Entre lama, mariscos e conversas

Raquel Gonçalves
Do Carmo caminha entre o mangue
1
Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE
6/10/2006 · 250 · 5
 

Duas realidades. Uma no miolo, outra na beirada do espaço urbanos. O grupo TR.E.M.A. foi buscar a experiência numa das tribos da comunidade indígena Tapeba, em Caucaia, região Metropolitana de Fortaleza. Visitas semanais realizadas por Angélica Feitosa e Raquel Gonçaves, do grupo, transformaram-se em capítulos na busca de transmitir um pouco a história, os anseios, os desejos dessas mulheres.

Das impressões primeiras... estranhamento e curiosidade. Constatações: miséria e perrengue. Mulheres que antes tinham a sustentabilidade do mangue e viviam somente da mariscagem, hoje se mostram desapontadas com o rendimento da atividade. Elas buscam alternativas e encontram várias formas de ir tocando o barco. Da Maria Castoré, que abandonou a atividade por problemas no joelho, à "Maicon", filho de quatro meses da adolescente/mulher Neguinha, 16 anos, o mangue vive em todos que por ele passam, partilhando sonhos e dores nesse espaço ambíguo de (des)harmonia.


Capítulo 1: Entre lama, mariscos e conversas.

Ao longo do caminho, na estrada, o feminino prevalece. Cada uma com suas cordas cheias com o crustáceo vivo, cinzento, se mexendo. Numa mão. Na outra, pelo menos um menino se agarra. A cada carro que passa, elas estendem a mão. Não gritam, não falam, simplesmente oferecem. Poucos param. Seguindo a estrada, logo se avista a placa imponentemente erguida com o nome da tribo, os Tapeba, e a inscrição do Governo do Estado. Mais à frente, surge o Centro Cultural, todo de palha e madeira, imitando uma oca. Tudo muito bonito e organizado. “São artigos produzidos pelos próprios índios”, alguém avisa. Os artigos são diversos: colares, cocás, saias de palha. Ao lado da grande oca, uma pequena cerca guarda as plantas medicinais, também cultivadas pelos índios.

A vista do Centro Cultural causa uma ilusão. Quando se avista a oca, acredita-se o que vai se encontrar são os estereótipos indígenas: pessoas nuas ou pouco vestidas, de cocá, arco e flecha em suas casas de palha onde vivem várias famílias, vivendo em comunidade, onde tudo é de todos. O de todos para os índios, em Caucaia, município da Região Metropolitana de Fortaleza, é, na verdade, muito pouco. O extrativismo permanece, mas o arco e a flecha, que talvez nunca tenha existido nessa região, dão lugar ao fojo e a rede. As casas de tijolo cru, doadas pelo antigo prefeito, o Domingão, logo frustram quem esperava encontrar atrações exóticas. São iguais às de muitas famílias “brancas”. Não têm saneamento e os “gatos” levam luz. “A gente já chamou a Coelce, ninguém vem, o jeito que a gente encontrou foi esse”, explica Raimunda Teixeira, índia de 62 anos, oito filhos, 30 netos e 20 bisnetos. A simpática senhora hoje é funcionária pública no Posto de Saúde Vítor Tapeba, que atende à comunidade indígena às quartas-feiras. Mas até bem pouco tempo Raimunda era marisqueira. Gosta tanto da antiga profissão que de vez em quando ainda vai ao mangue colher seus mariscos. “Mas vocês procuram uma que ainda cata o caranguejo, né? Está aí a minha neta, Maria do Carmo”.

A timidez não permite que Maria do Carmo, 17 anos, olhe nos olhos. No diálogo inicial, a menina é monossilábica. Frases completas saem apenas quando vai brincar com o filho Ivo, de quatro meses. “O pai não é Tapeba não”, avisa. Também não namora mais ele. “Mas ele ajuda”, ameniza. Ivo não mama, por isso quando Do Carmo vai pescar, o menino fica com a mãe, ou com as irmãs. Quando não pesca, a garota confecciona colares, para vender em Fortaleza, principalmente no Mercado Central, na Jurema, bairro de Caucaia, na rua (Centro) também. Menos no Centro Cultural Tapeba. Aliás, a fonte de renda da maioria do povo da comunidade é a pesca e a confecção de colares. Todo mundo faz e se aprende de pequeno. “A gente pode ir pescar com você? Mas não é só para tomar banho de rio não. A gente quer pescar mesmo”, nos oferecemos. “Podemos marcar qualquer dia?”. “Uhum. Vocês ligam antes, não é?”. A conversa é interrompida pela irmã da Maria do Carmo. “Você ganhou no bingo”. Bingo? É, todas as tardes é o bingo que movimenta a aldeia. “Você aposta 25 centavos e pode ganhar até cinco reais”, explica a vencedora. “Meu lazer é jogar bingo aqui mesmo, é como eu me divirto por aqui.”

No dia que chega, Maria do Carmo nos recebe em sua casa. O shortinho curto, a blusa nadador e o balde com as armadilhas para pesca. Os fojos são umas armadilhas feitas com uma lata de óleo e um pedacinho de pau, amarrados com um cordão de borracha. Como isca, uma folhinha de qualquer árvore do mangue. Tanta folha fora, porque o caranguejo entra na lata?. “Ele é curioso”, explica Neguinha. Cada fojo pega um caranguejo. Maria do Carmo leva uns 50 toda vida que vai pescar, o que dá para cinco cordas, vendidas cada uma a R$ 2,00. Tem também o gereré que é específico para pegar siri.

Acompanham-nos até o mangue Neguinha, Francisca de Batismo, de 17 anos, índia de pele morena marcada pelos traços Tapeba, olhos cor de mel e cabelos assanhados. Nos braços, o filho Michael (lê-se Maicon) um mês mais jovem que o Ivo. Irmã e sobrinho de Do Carmo. “Eu queria que o nome dele fosse um nome indígena, mas a minha sogra jogou uma praga. Disse que se o nome dele não fosse Maicon, ele ia morrer. Maicon quer dizer Michael”, conta a mãe orgulhosa. Sempre que pesca, Neguinha carrega o Michael. Não o deixa com outros em casa de jeito nenhum! Nem com a mãe, nem com a sogra. Às vezes com o marido. Para onde vai leva o menino gordinho e corado, tudo pelo leite materno. Mas não é por ciúmes do filho que Neguinha não o larga. Ela, na verdade, teme que a Caipora leve o menino. Isso mesmo, o ser folclórico fumante e de assobio alto e fino. Neguinha jura que, quando a mãe estava grávida dela, a caipora deu-lhe uma carreira e só escapou porque entrou em casa. “Ela quer levar embora menino dentro e fora da barriga”.

A conversa se desenrola na uma hora de caminhada até o outro lado da margem do rio, onde Do Carmo considera o melhor para a pesca. No caminho, o cheiro forte do mangue vai se intensificando à medida que se adentra. A lama cobre toda a canela, se entranha nas unhas. Maria do Carmo, à frente, mostra toda a intimidade com o lugar. Sigo devagar, com receio do cheiro forte, os pedaços de pau que ferem o pé, dos respingos do barro gerado sobre as cochas e os braços. Uma infinidade de mariscos cruza o caminho. São siris, caranguejos e o curioso mão-no-olho, que parece com o caranguejo, embora menor, e tem uma enorme pata que cobre metade do que seria o rosto. Tivemos uma verdadeira aula de a céu aberto. “Tá vendo esse bicho aí? É a Maria Farofa, se você comer você fica bebinha”, explica Do Carmo. A matéria-prima para a feitoria do artesanato estava ali, por toda parte: sementes, folhas, palha. “É com essa planta aqui que a gente faz o cocar e a saia do índio, ela chama ‘Ôi de Paia’, continua Neguinha.

Atoleiro na lama do mangue, água na metade da canela, espaços vazios, sem vegetação pela antiga salina, escombros de velhas casas Tapeba. “Ta vendo esse descampado aqui? Às vezes a nossa tribo vem dançar o Toré aqui, bem próximo da natureza. Eu adoro”, conta Do Carmo. Finalmente o rio. De longe, a vegetação do mangue, com suas plantas tortas, raízes à mostra. De perto, a imundície. Uma grande quantidade de lixo se amontoa na margem. Uma espécie de cemitério de chinelos, claro, sem os pares. Sacos plásticos, garrafas, roupas velhas e tudo mais que se possa imaginar. Para nossa surpresa, um copo do Mac Donald’s. Reflexo da ação de vários anos, da própria comunidade. O lixo, às vezes os índios queimam, às vezes jogam no rio.

