Aconteceu há pouco tempo atrás. Há cerca de dois ou três anos, eles ganharam certo destaque na imprensa especializada. Alguns saíram para fazer turnês, outros, para se apresentar em grandes festivais. Lançaram discos bem recebidos pela crítica. (Quase) Todos eles tiveram, dentro dos limites possíveis do cenário musical local - e do público que o acompanha - o reconhecimento de que se tratava de um momento ímpar na história da música alternativa alagoana. Mas, obviamente, nada disso nasceu do acaso. O crescimento do cenário foi resultado de um esforço e u amadurecimento que teve no talento dos músicos o seu grande mérito. Claro que não estamos colocando toda a produção musical de Alagoas em um mesmo patamar: a questão é que, em um Estado com pouca visibilidade nacional, nasceram e cresceram promissores nomes do rock nacional, em maior escala, e da nova MPB. E, cada um ao seu estilo, com a sua proposta, foram mostrando ao que vieram e conquistando os corações e ouvidos de um público leal.
Entretanto, embalados pela possibilidade de encontrar um maior espaço nos grandes centros, ou mesmo pelas dificuldades para conseguir viver do seu talento na terra dos marechais, o fato é que alguns dos principais grupos de Alagoas resolveram fazer as malas e deixar o Estado. Levaram seus projetos e expectativas (fossem elas grandes ou pequenas); deixaram por aqui a impressão de que deveria haver um recomeço. Mas se Wado (acompanhado da banda Realismo Fantástico), Casa Flutuante, Ôxe e a (à época) dupla Sonic Jr. se espalharam pela terra da garoa ou na cidade maravilhosa; outras bandas, como Mopho, Xique Baratinho e Dr. Charada, decidiram continuar por Maceió. Se houvesse, realmente, uma cena musical forte em Alagoas, a diáspora teria acontecido? "Acho que nunca houve cena por aqui, até porque sou muito cético com essa coisa de cena: a mídia estabelece o quanto deve se divulgar, contrata uma série de bandas de algum lugar e vende como se fosse algo homogêneo", acredita João Paulo, guitarrista e vocalista da Mopho, banda que, com seu rock psicodélico, mereceu inúmeros elogios de críticos como Fernando Rosa (Senhor F) e de músicos como o ex-mutante Arnaldo Baptista, Rogério Duprat e a banda norte americana Jon Spencer Blues Explosion. Para João Paulo, cada banda alagoana que mereceu (e merece) destaque trabalhou suas questões, se estruturou dentro de um projeto próprio. Já para seu ex-parceiro de banda e atual vocalista e baixista da Casa Flutuante - que também vem colecionando elogios -, Júnior Bocão, como uma cena não constitui um movimento, é possível falar, sim, que ela existe. "Há tempo vem surgindo música de qualidade em terras caetés. O problema sempre foi o ego da rapaziada e a dificuldade de formar público e de ter apoio", lamenta. Hélio Pisca, baterista da Casa Flutuante (e também ex-Mopho), acredita que, quando a produção de arte e a troca de influências acontecem de forma saudável, é possível surgir uma cena ou movimento. No entanto, afirma que isso não aconteceu em Alagoas. "Eu sinto que existem grupos, compositores e músicos geniais, mas não existe contribuição mútua além de apenas subirmos nos mesmos palcos e apresentarmos nossos trabalhos", diz.
Fazendo as malas
Mas, não tendo acontecido por aqui o que já ocorreu em Curitiba ou Recife - a contratação maciça e divulgação do local como celeiro de novas bandas -, alguns acharam mesmo que era a hora de buscar outros caminhos. Um deles foi um dos principais expoentes da música produzida em Alagoas nessa década, Wado (catarinense radicado em Alagoas, adjetivação saturada para quem já leu mais de uma matéria ou artigo sobre ele). Já no seu primeiro CD, o sugestivo Manifesto da arte periférica, lançado em 2001, pelo selo Dubas, o músico profetizava: "Que a margem chegue ao centro, que se mostre no grande circo. Levanto esta bandeira, a bandeira da diversidade, dos compositores de bairros distantes". Bom, a verdade é que a margem realmente chegou ao centro: Wado se apresentou, entre outros lugares, no Tim Festival. O primeiro CD teve ótima aceitação da crítica especializada, chegando a figurar nas listas de melhores do ano. A mesma receptividade aconteceu com Cinema auditivo, seu segundo rebento. E embora a vendagem dos CDs não fosse diretamente proporcional aos elogios colhidos, os convites para tocar no eixo continuavam aparecendo.
