Educação e Canção: facilitando a aprendizagem

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Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ
10/7/2007 · 265 · 19
 

Como os centros de ensino podem ampliar o seu potencial de instigar os alunos à análise, problematização, exercício da criticidade e elaboração de conteúdos, de forma a exercer sua plena cidadania nesta sociedade da informação? Propomos o início de uma importante reflexão e esboçamos algumas alternativas para esta importante questão a partir do entendimento da relação entre educação e canto falado, tradição oral da cultura popular brasileira expressa através de letra e música, poesia e canção.

Uma das bases didáticas para construção do conhecimento são os livros. Antes de serem adotados são criteriosamente analisados pelos professores, para que sejam escolhidos aqueles que mais facilitam as trocas professor-aluno e aluno-professor. Ou seja, seleciona-se o conteúdo com o qual se deseja desenvolver a aprendizagem. Apesar disso, os alunos em sua maioria possuem certa resistência à absorção do conteúdo dos livros.

Neste ponto é que entra a questão da música. Não pensando os livros como elementos excludentes à aprendizagem, mas pensando a música enquanto forma auxiliar, como algo que pode funcionar concomitantemente aos livros. Raríssimas são as pessoas que não gostam de música. No caso dos jovens é mais raro ainda. A evidência disso percebemos quando vemos um adolescente caminhando com fones nos ouvidos. O que está fazendo: mais do que escutando música ele está absorvendo conteúdo.

Então pensamos que se pode aproveitar a música como aliada à educação, no mínimo em quatro instâncias: mediação para a leitura, absorção de conteúdo, fortalecimento da auto-estima do educando e alfabetização midiática.

Como mediação pensamos que a leitura de mundo pode se dar também através da música, elemento afeito à realidade do educando, ponte proporcionadora de relações críticas e porta de entrada para a percepção de que a canção vem recheada de conteúdos, signos, símbolos que permitem diferentes leituras. Enfim, pode-se caminhar em direção de se aprender a "ler canções", sabendo-se que, de forma subjacente e paralela, a aprensão de conteúdos programáticos deve ser desenvolvida pelo professor.

Como absorção de conteúdo, a música desempenha um papel similar ao do vídeo. Um aluno que não gosta de livros de física, talvez tenha menos resistência à esta disciplina se assistir vídeos didáticos do astrônomo Carl Seagan. Da mesma forma, uma marchinha de carnaval dos anos 30 facilmente levará o aluno a uma aula de história sobre os valores da sociedade naquela época. Uma música regionalista pode ser uma bela aula de geografia, literatura ou de história do pampa gaúcho. Uma música d´O Rappa pode ser elemento disparador para reflexão da realidade brasileira atualmente, violência generalizada no Rio de Janeiro, preconceito, desigualdade social, tudo isso de forma poética e crítica através do suporte canção.

Para Paulo Freire o ato de educar é um empoderamento. Podemos empoderar através da música. O hip hop é um bom exemplo disso. Se um aluno passa a escutar músicas produzidas por gente de seu país, de seu estado, de sua cidade, de seu bairro, percebe que seu modo de vida, sua cultura, possuem um forte significado. Isso fortalece sua auto-estima, lhe traz segurança e novas perspectivas de vida, com reflexos construtivos nos diferentes grupos com que se relaciona: escola, família, amigos e trabalho.

O trabalho com a música em sala de aula pode ser um importante instrumento de ensino para que os alunos e professores aprendam a se relacionar com a mídia. Segundo pesquisa feita por Kátia Suman, em dissertação de mestrado apresentada na Unisinos, 97% da programação de três rádios líderes no segmento jovem é ocupada por quatro grandes gravadoras, que veiculam 40 músicas que, num mesmo dia, entre 7h e 19h, podem se repetir de duas a cinco vezes. Porque uma música toca mais que a outra? Que conteúdos são transmitidos? Que impacto tem em nossa opinião, gostos e valores? A análise destes contextos e conteúdos fortalece o exercício da problematização e criticidade que devem estar presentes no ato educativo.

Após 10 anos de vivência na área musical, uma experiência rica em diversidade, onde estabelecemos relações de troca com escolas públicas e privadas do RS, com instituições de ensino conceituadas como a Feevale, com projetos em sintonia com o Fórum Cultural Mundial, com o Mercado Cultural de Salvador e mais recentemente com o Consórcio Social da Juventude do Rio Grande do Sul e com o Fórum Internacional do Software Livre, acreditamos ser o momento de começarmos a formar educadores, acadêmicos e populares, capacitados para utilizar a música como ferramenta didática de apoio à aprendizagem.

