El más grande del mundo

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Guilherme Mattoso · Niterói, RJ
17/2/2008 · 145 · 8
 

Desde que terminei a faculdade, em 2004, não sei o que é férias e por conta do acaso só consegui tirar umas semanas agora, em janeiro de 2008. Então, não pensei duas vezes em fazer render esses dias e, desde o ano passado, vim planejando uma viagem pela Bolívia, Chile e Peru. Junto com três amigos percorremos os três países por terra. Conhecendo cidades, grandes, pequenos povoados, desertos, praias, pessoas... uma experiência única que recomendo a todos.

Eu poderia passar horas documentando cada detalhe, mas isso não vem muito ao caso. O motivo do texto é outro. Sempre me interessei por esse papo de integração latino-americana e nas discussões que giram em torno da barreira cultural e linguística entre o Brasil e o resto da América Latina. Percorrendo estes três países, pude sentir na pele como se dá essa relação de proximidade - ou distância - entre nós e eles.

Quando perguntado se era brasileiro, a frase que mais ouvi, tanto na Bolívia como no Chile e no Peru, foi: "Brasil? El más grande del mundo!". É impressionante. Do taxista ao garçon, da recepcionista ao camelô... todo mundo falava isso. No começo, a gente até explicava que não que somos o quinto maior etc... engraçado e curioso.

Na Bolívia, em especial, a frase vinha num tom meio de deboche, com um sorriso de canto de boca. Não soubemos entender exatamente o porquê disso. Talvez seja a questão do Acre, talvez envolva também a grandeza da nossa economia, o futebol, sei lá. Depois, no Chile e no Peru, a história se repetiu direto. Todo mundo falava isso pra gente...

Um tapinha não dói
E quem diria, o funk carioca, exportado para Europa, também ecoa por aqueles lados e faz sucesso na boca do povo. Além do "El más grande...", muitas vezes o sujeito soltava um "Dói, um tapinha não dói. Vai Glamurosa, cruze os braços...". Hilário! No Chile então, a galera canta com o sotaque direitinho. O Axé (ou "atché") também faz a cabeça da galera e ouvimos também Ivete, Asa de Águia etc.

Talvez por que seja semelhante à cumbia (lembra muito nosso calipso/tecno-brega) e o reggaeton, ritmos que tocam em tudo o que é lugar e tem aquele remelexo que o povão gosta. No mais, a música brasileira, assim como a latina por aqui, não ecoa tanto por lá. Ah, claro! O samba e o carnaval tem bastante relevância e os jornais fazem até uma cobertura bem bacana.

E o futebol?
Bom, o futebol dispensa comentários. Todos se amarram na seleção e os craques do momento estão na ponta da língua. Todo mundo conhece Kaká (o mais hypado no momento), Robinho e Ronaldinho Gaúcho, presente em vários anúncios colados em porta de lanchonete, lanhouse, banca de jornal...

Quando estivemos no Chile usei minha camisa do Mengão e teve muita gente olhando, apontando e parando pra falar comigo. Tava rolando a pré pra Libertadores e os times participantes dessa edição estavam sendo muito noticiados.

E falando no Chile, lá rola um lance muito engraçado. A juventude é muito rocker (pelo menos no visual). E olha que eu conheci duas cidades de praia onde esperava encontrar surfistas, playboys, loironas saradas, hippies de butique. Até rola essa galera, mas a maioria esmagadora é roqueira. Além dos emos, punks e headbangers, tem uma outra "tribo" conhecida como pokémon. O visual deles é meio Cansei de Ser Sexy e, lendo jornais locais, fiquei sabendo que rola até briga de gangues punks contra pokémons... rsrsrs.

Mais integração
No geral, fomos MUITO bem recebidos nos três países. Acho que diferente dos gringos que vem dos EUA, Europa, Israel... rola uma cumplicidade maior. Tipo, "vocês são gringos, mas a gente tá no mesmo barco. Somos hermanos!". Não há preconceito, muito pelo contrário. Nosso passaporte brasileiro abriu muitas portas e gerou muitas amizades por onde passamos.

