Em busca de pessoas invisíveis

Mingau
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Paloma Abdallah · Aracaju, SE
24/9/2006 · 362 · 35
 

A saga de dois repórteres à procura de gente que quase ninguém vê

A pauta que fomos cobrir? Invisibilidade social. Ler sobre o assunto, pesquisar algumas fontes, levantar alguns questionamentos. Nenhuma novidade para um jornalista, ou, até mesmo, no nosso caso, para estudantes de jornalismo. Agendamos as entrevistas com as fontes oficiais – aquelas pessoas bem visíveis – e combinamos que depois dessas, iríamos a campo, procurar nossos personagens – os invisíveis.

Nós, uma dupla de repórteres, saímos cada qual com seu bloco de anotações e a cabeça fervendo de idéias. Quando passávamos pela Rua José do Prado Franco, centro de Aracaju, um de nós tentou fazer um sinal para saber se pararíamos ali e entrevistaríamos um pedinte que estava ao lado. O outro repórter não respondeu ao sinal e continuou andando. Alguns metros depois, ele comentou:

– Aqui não tem ninguém para entrevistarmos, é melhor procurarmos em outra rua.

– Mas e aquele senhor pelo qual passamos? Ele estava sentando pedindo ajuda, não seria um bom personagem? – perguntou a repórter.

– Que senhor? – encerrou ele sem saber de quem a colega falava.

O professor da Universidade Federal de Sergipe Doutor Marcus Eugênio, diz que existem basicamente duas teorias para explicar as causas da invisibilidade social. A primeira explica a invisibilidade a partir da percepção dos indivíduos. As pessoas estariam tão familiarizadas com o ambiente que ele não produziria qualquer tipo de estímulo nelas. Assim, como um pedinte já faz parte da paisagem do centro das grandes cidades, muitas vezes passamos por eles e não nos damos conta.

Depois de ter sido interrompido por alguns alunos do curso de Psicologia e por alguns telefonemas em seu celular, um ótimo exemplo do oposto de pessoa que estávamos procurando, Marcus Eugênio continuou a explicação. Segundo ele, a outra teoria utilizada pela Psicologia é a da banalização. Essa tem a ver com despersonalizar os indivíduos. Muito utilizada no exercício de certas profissões, por exemplo, os médicos quando tratam seus pacientes pelo número do quarto em que estão internados ou pela doença de que o paciente é portador.

Qual das teorias, então, explicaria o fato de o repórter não ter enxergado o pedinte? Marcus Eugênio afirma que um pouco das duas. “Em parte o fato se deu porque os pedintes já fazem parte do centro da cidade e em parte porque já criamos mecanismos para despersonificar esses indivíduos”.

Voltamos à Rua José do Prado Franco para tentar saber quem era, afinal, o pedinte. Ele teve apenas uma resposta para todas as nossas perguntas: “Nada a declarar”. Continuamos sem saber quem ele é. Talvez, acostumado a tantas humilhações, achou que nossa investida fosse mais uma tentativa de desrespeitá-lo. Ele não foi o único que se recusou a falar.

Somente depois de muita andança, encontramos uma jovem que se dispôs a falar um pouco da sua vida. Sentada em cima de um papelão, Janaína Santos, 25, começou a contar sobre a sua história. Ela teve paralisia infantil aos dois anos de idade. Desde então, os membros inferiores atrofiaram e ela não conseguiu mais andar. A mãe, que tem outros seis filhos, passou a dedicar atenção especial a ela.

Desde menina, Janaína trabalha pedindo ajuda – é assim que cada pedinte encara a sua rotina, para eles, pedir também é um tipo de trabalho. Segundo o professor Marcus Eugênio, encarar a rotina de pedinte como trabalho é um mecanismo de defesa. É como se o pedinte se sentisse menos humilhado quando enxerga o ato de pedir como um trabalho propriamente dito.

