento e execução pública.
Uma pena que seja necessário ter "dinheiro sobrando" para conseguir fazer arte, expor arte, promover a cultura. É o que acontece em todos os municípios do Brasil. Quase todos? Não conheço a realidade de muitos, mas conheço a realidade daqui. Lê-se nas entrelinhas dos jornais e nas pausas da televisão que as prefeituras têm cada vez menos dinheiro para investir em irrelevâncias (dentro das quais podemos encontrar as secretarias de cultura, as fundações culturais, os projetos de incentivo etc.) e que é necessário investir no mais importante: asfalto, calçadas, reurbanizações... quase sempre gastos com a estética arquitetônica das cidades. Por aqui, pelo menos, em que se tenta compor um ambiente turístico à força.
Pergunto aos amigos leitores como ocorrem esses processos em suas cidades, com as suas prefeituras e seus dirigentes públicos. Se de fato existe o incentivo à cultura ou se somente fala-se a respeito. Se há vícios de servidorismo, como por aqui. Pergunto para saber se essas falhas não são endêmicas daqui e para que saibamos todos o que acontece nos municípios vários que possuem colaboradores aqui no overmundo.
Talvez seja uma forma de reverificar caminhos, mudar de opções e fundamentar críticas. Nem pensar em falar de desistir. Se há tão pouco sendo feito e esse pouco é tão magrinho e fraco, é necessário que pensemos em soluções. Se não, daí o barco afunda mesmo.
E O VALE DESABROCHA (parte 1)
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