Em tom de saudade

Biscoito Fino/Divulgação
Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim estaria completando 80 anos hoje
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Tacilda Aquino · Goiânia, GO
28/1/2007 · 94 · 6
 

"Vou te contar / os olhos já não podem ver / coisas que só o coração pode entender". Estes são os versos de um dos principais compositores do século 20 que os fãs de telenovela escutam todos os dias em Páginas da Vida, exibida pela Rede Globo. Wave, o tema de abertura da novela das 21 horas, é apenas uma entre dezenas de canções essenciais que levam a assinatura do mestre, sozinho ou com parceiros como Newton Mendonça, Chico Buarque e Vinicius de Moraes. O músico, falecido em 8 de dezembro de 1994 - vítima de embolia pulmonar seguida de parada cardíaca, no hospital Mount Sinai, em Nova York -, revive nas constantes regravações de sua obra e será alvo de todas as homenagens em 2007, ano do seu 80º aniversário. A data oficial é hoje (25 de janeiro), mas a primeira lembrança chegou no final do ano passado, com o lançamento de Tom Jobim ao Vivo em Montreal . O DVD, lançado pela Biscoito Fino, capta Tom Jobim em um dos pontos culminantes de sua carreira e em uma das fases mais alegres de sua vida.

Este é o primeiro DVD do compositor e traz clássicos como Chega de Saudade, Wave e Garota de Ipanema – a música, feita em parceria com Vinicius de Moraes, rivaliza com Yesterday, dos Beatles, no ranking das músicas mais regravadas da história.

O DVD foi gravado em 1986. Tom havia lançado pouco tempo antes Passarim. Ãlbum de inegável qualidade artística com clássicos instantâneos como a faixa-título, feita para a minissérie O Tempo e o Vento, Anos Dourados e Gabriela --da trilha sonora do filme com Sônia Braga e Marcello Mastroianni. O trabalho transcendia o mero lado musical para se transformar num relato hedonista e familiar do bom momento pessoal que o maestro vivia.

O que o espectador vê, no DVD, é a alegria que Tom sentia em fazer música ao lado de amigos e parentes. Estão em cena Ana Lontra Jobim - mulher e uma das cinco vocalistas -, e os filhos Paulo (violonista) e Elizabeth (outra vocalista), além de agregados como Jacques Morelenbaum (violoncelo), Danilo Caymmi (flauta), Sebastião Neto (baixo) e Paulo Braga (bateria), mais os vocais de Simone Caymmi (mulher de Danilo), Maúcha Adnet e Paula Morelenbaum (mulher de Jacques). Juntos, eles desfilam um repertório que inclui composições antigas (Samba de Uma Nota Só, Garota de Ipanema, Samba do Avião, Chega de Saudade e A Felicidade) com recentes (Two Kites e Borzeguim), além de Waters of March, versão feita pelo próprio compositor para Ãguas de Março.

Tom Jobim ao Vivo em Montreal traz como extra uma entrevista do compositor concedida em sua casa, no bairro do Jardim Botânico, no Rio, em 1981, ao jornalista Roberto D'Ãvila. Na entrevista, Tom, reflexivo e com uma profunda capacidade para fazer um balanço de vida e analisar a presença da sua obra no panorama da MPB, fala de música, brasilidade e sentimentos como o amor e a tristeza, indispensáveis à sua criação. Faz toda essa avaliação sem parecer amargo ou ressentido e até brinca com o destino, criando mais um de seus geniais aforismos sobre o país: "O Brasil é de cabeça para baixo, mas se você disser isso, te colocam de cabeça para baixo".

Tom, compositor que soube como poucos unir a sofisticação do jazz, o requinte do erudito e a simplicidade da música popular, lançou mais de 30 discos e influenciou praticamente tudo o que veio a ser conhecido como MPB na segunda metade do século passado. Foi gravado por artistas como Frank Sinatra, Miles Davis e Sting, Sarah Vaughn, entre tantos outros. A última gravação de Tom foi um dueto com o amigo Frank Sinatra, dois meses antes de sua morte. A música que escolheram para gravar tem um título, no mínimo, curioso: Fly me to the Moon (Leve-me voando para a Lua).