De tanto tempo que passamos ajoelhados para ouvir os relatos de Janaína, nossos joelhos começaram a doer. Então, decidimos nos sentar no chão junto a ela para continuarmos a ouvi-la. As pessoas que passavam pelo calçadão passaram a olhar curiosas a cena. Ironicamente, naquele momento em que nos falava de sua invisibilidade, Janaína deixou de ser invisível. Ela contou que tem uma filha de quatro anos. Enquanto ela trabalha, a filha está na escola. Perguntamos o que a menina será quando crescer. Janaína não pensou muito ao responder: “Eu quero que ela seja tudo aquilo que eu não pude ser”.

Trabalhos Invisíveis - Segundo Marcus Eugênio, a invisibilidade social não atinge apenas os pedintes, mas todas as profissões que na escala social são vistas como inferiores. Um estudo feito pelo psicólogo Fernando Braga da Costa, Mestre em Psicologia, deu origem ao livro “Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social”. No livro, o autor relata que durante nove anos vestiu-se de gari na Universidade de São Paulo (USP) e vivenciou diversas situações, dentre elas passar por amigos e professores e não ser reconhecido justamente porque vestia a farda de gari.

O retrato da invisibilidade marca várias outras profissões. João Alves, frentista há oito anos de um posto de gasolina localizado no bairro Atalaia, tem uma rotina de trabalho da qual não reclama. Chega às 6h, sai ao meio-dia. Ganha pouco, mas, segundo ele, não pode reclamar, pois com o pouco estudo que tem não arranjaria nada melhor. Pai de três filhos, ele é contundente ao dizer que mesmo gostando da profissão não quer que nenhum dos seus filhos siga seu exemplo. “Esse trabalho é para quem não tem estudo. Meus filhos estudam, eles podem ser médico, dentista, advogado. Com certeza, eles não se orgulham da minha profissão”.

O tratamento que recebe dos clientes varia. “Alguns chegam, já me conhecem, sabem meu nome, são clientes de muitos anos. Outros acham que por estarem dentro de um carro são melhores do que eu. Quem eu trato melhor? Claro que é o que me trata bem”, contou o frentista. João relatava suas histórias com alegria. Talvez estivesse se sentindo importante agora que alguém finalmente se interessava por aquilo que ele tinha para contar.

“Amo a minha profissão, ela é muito importante, mas as pessoas não reconhecem”. Foram as primeiras palavras de Messias Nascimento, garçom há 45 anos. Aos 64 anos de idade, seu Messias disse que já vivenciou muitas situações, algumas bastante desagradáveis. “A gente quando chega a uma certa idade começa a ser chamado de tio ou de ‘vô’. Não posso fazer nada, senão eu sou despedido. O cliente tem que ter sempre razão. Por isso que muitas vezes finjo nem escutar ou entender que debocham de mim”.

Segundo ele, além de o trabalho ser muito desgastante, o salário de garçom não compensa. Ou melhor, as gorjetas oscilam e não há como ter uma renda certa. Mesmo contra a lei, muitos garçons recebem apenas os 10% sobre a conta dos clientes que atendem. “O pior é quando o cliente fica meu amigo e acha que por isso não precisa mais pagar os 10%”, conta o experiente garçom que mesmo a contra-gosto viu um de seus três filhos seguir a mesma profissão que a sua.

Paulo Silva (nome fictício para preservar sua identidade), com apenas 14 anos, também já é uma vítima da invisibilidade social. O garoto cursa a 6ª série do Ensino Fundamental e tem oito irmãos, mas para ajudar com as despesas em casa vende toalhinhas na Orla de Atalaia com pinturas de personagens de desenhos infantis. Ele mesmo pinta as toalhas, apenas olhando para as figuras dos personagens. No entanto, Paulo conta que sequer é notado pela maioria das pessoas para quem tenta vender sua arte. “As pessoas estão mais preocupadas com o caranguejo e a cerveja”, diz. É provável que com isso os garçons concordem.

