A fotografia deu e dará muitos voltas, mas a sua mola mestra é servir à lembrança. Essa é apenas uma das tantas interseções entre os trabalhos de Sebastião Salgado e os do vencedor do prêmio Ortega y Gasset Gervázio Sánchez. O que os dois fotógrafos tem em comum é o resgate da dignidade do ser humano sem o descambamento inócuo no caminho estéril da comiseração. O instrumento para isso é uma crônica afiada e sensível da vida dos marginalizados.
A introdução de Êxodos, de Sebastião Salgado, traduz o mesmo olhar em relação ao mundo que também é celebrado por Gervázio Sánchez. Ele diz: "Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma. Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar a sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas..." O homem permanece, seja em meio a uma vila em chamas, contemplando os destroços de uma casa ou desolado diante de uma imensidão de terra seca . E para não abandoná-lo à própria sorte é preciso ter em mente a noção de que a humanidade está permanentemente em trânsito.
O escritor José Saramago comenta em seu blog o prêmio recebido por Gervázio Sánchez na perspectiva da urgência do mundo contemporâneo por uma fotografia que denuncie a indiferença, a ignorância e o desinteresse. Mais do que um documento do passado a fotografia é uma ferramenta para a construção do tempo presente. As catástrofes naturais, a imigração, a fome dos que trabalham a terra, a mutilação de corpos nas guerras... É preciso um exercício cotidiano da memória para que possamos lembrar que a realidade é única e comum a todos. Nas palavras do escritor: "Muito do que vejo, só o vejo porque outros o viram antes. Dói-me até o remorso ter sido tão poucas vezes aquele que viu. (…) O que sei, sim, é que ao muro de que me sinto às vezes rodeado, afinal bem mais frágil do que parecia, o acometem frequentemente, com particular violência, as investidas brutais da realidade. O livro recente a que o fotógrafo Gervázio Sánchez deu o título de Sarajevo é um desses casos". Nos descobrimos atordoados, imersos em uma névoa branca de incompreensão, como o motorista em Ensaio sobre a cegueira.
A fotografia nos ensina a abandonar o medo que alimenta a fantasia da visão em favor de um olhar mais próximo da realidade. O cego se debate em um mundo desconfortável, que não compreende e do qual não se sente parte. De modo confuso ele se arrasta e é totalmente refratário a projeção da própria expressão no rosto do outro, descartando assim a mais frutífera manifestação da unidade.
Em um ensaio que retrata alguns momentos da vida dos camponeses latino-americanos Sebastião Salgado nos confronta com a imagem de um homem pensativo, sentado à mesa diante de uma tijela com comida. Na cena há também uma criança, que observa o adulto de soslaio. Se o olhar da criança é de fé ou de dúvida é impossível saber, mas acontece que sobre a mesa - dividindo o espaço com a comida - repousa um clarinete. Confesso que alguma coisa no instrumento me enche de esperança...
De modo similar se apresenta a fotografia premiada de Gervázio Sánchez. Ao retratar Sofia e sua filha Alia em uma situação pungente de abandono o artista nos faz lembrar das vítimas das guerras de hoje que não enxergamos. Em sua obra não há lugar para a piedade fácil de quem nada vê. Só existe uma possibilidade aberta que é a da identificação absoluta. A guerra é o maior dos horrores, ou pelo menos é a manifestação mais pungente de tudo aquilo de monstruoso que está em nós. Já Sofia e sua filha Alia são de uma beleza contra a qual, eu espero, nenhuma violência possa.
Esperança é uma palavra difícil sim, mas é a única.
Miguens, acho que muita gente vê o trabalho de Sebastião e de fotógrafos como o Gervázio e o João Roberto Ripper e alguns outros do mesmo naipe e temática como uma espécie de apropriação indevida da miséria humana. Porém, como disse o Saramago, são esses fotógrafos que nos mostram o que a nossa cegueira não permite que vejamos. Acho que o que aprendemos vendo as imagens captadas pelo olhar deles é uma lição de respeito ao ser humano.
Parabéns pelo texto. Pouco se fala de fotografia aqui e é sempre bom encontrar afinidades.
abraços
Ilhandarilha, eu entendo que algumas pessoas tomem esse tipo de trabalho como sendo uma apropriação da miséria humana – e não posso discordar delas. De fato é isso, mas não no sentido pejorativo... Ou indébito. É preciso que cada um se aproprie dessa miséria e se identifique com ela. Afinal, estamos todos no mesmo barco e só a consciência disso pode trazer esperança.
Sobre as suas sugestões de edição:
Quanto à foto escolhida eu achei interessante o fato de não haver um homem retratado porque isso ressalta a comunicação que há, antes de tudo, entre o fotógrafo e o expectador, que é justamente o ponto central do texto. E ainda... Agora uma coisa mais subjetiva: embora o pássaro pareça ver muito longe está apenas voando, cumpre irrefletidamente o seu destino. Quem sabe do próprio caminho é o homem e por isso cada um de nós pode ver na trajetória do pássaro uma infinidade de possibilidades.
