Cinema, Meio Ambiente e Comunicação têm Encontro Marcado no Texas Brasileiro
Esse texto fala do Encontro Humano Mar, evento que vai acontecer nos próximos dias 15, 16 e 17 de agosto, em São João da Barra, Estado do Rio de Janeiro, e que é parte do Projeto de Educação Ambiental do Campo de Polvo, ação que promoveu oficinas de cinema ambiental em 10 cidades da Região dos Lagos e Norte Fluminense, no ano de 2007. Mas antes, uma palhinha para contextualizar essa história que envolve Cinema, Meio Ambiente e Comunicação na região que já é conhecida como o “Texas brasileiro”.
Teve impacto? Dá licença!
Os recentes noticiários envolvendo as polêmicas obras do PAC têm feito com que a questão do licenciamento ambiental entrasse de vez na pauta do país. Obras como as hidrelétricas do Rio Madeira e a transposição do rio São Francisco estão mostrando que a sociedade ainda não possui a compreensão plena da necessidade de programas de compensação e mitigação de impactos causados por grandes empreendimentos.
Em relação ao petróleo o caso é sintomático: só a partir de 1997 é que surgiu uma legislação específica que propõe regras para o licenciamento, prevendo projetos de Comunicação Social, Monitoramento Ambiental, Controle de Poluição e de Educação Ambiental, entre outros.
Na Bacia de Campos, por exemplo, o petróleo vem há décadas encharcado cofres públicos com dinheiro de royalties, mas as contrapartidas da indústria petroleira e seus deveres não eram claros há até pouco tempo.
Recentemente, o IBAMA, através do CGPEG (Coordenação Geral de Petróleo e Gás), tem intensificado a pressão para que as empresas implementem projetos ambientais consistentes na região, incluindo os de Educação Ambiental, historicamente relegados à última prioridade.
Por isso é bom que fique o mais claro possível: pelas leis brasileiras, todo o empreendimento que gera impacto ambiental é obrigado, entre outras coisas, a realizar projetos de educação ambiental. E isso a partir de diretrizes claras: o projeto inicialmente tem que produzir DIAGNÓSTICOS PARTICIPATIVOS, em que a própria comunidade avalia e aponta quais são as questões ambientais que precisam ser resolvidas.
O Cinema como arma
Neste contexto, o Projeto de Educação Ambiental do Campo de Polvo promoveu uma experiência significativa para a região, com resultados consolidados e a ponto de ter conquistado o Prêmio Brasil Ambiental 2008 por sua abordagem inovadora.
Criado a partir das diretrizes do IBAMA, o Projeto faz parte do processo de licenciamento ambiental da produção de petróleo no Campo de Polvo da Devon Energy do Brasil.
Através da Oficina de Cinema Ambiental Humano Mar, a Abaeté Estudos Socioambientais desenvolveu uma metodologia que usa as ferramentas do Audiovisual e da Antropologia para se chegar a estes diagnósticos participativos. O resultado do trabalho em 2007 foram 30 filmes de curta-metragem realizados nas cidades de Cabo Frio, Arraial do Cabo, São Pedro da Aldeia, Araruama, Armação dos Búzios, Ilha da Conceição, em Niterói, Rio das Ostras, Macaé, Barra do Itabapoana, em São Francisco de Itabapoana e Atafona, em São João da Barra.
Os filmes foram todos sugeridos, roteirizados e filmados pelos alunos, e apresenta um rico e amplo painel sobre as questões ambientais da região da Bacia de Campos.
Posteriormente, os filmes foram lançados e discutidos em praça pública durante os Fóruns Ambientais do Campo de Polvo. Usando a metodologia da Câmera Aberta, a la TV Maxambomba, a população pôde se manifestar sobre os filmes e as falas destes debates viraram Agendas Ambientais Audiovisuais, contendo uma sistematização dos temas abordados.
A segunda fase do Projeto de Educação Ambiental do Campo de Polvo começa agora, a partir do Encontro Humano Mar, que vai reunir todos os alunos das 10 cidades, no Sesc Mineiro, em Grussaí, São João da Barra.
Qual a idéia?
O Encontro Humano Mar vai marcar o lançamento do Observatório Ambiental Humano Mar, que será um organismo capacitado a monitorar as questões socioambientais locais, usando ferramentas do Cinema, da Antropologia e da Comunicação. Formado inicialmente pelos alunos das Oficinas de Cinema da primeira fase do Projeto, a intenção é que a sociedade civil abrace e utilize o Observatório como um aliado nas causas ambientais das cidades abrangidas, principalmente levando em conta as especificidades da Bacia de Campos, onde os impactos da indústria do petróleo são cada vez mais perceptíveis.
Além de oficinas de aprofundamento em roteiro, equipamento, linguagem cinematográfica, pesquisa social e meio ambiente, o Observatório contará com um portal colaborativo onde os monitores locais poderão postar todo o conteúdo apurado e produzido em suas cidades, funcionando como um repositório de informações garimpadas por quem está próximo aos problemas.