Será que se ele mudasse a forma de abordar as pessoas, adiantaria de alguma coisa? E se, ao invés de ele perguntar se alguém “quer comprar uma toalhinha”, ele abordasse as pessoas explicando que mais do que uma toalha, o que ele vendia era a sua arte? “Chegue até as pessoas dizendo que as suas pinturas são feitas por você e que você as faz somente olhando para a figura e pintando diretamente na toalha e que mesmo fazendo sua arte você não deixe de estudar”, explicamos a ele. O garoto agradeceu e foi em busca de vender as seis peças que lhe restava. Alguns metros depois, vimos que um senhor havia comprado várias das suas obras. Paulo nos dirigiu um sorriso de agradecimento. Por um instante, aquele garoto se sentiu valorizado, como talvez tenha experimentado poucas vezes na vida.

Reportagem de Paloma Abdallah e Wellington Nogueira para a edição 14 do jornal-laboratório Contexto, do curso de jornalismo da UFS

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Viktor Chagas
 

Gosto muito da idéia de entrevistar pessoas invisíveis. Já cheguei a pensar nisso algumas vezes, e tenho alguns personagens na manga (o "condutor Roberto" do Metrô das seis e 20 - que sempre se apresenta no radinho para as moscas; um cantor de churrascaria que uma vez conheci, e dedicava uma música a cada pessoa do bar, na tentativa de se fazer notado; o mendigo-artesão, que vive na esquina da minha rua e faz trabalhos de carpintaria e arte naïf).

Achei o máximo quando vocês dizem que o simples fato de alguém entrevistar uma invisível fez com que ela deixasse de ser invisível... E isso me fez associar a invisibilidade à uma reação à cobiça, mais do que ao estranhamento puro e simples.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 22/9/2006 15:37
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Tati Magalhães
 

Me lembrei de cara da pesquisa sensorial que o Flávio Rabêlo, do grupo Saudávei Subversivos, fez aqui em Maceió. O intuito era despertar a sensação de ficar invisível aos olhos daqueles que transitam no Centro da cidade. Por 12 horas, ele ficou sentado em frente à catedral, sem que mesmo conhecidos dessem conta da sua situação. Daí lembrei que inúmeras vezes passava por mendigos dormindo em baixo do sol, no meio da calçada, e pensava que, se eles estivessem ali, mortos, só se perceberia pelo mau-cheiro.
Concordo que a invisibilidade está sempre relacionada a situações de pobreza e inferioridade. Na verdade, à nossa indiferença diante dessas situações.
Meus olhos, sinceramente, não se acostumam com isso.

Tati Magalhães · Maceió, AL 23/9/2006 23:50
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lu almeida
 

Paloma Abdallah e Wellington Nogueira , senhores futuros jornalêros!!! meninos, esse texto poderia desmembrar um documentário. ou melhor, uma monografia.
e vcs, entregaram a matéria pra turma que foi entrevistada :)
beijocas

lu almeida · Aracaju, SE 24/9/2006 17:43
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Espiga14
 

Parabens Paloma e Wellington pela excelente reportagem.

Espiga14 · Salvador, BA 25/9/2006 10:39
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patricktor4
 

parabens aos dois, uma grande matéria e um jeito muito gostoso de escrever o texto, parece que estou ouvindo vc me contar estória paloma.
bjs

patricktor4 · Recife, PE 25/9/2006 12:53
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jujuba
 

Pessoas invisíveis? Fantástico! É o tipo de tema que ninguém nem se lembra. E o mais interessante é sobre a Janaína que, quando começou a ser entrevistada, passou a ser "visível"!

Gostei também desse negócio das pessoas virarem meio que "paisagens". Ótimo texto memso!

jujuba · Santo André, SP 25/9/2006 13:32
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fpsgyn
 

Ontem observei que um prédio havia sido construido perto de casa. O que será que está errado ? Informação demais nos tira a percepção da realidade ou a realidade demais que está nos tirando a percepção das coisas.

fpsgyn · Goiânia, GO 25/9/2006 15:04
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Pedro Rocha
 

Opa!