Procurei e procurei a página do Gervásio Sánchez... E continuei encontrando apenas fotos avulsas, por isso o link leva ao Flickr de outra pessoa. Se alguém por aí souber eu agradeço muito...
Abraços.
Tive que trocar a foto que postei de início por não ter autorização para usá-la.
Fiz esse modesto desenho a nankin para ilustrar o texto.
Miguens, tema e texto muito bons! Parabéns pela escolha!
Stella Tuttolomondo · Rio de Janeiro, RJ 3/2/2009 18:03
Oi Miguens. Desculpe o tempo rápido... Bom estar aqui apreciando seu ousado e indispensável texto.
Luz e Paz . jbconrado.
Miguens,
Muito boa matéria. Preciosa e pertinente.
Abs
Votei! Volto pra digerir tudo devagar, saboreando.
"não se perca de mim..."
Abraço!
Miguens,
Agora com mais tempo, senti, no mais profundo sentido, suas palavras. Lindamente sentidas por você, num ato não somente de composição literária, mas de apego às vidas. Um dia uma professora (Verônica) me emprestou o TERRA do Sebastião Salgado e nunca devolvi. Queria decifrar aquelas vidas a partir de ângulos não capturados por suas lentes. Queria mais, queria poder estampar a vida SEVERINA nos seus múltiplos sentidos. " a visão em favor de um olhar mais próximo da realidade", pra mim significava ver felicidade naquela vida simples, e o Sebastião não me mostrava.
"Se o olhar da criança é de fé ou de dúvida é impossível saber, mas acontece que sobre a mesa - dividindo o espaço com a comida - repousa um clarinete. Confesso que alguma coisa no instrumento me enche de esperança..." A esperança que não se retrata facilmente com os clics fotográficos está ali tão presente, que dói não enxergar.
Não quero com isso buscar uma alienada forma de dizer "não se importem como eles vivem, pois eles são felizes na dor". Não é isso, entende! É assim...falta pouco pra que seja tanto! Uma cisterna, um açude e pouco mais.
Podia ficar o dia todo todo aqui e talvez não me fizesse entender. O certo é que quando meu irmão brincava de bois de ossinhos e eu fazia da melancia minha boneca mais cara, eu era a menina mais feliz do planeta. E aguardava ansiosa o dia em que ele me chamava pra cavalgar uma vara de mameleiro, atrás das galinhas do quintal.
Meu querido, fiz da fotografia minha lupa, pra enxergar a vida na caatinga e ser feliz. Agora pedi pra me lotarem na zona rural (sou professora da rede estadual), porque Chica de Mané de Fulô me espera (e nem sabe que vou).
P.S. Nada entendo de fotografia, mas aprendi a olhar. Muito ficaria grata se fez por outra você me ajudasse.
Obrigada pelo envolvente texto.
Rosa,
em primeiro lugar agradeço o seu cuidado ao comentar o meu texto com tanta atenção.
Entendo perfeitamente as colocações que você fez e acho que são muito pertinentes. Talvez soe um tanto “fácil” o que vou dizer, mas a verdade é que não me parece haver nada no mundo que não seja o prosaico – e isso configura a vida de todos indistintamente. Então, nessa perspectiva, o juízo de valor que distingue os menos favorecidos dos mais favorecidos não tem muita razão de ser.
Quem não vê beleza em tudo simplesmente não vê nada.
Abraços!
ps: “Meu querido” na verdade é Minha querida... rs
Que diferença faz o sexo, se enxergamos com o coração.
he he he
De fato não tem razão de ser.
Abraço!
Confesso: Pensava o tempo todo que dialogava com o Sebastião Salgado no blog do José Saramago . Suas imagens vinham à minha cabeça, e eu me revirava na cadeira...
"Zanza daqui
Zanza pra acolá
Fim de feira, periferia afora
A cidade não mora em mim
Francisco, Serafim
Vamos embora..."
Gostei muito deste teu texto, despertou-me muito mais uma reflexão sobre a condição humana do que sobre a fotografia e sua função social. Acho que mais do que enxergarmos o ser humano como uno, precisamos observar a pluralidade, a singularidade característica de nossa espécie, respeitando as diferenças sem a imposição de nossos valores à culturas distintas, pois estas idiosincrasias são, a humanidade.
Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 7/2/2009 22:05
Que bom, Luiz! Essa foi exatamente a minha intenção ao escrever o texto.
Abraços!
Para quem interessar:
Agência Carta Maior - Sebastião Salgado busca imagens de um planeta perdido
Terra Magazine - A África sempre foi um enigma
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