Entre o Verbo, Tintas e Pincéis

Foto: José Medeiros
Adir Sodré sem máscaras
1
eduardo ferreira · Cuiab√°, MT
1/12/2006 · 155 · 5
 

Vou bater um papo aqui com uma das l√≠nguas mais talentosas do Mato Grosso. Um artista por inteiro, um cara sem meias palavras, franco, direto como um soco no est√īmago da hipocrisia. Dono de uma pintura visceral, um grande colorista, um grande artista. Esse cara foi colocado entre os 100 maiores artistas do s√©culo passado, nos cat√°logos dos Museus de Arte Moderna, de S√£o Paulo, Paris e Nova Iorque. Continua ativo, viv√≠ssimo e pintando. Sempre pintando, essa √© a sua sina: pintar, pintar e pintar.

Entre tintas, pincéis e o verbo: ele fala disparando (palavras) como uma metralhadora verbal, é um cara que beira a insanidade (no bom sentido, é claro!), mas é muito amoroso, muito querido mesmo. Somos amigos há mais de vinte anos. Não dá para abrir mão de um cara desses por aqui. Mato Grosso é terra de muitos pintores, e bons. Adir Sodré não está sozinho nessa terra de grandes artistas.

Adir soma?
Adir de aderir.

Aderir a quê?
Não sei, acho que é tudo um grande golpe também. Mas estou tentando somar.

Como foi o início de sua carreira?

√Č uma loucura porque eu nasci pintando. Pra mim sobreviver, teria que fazer arte de alguma forma. Seria pintar, cantar, alguma coisa eu ia fazer, dan√ßar que eu n√£o ia, n√©?
Ent√£o, eu morava no interior, comecei a pintar com 10 anos. Mais ou menos, com 15 eu j√° queria ser artista mesmo. Com 20, eu sobrevivia disso.

Onde você nasceu Adir?
Nasci em Rondon√≥polis, mas s√≥ nasci. Meu pai garimpeiro, n√īmade, cada filho nasceu em um lugar, e fiquei no interior at√© 14, vim para Cuiab√° com 15 e estou aqui at√© hoje.


Seu pai me contou uma história certa vez... que vc vivia pintando em sala de aula, dava um trabalho danado, não gostava da escola, como é que era isso?

A escola sempre foi um horror tamb√©m, gastavam cadernos por m√™s, eu gastava um por dia, entende? Eu n√£o lia com 8 anos, literalmente, como do jeito que acham que √© a leitura, equivocadamente, s√≥ como leitura de signos verbais. Eu sabia as marcas de todos os produtos, ent√£o eu lia. Na loja do meu pai o cara pedia alguma coisa e eu achava o produto. Pra eu aprender a ler, me bateram. Com 9 e meio, l√° pelo 3¬į e 4¬į ano n√£o sabia ler, dava golpe em todo mundo, mas literalmente eu n√£o lia e desenhava muito. E meu irm√£o dava aula particular l√°, o Z√©, falou assim: "O rapaz n√£o l√™, no armaz√©m mando olhar l√°, pega a marmelada, dizendo que era goiabada", e eu falei que era marmelada. Voc√™ n√£o l√™, voc√™ l√™ s√≥ marca. Mas acho que isso est√° tra√ßado, √© o destino, vem como uma f√ļria enlouquecida, voc√™ n√£o escapa.

Aos 20 anos você já sobrevivia de arte... que é uma coisa dificílima até hoje, não é?
A gente tenta. Vai dando murro em ponta de faca, mas dá pra viver. Já viajei o mundo inteiro, eu tenho o que eu quero. Tá muito bom o que eu tenho. O mais interessante é que eu virei cidadão, né? Isso é o mais interessante.

Como é isso? E antes?
Mas ninguém é nada nesse país, entendeu, é uma grande batalha, imagina querer ser artista nesse país, só sacanagem, bandido, vagabundo, então, acho que a gente fica marginal mesmo. Eu virei cidadão mesmo porque eu trabalhei pra isso também. Aos 20 anos eu pirei. Eu queria ir pra São Paulo, queria ver o Masp, que museu é esse? Não queria ser pintor daqui.


E como é que você tomou consciência dessa realidade, por exemplo, o Masp, como você ficou sabendo?

Ah! Eu tive uma grande aula da Aline Figueiredo com o Humberto Espíndola. Era legal né? Também, são pessoas sofisticadíssimas, eles têm uma visão louquíssima, de vanguarda mesmo. Eu e o Gervane sempre fomos muito ágeis. A gente convivia com os livros deles, com os discos, com tudo. E devoramos livros, devoramos, devoramos, devoramos.

Então, o acesso ao bem cultural, é importante?
Sim, muito. √Č fundamental, se voc√™ n√£o estudar n√£o tem jeito. Tem que estudar e muito! A palavra √© disciplina, disciplina! Nada de gra√ßa, n√£o adianta.

Muito esforço... Ezra Pound falava isso, esse negócio de talento... Talento é 10%, 90% é esforço, é trabalho. Você acredita nisso?
Claro que sim. Se você não desenhar muito, não melhora nada, não tem jeito, é muita disciplina.Tem que errar muito pra aprender. Errar muitas vezes. Não é pintar uma tela, é pintar 100, 200, 300.

Jogar 99 fora?
N√£o, vende, tenta vender. Joga nada fora. Poema t√° ruim? Guarda, melhora ele depois. Nada de rasgar papel, papel t√° caro, tudo custa muito caro.

Rsrsrs... Bom, e ai? Primeira vez que chegou no Masp, como é que foi?
A√≠ eu subi a escada do Masp, n√£o conhecia ningu√©m. Esbarrei numa senhora ruiva, linda, estranha. A√≠ abri a tela, ela j√° levou pro Bardi. Ela comprou uma tela bacana. Ele pagou s√≥ um pouquinho. Ela pagou caro e ele pagou barato. Ela falou: ‚Äúpode vender √© interessante pra voc√™!‚ÄĚ. Da√≠ n√£o parei mais, ele me convidou pra expor no Masp. Depois daquilo, e essa exposi√ß√£o que ele me convidou, ganhei a APCA, pintor do ano, em 86, a√≠ n√£o parei mais. Fui pro Jap√£o, pra Nova Iorque, a√≠ calhou que o Chateaubriand comprou um trabalho meu tamb√©m, e eu acabei entrando em galerias boas de S√£o Paulo, e Rio. S√≥ que quando me convidavam n√£o era a elite brasileira, era a elite de fora. Podia ser uma exclusividade estranh√≠ssima aqui, podia ser um pintor folcl√≥rico brasileiro, mas eu n√£o tenho perturba√ß√£o nenhuma. Pinto uva, ma√ß√£, pera, papagaio, tudo eu pinto. Papagaio vira urubu, n√©?. Mas √© um papagaio. Ent√£o tem essa hist√≥ria tamb√©m da gente ficar sempre no escanteio, de sempre achar que est√° √† margem tamb√©m, mas eu dei sorte, eu procurei.

A gente ouve muita gente falar demais também, reclamar, reclamar, reclamar, e deixar de fazer em função de que acha que não tem condição de fazer, que não tem estrutura...
Quem não tem talento não se estabelece, não adianta, se vc não nasceu pra aquilo, sai fora, procura outra coisa, fazer arte não é hobby não. Não é brincadeira. Qualquer área, se você vai fundo, você se dá bem, não tem esse negócio de ficar como marginal. Tá fora de moda esse negócio de ser marginal, hoje tá muito mais amplo, muito mais aberto, quem trabalha e tem talento vai viver daquilo, com certeza que vive.

Você e o Gervane de Paula se destacaram bastante aqui no contexto da arte na década de 80, inclusive vocês se inseriram nesse movimento, chamado de Geração 80, teve Parque Lage, aquela grande exposição lá, como é que você vê essa inserção de vocês dois num movimento nacional e em pouco tempo de atuação...
E tamb√©m tem uma coisa muito estranha, voc√™ tem que saber penetrar nesse circuito, que √© um circuito terr√≠vel. E agora, com o advento de curadores, voc√™ fica fora de tudo. Se voc√™ n√£o t√° l√° perto, puxando saco do pessoal do Rio e de S√£o Paulo, voc√™ n√£o t√° em lugar nenhum. Nesse pa√≠s desse tamanho... Cuiab√°... ir daqui a Manaus ou ao Rio, √© a mesma dist√Ęncia. Que confus√£o que √© essa ent√£o? Fora essa confus√£o, tem todo um glamour, essa √© a perturba√ß√£o, eu n√£o tenho paci√™ncia. N√£o vai ter um trabalho bacana. Voc√™ tem que saber inserir ele, entendeu? A√≠ que √© complicado, eu acho. Mas n√£o √© f√°cil.

E agora, com esse fen√īmeno, por exemplo, da internet, uma ferramenta hoje que aproxima todo mundo? Estamos no mesmo espa√ßo virtual, vamos dizer assim, ent√£o n√£o tem dist√Ęncia entre Rio e S√£o Paulo, entre Cuiab√° e Manaus, n√≥s estamos no mesmo lugar virtual.
Eu n√£o sei como pegar essa m√°quina e usar ela ainda.

Sim, mas como é que você a vê hoje, como possibilidade revolucionária, de aproximar todo mundo?
Isso √© tudo, √© absoluto, √© o futuro de tudo. Eu n√£o sei como essa m√°quina funciona, t√ī engatinhando, sou um analfabeto digital ainda. S√≥ sei que eu acho tudo que quero, entendeu, mas ela √© uma arma poderos√≠ssima, n√£o tem jeito, ela √© uma arma poderosa. Ela √© um instrumento para trabalhar, que eu n√£o sei ainda.


Você não está só no interior mais, seu nome circula no meio internacional, é conhecido fora daqui.

O problema todo √© que √© tudo meio instant√Ęneo.


Você está se sentindo fora, out?

Eu quero estar out. Porque eu faço desenho, pintura duvidosa, entendeu? Eu quero fazer o que eu faço e bem, tentar fazer bem.

E voc√™ tem mercado pra isso, fora dos sal√Ķes de arte?
Sim, eu n√£o posso reclamar.

Você vive exclusivamente da arte?
Só. Não vivo assim... sofisticado, mas vivo assim... pagando minhas contas em dia, eu viajo a hora que eu quero, acordo a hora que eu quero, tá bom.

E aquele Adir, por exemplo, menos comportado eu diria. Ou√ßo muita gente falar, ‚ÄúAh, o Adir? O Adir t√° morto pra pintura. Ele est√° se repetindo.‚ÄĚ E agora? O que vem do Adir? Vem alguma coisa nova ou voc√™ descobriu a galinha dos ovos de ouro?
Eu como disso, entendeu? Não tenho pudor nenhum. Que história é essa? Meu trabalho é assim, minha pintura é bem feita. Não é porque eu vou usar um tema erótico, um tema agressivo, que vai piorar meu nome na história da pintura. Decorar é preciso, viver também. Décor não é pecado.

Você é um artista décor?
Sou sim, sou 10, sou 100, vou virar Adir Horror? Vou virar Frido Kahlo, vou virar Adir Sodré? Mil. Vou virar mil, dez mil, trinta mil.

√Č um Picasso da Am√©rica Latina...
Little dicks. E todos ficam te dando títulos, títulos, títulos. A gente tem que comer meu amigo, esse povo da vanguarda pra fazer uma instalação, pega 20 mil, 30 mil reais... vai dar 500 reais pra você ver! Ficar mendigando pra vender uma tela por mil reais em Cuiabá, acorda!

Como você analisa a inserção do seu nome entre os 100 maiores artistas do século passado nos catálogos dos museus de arte moderna de Paris, Nova Iorque e São Paulo?
√Č tudo golpe, √© tudo instant√Ęneo, eles te colocam e te tiram tamb√©m, depois volta ou n√£o.

Mas est√° l√° registrado!
Nada √© brincadeira, n√£o estou brincando h√° 30 anos. N√£o estou brincando em servi√ßo. Tem gente que odeia meu trabalho! Alguns acham que sou um golpe, tem outros que adoram. Teve uma curadora japonesa que falou: ‚Äú√Č bom isso a√≠!‚ÄĚ. Tem gente que gosta e n√£o gosta. Eu acho que √© assim.

De quem você gosta na história da pintura?
√Č ciclo. Eu gosto muito de Picasso, Matisse, eu gosto de Jack Pollock. Eu gosto de um japon√™s agora, um pop japon√™s, acho que √© Murakami, que √© bom pra caramba, eu gosto do Keith Haring, ent√£o acho que no futuro eu vou fazer uma exposi√ß√£o coletiva, n√£o individual, vou abrir cinco pintores num s√≥ Adir.