Faço parte do grupo Território de Expressão no Mundo Anônimo (TR.E.M.A.) aqui em Fortaleza e a nossa abordagem é justamente nesse sentido Paloma e Wellington... Há alguns meses estamos trabalhando com esse tema e queria compartilhar algumas reflexões sobre ele.

A primeira é com relação a questão teórica. Não entendi bem a explicação do professor Marcus Eugênio, mas achei um pouco despolitizada, talvez apenas baseada em fatores psiquicos e tal... Não sei, achei isso.
O "Homens Invisíveis" do Fernando Braga da Costa realmente é uma obra-prima. Inclusive aquele livro pode ser lido como uma bela reportagem. Lá ele vai dizer que a invisibilidade pública em origem na "humalhação social" e na "reificação", quanto tudo vira mercadoria. Acho que esa compreensão é muito massa pra gente começar a entender esses fenômenos e nossas contradições na história, já que fazemos parte das instâncias e classes legitimadas da sociedade.

O que eu acho é que a reportagem faz um panorama legal sobre o tema, mas é um panorama e deve ser visto como isso. Vocês passam os olhos pelos personagens, apresentam eles rapidamente, às vezes sem falas diretas deles, e na maioria das vezes eles não passam de uma pedinte, um garçon, um frentista, porque não são abordadas outras dimensões deles sabe, ficou ainda na dimensão do trabalho, que justamente o que funda tudo hoje em dia.

É crítica, mas é incentivo. Vamos mergulhar nesse universo, para descontruirmos essa brutalização cotidiana e superarmos nossas contradições. Parabéns.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 25/9/2006 15:41
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Pedro Rocha
 

ah!

Quanto a linguagem, tá muito bem escrito, mas pode ser enriquecido com descrições da galera, de seus aspectos físicos, seus trejeitos... Ajuda a individualizar, a deixar as pessoas em 3d.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 25/9/2006 15:44
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Drigo Garcia
 

Parabéns Pam e Well. Espero que o mercado permita-nos continuar fazendo esse tipo de trabalho quando estovermos formados.

Drigo Garcia · Aracaju, SE 25/9/2006 15:57
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Viktor Chagas
 

Muito bom o comentário, Pedro!
Pessoal, alguém indicaria literatura sobre invisibilidade pública online???

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 25/9/2006 16:08
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Edgar Borges
 

Gostei demais. É um assunto muito interessante. Ficamos cegos para este tipo de sujeito social. Gostei muito da inserção das explicações psicológicas.

Edgar Borges · Boa Vista, RR 25/9/2006 17:10
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Ana Cullen
 

Fantástico! Podia rolar umas indicações de leitura online mesmo... e eu acho que a explicação pra invisibilidade tem muito mais que o psicológico... eu ia começar a falar de sociologia, sociedade orgânica e mecânica, mas deixa pra lá, é complicado e delicado mesmo.
Abraços!

Ana Cullen · Brasília, DF 25/9/2006 19:03
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Rosa Campello
 

Parabéns pela reportagem! Fiquei bem emocionada, talvez , em parte pelo fato de que eu mudei pra uma área degradada de Recife/PE, há 1 ano. Descobri, depois de observar pela janela com o zoom da minha cÂmera, que o grupo de menores q se drogam na minha rua, tinha um "tutor"- o responsável pela distribuição da droga. Fui falar a respeito desse tutor com alguns moradores antigos da rua e eles desconheciam completamente a figura que eu descreví. Exatamente como se o sujeito não existe, fôsse invisível, incrível. mais uma vez, parabéns!

Rosa Campello · Recife, PE 25/9/2006 21:03
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Rafa oliva
 

uo uo uoooou...nada como a natureza humana para ditar os fatos correntes e,propriamente, discutidos.impossível perceber, impossível dar atenção a todos no estado que chegamos.A superpopulação é um dos problemas.