E foi o número de viagens ao Sudeste um dos motivos que o levou a montar acampamento no Rio de Janeiro. "Fomos também pensando em viabilizar a carreira por lá", diz o cantor e compositor, um ano e meio na cidade maravilhosa. "Durante esse tempo aconteceu muita coisa boa, percorremos oito capitais do Sul e do Sudeste com o projeto Pixinguinha e em julho do ano passado nos apresentamos na França", conta. A escolha do Rio como porto seguro, apesar de a maioria dos trabalhos acontecer em São Paulo, teve suas razões: a familiaridade, já que Wado ia e voltava de lá desde 2000; e a possibilidade de fazer novos contatos, de criar laços na cidade. E ele não foi sozinho, claro. O acompanhou Alvinho Cabral, da banda Realismo Fantástico, a qual assinou com ele o terceiro CD, A farsa do samba nublado. O restante dos componentes, Thiago Nistal e Sérgio Soffiatti, já moravam em São Paulo. A terceira cria - que ganha maior influência do rock and roll e traz pérolas de outros compositores de bairros distantes, como Grande poder, do Mestre Verdelinho - nem chegou a ser a ser lançada em Maceió. Mas, para felicidade dos admiradores alagoanos, a lacuna será preenchida este mês, no I Festival da Música Independente (FMI) de Maceió.
Mas, apesar da badalação e do reconhecimento do seu talento, Wado está de volta à capital alagoana. "O custo de vida no Rio é alto e acabei ficando meio sem grana. E não dava para trabalhar com outra coisa e fazer show durante a semana. Em Maceió eu tenho alguns contatos. A não ser que surja algo, acho que fico em Maceió", diz. Mas o retorno a Alagoas não é empecilho para dar continuidade aos projetos, pelo contrário: o novo clipe, Tormenta, já está rolando na MTV, eles também contam agora com novo empresário, Cláudio Lorenzetti, e o quarto disco, assinado novamente em parceria com a Realismo Fantástico, deve ser gravado no primeiro semestre, mesmo que ainda não saiba em quais circunstâncias isso irá acontecer ("as composições já estão prontas e são mais voltadas para a música eletrônica e pro rock", avisa Wado). Além dele, também está na prateleira do futuro o resultado do encontro de três alagoanos (Wado, Alvinho, da banda Realismo fantástico e Adriano Siri, ex-Santo Samba) e quatro cariocas (Daniel Medeiros, Marcelo Frota, Marcos Coruja e Alvinho Lancellotti): o Fino Coletivo é um grupo que tem no samba sua principal referência, mas que não renega um leque de influências contemporâneas. O resultado é poesia sonora e dançante.
A Ôxe foi outra que pegou a estrada rumo ao Sudeste. Depois de terem ganhado uma certa visibilidade antecedendo o show do Cordel do Fogo Encantado durante o Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação (Enecom), em agosto de 1999, a banda foi convidada a fazer algumas apresentações pelo país. Depois disso, muita coisa aconteceu, com destaque especial para a inclusão de algumas músicas na trilha sonora do filme Deus é brasileiro, de Cacá Diegues. Longe de Maceió, lançaram CD, fizeram shows, e já planejam uma nova bolachinha. Já o Sonic Júnior despontou em 2000, contando com Juninho (ex-Living in the Shit) comandando o groovebox e Aldo Jones (Xique Baratinho) na guitarra. A dupla lançou o primeiro CD, Sonic Junior. Já de formação nova, com Paulinho (ex-Xique Baratinho) assumindo a guitarra, se mandaram para São Paulo e lançaram o CD Mundo perfeito. Lá, foram convidados a produzir e tocar com Paulo Ricardo na PR.5. Hoje, firme em São Paulo, Juninho segue na Sonic e lançou o terceiro CD, Pra fazer o mundo girar, com tiragem de três mil cópias. O primeiro clipe, Stop emotion, deve estrear em breve na MTV.