Este é um processo que deve começar a ser planejado e implementado em parceria com as secretarias de educação e cultura, áreas de extensão universitárias, organizações não-governamentais e iniciativa privada.

O estudo através de nossa própria música com enfoque nas canções pode acrescentar elementos à leitura do sistema simbólico, criando novos recursos expressivos capazes de despertar nos alunos um olhar crítico sobre sua contemporaneidade e a vontade de aprender. Ou seja: não é só o aluno que precisa ler livros. O professor e a escola também precisam aprender a ler aquilo que os alunos costumeiramente lêem, fazendo uso desses elementos à aprendizagem.

Autores do artigo:

Richard Serraria é professor universitário da Feevale (RS), músico e compositor (serraria@gmail.com)

Alê Barreto da Independência é produtor cultural e administrador pela UFRGS (alebarreto_capta@yahoo.com.br)

Ambos atuam nos grupos Bataclã FC e Coletivo TARRAFA (Trabalhadores ARticulados em Redes Alternativas Fazendo Arte) e através destes promovem encontros públicos em Porto Alegre para troca de saberes culturais, educacionais e comunitários.

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Ilhandarilha
 

Muito bacana a proposta. Também atuo na extensão universitária e meu projeto tem a ver com esse, só que enfoca vídeo e cinema. Gostaria de trocar figurinhas sobre isso com vcs. Tem algum site onde são apresentados os resultados dos trabalhos? O projeto está no Siex?
Só umas sugestões de edição: dá um espaço entre os parágrafos iniciais para facilitar a leitura. E tem alguns probleminhas de digitação para corrigir. Um abraço!

Ilhandarilha · Vitória, ES 8/7/2007 10:31
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Alê Barreto
 

Obrigado Ilhandarilha! O que é Siex?

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 8/7/2007 17:20
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Ilhandarilha
 

Siex é um sistema de dados de projetos de extensão. É legal vc registrar lá, pois vc e seu projeto podem ser encontrados com mais facilidade. Além disso, sairam em 2007 alguns editais (Minc e MEC) voltados para projetos de extensão universitária e um dos pré-requisitos é esse cadastramento.

Ilhandarilha · Vitória, ES 8/7/2007 21:41
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DaniCast
 

É isso mesmo, o audiovisual é um apoio didático que enriquece todas as disciplinas. Devia ser mais adotado, em todas as escolas.

DaniCast · São Paulo, SP 9/7/2007 22:21
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Moysés Lopes
 

Esta dupla é de amargar!! Fico feliz de ver pessoas sensíveis e inteligentes produzindo textos igualmente sensíveis e inteligentes. Sorte nossa!

Grande abraço, gurizada!

Moysés Lopes · Porto Alegre, RS 11/7/2007 06:51
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Luiz Antonio Cavalheiro
 

Gostei da matéria. Acredito que o ensino pode ser melhor usando a música, o audiovisual, a poesia, a arte enfim.
No entanto, como educador tenho que registrar um aspecto importante sobre a inclusão da música em sala-de-aula. Muitas vezes, essa inserção não tem funcionado de forma satisfatória e o professor sai decepcionado da aula. Isso acontece pelo fato de que o professor se esquece de que é preciso levar em conta a bagagem cultural do aluno e as suas preferências musicais, que nem sempre são iguais a do mestre. Então, não adianta levar Chico Buarque pra sala se os alunos estão ouvindo Tati Quebra-Barraco. Não vai funcionar e ainda o gosto do educador vai ser questionado pelo aluno e vice-versa.
O ideal para a proposta ser atingida de forma satisfatória é a "barganha" com os jovens. É preciso entender o universo musical deles, debatê-lo, focá-lo e , acima de tudo, se desvencilhar de preconceitos e rótulos.Só então, mostrar as músicas que consideramos "melhores" e " mais adequadas".
A cumplicidade com o aluno é fundamental antes de qualquer tentativa de ensino-aprendizagem.