Rafa oliva · Aracaju, SE 25/9/2006 22:55
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Pedro Rocha
 

Divulgando.... O grupo TR.E.M.A. tá com uma série de reportagens aqui no Overmundo sobre os terminais de ônibus de Fortaleza pela madrugada, justamente procurando narrativas de pessoas "invisíveis". Aqui

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 26/9/2006 09:40
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cacau melo
 

Realmente, muito boa reportagem! parabéns aos nossos dois mais novos jornalistas.Quem sabe essas pessoas possam se tornar visiveis um dia, quando a sociedade, em geral,possa enxergá-los!

cacau melo · Aracaju, SE 26/9/2006 09:51
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Marcelo Uchoa
 

Só resta tecer os mais cinceros comentários a respeito do trabalho desenvolvido por vcs. Parabéns!!! Já havia lido sobre o tema e fiquei muito feliz quando li o texto no jornal "contexto" da ufs. Parabéns colegas, mais uma vez.

Marcelo Uchoa · Aracaju, SE 26/9/2006 11:41
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Marcelo Uchoa
 

ôpa!!!! desculpa "SINCEROS"

Marcelo Uchoa · Aracaju, SE 26/9/2006 11:46
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Gabriela Amorim
 

Já falei a vcs o quanto gosto dessa matéria?
No mais, continuem andando pela sombra e procurando o caminho do bem. A força está com vcs!
Sucesso!!

Gabriela Amorim · Aracaju, SE 26/9/2006 17:38
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Claudiocareca
 

Qdo li o txt lembrei de uma matéria do luciano rulk, onde ele se vestiu de gari...
Lembrei tb de um livro q li há mto tempo chamado "Delicado Equilibrio" q fala da grave situação social q vive a Índia. No livro três histórias se cruzam com personagens periféricos e para a maioria das pessoas em qq lugar do mundo: invisiveis.

Claudiocareca · Cuiabá, MT 26/9/2006 17:52
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Claudiocareca
 

O escritor chama-se: Rohinton Mistry e o livro é da editora Objetiva. parece q esgotado {:-(

Claudiocareca · Cuiabá, MT 26/9/2006 17:54
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Fabricio Kc
 

Aconselho a todos que assistam os Documentários de Eduardo Coutinho! Desde "cabra marcado para morrer" até "Santo Forte" e Edifício Master"... É legal enxergarmos seres humanos desumanizados, pq além de despersonalizados, eles são emsmo desumanizados, coisificados. E nós contribuímos com isso, porque somos parte dessa sociedade fragmentada, composta de partes que não formam um todo. É bom discutir isso aqui... e lembrar que esses "invisíveis" o são para muitos, mas não para alguns..pq mesmo um pedinte tem, por vezes, um amigo na rua... Mas nós enxergamos por nossos olhos, não é?

Fabricio Kc · Salvador, BA 27/9/2006 11:01
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Yusseff Abrahim
 

Tenho que expressar aqui a minha felicidade em ver que tanta gente está percebendo onde estão as verdadeiras notícias. Sou uma pessoa que prega o fim a "legitimidade" para falar ao público ao considerar que, pelo menos sociopoliticamente, para ter uma opinião consistente o essencial é estar vivo.
Escrevi um livro-reportagem nesse viés, que estarei lançando em CD-ROM agora em outubro. Fui à posse de Lula em 2003 para entrevistar, na contramão da grande mídia, as pessoas que se tacaram de suas casas até Brasília. No relato de 19 entrevistados com direito à comparação com o noticiário massificado, a gente percebe claramente porque não só a intenção de votos do candidato não caiu nestas eleições com todo o bombardeio noticioso sobre escândalos, como ficam claros os mecanismos discurssivos que fazem mídia, por si mesma, dá um tiro contra a própria cabeça dia após dia.
Com este tema estou desenvolvendo minha tese de mestrado.
Aos que já perceberam onde está a saída para um jornalismo de credibilidade, vamos nos comunicar para somar.
Abraços eufóricos do tamanho do Amazonas.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 27/9/2006 15:48
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Yusseff Abrahim
 