A Casa Flutuante, nascida em 2003 com o fim da antiga formação da Mopho, também resolveu que o Estado das belas praias de águas mornas já era pequeno para sua música. A ida para São Paulo aconteceu pouco depois de lançarem o CD A Terra é nossa casa flutuante, em 2004. A localização central da nova sede, inclusive para viagens, intercâmbios musicais e a própria imprensa, foi decisiva para a escolha. Segundo Júnior Bocão, as dificuldades de se trabalhar com arte em Alagoas foram um dos motivos que os levaram a deixar a terra natal. "Apesar dos esforços por parte dos órgãos públicos e das pessoas de um modo geral, pouca coisa muda. Sentíamos a necessidade de ir para um mercado maior, resolvemos planejar bem as coisas para manter vivo o desejo de viver fazendo o que mais gostamos. Em Alagoas músico não é levado a sério!", desabafa. Já Pisca diz que não enxerga maiores dificuldades em ficar no Estado. "Eu acho que a facilidade e talvez até a comodidade de ficar no lugar em que se nasceu ou que sempre residiu é que faz com que a maioria das bandas não se arrisque em outros lugares que poderiam até abrir portas para outras oportunidades", acredita. Mas, apesar do desejo de morar em outra cidade ser antigo, e os músicos já terem contatos em São Paulo, a saída de Maceió se deu sem que soubessem ao certo o que ia rolar. E o início foi difícil: tiveram que se envolver em outras atividades. Agora, acreditam que a coisa está começando a engrenar "Depois de um ano e meio divulgando o disco, conhecendo pessoas e fortalecendo nosso trabalho, as coisas começam a fazer sentido. Temos recebido boas críticas, os convites para shows estão aparecendo e a perspectiva de gravar em condições melhores aponta um futuro bem melhor", comemora Bocão. Para o baterista Hélio Pisca, estar em São Paulo oferece inúmeras vantagens para o reconhecimento da banda, como um maior número de locais para se tocar. Mas acredita que a maioria das novidades originais não parte de lá. "São Paulo serve como caldeirão para misturar todas essas idéias novas e jogar para o Brasil e o mundo", define.
A banda já tem shows agendados para o primeiro semestre, e reúne material para a gravação de um novo CD, cujo convite já apareceu. Para Bocão, as novas composições revelam que A Casa Flutuante está chegando a sua melhor fase. "Estamos pré-produzindo no apartamento onde moram o Pisca e o Billy (tecladista, saxofonista, pianista e arranjador musical). No material novo tem muitas músicas que compus e algumas do Pisca. Acho que existe um amadurecimento e um enriquecimento sutil das melodias e harmonias nesse novo trabalho", anuncia o baixista. A empolgação é tamanha que eles não pensam em voltar para Alagoas, ao menos que seja para fazer shows.
Fincando os pés
Se a Casa Flutuante resolveu apostar em palcos econômica e geograficamente privilegiados, a banda que lhes deu origem resolveu mesmo fincar os pés em Alagoas, embora o vocalista e guitarrista João Paulo reconheça as dificuldades de sobreviver do trabalho autoral no Estado. "Temos bandas muito profissionais por aqui, mas é complicado. A economia é pífia, a gente não pode tocar em um intervalo menor que três meses, senão não dá público.
Viver de Mopho é impossível em Maceió", lamenta, destacando um dos principais obstáculos encontrados pelas bandas locais. Contraditoriamente, foi essa mesma dificuldade (que poderia rolar em outros lugares) que contribuiu para que o músico resolvesse permanecer por aqui. "Eu não estava disposto a algumas possíveis roubadas, já tinha filhos", conta João, que, para pagar as contas, se divide em mais duas bandas: a Alma de Borracha, cujo repertório é composto de clássicos do rock'n'roll, e um grupo musical de baile. A dúvida sobre o que fazer surgiu depois que, já com o primeiro CD em mãos (lançado pela gravadora Baratos Afins), eles fizeram shows pelo Brasil, os quais não corresponderam à expectativa de todos os componentes da banda. "E eu estava meio de ressaca da viagem, queria repensar o nosso trabalho, não a existência da Mopho, mas como as coisas deveriam acontecer dali em diante", explica.
