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Entendendo a arte como conhecimento

Júnior Araújo
Sônia Sobral fala para um público atento em Teresina
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Natacha Maranhão · Teresina, PI
14/2/2008 · 158 · 8
 

Como falar que a Arte é conhecimento sem parecer só poesia?

Esse questionamento vem norteando o trabalho da gerente do Núcleo de Artes Cênicas do Itaú Cultural, Sônia Sobral, que esteve em Teresina pra fazer a abertura do projeto Mapas do Corpo, do Teatro Municipal João Paulo II.

Sônia veio apresentar uma mostra de vídeo-dança, lançar o box com livro + DVDs do projeto Rumos e também proferir uma palestra sobre Arte Contemporânea.

Ela revela que para falar da Arte como conhecimento é necessário estar aberto a relações que para muita gente são inviáveis, como a da Arte com a Ciência, por exemplo. “Eu fui a palestras do professor Jorge de Albuquerque, que é astrofísico e define algumas questões do ponto de vista da Física; ele trabalha questões que a Arte Contemporânea trabalha, fala de realidade, de informação, de conhecimento, de experiência, que são coisas que a Arte também faz. Quero aqui mostrar que o casamento da Arte com a Ciência é possível, e inclusive é um dos que mais dá certo. O professor Jorge mostra que a Ciência lida com o que ‘é’, com a realidade; enquanto a Arte trabalha experimentando dentro disso que é chamado de realidade. E o interessante disso é que a Arte não precisa provar nada e ainda assim experimenta, dentro do seu universo. Essas experimentações são tão necessárias quanto os procedimentos científicos, também são formas de saber’”, comenta.

Para Sônia, a estética é uma forma eficiente de organização, e tudo o que explora as possibilidades do real, que tenta novas formas de expressão é tão necessário para a evolução do universo quanto as mais modernas descobertas da ciência.

Em suas andanças pelo Brasil, ela tem conversado com artistas que falam de suas inquietações e apresentam questões que podem ser tomadas como exemplo para lidar com o preconceito de quem ainda crê que a arte não tem função. “Se a Arte não tivesse função, ela não seguiria tanto tempo como um sistema no mundo. O que não tem função no mundo desaparece. A forma de conhecimento da Arte é anterior à forma de conhecimento da Ciência. Muito antes da Ciência, nas cavernas - e isso o Piauí pode demonstrar mais do que qualquer um - os procedimentos estéticos já existiam. Na natureza também há, é só ver como os pássaros enfeitam seus ninhos. Se não houvesse uma função, se o belo não fosse uma forma de conhecimento ele não estaria no mundo. Você só permanece no mundo se você está de acordo com as leis da evolução, e evoluir significa transformar, o tempo inteiro se adaptar ao novo”, defende.

Essa transformação citada por Sônia Sobral é o ponto de partida para compreender a Arte Contemporânea, que tenta e testa novas possibilidades e procura de toda maneira conversar com o ambiente, se adaptar.

Citando formas artísticas como o tango e o balé clássico, Sobral destaca a liberdade de criação e a busca pela evolução que a Arte, no caso, a Dança Contemporânea, tem. “No tango e no balé clássico é menos permitido estabelecer novos diálogos, ousar no sentido de colocar lá dentro outras coisas para ver no que vai dar. Claro que, como tudo que está no mundo, o tango, o balé, a música erudita estão evoluindo também, mas muito mais lentamente, porque existe uma resistência ligada ao experimentar. Colocar dentro de um vocabulário de balé clássico um movimento de break, por exemplo.
Mas tem artistas e tem públicos que gostam e procuram essa forma de arte mais ‘original’, digamos assim. Só que a gente nem pode ter certeza se é o original, a gente tem uma idéia de que aquele jeito é o primeiro jeito, e assim é o melhor jeito...mas nada nos garante. Mas também nada nos garante como foi a evolução do mundo, nós temos apenas teorias”, teoriza.

O artista contemporâneo, de acordo com Sônia, dificilmente conseguiria contar as lendas, as histórias que o balé clássico conta, porque ele está mais interessado nas questões do aqui e do agora, sentem a necessidade de experimentar todas as possibilidades do real. Mas há espaço para o artista interessado no clássico porque existe uma função para cada um.

É preciso experimentar para evoluir

Sônia admite que ainda existe uma resistência muito grande à Arte Contemporânea, e isso não acontece só no Piauí, é comum em todo o país. Ela atribui isso ao desconhecimento das pessoas, que faz com elas se mantenham afastadas simplesmente por não quererem sair da cômoda posição de espectadores passivos. A Arte Contemporânea quer e precisa de espectadores tão ativos quanto seus artistas. “Em todo lugar tem uma resistência com o novo, e é muito louco pensar isso, porque a gente só existe no mundo porque a gente muda. Evoluir é se transformar, nosso corpo é feito para se adaptar a novas formas, se não fosse assim, a gente já teria acabado como ser humano. Então por que uma resistência – e aqui ela é mais cultural – à mudança? Nós fomos feitos pra mudar, pra tentar, pra experimentar. Isso não quer dizer que nós não precisamos de um porto seguro, de ir pro que já está estabelecido. Não tem nada de errado em querer o lugar que é mais confortável porque você já conhece. É menos cansativo. Mas o ser humano tem muito menos chance de evoluir se ele se isola. Tem uma discussão muito grande com os folcloristas, o pessoal que tenta manter toda manifestação folclórica como ela é; porque a gente sabe que se congelar alguma coisa, se ela ficar isolada completamente ela morre. Isso não é minha opinião, pode-se provar isso com ciência, com qualquer forma de vida...o isolamento completo é a morte. Mesmo quando se tenta preservar ao máximo as coisas, elas têm contato com o ambiente e elas trocam com esse ambiente”.

