"Ela me disse que trabalha no correio...

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Cury · Salvador, BA
24/4/2008 · 166 · 11
 

... e que namora um menino eletricista”¹

Depois de 5 semanas do lançamento do livro, eu estava me preparando para executar a segunda parte do plano. A primeira estava indo bem. No dia do lançamento, 180 livros foram vendidos e, após esse dia, alguns amigos que não puderam ir (ou nem sabiam que eu estava lançando um livro) passaram a comprá-lo, deixando a marca em 412 livros vendidos. O mais interessante é que está rolando o bom e velho efeito amigo-do-amigo, que faz com que o livro esteja sempre entrando em novos territórios. Isso foi a parte 1 do plano. Está funcionando.
A segunda parte do plano – plano este que é fazer com o que o livro me consiga trabalho e/ou seja lançado por uma editora – era esperar o livro vender um pouco para ter dinheiro e história para contar quando fosse com ele ao Rio de Janeiro e São Paulo. Fiz isso quando tinha banda em 2006 e achei que poderia repetir a estratégia, porém com um pouco mais de experiência.
Fiz uma lista de editoras, agentes literários, jornalistas, revistas, jornais, músicos e escritores, e comecei os contatos. Com o dinheiro e a clipagem debaixo do braço, procurei promoções de passagens aéreas. Decidi que iria 13 de maio.
Nas horas em que estou trabalhando em prol do livro, sempre me pergunto “por que esse cara pra quem tô querendo enviar o livro vai se interessar por ele?”. Essa dúvida é antiga. No dia que o livro foi para a gráfica, eu pensei “que merda que eu fiz. Quem é que vai querer saber que tive diarréia em pleno carnaval, com o Asa de Águia tocando Take it Easy?”.
A dúvida era se o livro seria interessante só para as pessoas citadas e/ou que convivem naquele universo do livro ou se ele despertaria a curiosidade de pessoas alheias. Inclusive muitos me diziam “acho que o livro só vai ser mesmo pra galera do rock da Bahia”. Mas era nisso que eu confiava, o que está no livro é o meu universo, e, apoiado numa frase que meu avô cita frequentemente, “se queres ser universal, canta a tua aldeia”, do escritor russo Leon Tosltoi, achei que valia a pena pagar pra ver.
Algumas respostas que tenho recebido me aliviam um pouco em relação a essa questão, como os e-mails de Karina M, que disse “eu era roqueira e nem sabia”, assim como “agora minha mãe sabe que você se cagou no carnaval”, do amigo Dudare. A dúvida, porém, sempre volta e, enquanto estava olhando a lista de pessoas a quem eu levaria o livro, eu o peguei para tentar descobrir alguma resposta sobre o porquê que ele seria interessante para alguém. Folheei um pouco e bati os olhos em um trecho de uma crônica sobre a minha ida ao Rio e SP para levar o disco da banda que eu fazia parte e, nessa crônica, eu reclamava que quase nunca eu era atendido pela pessoa que eu queria, sempre tendo que deixar o disco com uma secretária ou com o porteiro do local, e que, se soubesse disso, teria ficado em Salvador, mandando o disco pelo correio.

Eu tenho recebido alguns pedidos de pessoas de fora do estado da Bahia.
Por semana mando dois ou três livros para outro estado. A maioria de amigos que moram fora e alguns de leitores do blog. Sempre envio pelo correio daqui da rua, no Chame-Chame, onde também funciona uma floricultura. Os dois são no mesmo ambiente. E lá sou sempre atendido por Geisa e Angélica. Na minha terceira ida, Angélica perguntou “esse livro é de quê?”.
– Ah, é um livro de histórias... crônicas...
– Ah, massa. Deu R$15,30.
O frete para São Paulo sai por volta de R$12,30, e com a caixa, para o livro chegar inteiro, que custa três reais, dá um total de R$15,30.
Na quarta vez que fui lá:
– Foi você que escreveu?
– Foi.
– Pô, que massa! Deu R$14,30.
Para o Rio de Janeiro é um pouco mais barato.

Minha maior diversão tem sido jogar caixa fora. Alegria da porra. Quando os livros chegaram, vieram em 67 caixas, cada uma com 15 livros. Entupiu um quarto da casa de minha mãe. O que era o meu.
Semana passada, antes de ir ao correio, abri uma caixa nova de livros para pegar alguns e achei um defeituoso.
– Mas é um livro de quê assim? – perguntou Geisa, na minha quinta ida ao correio.
– Tome um livro pra vocês.
Dei o livro, mostrei o defeito, elas disseram que não tinha problema, que estava ótimo e iriam ler logo.
– Obrigada pelo livro – disse uma.
– Você matou uma curiosidade nossa. Deu R$16,30 – disse outra.
Para o interior de São Paulo é mais caro ainda.