São muitos os desafios, mas a repercussão tem sido muito boa, mesmo com alguns filmes colocando dedos em feridas sensíveis na região. Talvez valesse um texto só sobre o processo de produção dos documentários da Oficina; vamos ver. A própria disponibilização dos filmes na Internet tem sido motivo de discussões significativas por conta de direitos autorais de algumas músicas e isso será um dos assuntos quentes do Encontro.
Por fim, algumas considerações: já fiz uma propaganda da Oficina quando aconteceu na Ilha da Conceição, em Niterói; e nosso amigo João Xavi fez uma matéria muito boa sobre o Fórum Ambiental Audiovisual, em Macaé.
O programa do Encontro será em forma de zine e disponibilizo aqui um dos textos que dá bem uma mostra do que se pretende fazer e provocar... E, acreditem, essa galera ainda vai dar o que falar... :D
Vê o blog lá: www.humanomar.com.br/blog
CULTURA DIGITAL - Indo Além do Big Brother
Dia desses, a jovem cantora Pitty comentou numa entrevista que as pessoas quando pensam na Bahia, lembram logo de axé music e esquecem que há milhares de pessoas com outros gostos musicais morando por lá...
Agora ligue o canal da imaginação e tente pensar o que deve sentir um roqueiro baiano ou um vegetariano gaúcho; ou um piauiense que é tratado genericamente de “paraíba”.
E já reparou que até bem pouco tempo a televisão só tinha apresentadoras de programa infantil louras? Já reparou que todo oriental nas propagandas tem jeito de abobalhado? Todo motorista de carrão é branco? Todo nordestino é engraçado? Todo carioca mora em frente à praia... É isso mesmo?
Além disso, indo mais fundo: quando a mídia fala da sua cidade você já teve a sensação de que “não é bem assim”?
Todas essas perguntas e situações têm a ver com a forma com que a comunicação de massa funcionou durante a maior parte do século passado (principalmente a televisão). Além das notícias serem quase sempre das capitais (de algumas capitais), toda vez que se falava de alguma cidade, sempre soava estranho, com um olhar totalmente de fora. Quando se falava do interior, então, sempre se reforçava o lado pitoresco, folclórico, estereotipado...
E isso padronizava tudo: os pontos de vista, os pontos turísticos, os sotaques, os “tipos” de pessoas...
Mas a cultura digital aos pouquinhos tem conseguido sacudir esse modelo antigo e pesado. Principalmente com a popularização da Internet, cada vez mais nós conseguimos informações sobre os lugares vindo de pessoas DAQUELES LUGARES. Com os recursos ficando mais acessíveis, outras vozes estão conseguindo espaço para divulgar suas idéias, conceitos, produtos, pontos de vista.
E com o advento da web 2.0, as redes sociais e os sites colaborativos estão surgindo novos comunicadores, que vêm mostrando que a periferia e o centro estão cada vez mais embolados no meio campo.
Através de um blog, alguma merreca numa lan house e uma idéia na cabeça, uma pessoa pode hoje levar para o mundo a sua visão sobre sua cidade, seu gosto musical, sua tribo, suas propostas de crescimento. Um filme feito em casa pode virar uma sensação no Youtube e ampliar a rede de contatos de um morador de Barra do Itabapoana.
Se antes havia uma tentativa de entrar na mídia, hoje você pode SER A MÍDIA!
Tá bom, tá bom, as grandes TVs ainda são grandes e poderosas, mas acredite: as coisas estão mudando – e rápido!
FORMIGUINHAS MUDANDO O MUNDO...
O Observatório Ambiental Humano Mar é um convite para a criação de uma mídia livre. Ninguém pode acompanhar melhor uma questão sobre São João da Barra do que alguém que está ali, no dia-a-dia, e conhece aquela realidade nas suas sutilezas.
Quando o portal do Observatório estiver funcionando, em meados de novembro, você poderá acompanhar continuamente a sua cidade, produzir matérias, filmar problemas, entrevistar pessoas e depois colocar isso tudo no ar para o mundo.
Produção e difusão, as duas pontas vitais para a uma nova mídia.
Por fim, umas palavrinhas sobre duas coisas fundamentais: alfabetização audiovisual e inclusão digital. Entender como funcionam os códigos da linguagem audiovisual faz com a gente entenda melhor como o mundo anda, vamos dizer assim, funcionando. E, como disse o Renato Russo, o mundo anda tão complicado...
Por isso é preciso que programas de inclusão digital comecem a ser popularizados em todos os cantos do Estado, para que os computadores sejam aliados das mudanças necessárias no país.
Pra terminar, vale dar uns toques legais. Essas novas formas de produzir, divulgar e distribuir informação e produtos culturais estão criando redes cada vez mais sofisticadas – e muito maneiras.