O conceito de belo também é destrinchado por Sônia Sobral. Ela afirma que o belo é uma informação que está no mundo e precisa ser alimentada. “O belo está no mundo assim como a Física. Tem uma função, tem um sentido para ele existir. O que a gente precisa é tentar tirar um pouco essa hierarquia com a qual estamos acostumados. A própria ciência tinha as Ciências Humanas como algo menor, mas agora, com toda a complexidade que o planeta está passando e as Ciências Exatas não estão conseguindo respostas, elas estão se alimentando das Ciências Humanas, porque esse tipo de conhecimento dá mais conta de trabalhar com a complexidade do que as Exatas. Estamos vivendo um sistema altamente complexo do planeta e do ser humano, com grande possibilidade de sermos extintos por essa complexidade; porque a ciência não desenvolveu teorias para entender isso tudo. Não por acaso muitos cientistas têm assistido a coisas de arte contemporânea, porque tem mais complexidade nas Ciências Humanas e na arte, hoje”, complementa, acrescentando que apesar de não ser uma cientista nem realizar pesquisas, tem tentado reunir o máximo de informações que consegue para entender as questões da dança e do teatro.

A idéia, segundo ela, é chegar no patamar onde cientistas e artistas estão “trocando”, na tentativa de aumentar a complexidade, na tentativa de responder a questões que hoje estão “engolindo” a nós todos.

“Queria ajudar a elevar a arte como forma de conhecimento, mas por outro lado quero mostrar que a arte não é mais especial por causa disso porque tudo é conhecimento”, diz.

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Helena Aragão
 

Que legal, Natacha. Interessante o que ela fala da passividade do consumidor de artes. De fato, há a tendência do consumidor de música e imagens participarem mais do processo criativo. Realmente, as instalações e outras vertentes da arte contemporânea têm esse potencial enorme de diálogo com o público... Resta conseguirem chegar a mais gente. Beijo!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 12/2/2008 19:29
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Natacha Maranhão
 

Helena, fiquei feliz de ouvir recentemente que o público de arte contemporânea do Piauí é bem qualificado. Ouvi isso dos bailarinos Helena Bastos e Raul Rachou, de SP, que apresentaram aqui o espetáculo Vapor para um público de cerca de 80 pessoas/noite, o que é mais que a média de público deles em SP.
Tem uma turma estudando e trabalhando arte contemporânea aqui e conseguindo reconhecimento de quem trabalha na área e entende do assunto. Vamos esperar pelo reconhecimento do público, por menor que ele seja.
beijo e obrigada pela dica da edição.

Natacha Maranhão · Teresina, PI 12/2/2008 22:49
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Romeu Martins
 

Ars et Scientia é o que está escrito no brasão da universidade em que me formei, a UFSC.
Ótimo texto. Votado.

Romeu Martins · São José, SC 14/2/2008 00:52
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Eduardo Neves
 

Muitíssimo pertinente o trabalho dela. Aliás, o pessoal que produz arte contemporânea deveria se distanciar um pouco de seu próprio trabalho e apreciá-lo sob a ótica proposta pela pesquisadora. Certamente um olhar assim melhoraria o nível - e o próprio sentido - das experimentações nesse campo. Coloco isso porque acho que sempre é bom evitarmos o deslumbramento com nossa própria obra, mantendo uma boa dose de auto-crítica. O fato é que esse tipo de leitura da arte ajuda a realmente experimentar algo consistente, e não dar vazão a simples "viagens" que, além de não trazerem nada de novo, não se sustentam nem em si mesmas. Só discordo de um ponto do que ela comenta: de que a arte não precisa provar nada. Bom, a arte deve, antes de qualquer coisa, provar que é arte.

Eduardo Neves · Teresina, PI 14/2/2008 13:07
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Tita Coelho
 

teu texto retrata a realidade das artes no Brasil! O que consideram arte de verdade, no País...Muito pertinente o teu texto!
leva meu voto!
beijos

Tita Coelho · Porto Alegre, RS 14/2/2008 19:04
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Adilson Sarti
 

Parabéns Natacha,
Adorei o texto! Eu, como professor e arte educador, sei bem o que é isso... No geral, as pessoas têm muita dificuldade em entender ARTE como conhecimento.
Mas sigo em frente experimentando sempre!
Abraços

Adilson Sarti · Duque de Caxias, RJ 15/2/2008 10:41
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Lu&Arte
 

Muito bom teu texto. Sou professora de arte, e essas questões que levantas sempre estão muito presentes. Ainda precisamos estar justificando e repetindo o quanto a arte é importante para todos, não só para alguns. A educação tem um papel muito grande nessa questão. Bom saber que o Piauí está presente na discussão. Um abraço, Luciana

Lu&Arte · Porto Alegre, RS 15/2/2008 17:02
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Natacha Maranhão
 

opa! que bom os artistas e professores de arte estão passando por aqui!
tem mais discussões interessantes sobre o tema aqui
beijos

Natacha Maranhão · Teresina, PI 15/2/2008 17:21
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