Quando eu li que escrevi no meu livro que eu deveria ter ficado em Salvador enviando os discos pelo correio, encontrei a resposta. Era a tal da experiência. Rolou um paradoxo da porra: era eu dizendo para mim mesmo o que fazer, através do meu livro.
No dia seguinte, fui em um outro correio só para fazer o orçamento de quanto seria mandar tudo daqui de Salvador e quanto seria se eu mandasse pelo correio de São Paulo. De SP para SP. Assim como do Rio para o Rio. Jandyra deu a idéia de eu enviar os livros por alguém que esteja indo e depois contratar algum amigo que esteja em São Paulo (e outro no Rio) procurando emprego (achei 18 na minha lista de contatos) e assim contratá-lo para um dia de trabalho, que seria postar os livros.
O preço da postagem de uma cidade para a mesma cidade não fez tanta diferença, e somando isso à contratação do amigo-carteiro-diarista, o valor final seria maior do que se eu mandasse por Salvador mesmo. As duas formas também saíram mais baratas do que se eu fosse viajar. Nessa viagem, eu gastaria muito tempo. Para chegar em todos os lugares, precisaria ficar uns 10 dias em São Paulo. Me imaginei nos engarrafamentos, tentando chegar em algum lugar e, quando conseguisse, ouvir “ele está numa reunião, deixe aqui que entrego pra ele”.

Todo dia no Bom Dia Brasil, telejornal matutino da Rede Globo, tem uma matéria sobre o trânsito de São Paulo. Todo santo dia. Parou um pouco agora por causa do caso casal alexandre madrasta avô crime delegacia advogado depoimento família isabella menina morte mãe nardoni pai perícia polícia. Tá um deleite. A melhor novela dos últimos anos. As emissoras nunca faturaram tanto. “Quem Matou Odete Roitman?” já era.
Se cada criança assassinada no Brasil recebesse essa audiência...

Aqui em Salvador a polícia matou alguns adolescentes recentemente e o máximo que aconteceu foi dois BA TV.
A policia também está sendo digna de seriado americano. Descobriram através de aparelhos hollywoodianos a posição em que a menina ficou no chão enquanto o agressor pensava no que fazer; que o agressor pisou na cama e quase escorregou; que esse quase escorregão desarrumou o lençol; a posição que ela foi jogada e qual foi a última mão que Isabella soltou. “Gelo em Marte, diz a Viking.Mas no entanto, não há galinha em meu quintal”².
E, para aumentar a diversão, tudo mostrado em animação gráfica.

Ainda tá rolando o, já em extinção, “a seguir cenas do próximo capítulo”. Os telejornais começam com Isabella, depois entra a dengue, o biocombustível, a recessão americana, futebol e termina com Isabella. E todos os intervalos vêm precedidos da chamada “e veja ainda nessa edição mais informações sobre o caso Isabella”. O Bom Dia Brasil (eu contei) está com oito intervalos comerciais. E é pior que novela, pois novela você sabe quando vai ser o final, mas essa não, aí todo dia pode ser o final, o último capítulo...
– Ah, não, só vou sair depois de Caso Isabella, hoje o pai dela vai falar, e (no capítulo de) ontem o advogado disse que blá, blá, blá... – me disse um amigo.
Já Ana Maria Braga recebeu da direção da novela a personagem de jornalista. Conversando com um criminalista em seu programa, ela disse:
– Porque eu acho que nós da imprensa temos que exigir a apuração desse episódio...
Não me espantarei muito se daqui a um tempo aparecer a manchete "irmã de Alexandre Nardoni vai posar nua".
"Descobrimos o que nem a polícia descobriu", diria o anúncio da revista Playboy.

Ninguém consegue sair da frente da TV, assistindo a todos os anúncios de bancos, geladeiras, cervejas e carros com atores (e até bichos) dirigindo em estradas boas e vazias, dizendo para você comprar um carro hoje, logo após Alexandre Garcia fazer uma crônica cheia de carga emocional, onde traçava um paralelo sobre o trânsito de São Paulo e a existência humana.

Se você, caro leitor, tiver dinheiro, vou te dar uma dica empresarial: não compre carro. Compre terreno e faça um estacionamento. É o negócio do século XXI. Vá por mim.

