Entressolo

1
thaís moraes. · Recife, PE
20/9/2007 · 33 · 3
 

Desde o começo do ano que eu tento concluir a façanha que é ler Os Miseráveis, em seus cinco brevíssimos volumes. Mas ontem eu me deparei com um capítulo que, depois que o li, não me deixou mais em paz. É que esse capítulo trazia uma teoria daquelas que não se pode engolir de uma vez. É preciso mastigar, revolver, para que seja depois bem digerida e se torne, então, uma parte inerente a você.

A teoria à qual me refiro pode ser resumida no seguinte: Victor Hugo compara as pessoas a seres subterrâneos assim como as idéias tecidas ao longo da História são comparadas ao subsolo. Quanto mais próxima da superfície, mais próxima da luz e, portanto, mais próxima da verdade. Essa luz nada mais é, afinal, do que o conhecimento. Abaixo de todos os túneis escavados pelos grandes homens (e aqui o autor permite-se dar vários exemplos, de Voltaire a Bossuet), e depois pelos médios, descansa a camada aonde não chega um raio de sol sequer. Lá onde a escuridão é absoluta, lá onde a ignorância impera: no ‘entressolo’. São os seres condenados à vida nesta camada que irradiam tudo o que a sociedade conhece de ruim. Depois de toda essa descrição, Victor Hugo arremata dizendo que o fim do entressolo – através, talvez, do fornecimento constante de alguma luz e informação - conduziria inexoravelmente ao fim do mal, ao fim do crime.

É curioso perceber que toda essa teoria está permeada de uma visão essencialmente iluminista – condizente com o local e a época em que o escritor viveu. Victor Hugo deixou transparecer aí a sua certeza de que o uso da razão era a solução de todos os problemas da sociedade humana e apontava a democratização do conhecimento como fator fundamental para o seu desenvolvimento.

Hoje, mais de um século depois dessa obra ter sido escrita, o acesso ao conhecimento ainda não é democrático e “o grande mal”, que é o crime, se faz presente de forma constante em nosso cotidiano. Os habitantes do entressolo continuam numerosos. Quando não estão imersos na mais profunda escuridão, não vêem mais que luzes difusas que mais confundem e distorcem do que esclarecem.

Muitos deles são criminosos, é certo. Mas serão eles os únicos geradores de problemas de nossa sociedade? Será que se acabássemos, de alguma forma, com a cegueira intelectual na qual se afundam, estaríamos acabando com o desrespeito, com a agressão, com o crime? Ou é necessário ir mais além? Os grandes homens contemporâneos, aqueles que cavam túneis bem próximos à superfície e tem acesso à luz, a muita luz, quanta luz eles quiserem, não cometem quaisquer crimes? Será que essa mesma luz que os ilumina, não acaba também por cegá-los?

Tenho para mim que os políticos brasileiros são a evidência máxima de que Victor Hugo se enganou. Homens engravatados que ostentam os melhores boletins da escola, os diplomas mais disputados, a linguagem mais erudita e acabam – cômica e/ou tragicamente – por cometer imbecilidades tamanhas, capazes de causar vergonha ao mais simplório operário, assim como crimes terríveis capazes de surpreender os mais astutos ladrões.

Acredito, com pesar, que o homem nunca vai alcançar a superfície, ou a plenitude do conhecimento. Primeiro porque duvido da existência desta. Depois, porque mesmo que esta exista, toda vez que o homem vai alcançando relativa proximidade a ela, ou endoida e morre (vide Nietszche ou Max Weber) ou ele se torna prepotente e passa a exercitar sua esperteza traindo aqueles que o rodeiam (vide Renan Calheiros e seus cínicos companheiros).

Suspeito que Victor Hugo esteja se remexendo em sua tumba ao ver, lá do além, sua teoria sendo invalidada, e aguardo esperançosamente que ele rogue algum tipo de maldição àqueles que estão, nos dias de hoje, desperdiçando o acesso que tiveram às camadas mais claras e respiráveis. E que, além de tudo, usaram a sua privilegiada posição apenas para tornar ainda mais espessa e sofrida a camada da escuridão, a assustadora e, portanto, excluída camada do entressolo.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
FILIPE MAMEDE
 

Thaís, antes que os censores cheguem, aviso: o overblog, além de ser um espaço para produções mais jornalísticas, digamos, deve ser utilizado para falar da cultura produzida por aqui como um todo... acredito que tua reflexão ficaria melhor lá pelas terras do Banco de Cultura. O que acha? Ainda dá tempo de transportá-lo para lá. Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 19/9/2007 08:07
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Labes, Marcelo
 

Filipe, cheguei! (risos!) Sim, acredito que no Banco de Cultura a colaboração estaria melhor situada. Thais, que tal uma lida atenta no Participe do Overmundo?

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 19/9/2007 11:25
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
FILIPE MAMEDE
 

Pois é Labes, prefiro tentar dar um toque nas pessoas direto na fila de edição. As vezes as altas rodas ficam emperradas como verdadeiras alfândegas... "Alfândega das idéias", como dizia Balzac...
Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 19/9/2007 15:03
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados