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De olhos azuis e com pinta de galã de novela, Nilson Xavier, 37 anos, prestes a completar 38 em dez de dezembro, é um aficionado em teledramaturgia. Ele é o criador e dono do site mais completo sobre novelas atualmente na rede e já concedeu entrevistas, participou de debates e deu workshops a respeito, mas parece não quer ingressar no meio artístico.
“Fora de cogitação, nunca almejei trabalhar com isso”, diz categórico, o técnico em informática. “Ganho relativamente bem e não pretendo mudar de profissão”. Xavier faz programas de computador para a seguradora Porto Seguro e é formado em Administração de Empresas pela Univille, Universidade da Região de Joinville.
Ele começou essa atividade aos dez anos de idade, em Joinville, Santa Catarina, sua cidade natal, onde viveu até os 34. “Anotava a ficha técnica dos programas em um caderninho: atores, diretor, autor, etc.”, explica. Mas não contava sobre os registros para os amigos porque eles não concordavam com o hobby, fato que acontece até hoje, pois o chamam de maluco por perder tanto tempo com novelas. A paixão, devidamente catalogada, começou com a novela “Marron Glacé” de Cassiano Gabus Mendes, exibida pela Rede Globo entre 06.08.1979 e 1º.03.1980. A partir de então não parou mais.
A imagem mais distante de uma novela brasileira que lembra é de “O Semideus” (1974), de Janete Clair, mas a primeira que a família assistiu reunida foi “Éramos Seis”, de Silvio de Abreu, exibida em 1977 às 19 horas na TV Tupi. As novelas preferidas do catarinense são “Roque Santeiro” de Dias Gomes e Aguinaldo Silva, que foi ao ar em 1985, e “Vale Tudo”, escrita por Gilberto Braga e Leonor Bassères, de 1988. No entanto, acredita que o período mais fértil da teledramaturgia aconteceu nos anos 70. “Tudo o que veio depois foi cópia ou adaptação desse período”, explica.
Já os autores prediletos dele são o já citado Cassiano Gabus Mendes, responsável por sucessos como “Locomotivas” (1977) e “Brega & Chique” (1987), e Ivani Ribeiro, de “A Gata Comeu” (1985), “Mulheres de Areia” (1993) e “A Viagem” (1994).
Xavier não costuma falar mal das novelas “por uma questão de ética”, mas confessa que não as acompanha com a mesma freqüência: “elas não me atraem tanto”. Deixou de assistir, no ano passado, a problemática “América” de Glória Perez, para ver “Xica da Silva”, sucesso de Walcyr Carrasco, exibida originalmente pela extinta TV Manchete, que foi reprisada pelo SBT no mesmo horário da novela global.
A idéia do site surgiu quando pesquisava sobre novelas e não encontrou nada de convincente na Internet. Isso até acessar o site português www.gilbertobragaonline.com, de Hugo Costa. “Era bonito e completo”, diz. Xavier entrou em contato com Hugo para saber porque ele não desenvolvia um site sobre todos os autores e obras televisivas. “Porque não tenho as informações sobre os demais”, respondeu Hugo. “Mas eu tenho”, devolveu. Dessa maneira, com a ajuda do novo amigo, eles criaram o então ‘telenovela.com’, em outubro de 1999.
A página cresceu rapidamente. Do início com apenas novelas da Rede Globo, Xavier incluiu as tramas de outras emissoras, as trilhas sonoras, bastidores. E em 22 de julho de 2003, ele registrou o domínio atual, mais abrangente: www.teledramaturgia.com.br, no mesmo dia em que se comemorava os 40 anos da estréia da primeira telenovela diária no Brasil: “2-5499 Ocupado”, exibida pela TV Excelsior, em 1963, e que reuniu pela primeira vez o casal Glória Menezes e Tarcísio Meira.
Com o sucesso de seu site, Xavier deu entrevistas, participou de programas de TV e de rádio e teve a oportunidade de conhecer algumas atrizes famosas como Eva Wilma, Glória Menezes, Laura Cardoso e Regina Duarte. Além disso, celebridades o contataram para elogiá-lo. “Já recebi mensagens de Manoel Carlos, Daniel Filho e Miguel Falabella”, comenta, orgulhoso. “Recordei de novelas antigas, obrigado”, disse Manoel Carlos. Já Falabella pediu para que ele acertasse o elenco de “Salsa e Merengue”, novela do autor exibida pela Globo em 1996, que estava incorreto na página correspondente.
O teledramaturgia.com.br apresenta material sobre 842 programas entre novelas, séries, minisséries e seriados apresentados por ordem alfabética e cronológica. Mesmo tendo todo esse rico acervo sobre o produto de cultura nacional mais vendido no exterior (“Escrava Isaura”, de Gilberto Braga, de 1976, é até hoje a mais exportada no mundo, são mais de 80 países), as redes de televisão não exercem nenhuma influência, tampouco colaboram para mantê-lo. “As emissoras não me ajudam em nada, consegui tudo desde os logotipos até as informações sozinho. Tenho muitas revistas antigas, minhas anotações, além de meus colaboradores”, declara.
Quem acredita que ele está ganhando rios de dinheiro, engana-se. Xavier não tem nenhum retorno financeiro com o site. Ao contrário, paga uma taxa mensal pelo provedor e uma anual de R$ 30,00 pelo domínio do seu endereço na rede mundial de computadores. “É meu hobby e não me incomodo em gastar nisso”, diz, categórico. Mas quando dá workshops sobre o assunto, recebe.