Uma vez, nesse ano de 2008, Alexandre Garcia fez uma crítica dura e ao mesmo tempo lírica sobre o número de crianças no tráfico de drogas carioca e, no dia seguinte, só que de noite, ele abriu o Jornal Nacional, com um rosto sorridente, dizendo “começou hoje o maior carnaval do mundo”. Seriam atores os jornalistas?

Enviando pelo correio, não pegaria engarrafamento. Poderia perder algumas oportunidades, mas não pegaria engarrafamento.
Fui ao correio com 25 livros e 19 endereços.
– Bom dia – disse eu.
– Bom dia. Tô lendo o livro, viu? É massa... Aquela história do morcego é verdade? – perguntou Angélica assim que eu cheguei.
– É, sim, é tudo verdade.

Cris tá lendo o livro e de vez em quando ela dá um grito de “que mentira da porra, essa aqui é mentira, eu não disse isso...”, aí eu tenho de dizer que ela disse...
– Eu não disse.
– Disse.
– Não disse...
E fica nisso um bom tempo, até eu dizer que uma coisa que acontece, para ela pode ser banal ao ponto de ela apagar completamente da memória, ao mesmo tempo que para mim pode ser algo relevante ao ponto de eu transcrever em um texto.
– E, além disso, você disse.

Quando eu disse que iria enviar 25 livros, Angélica e Geisa perguntaram que embalagem eu usaria. Alguns endereços receberiam três livros, e a caixa para três livros custava quatro reais.
– Ô, fazer o quê? – disse eu.
– Nada disso – disse com autoridade Geisa –, você vai agora comprar 15 folhas de papel-metro e 10 de papel-bolha que a gente vai montar as embalagens.
Como é que diz “não”?
Fiquei três horas no correio, que é bem vazio. Em todo esse tempo, só quatro pessoas entraram lá: uma mulher que comprou um arranjo de flores; um bêbado querendo enviar uma carta, “dava todos esses livros para ler essa carta”, pensei na hora; e um sóbrio que aparentava uns 40 e poucos e que também queria enviar uma carta. Vendo o trabalho em série, ele perguntou “que livro é esse?”. Antes de eu responder, elas se adiantaram:
– É dele. Ele que escreveu.
Ele ficou folheando o livro e fazendo perguntas.
– Quando foi o lançamento? Saiu no jornal?
Para alguns lugares, junto com o livro, eu mandei também a clipagem do que saiu na imprensa. Ele pediu pra ver.
– Você toca na brincando de deus? – descobriu ele pelas reportagens.
Falei que a banda estava num período sabático.
– Já fui a muito show de rock aqui em Salvador – disse ele, destilando uma enorme lista de bandas baianas dos anos 80 e algumas do inicio de 90.
Depois me pediu para tirar uma cópia da clipagem. Não entendi bem o porquê, mas disse que não tinha problema. Ele ainda me disse que também escrevia, mas que não tinha coragem de publicar, mensagem essa que tenho recebido de muitas de pessoas que, ao saber do livro, me dizem que escrevem também, mas que nunca mostraram a ninguém.
Ele garantiu que entraria em contato para comprar o livro.

Ninguém almoçou. Elas cortavam as folhas nos tamanhos certos, embalavam e me davam para eu preencher os endereços. Economizei exatos 42 reais. Durante o trabalho, fizeram perguntas sobre as crônicas, os rodapés, sobre o envio dos livros, expliquei sobre as pessoas e endereços para quem estava mandando, meu plano, me falaram delas, que Geisa tá fazendo regime...
– Deu R$235,00.
Tirei o dinheiro e paguei.
– Fique tranqüilo que o plano vai dar certo – disse Angélica.

Obrigado, Angélica e Geisa, saí do correio confiante na minha decisão de não ter viajado. “E sem engarrafamentos”, pensei indo embora.
O único problema foi que desde o momento em que ela perguntou sobre o texto do morcego, a frase “PUTAQUEPARIU, elas sabem da diarréia” permaneceu em minha cabeça.