Experiências como a FEPA, Fórum de Experiências Populares em Audiovisual, e o Kinoforum têm conseguido juntar vários núcleos que tomaram o audiovisual pra si, pondo fim a uma época em que só fazia cinema quem tinha grana. Quem passou pela Oficina Humano Mar já está super indicado pra entrar nessa onda!
Outra coisa são os cineclubes, que também têm mostrado grande força no quesito exibição, mostrando que há vida inteligente além dos filmes hollywoodianos. E que tem gente querendo assistir filmes juntinhos, sem ser necessariamente em shoppings, trocando idéias e provocando em mais pessoas essa vontade de fazer cinema. A ASCINE-RJ é a associação de cineclubes do Estado do Rio – entre em contato que apoio não há de faltar.
E aproveite que o formato curta-metragem está bombando!! :D
É isso, então. O portal do Observatório vem aí com tudo, mas enquanto isso, que tal começar a experimentar esse mundo novo? Uma boa experiência é visitar a Wikipédia ou o Overmundo e procurar ver o que tem lá sobre a sua cidade. Você concorda com o que tem lá? Ué, não tem nada?! Aproveite então e escreva! Fale do seu grupo, da cultura, de um artista local, mande fotos, vídeos, entrevistas... Coloque sua cidade pra aparecer! :D
Seja a mídia que você quer ver no mundo! hehehe
Que beleza de relato, HB! A parte sobre cultura digital é um texto dentro do texto, quase um manifesto, tudo a ver estar por aqui.
"Talvez valesse um texto só sobre o processo de produção dos documentários da Oficina". Ah concordo, faça quando puder, até porque é o tipo de coisa que serve de exemplo para outros projetos país afora!
Grande abraço
Que maravilha de trabalho, Heraldo. Estou à espera do texto sobre a produção da Oficina!
abraços
Fiquei animando agora em escrever :D
Falei que valia a pena por conta da rica experiência que foi esse processo de deixar a própria comunidade se representar.
Um exemplo ótimo é o de Arraial do Cabo, onde curiosamente os filmes mostram uma realidade totalmente diferente da imagem que a cidade provoca nas pessoas...
Outras coisas interessantes: como o dinheiro dos royalties tem acirrado dicotomias sociais complicadas (Macaé, caso extremo); a força do teatro em escolas em São João da Barra; a falta de aparelhos culturais (não há um lugar comtemplado como ponto de cultura nessa região); a especulação imobiliária expulsando as comunidades tradicionais (principalmente em Búzios); o petrodinheiro caindo pelas tabelas em Rio das Ostras e Cabo Frio; a falta de opções de emprego e lazer para a juventude na maioria desses municípios. Além de uma crise de indentidade ferrenha, uma vez que os descendentes dos pescadores, dos quilombolas e demais comunidades tradicionais vão ficando cada vez mais desprestigiados e vítimas do processo de crescimento desordenado.
Muita coisa. Assim que der uma folguinha, escreverei sobre o processo todo. Pra quem é do Rio, vale também como uma prova de quanto a gente desconhece o nosso próprio Estado.
A imagem de que todo cara do Rio mora na zona sul ainda é muito forte por aí...
abraços,
heraldo hb /.
Que texto tesudo! Essa experiencia do humano mar é incrível! Dá água na boca! Muita positive vibracions no encontro mais esperado do ano! Força!
Bia Pimenta · Duque de Caxias, RJ 14/8/2008 14:50Heraldo, acho que vocês tão ganhando uma experiência tão grande em relação à realidade desses municípios... Isso precisa ser falado! Talvez os jovens dos municípios não estejam nem se dando conta de que são parte de um processo que atinge boa parte do litoral... Importantíssima essa iniciativa de reuni-los. E discutir todos esses pontos que você cita no seu comentário acima. Parabéns!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 14/8/2008 17:50
Passei e votei. Dei uma lida rápida. Leio inteiro depois e comento.
Vindo de você com certeza é coisa boa. Abs.
Helena, se alunos não tinham noção do que era o projeto como um todo, o Encontro colocou uma pá de cal sobre esta questão. Eles nos surpreendem a cada dia. Na dinamica para decidirmos os próximos passos do monitoramento, de maneira geral, o municípios arrasaram. Questões muito importantes do cotidiano das cidades serão monitoradas pelos alunos. Fico imaginando o que será desse material daqui a alguns anos.
Foi legal também juntar todo mundo e ver os olhos brilhando. Antes do Encontro ficava imaginando o que faria eles saírem de casa com suas câmeras para registrar as trasnformações de sua cidade. Todos têm que correr atrás de seus estudos e do ganha pão. O que fariam guardar um tempo por algo tão utópico? Vendo aquela galera junta, cheia de tesão pra dar, foi a resposta que precisava ver e sentir. Eles querem fazer essa história. Eles querem fazer HISTÓRIA!
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