Atualmente, o site é referência para pesquisas, já que está na bibliografia do ‘Dicionário da TV Globo’ sobre dramaturgia, lançado em 2003, pela Jorge Zahar Editor. Também é citado em dois dos livros mais vendidos, de acordo com os rankings das revistas semanais, nos últimos dois anos no país: o ‘Almanaque dos Anos 80’ (Luiz André Alzer e Mariana Claudino) e o ‘Almanaque dos Anos 70’ (Ana Maria Bahiana), ambos publicados pela Ediouro.
Agora, ele próprio terá o seu livro sobre teledramaturgia. “Almanaque da Telenovela Brasileira” tem previsão de lançamento para o segundo semestre de 2007 pela Panda Books, a mesma que editou “O Doce Veneno do Escorpião”, autobiografia da ex-prostituta Bruna Surfistinha, e a série “Guia dos Curiosos”, do jornalista Marcelo Duarte, que foi o responsável por a editora interessar-se pelo livro. “Adorei o tema, esse formato de almanaque será um sucesso”, garantiu Duarte. Xavier já está com o contrato em mãos e muitas expectativas. “O mais provável é que seja lançado em julho e a editora acredita que será um dos best sellers do ano que vem”, profetiza o autor.
Como também adora música, Xavier coleciona trilhas de novelas desde os 13 anos, quando começou a freqüentar os sebos em busca de discos antigos, hábito que mantém até hoje. Ele chega a comprar um LP que já tem porque encontra outro com a capa mais conservada. “Para completar minha coleção de antigos só falta ‘O Rebu’ nacional (novela de Bráulio Pedroso, Rede Globo, 1974)”, diz. As capas que estão na seção “Trilha Sonora” do site foram escaneadas uma a uma de seus discos.
O colecionador só compra as trilhas depois que a novela sai do ar. Por isso, ainda não tem as de ‘O Profeta’ e ‘Páginas da Vida’, atualmente exibidas. “Não pago mais que 10 reais num CD de novela”, confessa. A quantidade nem ele mesmo sabe ao certo - afirma ter mais de 300 discos de vinil e de 150 CDs das trilhas sonoras lançadas no Brasil de todas as emissoras. “Tenho até os LPs de algumas novelas estrangeiras como os da versão original de ‘Os Ricos também Choram’, apresentada pelo SBT (na época ainda TVS), no início dos anos 80”. A fixação em ter todos os títulos é tão grande que ele chega a comprar o mesmo disco em vinil e em CD, como no caso das minisséries “Anos Dourados” e “Anos Rebeldes”.
Já DVDs não tem muitos. Comprou títulos como “Hilda Furacão”, “A Muralha”, “Dona Flor e seus Dois Maridos” e “Memorial de Maria Moura”. Como as novelas não saem em DVD, procura gravá-las, mas não inteiras. “Costumo gravar o último capítulo de cada novela, tenho um bom acervo”, garante.
Solteiro convicto, mora sozinho desde os 20 anos de idade, hoje em um apartamento alugado na Consolação, região nobre de São Paulo. “Vendi meu apartamento em Joinville e no ano que vem pretendo comprar um aqui em São Paulo, nos arredores”. Namora há dois anos e meio, desde que se mudou de Santa Catarina para a capital paulista, mas não revela com quem e diz não pensar em casamento nem em viver com alguém. O pai aposentado, o irmão engenheiro projetista e os sobrinhos moram em Joinville, a mãe é falecida. “Sou o único diferente da família”, explica. Também não pretende ter filhos: “Não me vejo pai”.
Em contrapartida, Xavier mostra-se caseiro. Não costuma viajar, conhece o Sul (Joinville, Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre) e o Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro e os litorais dos dois estados).”Tenho vontade de ir ao Nordeste e ao exterior, mas não está entre minhas prioridades, quero comprar meu apartamento antes”, esclarece.
Quando não está diante da tela do seu televisor nem do seu computador, gosta de estar em frente a uma bem maior: a do cinema. Adora os filmes europeus: franceses, italianos, espanhóis e não aprecia muito os títulos americanos. “Não assisti ‘Senhor dos Anéis’ nem ‘Harry Potter’. Ainda não vi ‘Volver’, mas gosto do Almodóvar, adorei ‘Fale com Ela’ e ‘O que fiz para merecer isto?’, também gostei muito de ‘Caché’, com Juliette Binoche, que está gorda no filme, parecendo uma matrona italiana, mas continua linda”, diz ao alfinetar a musa do cinema francês e mundial.
O também cinéfilo aprecia ainda os clássicos. “Em Joinville, sempre ia à prateleira dos antigos e assistia a filmes de Hitchcock, Luchino Visconti e Fellini. Adorei a maioria deles. Hoje, moro próximo aos melhores cinemas de São Paulo: Reserva Cultural, HSBC Belas Artes e Espaço Unibanco, mas só vou aos fins de semana, pois gosto de seguir um ritual: sair de casa tranqüilo, comprar o ingresso e a pipoca e curtir o filme sem sono”, filosofa.
De tela em tela, o catarinense garante que não pretende se tornar um crítico de TV, mas está muito empolgado com o sucesso do seu site, com o pré-lançamento do seu livro e com a dúvida se participa ou não de um programa da Rede TV! sobre trilhas sonoras, de novelas, é claro.
Por Fernando Almeida
tags: São Paulo SP cultura-e-sociedade televisao telenovela dramaturgia cds
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