Luiz Antonio Cavalheiro · Cordeiro, RJ 12/7/2007 20:03
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crispinga
 

Qualquer recurso que desperte a curiosidade e o gostar de aprender é válido! Precisamos mostrar para os alunos que poesias e músicas são atemporais! Algumas são puro "modismo" , outras são imortais!
Estou super-ligada em Educação, terminando uma Pós em Docência! Bela dica! Ótimo texto!
Cris

crispinga · Nova Friburgo, RJ 12/7/2007 22:46
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joao xavi
 

acho toda essa discussão muito interessante.
fato que o brasil é um pais analfabeto, no sentido de que não existe uma profunda intimidade de grande parte da população com o habito da leitura.
o que acontece de interessante nisso é encarar toda potencialidade que existe nas tradições que fundamentam a cultura popular do brasil, no caso estamos falando da música, como um meio educacional.

em nossas conversas cotidianas não costumamos citar weber, ou marx... citamos gil, chico, mc buchecha e por ai vai...
quando essas figuras invadem a escola, ou seja la qual for o espaço educacional, elas estão levando consigo um traço da "vida real".
é uma retroalimentação do que somos e de como e o que queremos formar.

joao xavi · São João de Meriti, RJ 12/7/2007 23:03
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Amanda Maia
 

Puxa, alto nível isto aqui! O texto e os comentários... Excelente texto!!! Nas minhas aulas de teatro em escolas também parto sempre da música, pra mim é fundamental. Fui professora de literatura em um cursinho numa comunidade litorânea, e tive um colega professor de física e química que se tornou uma "celebridade" por usar músicas em suas aulas, os alunos adoravam! Enfim, parabéns pela colaboração! Beijinho pra ti.

Amanda Maia · Salvador, BA 13/7/2007 08:12
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José
 

Alê!
Sugiro que os livros devam ser também avaliados pelos estudantes, antes de serem propostos...
Também sugiro abolir os livros didáticos e apostilas, mas manter livros de literatura...
Sou discípulo de mim mesmo... O potencial desperto nas percepções do cotidiano aguçadas pelos pedagogos desafios que a todo instante me cerca...
Agradecido.

José · Criciúma, SC 13/7/2007 09:04
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Turma Camundongo
 

Excelente colaboração!

Turma Camundongo · Salvador, BA 13/7/2007 09:22
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Luiz Antonio Cavalheiro
 

Tô gostando disso daqui!

Luiz Antonio Cavalheiro · Cordeiro, RJ 13/7/2007 09:58
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Alê Barreto
 

Cavalheiro, muito bacana a tua fala de que precisamos ter atenção com a realidade do aluno. Nosso papel como facilitadores não é impor nosso gosto, mas sim potencializar o gosto dos jovens pela música. Eu na adolescência odiava Chico Buarque, hoje gosto!

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 13/7/2007 11:42
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Alê Barreto
 

João Xavi, o Brasil realmente tem muitas deficiências de aprendizagem, por conta do grande índice de analfabetismo. A pista tu estás nos trazendo: "levar para sala de aula a música como um traço da "vida real" e retroalimentarmos o processo educativo. Jóia tua fala!

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 13/7/2007 11:44
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Alê Barreto
 

Crispinga e Amanda, obrigado, vamos ampliar isso! Juntos. Todos nós!

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 13/7/2007 11:46
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Alê Barreto
 

José, com certeza os livros devem ser melhor avaliados, inclusive com os próprios alunos. Assim como a música.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 13/7/2007 11:47
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Juliaura
 

Aêê, Alê,
Retorno teu no melhor estilo possível, explodindo o real e inaugurando o novo com os que querem o novo.
Tava com saudades, sou fã ainda sem carteirinha de tu e do Serraria, mas não diz a ele que eu fico rubra.
Belo trabalho, Paulo Freire é um suporte teórico inestimável.
Trocamos saberes, as pessoas aprendem em espaço de liberdade.
Belo, belo, belo trabalho de vocês, guris!

Beijin

Juliaura · Porto Alegre, RS 14/7/2007 11:46
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Ceiça Lima
 

Nossa, que espaço lindo e rico esse aqui !!!
Nossa tribo tem que estar unida, partilhando idéias e se fortalecendo cada vez mais!!!
Novas metodologias (talvez seja melhor eu utilizar "metodologias variadas") que facilitam a compreensão, a assimilação, tornando o conteúdo "palatável" e associado ao real ... bem, tudo que foi dito aqui valeu demais!!!
Alê, agora que te achei, vou te perturbar um bocado, hein?! Quero saber dessas tuas experiências!
Bj grande!

Ah, Ilhandarilha, quero saber do teu projeto tb, tem tudo a ver...
Abraços em todos!!!

Ceiça Lima · Aracaju, SE 1/11/2007 17:11
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Ceiça Lima
 

Tentei acessar o Coletivo TARRAFA e não abriu...
Que me sugerem?!

Bj!

Ceiça Lima · Aracaju, SE 1/11/2007 17:18
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