Se me permitam uma autopropaganda, meus textos no Overblog seguem esta abordagem, na série de matérias que fiz em Parintins, posso destacar o texto sobre o Dono do Boi Caprichoso, com informações que turista nenhum vai encontrar nas fontes ditas "oficiais" do evento, e, mais impressionante do que as voltas que o mundo deu para materializar-se em um sanduíche inventado na cidade, eu nunca vi igual.
Dois textos recompensadores e em sintonia com o nosso pensamento aqui exposto.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 27/9/2006 16:00
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tiagón
 

excelente texto, pessoal. li com avidez, principalmente a entrevista com a Janaina. parabéns!

...só fiquei pensando se um editor de jornalão não iria barrar o último parágrafo, pelo jornalista estar interferindo na realidade retratada, e assim, aproximando-se demais do objeto de análise. mas talvez seja só paranóia minha.

tiagón · Porto Alegre, RS 27/9/2006 16:24
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000
 

Paloma Abdallah e Wellington Nogueira, vocês estão de parabéns pela bela reportagem e eu gostaria muito de ter bons profissionais como vocês aqui em SP.

Imagine que estudo em uma faculdade particular aqui em Osasco, SP, e tenho alguns colegas que não sabem nem escrever e eu vejo isso com muita preocupação.

Essa pauta foi um "presente" ou a sugestão partiu de de vocês?

000 · Osasco, SP 27/9/2006 19:14
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eduardo ferreira
 

leiam "as cidades invisíveis" de ítalo calvino.

parabéns e continuem seu trabalho de investigação e produção de reportagens: a cidade é mais que um tema. é um oceano.

os territórios são muito bem definidos pelos marcos-visíveis (as fronteiras) e muito bem guardados pelos seres que se misturam à paisagem tornando-se espécies de guardiões invisíveis.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 27/9/2006 20:59
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WELLINGTON NOGUEIRA
 

Pessoal agradecemos todos os comentários e críticas. Ficamos felizes em poder acompanhar aqui as discussões que esse tema gerou. Gostaríamos de esclarecer algumas dúvidas que surgiram nos comentários postados.

A idéia da matéria surgiu quando eu(Wellington) estava em um ônibus e percebi que havia subido pela porta do fundo um senhor, provavelmente morador de rua, e as pessoas o ignoravam completamente. Ele estava sentado nos degraus próximos a porta e observei que na hora dos passageiros descerem do ônibus muitos deles faziam de conta que aquele senhor não estava ali e passavam "por cima" dele, empurrando-o contra o corrimão do ônibus. Aquela cena me marcou. Lembrei então do trabalho do Fernando Braga da Costa e percebi que aquele homem era um ser invisível socialmente.

Sugeri então a Paloma que fizéssemos uma matéria retratando a situação dos moradores de rua para mostrar o quanto aquelas pessoas eram invisíveis aos olhos da sociedade. Saímos para fazer a matéria e percebemos que a maioria das pessoas que entrevistávamos ,apesar de passarem o dia inteiro nas ruas, tinha uma residência por mais precária que fosse na periferia da cidade. Decidimos então retratar não só essas pessoas, mas também outras vítimas da invisiilidade, como pôde ser verificado na reportagem.

Desejávamos abordar o tema de uma forma que pudesse fugir do tradicional texto jornalístico (quem, como, onde, porque). Acreditamos que um jornal laboratório é o local ideal pra inovações e para a sugestão de pautas que possam fugir do que estamos acostumados a presenciar nos meios de comunicação.

Encontramos muita dificuldade na hora de realizar este trabalho. Como chegar até as fontes? Essa talvez tenha sido a mais difícil das tarefas.Não foi fácil conversar, procurar trocar experiências com essas pessoas. A rejeição em conceder entrevistas era um mecanismo de autodefesa para essas pessoas, mas que com muito esforço pôde ser contornado por nós. Procuramos em todos os momentos tornar claro para as nossas fontes o objetivo do nosso trabalho pois acreditávamos que essa era a forma mais honesta de fazê-lo.

