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Embelezando céus e fabricando emoções

Rinaldo Santos Teixeira
O céu de Japaraíba, pela manhã, e dois dos barracões da "Piroshow".
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Rinaldo Santos Teixeira · Campo Belo, MG
3/1/2008 · 250 · 13
 

Tem duas horas que eu venho brigando com as palavras só pra tentar descrever a beleza de Japaraíba, cidade do centro-oeste de Minas, bem perto de onde o Rio São Francisco ainda é menino. Besta eu, bastava falar do horizonte que ela te dá de presente logo de entrada: um mundaréu de cana-de-açúcar num terreno plano que mais parece um tapete verde debaixo do sol forte da região e de um céu com todos os tons azulados, do azul marinho ao azul claro, que de noite escurece e se estreleja todo, ficando igual uma raspa de espelho jogada num pano preto. Mas sai fora olho gordo, porque Japaraíba também é fabricante e exportadora de belezas e emoções pros céus, olhos e ouvidos de todas as cidades do Brasil e do exterior.

Com 44 anos de idade e uma população perto dos 5.000 habitantes, além do espaço contíguo à Usina de cana-de-açúcar, ela faz parte, junto das cidades vizinhas, do segundo maior pólo de fabricação de fogos de artifício do mundo, encabeçado por Santo Antônio do Monte, ficando atrás apenas da China (até porque foi esse país que inventou a pólvora no século XI). São dezenas de produtos variados, como as bombas coloridas que cortam o ar e se arrebentam depois nas cores Verde, Violeta, Vermelha, Dourado, em efeitos visuais como o Chorão e o Rabo de Pavão, ou sonoros, como o Apito e os foguetes de até 24 tiros e três respostas. Na fabricação, trabalham pessoas como o casal Alexandre Modesto Pessoa, o Sandrinho, e Dalila Araújo Pessoa, que, amigos, sempre me hospedam, e desta vez fizeram esforços pra eu conhecer um pouco das fábricas de pirotecnia.

Logo cedo, 6:10, eu e Dalila tomamos o ônibus dirigido pelo Sr. Valdir Grigolo, o Gaúcho, e nos juntamos aos demais funcionários uniformizados rumo à Piroshow, na zona rural da cidade, onde cumprem jornadas diárias de 8 horas. Lá, um primeiro portão se abriu e fomos ao refeitório pro café, onde acontecem também palestras periódicas sobre segurança na lida com os explosivos. E às 6h45, todos ocuparam seus lugares e eu, entre tímido, curioso e medroso, parti para a observação das tarefas nos barracões da Cartonagem, uma das seis etapas do fabrico dos foguetes. Nela, grandes bobinas de papel reciclado são lixadas e picadas em máquinas, e depois se transformam em arruelas, com furos ou tapadas, e tubos maiores e menores, nos quais, depois de secos na estufa, serão inseridos os explosivos. Mas esta já é outra parte e só acontece do outro lado de um segundo portão (uma das normas para as instalações das fábricas).

Para atravessá-lo, os funcionários devem deixar na guarita seus isqueiros, celulares, anéis, relógios e tudo que possa causar atrito e conseqüentemente incidentes, “porque segurança não depende de sorte”, diz um dos muitos recados espalhados pelos prédios. Atravessei, colado ao supervisor geral, Antônio Francisco, o Kiko, que me apresentou todos os “barracões”, como são chamados os cerca de 50 pavilhões identificados segundo suas atividades, enumerados e espalhados com cálculo na paisagem ondulada do cerrado japaraibense, coberto, de novo, por um céu sem igual. “Ande, não corra”, me disse outro cartaz pregado numa árvore.

Abaixo, reduzo as informações colhidas com Kiko (durante essa visita) e depois com Sandrinho, porém o processo é complexo demais pra que eu acerte na descrição, mas vamos tentar: fomos ao barracão da “Matriz”, onde são prensados nos tubinhos de papel a massa da “espera”, uma mistura de terra refratária, perclorato e pólvora negra, responsável pela impulsão do fogo - “numa escala de tempo entre a saída do canudo até a altura do estouro” - segundo Kiko.

De lá, os tubinhos vão para a “Enchimento de rodas”, barracão onde serão colocados em formas redondas que depois são transportadas num carrinho para a “Manipulação”, barracão em que a pólvora branca (mistura de perclorato, alumínio escuro e enxofre) responsável pela explosão, é colocada nos tubinhos, que depois serão encaminhados para a “Colação”, onde, enfim, os tubos menores são inseridos nos maiores, conforme a quantidade de tiros do produto final. Daí, secos na estufa, são levados para a “Arrematação”, onde se tornam finalmente foguetes dignos de embalagens (“o forte das vendas”, segundo Sandrinho) e transferências para o “depósito de produtos acabados” e a comercialização.