Drinques de cortesia, desconto em pousada, convite para jantar, enfim, todo esse metier turístico nos recebeu muito bem e fiquei me perguntando se o mesmo acontece com eles quando estão nos visitando.

Funk, futebol, caipirinha... às vezes ficava pensando como eles não conhecem tanto nossa cultura e, entre si, são tão integrados... mas ao mesmo tempo também somos tão ignorantes em relação a eles. O Café Tacvba, banda argentina, estava fazendo uma mega turnê e todas as datas (em estádios!!!) estavam esgotadas por onde passavam. Aqui no Brasil, poucos conhecem o som do grupo.

Parece que os Andes ligam esses países como uma coluna vertebral... e o Brasil fica de fora. Não sei se estou sendo exigente demais, afinal passa até novela nossa por lá, mas fato é que apesar de perto, estamos ainda muito longe dos nossos hermanos e eles de nós.


* Gostaria muito de incluir fotos minhas, mas minha máquina foi perdida durante a viagem e meus parceiros de aventura (com suas fotos) ainda estão por lá...

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crispinga
 

Conhecí o Paraguai ( Assunción ) e tive a mesma impressão. Talvez porque não falamos a mesma língua. O Brasil parece estar de costas para a América do Sul. Conhecí bandas de rock muito boas ( PAIKO, é uma delas), que nós, aqui, nem ouvimos falar.
Conhecer o Peru é meu sonho. Machu Pichu está na minha lista de "não morrer sem conhecer". Quando resgatar as fotos, publique no guia. O "Caminho dos Incas" é muito bonito!

crispinga · Nova Friburgo, RJ 16/2/2008 10:39
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Andre Pessego
 

Guilherme, está devendo duas coisas; a) algumas fotos; b) dizer-nos em que se formou, em que atua. Divida-se e o o prazer conosco, e tenha certeza sabendo ficaremos todos felizes,
um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 16/2/2008 13:11
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Robson Araujo
 

É impressionante mesmo o quanto as pessoas gostam do Brasil. Acho que somos tão grandes que não temos como olhar pra fora. Ainda mais com as influências dos EUA que tivemos no nosso mercado, ficamos em si mesmados como eles. Mas, por exemplo, estou na Holanda e as pessoas nos tratam muito bem aqui. Bom, de certo modo, nossa cultura é formada por várias influências, não só africana e portuguesa, pois os holandeses passaram uns 20 anos no nordeste brasileiro e os franceses íam e vinham com acordos com os índios e traficando pau-brasil. A título de curiosidade, com uma lingua tão diferente, a palavra "enorme" aqui na holanda tem o mesmo significado, que o nosso... na indonésia, cozinhar no bafo é chamado de "cucus", será que é de onde vem a nossa palavra cuscuz? Bom, estou anotando essas coisas.
Abraços

Robson Araujo · Campina Grande, PB 17/2/2008 07:37
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Cecilia de Paiva
 

riquissima experiencia. temos feito discussoes a respeito de uma fronteira invisivel e, as vezes intransponivel. com certeza outros textos q vc fará sobre essa sua experiencia vao ser muito valorosos. parabens e que venham outras ferias pra ti e viagens varias

Cecilia de Paiva · Campo Grande, MS 17/2/2008 18:19
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Guilherme Mattoso
 

cris, tem muita música boa sendo feita por lá. no chile existem muitos artistas muito interessantes!

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 19/2/2008 09:09
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Guilherme Mattoso
 

olá andré,
como disse no final do texto, perdi minha câmera e não acharia legal colocar outras fotos (mesmo usando licença cc) aqui...

bom, sou formado em jornalismo e pós-graduado em ergodesign de interfaces. hoje, trabalho na comunicação do instituto souza cruz e também toco baixo no abaixo de zero.

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 19/2/2008 09:15
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Guilherme Mattoso
 

robson e cecília,

obrigado pelso ricos comentários. espero que tenha gostado!

abs.

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 19/2/2008 09:16
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Guilherme Mattoso
 

*** ERRATA ERRATA ERRATA ***

"O Café Tacvba, banda argentina, estava fazendo uma mega turnê...".

Na verdade, trata-se do SODA STEREO e não Café Tacvba, como disse no texto.

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 28/2/2008 12:22
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