Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

É possível fazer arte no capitalismo?

Adriane Pisane
Francesco e Rodrigo James durante o debate
1
francesco napoli · Belo Horizonte, MG
10/4/2008 · 130 · 5
 

No ano passado participei de uma mesa de discussão dentro da programação do FUCA - Festival Universitário de Cultura e Arte, promovido pelo DCE da UFMG, e ao meu lado estava o jornalista Rodrigo James, especialista em cultura pop. Nossa discussão teve o tema sugerido pela comissão organizadora, que tinha o imponente título de “Produção Musical e Indústria Cultural”. Na ocasião estavam presentes estudantes, músicos e uma colega/amiga do mestrado em estética e filosofia da arte na UFOP, a estudante de Adorno Adriane Pisani. Retomando a problemática que inspirou Benjamin e Baudelaire e, para “esquentar” logo a discussão, coloquei a iminente questão: É possível fazer arte no capitalismo? Inspirado pela terminologia adorniana que o título de nosso debate continha, quis verificar como a platéia reagiria à minha provocação e, se concordassem com o autor do conceito de Indústria Cultural, como eles usariam os argumentos de Adorno diante da produção musical contemporânea.

Para Adorno a Indústria Cultural desenvolveu-se de tal maneira que nosso próprio modo de sentir, fruir, perceber e entender o mundo estariam sendo “padronizados” aos moldes da indústria cultural que segue a lógica do sistema capitalista e toda arte que afirme os elementos deste sistema seria heterônima, ou seja, estaria subordinada às regras do sistema e portanto não poderia ser considerada arte autêntica. A arte propriamente dita teria de dar a si mesma suas próprias regras, ou seja, teria de ser autônoma e negar o modo de vida imposto pela indústria cultural, na medida em que esse modo de vida estaria reprimido pelas amarras da lógica capitalista, essa negação buscaria um modo de vida menos repressivo.

O argumento de Adorno é imbatível, mas me parece estar em uma esfera distante da vida prática. Se partirmos de Adorno, nenhum produto da indústria cultural poderia ser considerado arte e, nenhum tipo de produção musical contemporânea seria validado, poderíamos agrupar todos os trabalhos musicais atuais “no mesmo saco”, de Calypso a Chico Buarque. E não há como negar que, por mais clichê que uma canção pop seja, os sentimentos, lembranças pessoais, identificações e prazer que ela pode despertar são muito mais complexos do que a própria indústria cultural.

Tanto eu, quanto o Rodrigo James defendemos a possibilidade de arte no capitalismo. Em minha fala usei dois conceitos para embasar meus argumentos. Comecei por Hakim Bey e seu livro intitulado “Zonas Autônomas Temporárias” no qual ele sugere uma forma de fazer arte dentro do sistema capitalista utilizando-se dos elementos do próprio sistema, criando zonas autônomas temporárias que se desintegrariam antes que o sistema as incorporasse como mercadoria ou reprimissem a idéia. As zonas autônomas temporárias sugerem intervenções efêmeras que manteriam sua autenticidade por garantirem o caráter transgressor e, ao mesmo tempo, dar a si mesmo as regras de sua execução, sem se submeter à lógica do mercado, mas utilizando-se dos recursos do próprio sistema.

O segundo conceito que utilizei se refere a o filósofo italiano Luigi Pareyson, que concebe a arte como pura formatividade, ou seja, um fazer que ao mesmo tempo inventa as próprias regras para sua execução, no qual a obra é entendida como um organismo que dialoga com o artista e este, inserido em seu tempo e espaço, com toda sua história pessoal, faz a obra de arte.