Hora e meia depois, terminado o passeio-aula, fui ao escritório de Júnia Miranda, responsável pela Piroshow, que me disse que as fábricas de pirotecnia são perseguidas pelo estereótipo do risco de acidentes de trabalho - freqüente no passado - e que em parte ainda existe, mas que, com o cumprimento das regras de segurança de órgãos como o Ministério do Trabalho, do Ministério do Exército, mais as de proteção do ambiente ditadas pela FEAM (Fundação Estadual do Meio Ambiente), entre outros, pretende-se chegar ao risco zero, “pois mantemos em Santo Antônio do Monte o maior laboratório em pesquisas sobre fogos de artifício da América Latina”, ou, corrigindo-se: “do mundo, pois os chineses não mantêm nenhum laboratório”.

“O que funciona na China são guetos de fabricação de fogos, um por produto, e muitas vezes valendo-se de trabalho escravo, segundo informações de empresários em visita por lá, enquanto fabricamos até cem produtos numa só fábrica”. E esclareceu-me ainda que a alavanca das produções durante o ano todo é o foguete 12x1, o “rojão”, consumido nos jogos de futebol; e as festas periódicas respondem pelas safras, de junho, com as festas juninas, e de final de ano, Natal e Ano Novo, “quando saem mais os produtos coloridos, as bombas de polegadas e as girândolas coloridas (kits com bombas de cores)”.

Enquanto Dalila trabalha na “Piroshow”, no barracão de embalagem das bombas numeradas, que têm efeitos de tiros e são soltas no chão, seu esposo Sandrinho trabalha como manipulador de cores e drageador na fábrica “Cinco Estrelas”, também na zona rural de Japaraíba, que eu visitei no segundo dia, desta vez guiado por Jullya Graziela Martins, técnica de segurança. Com mais coragem e menos timidez, acabei entrando nos barracões e conversando com os funcionários, como o Dinaldo que me explicou o processo de lixar e cortar os papéis da Cartonagem e Giordana, que prensava arruelas nos canudos.

Mais pra baixo, do outro lado do portão, conheci, através de Júllya, Noraney e Thaís, envolvendo “apitos”, “uivos tremulantes” e miudezas em papéis coloridos, Jussara esticando carretéis de linha e fabricando estopins numa engenhoca enorme, e tirei fotos dos demais, como as moças responsáveis pelos milhares de traques e espoletas e os manipuladores de pólvoras com botas de borracha imersas em um filete de água de 5 cm. – regra para os barracões de manipulação de produtos mais sensíveis.

E, no final do passeio por essa verdadeira fazenda de fogos (de propriedade do Sr. Élcio Gonçalves, e sob responsabilidade do jovem David) – também cheia de árvores e que tem até uma mina d’água natural, os funcionários Geovani e Ronan testaram do lado de fora, para eu ver, o “sputinik”: um artefato do tamanho de uma vela que, quando aceso no chão, solta fagulhas no formato de uma árvore de Natal prateada; e a “metralhadora”: que acesa e lançada ao chão, metros adiante, emite uma rajada de ruídos similares aos dessa arma. Mas, antes disso, o barracão em que mais me detive foi o de número 21, o da Drageadeira.

É nele que Sandrinho insere um copo de pequenas sementes arredondadas e umedecidas e, conforme lhes adiciona preparados químicos, elas vão crescendo e se transformando nas “baladas de cores”. Depois, de acordo com a quantidade de massa, ele as coloca às palhas de arroz em cumbucas de papelão que formam esferas, as bombas de meia à dezesseis polegadas, que com os estopins e pólvoras de combustão, mais o “flash”, produto que as faz abrir em circunferências luminosas, são colocadas em canos individuais ou em Kits para as queimas de fogos. Segundo ele, todo preparo que leva o sal bário (nitrato ou carbonato) resulta na cor verde; se é o nitrato de estrôncio, dá o vermelho, e o amarelo pode vir do carbonato de potássio.

Agora, depois de aproximadamente 12 horas de escrita, constato que faltou muita coisa pra dizer ou que, como adverti, posso ter passado alguma informação trocada sobre cores, químicos e pólvoras. Mas, oh, cada vez mais gosto de Japaraíba que eu costumo chamar de Japaraíso, e qualquer dia eu volto lá e escrevo mais acertado procês sobre o céu dela e os japaraibenses.

Bom 2008 pra todos os overmanos.

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Hermano Vianna
 

Alô Rinaldo: boas informações e fotos para a véspera do réveillon! Os fogos já estão pipocando sem parar aqui no Rio de Janeiro, mesmo agora 2 da manhã! Fiquei curioso para saber um pouco mais sobre a história da indústria de fogos em Japaraíba: desde quando existe? E a produção é vendida apenas para o Brasil ou é exportada? E já há fogos de artifício inventados no Brasil? Abraços e bons fogos logo mais!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 31/12/2007 02:04
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Rinaldo Santos Teixeira
 

Oi, Hermano, por estar longe de lá, acabo dando estas informações da memória das conversas que tive com os japaraibenses: o aumento do número de fábricas na região se deu na década de 80; a produção segue para o exterior também, sendo o Uruguai, o Paraguai e os EUA os principais compradores. Sobre fogos brasileiros, a "metralhadora", por exemplo, é uma invenção da "Cinco estrelas", segundo Sandrinho, mas deve haver muitos produtos brasileiros, pois como ele disse, as fábricas mantêm engenheiros químicos que vivem testando misturas. Abração, e tomara que este ano seja bem afogueado.