Pensamos que ele ficou limitado na dimensão do trabalho como foi bem relatado pelo Pedro Rocha nos comentários acima. Tínhamos em mãos um grande volume de informações e entrevistas, que no processo de escrita da reportagem precisaram ser selecionadas. Com certeza ficaram de fora coisas muito importantes por causa do penoso processo de edição.

Com relação ao comentário do Tiagon sobre o último trabalho do texto: foi difícil inserí-lo no texto final. Recebemos críticas afirmando que da forma como tínhamos escrito o texto poderíamos estar incentivando o trabalho infantil. O caso foi levado inclusive para as aulas de deontologia da comunicação. O professor afirmou que o texto não condizia com o que pregava o ECA, incentivando assim o trabalho infantil.

O texto teve grande discussão em sala de aula e resolvemos melhorá-lo para acabar com possíveis insinuações. Se isso já foi motivo de questionamento dentro da própria universidade o que aconteceria então se o texto fosse produzido por um jornal comercial? Acreditamos que seria vetado com certeza.

Mais uma vez deixamos aqui nossos agradecimentos.

WELLINGTON NOGUEIRA · Aracaju, SE 28/9/2006 11:57
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Yusseff Abrahim
 

Ah, sim. esqueci de parabenizá-los pela interferência, e assim dialogando com o colega Tiagón - RS, acho que os editores e o que se faz na grande mídia não deve ser o parâmetro. O bom jornalista é aquele que deve ter senso tático de mudança, e fugir da realidade a qual pertence considero a mais covarde das omissões, a fuga do que nos torna cidadãos e humanos.
Abraço Tiagón! E parabéns aos autores.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 28/9/2006 16:13
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tiagón
 

é, talvez eu tenha lido o texto comparando pelo 'padrão' demais. e pessoalmente não me importo com o padrão, pelo contrário: disso já temos bastante... tem que experimentar mesmo!

e então já veríamos no texto uma leve inclinação ao jornalismo cidadão - menos 'estéril' que o tradicional?

ou ainda... o jornalista deveria ser tão invisível quanto as pessoas retratadas na matéria? ...acho que o texto e os comentários mostram que não. :-)

muito bom o debate. abraços a todos!

tiagón · Porto Alegre, RS 28/9/2006 16:25
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Pedro Ferrari
 

Parabéns pelo texto.

Estudo História e todo esse debate me lembrou muito uma forma de encarar o objeto historiográfico, a micro-história.

Fico feliz de perceber tal sensibilidade em um objeto tratado de forma jornalística.

Mais uma vez, parabéns.

Pedro Ferrari · Brasília, DF 4/10/2006 21:19
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apple
 

Essas pessoas despretigiadas socialmente incomodam também.

Quando sentam em um assento de banco de ônibus ao lado de algum passageiro, esse costuma mudar de lugar. Acredito que possa ser até ser certo mudar de lugar porque algumas dessas pessoas invisíveis têm um cheiro insuportável e agem incomodando colocando o dedo no nariz, por exemplo.

Seria adequado continuar no mesmo banco de ônibus e fingir que tudo está normal? Fico pensando porque também é chato para com a pessoa que fica... Se bem que eles precisam de um pouco de visão também, 'as vezes. Parece que nem ligam em incomodar ou não vêem...

apple · Juiz de Fora, MG 21/11/2006 07:08
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Fabinca
 

Muito bom o texto! parabéns!

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 16/12/2006 19:35
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CCorrales
 

Gostei muito. Li só hoje, através do destaque randômico na lateral direita. O título chamou a atenção.
Há algum tempo (acho que 1 ano ou até mais) o Fantástico (eu acho) apresentou uma matéria sobre isso.. É claro que com a superficialidade global de costume.
Abraços

CCorrales · São Paulo, SP 21/5/2007 00:55
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