Bem, explicando sem mais delongas o trocadilho, esse texto não é um guia para onanistas interessados em saber como se dar bem no Japão pela porta de trás. É um texto sobre como seis malucos decidiram iniciar um evento de curtas-metragens e música brasileira do outro lado do Atlântico. Estes malucos escolheram para si o nome de The Rabadas Cultura Clube e estão em plena atividade (sem trocadilhos, por favor) difundindo obras contemporâneas brasileiras na Terra do Sol Nascente.
Quem são os Rabadas?
Além deste que vos escreve, os The Rabadas são três brasileiros (Pamela Hata, estudante de chinês; Sabrina Hellmeister, cantora; e Sarah Chieko Kimura), uma japonesa (Asumi Hiramoto, pedagoga, e de malas prontas pro Brasil) e uma francesa (Pauline Cherrier, a qual morou em São Paulo e estuda questões sobre os migrantes brasileiros no Japão). Este grupo divide entre si as tarefas de produzir o evento, selecionar e legendar os filmes, divulgar na empresa brasileira e na japonesa, produzir um blog e um zine (clique aqui para baixar a versão em português), dentre outras coisas.
O primeiro Rabadas a gente nunca esquece...
O primeiro evento do grupo rolou em julho e trouxe três filmes brasileiros para a churrascaria Que Bom, um pequeno restaurante na área de Asakusa, a antiga região boêmia de Tóquio. Nos dias de evento, mesas e cadeiras dão lugar a um espaço informal e aconchegante, onde engradados de cerveja viram (quase) confortáveis assentos. A edição inaugural trouxe os filmes Neguinho & Kika de Luciano Vidigal, Pretinho Babylon de Cavi Borges e EmÃlio Domingos e Tá Tudo Dominado, deste que vos reporta. Já a segunda edição, que rolou no primeiro domingo de agosto, trouxe Acadêmicos do Morrinho Partes 1 & 2 de Fábio Gavião, Renato Dias, Nelcirlan Souza, Chico Serra; Operação Morengueira de Chico Serra e Godô Quincas, 40 Dias de Clara Angélica e Manguetown de Pedro Paulo Carneiro.
Para as duas primeiras edições, os filmes foram selecionados por temas. Porém, como é difÃcil trazer o material do Brasil para o Japão, decidimos que o Brasil já é um grande tema para o evento e que diversificar as obras ao máximo pode ser muito mais interessante para quem está participando do evento. Mas, como se pode perceber pela seleção, todos os filmes exibidos até agora têm a música como um componente forte. Isso é uma estratégia para atrair um nicho de mercado, que é o dos japoneses que curtem música brasileira.
DJs japoneses?
Nas duas edições anteriores do evento, todos os DJs convidados foram japoneses. Tocaram no The Rabadas Cinema Clube Loko2Kit (funk carioca), DJ Popozuda (baile funk), Antonio Yodobashi (residente da festa, especializado em MPB dos anos 60 e 70), Shinji (soul e disco music brasileira), Minoru Takahashi (samba-soul) e Yoshihiro Narita (pop black music brasileira). Os DJs são, em geral, pessoas que produzem algum tipo de evento, festa ou distribuição de música brasileira ou, ainda, possuem algum tipo de atividade ligada à cultura e que fazem DJ como forma de divulgar seus trabalhos. Há, ainda, os amadores, que tocam por paixão pela música brasileira, tendo como meio de sobrevivência algo totalmente diferente da arte.
Loko2Kit, por exemplo, é considerado o pioneiro do funk no Japão. Porém, anda pensando em aposentar as carrapetas para se dedicar à sua loja de roupas, uma das preferidas das tchutchucas de Shibuya. Já Antonio Yodobashi, apesar de sua imensa coleção de vinis e CDs, trabalha numa empresa de ar condicionados. Shinji tem uma loja de discos, cheia de raridades brasileiras. Não preciso dizer que ele é o fornecedor de muita gente. A DJ Popozuda está começando no ofÃcio. Ela mora em Miyazaki, uma pequena e pobre provÃncia no sul do Japão. ¨Como lá não tem brasileiros¨, ela diz que acabou tendo que se tornar DJ para tocar para si mesma, em sua casa no alto de uma montanha. Apesar do exercÃcio solitário, a moça não deixou a peteca cair com a pista cheia.
Shinji e Minoru Takahashi tocam e produzem a festa Terça, um inusitado evento dedicado ao soul e à disco brasileiros. Já Yoshihiro Narita é um dos organizadores da SambaNova, uma festa de música brazuca bastante conhecida e bem estabelecida na cena toquiota. As duas festas lançaram coletâneas com as músicas mais baladas. O pessoal da Terça lançou três compilações com músicas dos anos 70 e 80. Já a galera do SambaNova está na 18a. edição de sua coletânea.
Desafios
Nâo são poucos os desafios do grupo, que trabalha apenas com o patrocÃnio do restaurante Que Bom, onde o evento é realizado. O custo do evento é alto e o restaurante cobre apenas uma pequena parte dele. O restante vem do trabalho voluntário de cada membro. Tradução dos filmes para o japonês e legendagem são feitos pelos participantes. São serviços ultra-especializados e caros. O envio dos filmes tem sido feito pelos próprios diretores ou, ainda, por amigos que vivem no Brasil, como a cineasta Candy Saavedra.
Outro desafio é temático. O Brasil é grande e mostrar a diversidade do paÃs com obras inovadoras, desafiadoras e que despertem o interesse do público japonês é algo bastante difÃcil. Há muito material disponÃvel na rede, o que facilita a curadoria dos filmes. Mas, há muitas obras e poucos produtores na rede. Por exemplo, é possÃvel encontrar um filme no excelente Porta Curtas Petrobrás, mas encontrar o diretor ou os produtores é uma jornada. E, quando finalmente parece ter sido achado algum tipo de contato, rola o problema da resposta. Muitos simplesmente não dão retorno ao email enviado. Outros o fazem semanas depois.
Porém, o evento vem dando certo. O público da primeira e da segunda edição aprovou o The Rabadas Cinema Clube. A idéia, agora, é crescer, trazer mais gente nova e, claro, incluir os brasileiros que vivem no Japão. Estes, não apenas como público mas, também, como produtores. Além disso, claro, conquistar mais gente aà do Brasil para fazer parte dessa nossa rede. E aÃ, topa? Você vai ver que enRabar o Japão vai ser gostoso!
É difÃcil saber se os japoneses piraram mais com "Acadêmicos do Morrinho" ou com o pancadão pós-exibições. Também me chamou a atenção o trabalho de pesquisa dos DJs japoneses off-funk -- baús revirados, preciosidades encontradas.
Roberto, vai botando água no curry rice de feijão que eu prometo que volto.
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