Rinaldo Santos Teixeira · Campo Belo, MG 2/1/2008 14:03
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Tancredo Maia Filho
 

Olá Rinaldo, desta vez consegui me cadastrar e votar.
O teu ótimo texto me levou às lembranças de minha infância em Cruzeiro do Sul-Acre, onde os fogos de artifícios (os 12x1, os girassóis, os pega-moleques, e coutros cujos nomes já não lembram) coloriam e iluminavam as noites de Santo Antônio, São João e São Pedro, as noites de Natal e Ano Novo e, principalmente, as noites do novenário de Nossa Senhora da Glória (de 7 a 15 de agosto), a padroeira da cidade. Vinha gente do Alto Juruá, desde a Foz do Breu; e do Baixo Juruá, desde Ipixuna, onde hoje tem um dos maiores centros do Santo Daime do mundo.
Boas lembranças.
Este ano pretendo ver as Congadas na aprazível Santana do Jacaré.
Um grande abraço e votos de um 2008 bem afogueado, como diz você.

Tancredo Maia Filho · Brasília, DF 2/1/2008 16:53
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Hermano Vianna
 

oi Tancredo: por favor, escreva sobre essas festas de Cruzeiro do Sul e sobre as Congadas (qual a data?) aqui no Overmundo! Abraços e bem-vindo!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 2/1/2008 20:54
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Rinaldo Santos Teixeira
 

Oi, Tancredo, usei uma foto sua do rio Jacaré pra falar de Santana, bom uso da amizade (os créditos tão lá). É uma nota de guia. Leia também, Hermano, por favor, embora eu tenha falado da Congada somente como dica de "quando ir".

Rinaldo Santos Teixeira · Campo Belo, MG 3/1/2008 11:21
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RICASA
 

primão amei o seu texto....sou sua fã....um hiper beijo Ritíssima

RICASA · São Paulo, SP 3/1/2008 15:19
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Helena Aragão
 

Que texto bacana - para qualquer época, mais ainda para estes dias de festejos. Interessante ver a mobilização da cidade por conta dessa atividade. Chamou atenção a questão de querer transformar a possibilidade de acidente em risco zero. Fiquei curiosa para saber mais sobre a questão dos acidentes e seu impacto. Se bobear há médicos mais especializados em queimaduras e afins do que em outros lugares... Mas aí já é outra pauta. Tomara mesmo que o índice de acidentes caia ao mínimo. Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 3/1/2008 15:30
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Rita Lima
 

Muito bom este texto, Rinaldo li seu livro, vc é talentoso demais

Rita Lima · São Paulo, SP 3/1/2008 22:19
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Pedro Belasco
 

Grande Rinaldo. Parabéns pelo trabalho.

Pedro Belasco · São Paulo, SP 4/1/2008 15:41
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thiagonacasato
 

Curioso como um vilarejo como o Japaraíba-MG pode ser um grande centro de fabricação de produtos de pirotecnia. Cidades pequenas, mas de grandes corações! É o Brasil esbanjando riqueza nos seus pequenos rincões. Abraço.

thiagonacasato · Rio Branco, AC 5/1/2008 10:40
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André Dib
 

Japaraíba pela manhã parece pintura do século 18.

André Dib · Recife, PE 5/1/2008 19:43
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Cintia Thome
 

Japaraíba . Texto riquíssimo. Esse Brasil é lindo!
Encantada fiquei.
abç

Cintia Thome · São Paulo, SP 6/1/2008 22:15
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Rinaldo Santos Teixeira
 

Oi, Helena, deu vontade de pesquisar e de falar de tudo, mas eu era só um de fora, e pra falar mais acho que teria que trabalhar por lá (o pessoal até achou que eu era um novo funcionário). E oh, perdão por estar respondendo só agora, pra tu e pra Rita, o Pedrão, o Thiago do Rio Branco, o André Dib e a querida Cintia Thome, obrigado pela leitura de vocês e um abraço forte.

Rinaldo Santos Teixeira · Campo Belo, MG 15/1/2008 12:17
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Na Piroshow: olha o azul do céu por cima do barracão. zoom
Na Piroshow: olha o azul do céu por cima do barracão.
A mão de Kiko com uma rodinha já cheia. zoom
A mão de Kiko com uma rodinha já cheia.
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Na "Cinco Estrelas", Thiago prensa pólvoras na Matriz.
Jussara fabicando estopins. zoom
Jussara fabicando estopins.
Dalila zoom
Dalila
Em casa, Dalila e Sandrinho. zoom
Em casa, Dalila e Sandrinho.

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