Portanto, a partir da teoria da formatividade, podemos falar de presença da arte nas demais atividades humanas, na medida em que toda atividade tem um caráter inventivo (formativo), e da presença dos demais valores e atividades na arte, já que a arte está impregnada do mundo do artista. Mas o aspecto artístico de toda operação humana não consiste em suprimir a possibilidade de conceber a arte propriamente dita. Segundo Pareyson, Fazer com arte é diferente de fazer arte. O conceito de formatividade permite compreender a gradação infinita que vai do mais humilde e subordinado fazer com arte ao fazer arte mais elevado e autônomo, sem acarretar comprometimento dos valores. A autonomia da arte, para Pareyson, está justamente na própria especificação da forma artística. Esta consiste precisamente em não querer ter outra justificativa que não a de ser um "puro êxito", uma forma que vive de per si. Portanto seu êxito pode não estar subordinado a fins externos e a obra tem de estar direcionada apenas para seu êxito enquanto forma artística e para sua adequação consigo mesma.

Em alguns casos uma obra de arte pode ter em mira algum fim externo, como um jingle, por exemplo, mas o que garante sua autonomia é o fato de seu êxito como forma artística não depender deste fim. No caso da produção musical o êxito pode ficar comprometido pelos fins mercadológicos. Um jingle publicitário tem diversos fins externos, como, vender um produto, provocar identificação com determinado grupo de possíveis consumidores, adequar-se a um determinado padrão de gosto, etc. Mas mesmo com todos esses fins ele pode ter como elemento axial, ou seja, que garante seu êxito enquanto forma artística, um fim em si mesmo.

Como exemplo citarei uma gravação que consta no álbum "Mutantes" de 1969, no qual foi incluída a canção "Algo Mais" como uma música comum e esta vigorosa canção sobrevive de per si, pois independentemente da finalidade que guiou sua composição, ela tem como sustentação e garantia de seu êxito, elementos independentes do fato de ter sido um jingle para a Shell. Nelson Mota, no encarte do disco Mutantes de 1969 nos diz “Com raro sentido de invenção e liberdade eles (Os Mutantes) compuseram um jingle para a Shell. É preciso ter coragem de ouvir claro e saber com certeza que aquele som é novo, limpo, inventivo e livre. [...] A intenção com que foi feita, pouco importa, o que vale é o som final. Além de cumprirem os objetivos de promoção de vendas, de imagem pública da Shell e de divulgação de uma marca, eles estão colaborando para a música brasileira contemporânea com grandeza e competência.”

* matéria publicada originalmente no jornal O Cometa Itabirano em outubro de 2007.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
ayruman
 

A prática da Arte pode ser a via que nos libertará do tédio e das submissões ordinárias. No mundo atual, mecanizado, programado, vigiado; a Arte é uma das poucas satisfações que nos restam...( J.J. Tharrats).

Bom texto a ser refletido...

ayruman · Cuiabá, MT 9/4/2008 10:41
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
clara arruda
 

Pena Ayruman que pouco valor é dado a arte.
meu voto e meu carinho.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 9/4/2008 12:36
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Paulo Esdras
 

Caro Francesco,

Sou publicitário por formação. Digo claramente: jingle não é arte. Está amarrado a números, a publicos específicos, a pesquisas... A arte é libertária, não pode ser algemada a números nem a pesquisas. Sim, utiliza-se da arte para fazer um jingle. Mas daí dizer que é arte é um abismo.

É sim possível fazer arte no capitalismo. Porém a grande maioria das obras só serão conhecidas pelo autor e pelos vizinhos. A divulgação está atrelada necessariamente ao que os homens dos meios de comunicação acham que dará Ibope.

Mas há esperança! Faço parte do Projeto ABRACADABRA - Agentes Brasileiros de Cultura e Arte Democrática Brasileira -, com o intuito de quebrar esta barreira midiática. Tenho o Manifesto e o esboço do Projeto. Caso tenha interesse, envie-me seu e-mail.

Abraços,

Paulo Esdras

Paulo Esdras · Brumado, BA 9/4/2008 18:53
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Karla Gohr
 

Olá Francesco, gostei qdo citou o filósofo italiano: dentro dessa máquina temos que "driblar", no melhor sentido, para que a arte possa sobreviver em sua essência. E parabéns pelo debate. Beijo.

Karla Gohr · Curitiba, PR 10/4/2008 12:14
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Cissa Baini
 

é ...

Cissa Baini · Pelotas, RS 16/4/2008 08:24
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados