Sabe aqueles bolachões que seus pais ou avós colocavam para tocar música? Hoje, eles se tornaram artigo de colecionador e continuam alimentar a curiosidade musical de muita gente. Enquanto se fala do iPod, do mp3 e das novas tecnologias da informação, o mercado de vinil ainda movimenta suas cifras. Na Europa por exemplo, nunca se deixou de fabricar esse tipo suporte musical. Já no Brasil as gravadoras escolheram não fazer mais tiragens, algo que fomentou um comércio informal. Em Sergipe esse hábito soa como pesquisa, quase uma tarefa de garimpeiro da música.
“Um LP ‘Racional’(1975) do Tim Maia chega a custar R$ 1.000,00. Mas nada mede o que é ouvi-lo na vitrolaâ€, aguça o adorador de discos Janilson Ferreira, mais conhecido como Estranho. Pode parecer até caso para psiquiatra, mas, quando se trata de música, esse alagoano de Penedo não esquece de “uma pérola†que encontrou. Em uma das lojas de José Quirino de Souza, estava à venda o álbum importado de Antônio Carlos Jobim.“Lembro que ficava na parte superior na estante, à direita. Aquela capa me chamando e eu sem nenhum dinheiro na carteira. Fui ao banco. Uma fila com mais de 20 pessoas, na conta apenas R$ 10,00. Quando ouvi em casa, pense na felicidade de um ser humano em ter um clássico por apenas R$ 2,00!â€, relata quase em roteiro cinematográfico sua compra do clássico álbum “Wave†(1967).
Descobrir o “Velho Quirino†parece ser tarefa obrigatória para quem curte ouvir canções em rotações por minuto. Mais que uma loja de música é um ponto de encontro entre amigos e troca de idéias. Em 1977, esse pai de oito filhos tocava o armarinho chamado “Presentes e Discosâ€, que ficava na rua São Cristóvão, número 332. “Mas como nunca me troquei por nenhuma das minhas crias, preferi empregá-los e abrir outras filiaisâ€, brinca enquanto explica a sua principal fonte de renda. Seu Quirino se considera um apaixonado por música, mas fala que abandonaria tudo por um amor chamado Dona Graça. Ou diz fazer melhor, aos 72 anos, “vô colocar no carro uma mini loja volante e juntar meus dois amoresâ€, revela o homem que se diz “palhaço†ou “palhaço homem, se preferir minha filhaâ€. Nos noves fora, esse namorador conta não gostar de contabilizar suas paixões, “digo... o total de vinis que me pertenceâ€.
Mais que buscar o “lado bâ€, os discos também são instrumentos de trabalho de quem inventa e cria música como no caso dos deejays. Aos 23 anos, o DJ Leonardo Levi faz colagens, scratches, distorções e quando prepara o equipamento não esquece dos cds, bolachões ao tocar em festas como Heatmus, Projeto Verão ou Emotrixx. “Minha formação na infância foi com o que meus pais colocavam pra tocar na radiola. Era Robertão, Caetano em ‘Todos os carnavais’, Moraes Moreira, Novos Baianosâ€. E o garoto que preferiu juntar o dinheiro do lanche para comprar o que queria, substituiu os brinquedos pelas fitas-cassetes e vinis. Formando-se musicalmente na adolescência sob influência dos estilos dos seus irmãos, “a gente ouvia REM, Pink Floyd, Pearl Jam, Isaac Hayes. Êita, só coisa boa!â€.
Entre conquistas e arrebates musicais, os disquinhos foram a razão do final do casamento de um dos maiores comerciantes desse ramo no Estado. É o que conta o nada tÃmido João Carlos dos Santos, 61 anos, terceiro casamento, 16 mil álbuns, mais de 150 clientes fiéis. “Não sei viver se não for em função daquilo que mais amo e o que me sustenta a alma: meus LP´sâ€, poetisa, aos risos, Seu João. Atendendo aos sábados e domingos do cliente desinteressado ao “cambista de música†nos fundos do supermercado GBarbosa, no Conjunto João Alves, esse sergipano afirma trabalhar na área há 42 anos. “Comecei vendendo no Rio de Janeiro, na feira de Acari nos finais de semana. Inicialmente o que era meu hobby hoje é o meu sustentoâ€, orgulhoso fala mostrando a sua casa comprada graças ao seu emprego. Num dos vários compartimentos repletos de vinis, ele mostra quem mudou sua vida: “Love me tender†(1956), do cantor Elvis Presley. E adverte, “vinil nunca vai morrer, porque nesse ramo nunca sabemos tudo, todo dia é um novo aprendizado. E o legal é estar descobrindoâ€.
LP versus cd
Pelo fÃsico Hilton Barbosa de Aguiar (hiltonbarbosa@hotmail.com)
Os cds foram criados para caber mais música em menor espaço e ser muito mais resistente. Enquanto no vinil a informação está exposta ao ambiente, no cd ela está "enterrada" em uma camada de um polÃmero protetor. A própria agulha da vitrola desgasta o vinil. A informação contida no vinil é a mais fiel do que a do cd, mas esse "extra" que o vinil tem não é perceptÃvel para a maioria dos ouvidos humanos. No disco os graves são conservados intactos, enquanto no cd "certos graves" sequer existem. Eles não são perceptÃveis ao ouvido, mas são percebidos pelo corpo. Por isso dizemos que o vinil "mexe" com a gente, e não com os ouvidos. Particularmente, se eu quiser ouvir um estilo com mais grave, como jazz, reggae etc., eu ouviria no vinil. Mas é claro que tem que estar bem conservado, se não estaria ouvindo informação distorcida, o que é muito pior.
Onde ouvi & onde comprar
Toda quarta-feiras, “Noite do Vinil†na Livraria Poyesis Rua Vereador João Calazans 609, Galeria Habitat, loja 05 e 06. Bairro 13 de julho. Em frente à biblioteca Epifânio Dória.
Casa de João dos Discos Rua 4, número 1, no Conjunto João Alves. Ao lado do Mercado São Miguel.
Feira das Trocas na Avenida Tancredo Neves aos sábados.
Freedom Rua Santa Luzia, número 151 próximo a Catedral.
Lojas de Seu Quirino :
Rua de Geru, número 345 Centro
Travessa OtacÃlio Oliveira, número 40 , Loja 5 .Em frente ao Mercado Albano Franco
Praça Olympio Campos, número 475
Vale indicar mais leitura sobre a Noite do Vinil, Livraria Poyesis e do próprio Seu Quirino, lás nas dicas.
Marcelo Rangel · Aracaju, SE 7/8/2006 12:47
Beleza de texto, Lu. Fiquei morrendo de vontade de conhecer o Seu Quirino e o Seu João. Não dá para fazer uma entrevista em vÃdeo com eles e colocar aqui no Banco de Cultura?
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 8/8/2006 06:14Ótima idéia, Hermano, já topamos a sugestão, só falta aguns detalhes logÃsticos, mas vai rolar!!
Marcelo Rangel · Aracaju, SE 8/8/2006 14:24
Provavelmente não foi no seu Quirino nem no seu João, mas foi em Aracaju que um amigo arrematou o Tim Maia racional por R$ 1,00...
Tati Magalhães · Maceió, AL 8/8/2006 14:49
Até que enfim a explicação que tanto procurava e nenhum adorador de vinil conhecido conseguia me explicar! A enorme e imperceptÃvel diferença do LP para o CD.
Parabéns!
Tenho inseparáves vinis, quase todos nem foram lançados em cd. Não me desfaço deles por nada.
Julio Cesar Corrêa · Rio de Janeiro, RJ 8/8/2006 19:58é impressionante! eu moro em Aracaju também e nunca tinha ouvido falar em Seu Quirino e em Seu João! adorei o texto!
Juliana Grosskopf · Bassas da India , WW 8/8/2006 21:22Oi Lu, parabéns pelo texto! Instigante!
Carla Sousa. · Aracaju, SE 9/8/2006 13:06
Que texto delicioso, viu, Lu? Curtiiiiiiiiiii... ;)
Arrasa!
bacana mermu!!sempre q posso vou nu seu Quirino pra aumentar a coleção!!!!
xxx
quem quiser trocar idéias tamu aew
yuri_mcf@hotmail.com
já achei várias coisas lindas lá na rua geru, mas o ruim é não ter dinheiro o suficiente pra comprar tudo.. acho que vou propor uma sociedade pro senhor de lá.. eu trabalho no final de semana pra pagar todos os vinis que eu quiser levar comigo.
belo texto.
Excelente debate. Costumo conversar isso com meus chegados.
Valeu a indicação dos lugares onde encontramos vinil.
devorei seu texto Lu. super saboroso! parabéns!
Drigo Garcia · Aracaju, SE 10/8/2006 16:40
oi oi oi
tô aprendendo a bulir nisso aqui...
:)
beijos
Parabéns, lu! Seu texto está muito bom e a foto excelente! :)
Ian · Salvador, BA 10/8/2006 23:57
Eu tenho a coleção quase completa de Os Paralama, é mt massa!
Aquele ruido da um charme!
não preciso nem falar... orgulho da porra!
Hilton B. de Aguiar · Aracaju, SE 12/8/2006 14:58não preciso nem falar... orgulho da porra!
Hilton B. de Aguiar · Aracaju, SE 12/8/2006 15:28sem comentários,delÃcia de texto LU.que coisa,deconhecia essas quebradas de aju,bom saber!
ca_co · Juazeiro, BA 23/10/2006 20:01Texto legal! Eu, particularmente, prefiro o cd: é mais fácil de carregar, armazenar e gravar! Além disso, meus ouvidos não são tão sensÃveis assim aos graves e agudos. Mas não me desfaço dos meus velhos LPs. Lembro que eu tinha que colocar uma moeda no braço da agulha pra ouvir um disco do Pink Floyd que de tão ouvido estava bem arranhado. Mas, apesar do meu desleixo sonoro, admiro essas pessoas que se apegam a coisas como o som puro de um velho LP.
Ilhandarilha · Vitória, ES 9/11/2006 18:00Já está disponÃvel um vÃdeo no Banco de Cultura inspirado neste texto, sugestão do Hermano nos comentários acima.
Marcelo Rangel · Aracaju, SE 19/1/2007 16:45
O vÃdeo que Rangel falou acima.
http://www.overmundo.com.br/banco/nos-amamos-vinil-3
Tiago Araujo Melo · Aracaju, SE 23/1/2007 14:18
putz... sensacional isso Lu... eu como um apreciador do som do bom e velho "long play", fiquei contente em ler esta matéria sobre duas pessoas que parecem ser abençoadas, Velho Quirino e o Seu João. Quando for a Aracajú, já sei onde comprar e bater um bom papo sobre as bolachas.
Obrigado, viu?
Yuga
quem freqüenta sebo tem história, é o que sempre digo
abraço
Muito sensacional, Lu...Nada como nossa memória afetiva...
Gazza · Rio de Janeiro, RJ 8/6/2007 13:51Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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