E, a partir daí, muitas mudanças aconteceram: hoje, da formação original, somente João Paulo permanece. O segundo CD, Sine diabulo nulus Deus (algo como "sem o diabo não existiria Deus") foi totalmente mixado e produzido por ele, que dividiu todos os instrumentos com Leonardo Luiz. Atualmente, a Mopho conta com João Paulo (vocal e guitarra), Nardel (guitarra), Dinho (teclados), Mano (baixista) e Jeff (bateria). Com a reorganização de um grupo, decidiram botar a casa em ordem e divulgar melhor o Sine diabullo.... No ano passado, fizeram o lançamento em Maceió, e shows no Sul e Sudeste estão sendo planejados para este semestre. A grande novidade é que, nesses momentos, deve se dar a renovação da parceria com Hélio Pisca e Júnior Bocão, respectivamente baixista e baterista da primeira formação. Durante a turnê, eles assumirão os antigos postos, uma vez que Mano e Jeff não poderão acompanhar a banda. "Banda é um relacionamento, é como um casamento. Chega uma hora em que a gente briga com tudo, mas depois percebe que não era tudo aquilo, que não há mais problemas", diz João Paulo, referindo-se às questões internas que acabaram levando à dispersão dos músicos que compunham a formação original da Mopho. Agora, aguarda com uma certa ansiedade, ou com prefere, um pé atrás, a realização dos shows. "Não é preocupação com a química do grupo", faz questão de frisar, destacando o entrosamento com Pisca e Bocão. Na verdade, é uma forma de não criar muitas expectativas. Então, por enquanto, viagem só está nos planos de João Paulo se for para mostrar o trabalho. Um novo disco também não está na cabeça do músico, que assina boa parte das faixas dos CDs. "Tenho algumas composições que não entraram no CD, o Dinho tem outras, mas se não for para trabalhar como banda, prefiro esperar", explica. E, a despeito da liberdade que possuem na Baratos Afins, a expectativa é mesmo procurar um selo maior.
Depois de ter feito uma excursão pelo Sul para divulgar o trabalho repleto de alagoaneidade - desde as referências ao poeta Jorge de Lima aos repentes e emboladas - a Xique Baratinho também resolveu que ficar em Alagoas era a melhor escolha. A viagem em 2003 foi, na verdade, uma turnê alternativa: os músicos percorreram nove mil Km de carro - estampado com a marca dos patrocinadores. A iniciativa foi também uma forma de chamar a atenção do público e da mídia nos locais por onde passaram. No final daquele ano eles se apresentaram no Mercado Cultural de Salvador, o que acabou abrindo novas portas: um curador assistiu à empolgante apresentação e convidou-os a mostrar o trabalho no Sesc Pompéia, em São Paulo.
"Na viagem pelo Sul passamos por Antonina e Curitiba, no Paraná; Florianópolis e Itajaí, em Santa Catarina. Conquistamos um público legal, que já tinha uma receptividade aos alagoanos por conta da Mopho, apesar de termos um som bem diferente", conta o baixista da banda, Lelo Macena. De volta à terrinha, os integrantes discutiram uma possível partida, possibilidade que foi descartada. "Decidimos levar nossa música dessa forma, tendo nosso QG em Maceió mesmo. Ninguém na banda é mais menino, não tem aquela coisa de se empolgar demais, de criar expectativa. Até porque essa coisa de fazer sucesso é algo relativo, depende muito do que se quer com a música. E a gente também vê as dificuldades da galera que tá fora", explica Lelo. Como todos os componentes da banda também têm outras atividades, resolveram tocar o barco adiante nas águas de Maceió.
Em 2005, a Xique Baratinho deu um tempo, e está retornando à ativa este ano. "Eu fui trabalhar com jornalismo, mas não me distanciei da música. Eu e o Railtinho (vocalista da banda) fizemos a trilha sonora dos curtas-metragens do Werner Bagetti (vencedor das duas edições da competição Doc TV-AL)", relata Lelo, que também planeja a realização de videoclipes. A perspectiva para este ano é boa: o CD (que anteriormente teve lançamento independente, sem distribuidora) já está se encaminhando, e as músicas estiveram disponíveis para dowload na MP3Magazine entre dezembro e janeiro. Além disso, estão na trilha sonora do filme Mulheres do Brasil, de Malu de Martino, lançado este mês, e assim como Wado, Mopho e Sonic Jr, também irão se apresentar no FMI, que promete dar visibilidade à produção musical de Alagoas. Os convites para tocar fora também estão aparecendo. Bom, longe ou perto, aqui ou ali, para o público alagoano não resta dúvida: eles merecem conquistar outros palcos.
O Hermano é mesmo uma figura. Eu acho que a história dele com as velas de jangada tem a ver com os causos que ele conta - parece pescador - mas brincadeiras à parte, eu gostaria de acrescentar que o trabalho da ideário é mesmo muito rico, tendo à frente a Regina Célia Barbosa, mulher do Hermano, que é uma ótima profissional da cultura alagoana. parabéns.
elizamagna · Maceió, AL 10/3/2006 20:37Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!