Um jornalzinho produzido na escola que ajude no ensino de português ou história, um programa de rádio produzido por garotos da periferia que os ajude a descobrir suas próprias vozes, um fanzine que auxilie na descoberta da identidade de uma comunidade. Essas são apenas algumas ações que podem ser incluídas no conceito de educomunicação.
A convergência entre educação, comunicação e outras ciências sociais surgiu a partir de realidades que se configuraram no pós-Segunda Guerra. A necessidade de se construir uma sociedade mais justa e igualitária propiciou a construção de um movimento social em torno da cidadania. Nesse esforço, juntaram-se metodologias de várias áreas das ciências humanas em prol da democratização da comunicação.
A educomunicação, porém, não foi inventada dentro dos espaços acadêmicos, surgiu das práticas cidadãs. “A educomunicação tem tentado quebrar o conceito de que a Comunicação só pode ser feita por profissionais. É discutir o processo comunicativo da base, ou seja, mostrar para as pessoas ‘não-especialistas’ que elas são comunicadoras”, afirma Kadydja Albuquerque, jornalista e educomunicadora.
Além desse objetivo citado por ela, destaca-se também a vontade de promover o acesso democrático dos cidadãos à produção e difusão da informação; identificar como o mundo é editado nos meios; facilitar o processo ensino-aprendizado através do uso criativo dos meios de comunicação; e, promover a expressão comunicativa dos membros da comunidade educativa. “A intenção é fazer os alunos verem que a comunicação está em todo lugar. Além de trabalhar conteúdos comunicativos, abordar temas como cidadania, protagonismo juvenil, gênero, relações sociais, meio ambiente”, explica André Souza, educomunicador da Ong Missão Criança Aracaju.
Experiência – A educomunicação pode acontecer de duas formas diferentes. Uma, através da utilização das tecnologias da informação em sala de aula; e a outra, instando crianças e adolescentes ao pensamento crítico acerca do impacto da mídia em suas vidas. Uma terceira forma, ainda, pode englobar as duas ações. “É preciso que os professores trabalhem a comunicação e suas novas tecnologias com os seus alunos, não só através de produtos de mídia alternativa como também com disciplinas que estimulem a leitura crítica da mídia”, acredita Kadydja.
Essa foi a estratégia, por exemplo, da Ong Missão Criança Aracaju ao iniciar oficinas de comunicação para os adolescentes beneficiados pelo Recriando Caminhos, projeto executado pela Ong com o patrocínio da Petrobras. Até agora duas oficinas já foram feitas, com quinze adolescentes cada. A primeira teve como resultado um fanzine, e a segunda, um programa de rádio. Uma terceira oficina de rádio se inicia hoje, dia 21.
Ao chegarem às oficinas esses meninos e meninas – moradores dos bairros Santa Maria e Cidade Nova – tinham visões muito negativas de suas comunidades. Concepções que foram construídas a partir também das imagens veiculadas pelos meios de comunicação. “As crianças não conseguem se ver nos meios de comunicação”, constata André. Contudo, ao fazerem a crítica dos produtos midáticos, eles conseguem perceber as razões dessas visões, e observar as comunidades por outros ângulos.
Nessas oficinas, os adolescentes passam por aulas teóricas, que abordam temas de cidadania, e aulas práticas que resultam em um produto midiático. Os educomunicadores pedem aos meninos e meninas que falem sobre sua comunidade nesses produtos, os aspectos bons e os ruins. “Eles passam a decodificar (à maneira deles) como é o processo de construção da comunicação. E isso influenciou até na comunicação pessoal, o processo de construção e articulação do discurso”, conta André.
Os resultados são claros entre eles, desde a melhoria de tratamento entre si até uma maior facilidade em comunicar-se. “Os resultados foram além do esperado porque conseguimos trabalhar os temas transversais aliados aos conceitos de comunicação alternativa. E o melhor, eles entenderam a linguagem e participaram espontaneamente do processo”, explica Kadydja.
Preconceitos – Apesar desses bons resultados, a educomunicação ainda sofre preconceitos tanto das escolas quanto dos próprios comunicadores. Normalmente, os espaços de educação formal a encaram como uma ameaça a sua ortodoxia. Já os comunicadores a vêem como uma produção pobre e sem valor.
Fato é que a presença da comunicação no ambiente escolar provoca uma discussão sobre o “ecossistema comunicativo” em que estão inseridos. E a própria Lei de Diretrizes e Bases (LDB) abre espaço importante para a educação para a comunicação dentro da própria escola.
Os Parâmetros Curriculares para o ensino fundamental, trazidos pela LDB, deixaram evidente a necessidade de uma aproximação ao universo da comunicação. E as normas para a reforma do ensino médio estabelecem que praticamente um terço do conteúdo dos currículos que vierem a ser elaborados levem em conta a presença das tecnologias e dos meios de comunicação na sociedade e na educação.
Olá, Gabriela. Tudo bem? Esse é um assunto extremamente pertinente e, na minha visão de Educação, um dos mais importantes, atualmente. Você pode ajudar a professores, como eu, interessados no tema, e que sempre está atrás de bibliografias. Quem sabe você cita no texto como ler mais sobre a Kadydja Albuquerque e outros que devem fazer parte das suas pesquisas. Vamos trocar informações. Saudações!!!
textos urbanos · Joinville, SC 24/8/2006 01:22
Olha só, a Kadydja ainda não tem textos publicados. Mas posso indicar para leitura os textos do Ismar de Oliveira (ECA-USP), que há muitos anos vem pesquisando a área de educomunicação. Alguns desses textos estão disponíveis no sítio www.usp.br/educomradio. Lá também estão os relatos dos trabalhos dele em um projeto do Núcleo de Comunicação e Educação da ECA-USP.
Ah, e obrigada pelos elogios =]
Olá, Gabriela! Fiquei muito contente em ler sobre as experiências de vocês em Aracaju. Eu percebo um momento novo na discussão não apenas da Cidadania, mas da Cultura, sobretudo nas áreas periféricas do Brasil. Pessoas se pensando e refletindo sobre seu lugar. Pessoas atuando enquanto sujeitos do processo de produção do conhecimento e de formas outras de comunicação. Parabéns! E muito boa sorte! A gente se fala!
Daniele Costa · Fortaleza, CE 27/8/2006 21:21Muito legal esta história... Tomara que em breve mais escolas optem por se tornarem espaços de aprendizagens (como desta história) e menos espaço de ensino!
Sergio Lima · Rio de Janeiro, RJ 27/8/2006 21:27pensar e repensar maneiras de educar uma mente faminta pelo infinito
Rafa oliva · Aracaju, SE 1/9/2006 08:34Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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