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Em Brasília...

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rap · Brasília, DF
18/8/2009 · 6 · 2
 

Em Brasília, presenciar situações surreais pode ser um belo passatempo. Não, não estou falando do Congresso Nacional. Shopping Pátio Brasil, 21:00 a aglomeração da tribo urbana de emos já forma uma horda de 60-70 pessoas. O pátio externo bastante espaçoso para uma reunião de 300 pessoas rapidamente começa a se encher.

Provavelmente por conta do instinto animal o ajuntamento ocorre por conta da comida fácil e da presença de um possível transporte público nas seis paradas de ônibus conjuntas que servem para o que o governo costuma chamar de "qualidade de vida".

Cenário formado, à horda de emos acrescente uma multidão espremida nos pontos aguardando a viagem para o fantástico mundo de suas casas, acrescente também uma retroescavadeira que fazia uma espécie de buraco em parte da escadaria com, obviamente, mais gente ao redor, observando o trabalho.

Na outra parte da escadaria e estendendo-se pela calçada vendedores ambulantes, filmes, cerveja, doces, milho e tudo de mais estranho que um ser humano pode querer como, por exemplo, 12 lixas de unha por 1 real.

Aos poucos aquela noite de sexta transforma-se em uma exposição do que é o Conic nos fins de semana. Uma coexistência, na maioria das vezes, pacífica entre várias tribos.

Skatistas, roqueiros e até patricinhas em grupos menores começavam a se reunir em grupos menores; iriam a algum lugar para começar a manhã de sábado.

É possível observar caricaturas intrigantes como, por exemplo, o cara vestido com um tridente de, no mínimo, um metro e meio com pontas que matariam qualquer mosca dada a precisão do seu utilizador.

Outra figura intrigante foi a de um coturno descomunal para a raquítica formação óssea de seu portador, em uma clara moda retrô-infantil o coturno estava equipado com LEDs que mudavam de cor quando pisado. Talvez fosse um novo estilo de chamar as fêmeas: uma tunagem para calçados ou coisa do tipo.

Surge então no tráfego pesado da W3 Sul uma ambulância dos Bombeiros que com toda sua discrição de sirenes e luzes a piscar buzina freneticamente para que os carros abram espaço.

Algum tempo depois, xingamentos e quase batidas a ambulância consegue achar espaço entre os ambulantes. Nesse exato momento avista-se uma mulher, no mais profundo desespero, correndo entre a multidão. Provavelmente algum parente passou mal e ela tenha sido a responsável por aquele pedido. Ledo engano do que ainda pensa que alguém se preocupa com o próximo. A avidez na corrida e na gritaria dava-se por conta de um táxi, objeto raro, dado por mito devido ao valor absurdo em que somente em uma sociedade de senadores podia-se pagar.

Nesse meio tempo foi possível observar os três bombeiros ocupantes do veículo emergencial ficarem uns cinco minutos terminando seus respectivos e aparentemente saborosos lanches. A sirene ligada e provavelmente algum morto dentro do shopping.

Algum momento depois, quando o barulho da multidão somado ao da retroescavadeira e da sirene já tinha se tornado uma bela sinfonia que a ninguém incomodava, os três bombeiros fizeram a caridade de adentrarem, devem ter ido verificar se a pessoa já havia morrido para que a responsabilidade não fosse mais deles.

Enquanto mais gente chegava do que saia nos ônibus era de se imaginar que no ritmo que aquela máquina perfurava a escadaria os funcionários já estavam próximos de encontrar petróleo.

Passados dez minutos e mais figuras caricatas a ambulância foi se tornando parte da paisagem. Familiarizados alguns skatistas começaram a se encostar e se não fosse um resto de temor, teriam utilizado a maca para se sentarem.

Outra sirene surge no tráfego ainda pesado - um camburão - em princípio ninguém se assusta até que saltam dois jagunços com colete de fiscal. Se há uma definição de corrida de explosão o comportamento dos ambulantes se encaixa perfeitamente. A lona que vendia filmes piratas foi rapidamente fechada. Os jagunços fiscais fizeram uma pequena corrida batendo o pé como se estivessem expulsando cachorros. O vendedor de cerveja e refrigerante não conseguiu salvar nada, saiu correndo por entre as placas de proibido pisar na grama. A bacia de água quente para ferver o milho caiu e quase atingiu a perna de uma mulher. O carrinho que continha a bacia nem se dá conta e é guiado por uma moça histérica com medo de perder seu ganha-pão.

Aquela correria toda foi em vão: os dois burucutus com coletes evitaram a fadiga e se contentaram em levar de graça pelo "serviço" dois engradados de cerveja e um de Coca. Era um tipo de propina secreta de ação publicitária, talvez uma ação para jornalista ver ja que inglês não acredita mais nisso. Cerveja e Coca para a rota noturna. Pena não terem pego a cocaína e maconha senão a noite seria uma festa.

Após a saída do camburão, não sem antes jogar o refletor na cara dos que esperavam ônibus como se houvesse algum fugitivo, o movimento voltou. Definitivamente, nesse momento aquela retroescavadeira já tinha encontrado petróleo, quarenta minutos funcionando sem parar.

Eis que surgem os três bombeiros, um deles ao ver a quizumba instalada ao redor de seu veículo começa a xingar mandando aqueles "filhos da puta" saírem da frente pois aquela era "uma situação emergencial" apesar de não haver nenhuma vítima com eles.

Entretenimento gratuito deve ser aproveitado, pena o ônibus ter feito o favor de passar. Um favor caro e humilhante já que motoristas têm prazer em diminuir a aceleração com a porta fechada e como um boiadeiro que dirige uma manada se divertir enquanto o cobrador fica rindo com a cabeça para fora.

Em Brasília existe vida além do Congresso... e corrupção também.

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rap
 

Publicado anteriormente em: http://rapensando.blogspot.com/2009/08/em-brasilia.html

rap · Brasília, DF 18/8/2009 12:17
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Viktor Chagas
 

Opa, rap,

Muito interessante. Esse relato sobre o tal encontro de "emos" me fez lembrar o ajuntamento que acontecia também por aqui na Zona Norte do Rio, do lado de fora do estacionamento de um shopping. Escrevi, nos primórdios do Overmundo, um pequeno relato sobre esses encontros de emos. Muito curioso que a mesma coisa aconteça também por aí... :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 18/8/2009 14:53
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