Na chegada, Maria do Carmo arruma cuidadosamente as armadilhas. Um pouco distante de nós. Os caranguejos se assustam com os homens. O próximo passo é catar as pixuletas. Hein? Mariscos compridos, acinzentados, com duas conchas que protegem o animal dentro. Com a ajuda de uma canoa se chega à croa, banco de areia, seco pelo esvaziar do rio. As pixuletas são rápidas. Maria do Carmo tem agilidade, com uma pá corta a terra até ver os buraquinhos feitas pelo caminho dos mariscos. Enfia a mão e puxa o bicho gosmento, que rapidamente entra na sua proteção.

As duas aprenderam a pescar com a mãe, Neide, filha da índia Raimunda. “Minha mãe trazia a gente pequenininha pra ensinar a catar o caranguejo”, conta Do Carmo. O pai? Morreu de cirrose. A rotina dela inclui, além da pesca e da feitura dos colares, as aulas do supletivo do primeiro grau, na escola da comunidade. “Eu gosto de ser tapeba. Mesmo que pudesse, não sairia daqui não”.

A intimidade delas com o lugar nos dá inveja. Elas permanecem no trabalho e continuam cuidadosamente a zelar pelo que já foi pescado. Alguns Aratus já passeiam no fundo do balde perdidos entre nossas peças de roupas que ocupavam o mesmo espaço dos crustáceos ainda vivos. Como num desabafar Do Carmo diz “Por mim eu morava aqui, no meio dos matos. Sozinha eu não tinha coragem não, mas assim... Se viessem umas três casinhas eu tinha. Lá onde moro (Vila da Ponte) é muita zoada, fica perto da pista e as vezes tem muita briga por lá”. Uma faculdade? “Pode ser, a que estudasse a pesca”.

Enquanto pesca no rio, Do Carmo sonha com o mar. “Nunca fui à praia, já vi o mar de dentro do rio das Barra, quando vou pescar de barco, mas a praia mesmo, não sei nem como é”. Um estalo. “Eita, o fojo bateu!”, avisa Do Carmo. A zoada do pau batendo na lata confirma que algum ser caiu na arapulca. E pode ser qualquer coisa, não é só caranguejo não. Até rato Maria do Carmo já pegou.

Neguinha me espera no caminho de volta. O lameiro, o cheiro forte. A conversa se desenrola ao som do rinchado de catarro de Michael e dos galhos quebrados pelos pés que insistem em passar por ali. Neguinha confessa que sua condição indígena não traz tanto orgulho assim. “As pessoas ficam fazendo hora, chamando nós de índio, perguntando pelo arco e flecha ou então gritam assim: cuidado com as fechas. Eu não gosto. Quando me perguntam se eu sou Tapeba, eu minto, digo que não sou”. “Ela já furou o marido com uma faca”, cochicha Do Carmo. O motivo? Ele não quer que Neguinha saia de casa, quando ela sai, a briga está feita. “Ele quis me bater e eu meti faca nele”, confirma corajosamente. Quando o assunto é namorados, a agora falante Do Carmo desconversa. Volta a ser monossilábica. Quem sabe na próxima visita.




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Thiago Perpétuo
 

Texto maravilhoso. A sensibilidade com que tratam da questão, e a maneira como desvelam as personagens torna as letras mais humanas.

Thiago Perpétuo · Brasília, DF 6/10/2006 18:56
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Raquel Gonçalves - Grupo TR.E.M.A.
 

Essa é uma questão do próprio grupo. Buscamos centralizar o ser humano em nossas repostagens. ;) Valeu Thiago

Raquel Gonçalves - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE 6/10/2006 19:28
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Raquel Gonçalves - Grupo TR.E.M.A.
 

ah.. leiam e votem no capitulo dois da série... hehe

Raquel Gonçalves - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE 6/10/2006 19:30
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Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A.
 

Valeu, Thiago! Queremos isso mesmo, mais huminização dos texto. Obrigada!

Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE 7/10/2006 11:33
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

A aculturação das populações indígenas torna-as ainda mais miseráveis, porque destituidas das suas raízes culturais componente importante de sua auto-estima.No Piauí, pelo menos, isto não ocorre: não há sobreviventes, os índios foram todos dizimados fisicamente.
beijos e abraços
do Joca Oeiras,o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 10/10/2006 21:09
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