Heter√īnimos?
O Adir Horror que √© um pop amaz√īnico...

Pessoa pintor? Inclusive o Adir Pessoa?
Sim. Vai ter o Adir e mais 4 pessoas. Você não quer esse, compra aquele. Vai ter o Frido Kahlo, o Adir Sodoré, que é um japonês que faz ideogramas, enfim, vou abrir uma coletiva, não é individual.

Coletivo de um só é muito massa!
Tem toda essa coisa da moda, de a pessoa eleger você naquele exato momento e depois você está morto. Como está morto? Você tem que estar sempre lá. 70% é você ir atrás de São Paulo, atrás de galeria, pra puxar saco de um, de outro, eu? Eu não sei fazer instalação cara! Nesse momento não se pinta, supostamente.

A arte, então, é um grande golpe?
Sim, sofisticado, um golpe de mestre.

E como voc√™ analisa a quest√£o da pol√≠tica cultural, p√ļblica e privada, parece que t√° todo mundo assim, muita gente saturada, de saco cheio de leis de incentivo.
Mas a lei do incentivo leva a muita coisa. Aqui em Cuiab√° mesmo, Mato-Grosso, essa lei fez muita coisa interessante. Mas √© preciso melhorar, que as pessoas se unam em categorias e lutem pelo direito delas. √Č t√£o pouco o que eles d√£o, cara. 1 ou 2% n√£o √© nada!

Tem uma luta agora para se chegar a 1% do orçamento para a Cultura no Brasil. O ministro Gil esá lutando para isso.
A confusão toda é que fica muita gente mafiosa no caminho, não é? Muita gente ruim que quer ser conselheiro de cultura, isso e aquilo, mas a lei é fundamental. Imagina, tem algumas coisas no planeta que alguém tem que financiar, por exemplo, a qualidade do ar universal, ninguém quer pagar...

Sen√£o todo mundo vai pagar por isso...
Vamos pagar, e muito caro.

Como convencer a iniciativa privada, a financiar, por exemplo, quem está em processo de formação cultural?
Isso é a cara do Brasil, uma confusão, não tem educação. Um país que constrói cadeia ao invés de escola, Você quer o quê? Um país que constrói cadeia, e todo mundo foge da cadeia? Tem que construir escola. O Brasil investe muito pouco em educação, entendeu? Você pega países com PIB muito menor e que investem muito mais em educação, a gente investe muito pouco em educação...

Então, a saída é essa?
N√£o tem outro jeito.

Viva a arte!
Sim.

Viva o Adir!
Yes.

*Quer curtir mais Adir Sodr√©? Nos arquivos do Ita√ļ Cultural voc√™ encontra alguns dos seus trabalhos.

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comentŠrios feed

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Claudiocareca
 

Que papo legal. qdo o Adir se entrega a pintar carrega-nos com ele. Sua fala é rápida. Você só vai ouvi-lo, provavelmente. A não ser q seja o Claudio Assis q conseguiu deixá-lo a ouvir. Deve ser páreo duro.

Claudiocareca · Cuiab√°, MT 1/12/2006 18:24
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Glenda
 

yes, nós temos banana!
yes, nós temos Adir!
sim, nós temos Eduardo Ferreira!
que overpapo delicioso.
bjos roxos para esses guris t√£o queridos.

Glenda · Cuiab√°, MT 3/12/2006 06:07
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eduardo ferreira
 

yes, nós, voz, sóis, girassóis...a poética jorra cores.

eduardo ferreira · Cuiab√°, MT 13/12/2006 12:48
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Sleiman
 

Uma mente brilhante..ainda n√£o conhe√ßo o seu trabalho...tem exposi√ß√Ķes em cg???
galera vamos unir mais campo grande e cuiabá...vamos tirar do povo esse preconceito ridículo, talvez não haja no mundo capitais tão irmãs como nós!!!
e ae adir?
vamos adicionar
campo grande + cuiab√°?

Sleiman · Campo Grande, MS 12/1/2007 01:42
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adan arr.
 

:}

adan arr. · Maring√°, PR 23/10/2007 10:41
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