“Nossas classes dominantes procuram que os trabalhadores não tenham história, não tenham doutrina, não tenham heróis nem mártires. Cada luta deve começar de novo, separada das lutas anteriores: a experiência coletiva se perde, as eleições se esquecem. A história aparece assim como propriedade privada, cujos donos são os donos de todas as outras coisasâ€.
(Rodolfo Walsh, citado aqui)
Todo jornalista que tenha apreço pela profissão e pela literatura precisa conhecer a obra de Rodolfo Walsh. Ativistas e militantes, principalmente os latino-americanos, também. Este ano, completou-se 30 anos de sua morte. Seu corpo, no entanto, segue desaparecido. No Brasil, pouco sabemos deste argentino, um dos grandes personagens do século passado em nosso continente. Sua obra não foi traduzida para o português, seus livros seguem como um mistério para nós.
Walsh, que foi guerrilheiro da organização de origem nacionalista e peronista Montoneros, nos anos 70, morreu assassinado pela ditadura militar de Vidella (1976-1983), numa emboscada traiçoeira, um dia depois de divulgar a “Carta aberta de um escritor à Junta Militarâ€, um documento que pela sua importância histórica deveria ser distribuÃdo em todas as escolas do continente, para que nos lembremos diariamente do horror e da infâmia.
Nessa carta-reportagem sombria, a última de sua vida, Walsh denuncia os crimes contra os direitos humanos – hoje notórios – cometidos pelos militares argentinos. Até aquele momento, março de 1977, segundo o escritor, a contagem dos caÃdos dava conta de 15 mil desaparecidos, 10 mil presos polÃticos e 4 mil mortos. Walsh foi mais um a fazer parte desta triste estatÃstica, que cresceria exponencialmente nos anos seguintes.
O principal livro de Rodolfo Walsh, Operación Massacre, é um trabalho de jornalismo-literário produzido muito antes deste gênero tornar-se coqueluche nos Estados Unidos, o que viria a ocorrer nos anos 60. Nesta obra, o escritor relata as descobertas que fez, atuando de maneira clandestina, sobre um fuzilamento em massa na região metropolitana de Buenos Aires, ordenado pela junta militar que golpeou a Argentina em 1955.
Durante um ano, o jornalista mergulha na história desse fuzilamento, e conta, a partir do depoimento inicial de Juan Carlos Livraga, que sobrevivera à tentativa de assassinato, a história de cada um dos sobreviventes e dos que não tiveram a mesma sorte. Revela, inclusive, que a ordem para as execuções partiram da Casa Rosada (sede do governo argentino) e que o assassÃnio foi empreendido inclusive antes de a Lei Marcial ser decretada no paÃs.
Desde então, e até sua morte, Walsh desenvolve uma rigorosa carreira como jornalista, escritor e militante. Ainda em fins dos anos 50, segue para a nascente Cuba revolucionária, onde cria a agência de notÃcias Prensa Latina, e participa da história ao descobrir, utilizando dotes de criptógrafo, o plano da CIA de invadir a Bahia dos Porcos, permitindo à revolução cubana antecipar-se à ação militar coordenada pelos Estados Unidos.
Na Argentina, paÃs que de 1955 a 1983 alternou perÃodos de ditaduras com governos de verniz democrático, foi protagonista de publicações que marcaram época, como o jornal da “CGT de los argentinosâ€, central sindical que foi protagonista de importantes lutas sociais, e “El Diario Noticiasâ€, ligado aos Montoneros, que foi publicado por cerca de um ano e meio no inÃcio da década de 70, ao lado de nomes como Paco Urondo, Miguel Bonasso, Tomáz Eloy Martinez, Juan Gelman, entre outros grandes das letras argentinas.
Sua obra está toda disponÃvel em espanhol. A escola de jornalismo de Operación Massacre prosseguiu com Quién mató a Rosendo? e Caso Satanowsky. Também publicou textos exclusivamente literários, como Diez Cuentos Policiales, AntologÃa del cuento Extraño, Variaciones en Rojo, entre outros. Aventurou-se pela poesia, pelo teatro, mas foi fundamentalmente um cronista policial, com uma obra que é comparada a de Roberto Arlt.
Quase todos os textos sobre Walsh afirmam que ele nasceu no vilarejo de Choel Choel, em Rio Negro. Investigação histórica publicada por “Equipo de Investigaciones Rodolfo Walsh†aponta, no entanto, que ele nasceu no dia 9 de janeiro de 1927 no povo de Lamarqué, que só seria reconhecido com este nome em 1947. Morreu há 30 anos, no dia 25 de março de 1977. Carregava consigo a morte da filha, também militante revolucionária, pelas forças de repressão, a qual nunca superou.
Walsh morreu perseguido, na obscuridade, da forma como ele prefigurava o fim de todos aqueles que se levantaram contra a opressão em tempos de infâmia. Mas a nossa memória há de celebrar sua vida. E não seria mal que alguém se aventurasse a traduzir sua obra ao português. Para que jornalistas, escritores e militantes brasileiros tenham acesso também à história dos mártires e lÃderes dos trabalhadores, contada pelos próprios.
Boa Rodrigão. Fico feliz com sua estréia no Overmundo. E igual ao Walsh existem centenas ou milhares de bons escritores que não foram traduzidos no Brasil. Talvez em Portugal, mas a reserva de mercado das editoras por aqui diminuem em muito o acesso dos brasileiros às grandes obras do mundo. Isso poderia ser assunto para novos posts.
rrtaddei · São Paulo, SP 31/7/2007 22:58
Bien venido ao Overmundo. Duvido que se fale do Walsh nas escolas de jornalismo ou nas redações por aÃ. Tem um site, do Wladymir Ungaretti, que conta muitas coisas interessantes sobre jornalistas ao estilo do RW.
Deak · BrasÃlia, DF 1/8/2007 11:19pois bem, o mistério não é pq não conhecemos walsh, mas pq não conhecemos - isto é, não temos acesso - a jornalistas, escritores, artistas latino americanos... é um problema! parabéns rodrigo!
Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 1/8/2007 22:28Savazoni, muito grato pelo seu texto. Acho importantÃssima a utilização destes espaços alternativos da internet para a divulgação de idéias, o esclarecimento e o desnudamento de informações intencionalmente abafadas. Ficarei feliz se você puder me indicar onde poderei encontrar maiores informações sobre a obra ficcional de Walsh. Um abraço!!
Dico da Fonseca · Porto Alegre, RS 2/8/2007 11:43Valeu Bob, valeu Andre. meu comentario nao tem acentos por conta de um problema no meu micro. Valeu tb. Bernardo. Acho que essa e mesmo a questao. Sem duvida. Dico, a obra ficcional do Walsh precisa ser encomendada em espanhol, em alguma livraria. Ela esta editada, na argentina. Acho que outra forma e fazer uma busca no Google para saber o que existe de disponivel em formato digital.
Savazoni · BrasÃlia, DF 2/8/2007 12:08Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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