Os tons de Tom
Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu em 1927, na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. O pai se separou da mãe e morreu aos 46 anos. Ela casou novamente e foi o padrasto de Tom Jobim que o incentivou a aprender piano, o instrumento comprado para a irmã dele, que não tinha muito jeito para a música. Mas suas inclinações já eram óbvias. Antes do piano, que começou a aprender aos 14 anos, ele já se iniciara na gaita e no violão. Teoria, estudou com os professores Lúcia Branco Tomás Terán, Kollreuter, Radamés Gnatalli, Leo Peracchi, Alceu Bocchino, o melhor que se poderia encontrar naquela época (anos 40). Mas nem sua vontade nem destino eram as salas de concertos. Ele seria o mais completo compositor da história da MPB ou, como melhor o explicou Carlos Lacerda (o ex-governador udenista do Rio, também jornalista): “Tom Jobim conseguiu o prodígio de ser compositor popular sem ser popularâ€. Sua música era inegavelmente brasileiríssima, mas a estrutura devia muito a compositores como Debussy, Villa-Lobos e Satie, o que o levou a ser acusado de plagiador ou de americanizado. Cismavam até com o “Tomâ€, que seria mais uma prova deste suposto americanismo. O “Tomâ€, ele se cansou de explicou, era como a irmã o chamava quando aprendeu a falar e acabou como apelido familiar.

A carreira de Tom Jobim deslanchou quando o jornalista Lúcio Rangel o recomendou a Vinicius de Moraes, que procurava quem lhe musicasse o Orfeu da Conceição. Foi o primeiro trabalho em que ele imprimiu sua marca registrada, legando para o repertório da MPB um de seus clássicos definitivos: A felicidade. Um trabalho que virou filme (Orfeu Negro, do francês Marcel Camus) e foi elogiado pela revista Time, que citava pela primeira vez no exterior o nome de Tom Jobim, algo de que ele se orgulhava numa entrevista concedida à revista Manchete, em 1957. Nem sonhava que poucos anos mais tarde, uma parceria sua com Vinicius, Garota de Ipanema, chegaria ao primeiro lugar da disputada parada de sucesso dos EUA. E mais, dividiria um álbum duplo com o maior cantor popular dos EUA em todos os tempos: Frank Sinatra, com um repertório todo assinado por Tom Jobim e parceiros.

Em 1971, em pleno regime militar Tom foi detido e obrigado a comparecer à policial federal para averiguações de tempos em tempos. Isto o fez tomar a atitude de quase todos os artistas que contestavam o regime: escolher a saída do Galeão. Foi quando lhe atribuíram a frase “A melhor saída para o músico brasileiro é o Galeãoâ€. Ele sempre negou a autoria. Curiosamente o aeroporto carioca não é mais chamado de Galeão, foi rebatizado de Tom Jobim

Tom passou a morar nos Estados Unidos, onde lançou alguns de seus melhores discos: The adventurers, Tide e Stone Flower (1970), Sinatra & Company (1971), Matita Perê (1973), Elis & Tom (1974), Urubu (1976) e Terra Brasilis (1980). Fez diversas trilhas para cinema, textos para livros sobre ecologia (mas sem proselitismo), com fotografias da mulher Ana Jobim. Nos anos 80 formou a Banda Nova com os músicos Paulo Jobim, Danilo Caymmi, Sebastião Neto, Jacques Morelenbaum, Paulo Braga e as cantoras Ana Jobim, Elizabeth Jobim, Paula Morelenbaum, Maúcha Adnet e Simone Caymmi, e, pela primeira vez, apresentou-se por cidades brasileiras nas quais nunca havia estado. O show era o mesmo apresentado em Montreal e lançado em DVD pela Biscoito Fino.




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Roberto Maxwell
 

Tacilda, e os links? Expliquei direitinho????? Se nao, me perdoa...

Beijo

Roberto Maxwell · Japão , WW 25/1/2007 17:53
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Tacilda Aquino
 

Roberto, não recebi a mensagem em que você explica os links. Para qual e-mail você mandou? Mande pata tacildakino@hotmail.com ou danisholic@gmail.com

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 26/1/2007 18:58
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Cida Almeida
 

Vou te contar: é sempre muito bom ler você. Viajei no texto e na saudade das coisas lindas que Jobim, com certeza, estaria fazendo se ainda estivesse por aqui.

Cida Almeida · Goiânia, GO 29/1/2007 13:48
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mariana s
 

gostei muito do texto. já gostava das musicas e é muito bom saber mais sobre.
beijo

mariana s · Barueri, SP 29/1/2007 15:01
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crispinga
 

Dá um pulo no Entrando na Toca do Vinicius!
BJK
Cris

crispinga · Nova Friburgo, RJ 16/7/2007 11:53
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Remisson Aniceto
 

Tacilda, obrigado pelo elogio ao meu poema. Fiquei muito feliz. Leio seus textos, todos maravilhosos, compostos com inteligência e bom gosto. Você, assim como o Jobim, precisa continuar nos contando coisas tão belas, para que nossos olhos possam ver e brilhar de satisfação. Um abraço!

Remisson Aniceto · São Paulo, SP 2/8/2007 09:41
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