Em tempo: hoje, feriado (21/04), dia de Tiradentes, um dia antes do descobrimento do Brasi, um dia depois do Ba-Vi que foi 4 x 1 para o Bahia, eram 18h quando acabei esse texto e entrei no msn. O amigo Tiago Ramone, que estava procurando emprego em São Paulo e que foi contatado para ser o carteiro-diarista, e logo depois desativado da função por causa da minha decisão de não viajar, estava on line:

tiago ramone disse:
e aí, rubro negro?
Cury disse:
foda, mas domingo que vem tem outro
Cury disse:
to confiante, rodrigão vem ai
tiago ramone disse:
huahuahua
tiago ramone disse:
posso “ler” um trecho de seu livro pra você?
Cury disse:
claro
tiago ramone disse:
“Fui embora sem deixar disco nenhum. Sabia que teria a chance de entregar em mãos e, assim, conversar, trocar idéias, falar de música... Acredito que isso é o mais importante da divulgação. Se for para deixar na portaria, ficaria em Salvador mandando os CDs pelo correio.”
tiago ramone disse:
e aí? você acha mesmo que não tem como entregar os livros pessoalmente?
Cury disse:
caralho, acabei de fazer um texto sobre isso
tiago ramone disse:
=)
tiago ramone disse:
coincidência, ou não, né?
Cury disse:
coincidência da porra, tô de cara
tiago ramone disse:
eu também
tiago ramone disse:
não esperava
Cury disse:
seguinte, eu acho e não acho
Cury disse:
acho que devo ir, sim, mas que, esse primeiro contato não precisa ser pessoalmente, ate porque já mandei para 19 endereços pelo correio, justamente por causa desse trecho
Cury disse:
é disso que falo no texto que tô escrevendo
Cury disse:
muito doido isso...
tiago ramone disse:
então nem vou pedir pra você me explicar
tiago ramone disse:
vou esperar o texto, né?
tiago ramone disse:
até porque vou ser citado!!!
Cury disse:
porra, nem vai
Cury disse:
ou vai, não sei




______________________
(1) O descobrimento do Brasil, de Renato Russo e Marcelo Bonfá.
(2) Eu também vou reclamar, de Raul Seixas e Paulo Coelho.

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Felipe Obrer
 

Cury, maravilha de texto!
Li sem cansaço, de cabo a rabo.
Poderias publicar um guia de distribuição independente...

:)

Abração e parabéns pela verve,
Felipe

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 22/4/2008 12:50
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Ilhandarilha
 

O vigor, a originalidade e a fluidez desse seu texto aqui é a melhor propaganda pro seu livro! Juro que me deu uma baita vontade de ler. Valeu, Cury.
Abraços pra vc, para a Geisa e para a Angélica!

Ilhandarilha · Vitória, ES 24/4/2008 14:00
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
clara arruda
 

É uma pena que exista no overmundo uma
divisão de valores.
Eu amo visitar blogs,ainda que seja má interpretada...Que se dane o rigor....Sou apenas amante de uma boa matéria.
Não tenho culpa de ter nascido uma pessoa amável e de bem com a vida.Por isso voto e volto.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 24/4/2008 15:03
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clara arruda
 

E ajudo a publicar!!!!!!!

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 24/4/2008 15:04
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Esso A.
 

pô, 'cê já devia ter falado que toca(va) na 'brincando de deus'!!
mais um ponto.

www.sitiodoesso.com

Esso A. · Natal, RN 24/4/2008 16:02
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Andre Pessego
 

Legal, a condução do texto; da conversa; Afluidez de uma boa conversa,
abraço,
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 24/4/2008 20:57
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Rute Frare
 

Gosto de sua maneira de escrever!
Beijão

Rute Frare · São Paulo, SP 24/4/2008 21:38
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suzinha machado
 

Parabéns ótimo texto

suzinha machado · Gravataí, RS 24/4/2008 23:57
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Professora Lu
 

Amei sua escrita!
Como posso adquirir seu livro? Moro em Salvador. Bjs e parabéns.

Professora Lu · Salvador, BA 25/4/2008 18:10
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Cury
 

Para adquirir o seu exemplar do livro "Para Colorir", acione o serviço delivery através do paracolorir@gmail.com (ou mande um scrap por aqui mesmo) dizendo o endereço e a hora que aí, Pirilimpimpim, o livro aparecerá.

Dessa forma, o livro sai por R$30,00. Se for de fora de Salvador, é R$30,00 + o frete.
Se preferir, pode ir até as livrarias Tom do Saber (aquela pirâmide no Rio Vermelho), Midialouca (também no Rio Vermelho, na Fonte do Boi) e Galeria do Livro (Boulevard 161).

Nas livrarias, o preço é R$35,00.

Cury · Salvador, BA 28/4/2008 08:18
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Ize
 

Como disse, do "She was hot" direto pra cá e continuo desopilando o fígado. E agora entendi, vc é escritor e dos bons. Vou acionar o serviço delivery.

Ize · Rio de Janeiro, RJ 15/5/2008 22:57
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

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