Ensaio fotográfico sobre prostituição premiado

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Bianca Melo · Belo Horizonte, MG
27/5/2009 · 5 · 1
 

O fotógrafo mineiro Francilins é um dos escolhidos em time de vencedores do Prêmio Conrado Wessel. Ariano Suassuna está entre os agraciados.


Anos de aproximação, uma irresistível paixão pelo tema e, principalmente, observação atenta renderam ao fotógrafo e antropólogo mineiro Francilins a consagração com o Prêmio Conrado Wessel na categoria Arte, subcategoria Ensaio Fotográfico Publicado. O trabalho premiado, o ensaio fotográfico-antropológico “vi elas” foi feito ao longo de seis anos de interações nos hotéis de prostituição da Rua dos Guaicurus, no Centro de Belo Horizonte.

Francilins vai receber o prêmio em São Paulo, na próxima segunda-feira, 1º de junho, junto com grandes mestres, como o escritor Ariano Suassuna - reverenciado na categoria Cultura - Literatura. Desde 2002, a Fundação Conrado Wessel homenageia nomes com trabalhos de destacada qualidade nos campos das ciências, cultura e artes. A Fundação, sediada em São Paulo, foi criada graças a um desejo expresso no testamento do industrial e profissional da fotografia publicitária Conrado Wessel. A lista de vencedores ao longo dos anos tem nomes, como Affonso Ávila, Ferreira Gullar, Lya Luft e Ivo Pitanguy.

O ensaio “vi elas” foi selecionado por um corpo de jurados especialistas em publicidade e fotografia de renome nacional e internacional. O trabalho de Francilins se diferencia da fotografia tradicional, sobretudo pela abordagem aos objetos clicados. Assim como o antropólogo em uma pesquisa de campo, é com longa presença no espaço retratado que ele constrói sua relação com o ambiente e com as pessoas que vão estar na mira da sua lente. Nos 20 prostíbulos do entorno da Guaicurus foram mais de 150 visitas e dois períodos vivendo em um deles.


Antropologia própria

Como ele diz, suas imagens seguem na direção de uma fotografia que poderia ser nomeada de “involuída”: no rastro do mineral, do orgânico. Incorporar o fungo em vez de limpá-lo, voltar-se para dentro da fotografia. Desta maneira, ele tece uma antropologia própria. Tanto que o ensaio “vi elas” foi um dos primeiros trabalhos imagéticos do país a ser aceito pela universidade como Antropologia.

No caso da Rua dos Guaicurus, a experiência resultou em um conjunto superior a 15 mil imagens. São fotos ambientadas em espaço denso com cores fortes, sombras e muito neon. Às vezes o observador enxerga fantasmas só visíveis graças à luz que o fotógrafo soube aproveitar.


As 3.000 mulheres da Guaicurus

Francilins é formado em antropologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Já publicou imagens em jornais, revistas e assina um livro-objeto com parte do trabalho na Guaicurus. Nos últimos anos, vem se dedicando à pesquisa das relações entre os fazeres do fotógrafo e do antropólogo.

Justamente pela fusão das duas atividades, os anos de convivência na Rua dos Guaicurus geraram mais do que fotos. Ele conseguiu fazer um mapeamento dos locais e levantar dados que permitem estimar o número de mulheres – cerca de 3.000. Às 8h, elas já estão prontas à espera dos primeiros clientes. Os 20 prostíbulos visitados estão concentrados em quatro quarteirões, a maioria em edifícios art décor, que levam assinatura de imigrantes europeus que viveram na capital mineira.

É possível que seja o maior complexo de prostituição a preço popular do país. Por ali, o programa varia de R$5 a R$ 15 e as mulheres aguardam já nuas em suas camas. As portas ficam abertas para facilitar a exposição e agilizar a escolha. A presença dessa atividade nos hotéis por tanto tempo faz pensar na curiosa convivência da tradicional sociedade mineira com tal zona boêmia, incrustada no miolo da capital do Estado.


Contatos /informações:
-Bianca Melo (assessoria de imprensa): (31) 2535-0762/ 8704-0762 biancademelo@gmail.com
www.francilins.com




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mariana pimenta
 

Conheci o Vi Elas logo no início. Em 2004, me lembro de receber o Francilins no escritório para tratar algumas fotos que tinha feito na Guaicurus para o vi elas. Impressionada, olhava aquilo como se estivesse do outro lado da porta, vendo pela fechadura o que acontece em um mundo inimaginável para as jovens moças de família mineiras. E alguma coisa naquelas fotos me fazia querer ver mais, os detalhes, as formas, entender o que realmente estava sendo mostrado ali. Depois estive em uma exposição na UFMG. Ver o trabalho impresso em grande formato foi ainda mais interessante. Olhava as fotos e de rabo de olho observava se alguém iria me reconhecer ali, bem como os homens saem das portas da guaicurus, ajeitando seus zípers. As fotos do Francilins têm esse poder de te levar para o lugar, trazendo textura, cores que te fazem imaginar sons e cheiros e ter sentimentos de repulsa, curiosidade, pudor, compaixão e até, porque não, admiração por essas mulheres. Merecido o prêmio e que venham muitos outros. Parabéns!

mariana pimenta · Lagoa Santa, MG 28/5/2009 00:17
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