ENTREVISTA BARBARA HELIODORA

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Leandro Lopes · Belo Horizonte, MG
6/11/2007 · 254 · 13
 

CINCO DÉCADAS QUE NÃO CABEM EM APENAS CINQÜENTA ANOS

Da janela da sua casa se vê um Rio de Janeiro antigo, preservado. Dela, sente-se cheiro de pedra molhada, ouve-se um riacho lento e vê-se arquitetura machadiana. É uma paisagem real e inspiradora. Aliás, naquele mesmo Beco do Boticário, ao pé do Morro do Corcovado, morou o autor de ‘Dom Casmurro’ e ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’. Quem sabe aquela mesma paisagem, hoje desfrutada por Barbara Heliodora, serviu de inspiração para Machado de Assis. É um excelente lugar para se escrever críticas. É um excelente lugar para se escrever qualquer coisa.

É mágico que aquelas casas permaneçam de pé. É encantador imaginar que o sol e depois a escuridão e de novo o sol, tenham entrado e saído daqueles aposentos todos os dias. Que a chuva tenha continuado a cair naquele telhado. E tudo continue tão inspirador. E a sinestesia ganhe força, dia após dia. Dali, a maior crítica de teatro do país, Barbara Heliodora, desmoronou e ergueu espetáculos independentemente de autor, diretor, elenco. Dali, ela tornou-se a crítica mais temida das artes cênicas brasileiras usando uma só arma: a sinceridade. “Quando é ruim o que se pode fazer? Tenho que ser verdadeira”.

Era uma tarde nublada no Rio, quando Barbara nos recebeu em sua casa, horas antes do lançamento do livro ‘Barbara Heliodora – Escritos sobre Teatro’, na Livraria Argumento, no Leblon. Nessa conversa, ela falou, entre outras coisas, do cenário teatral nacional, políticas públicas (ou falta delas), censura, sua rotina de espectadora e claro, do livro que reúne mais de 250 textos de sua autoria.

Gostaria de começar falando do livro.

Esse livro na verdade não foi feito por mim. Ele foi coordenado e organizado pela Cláudia Braga que foi minha aluna de graduação. Hoje ela já está fazendo pós-doutorado em Paris. Ela é que teve a idéia de publicar minhas críticas. Eu tinha guardado boa parte do que escrevi, mas sem nenhuma pretensão de publicar. Aí, ela reuniu alunos da Universidade Federal de São João del-Rei - UFSJ, onde ela é professora e coordenava um núcleo de pesquisa sobre teatro brasileiro. Ela e um grupo de alunos então fizeram todo o levantamento, digitalização e a seleção. Então o livro é um resultado de um trabalho fenomenal da Cláudia, eu já tinha escrito há muitos anos e já tinha até esquecido. Ela que organizou. O livro cobre 50 anos, de 1944, quando escrevi pela primeira vez no jornal, até 1994.

São 250 textos?

Isso. Ela disse que eles digitalizaram cerca de quatro mil laudas. De maneira que o livro é só uma parte. É, sei lá, 10%.

O que a senhora achou da seleção dos textos?

Eu não opinei. Foi tudo com ela. Mas eu acho que o que ela fez foi cobrir um panorama variado, quer dizer, não ficou muito num gênero só. Além disso, alternou as críticas com os artigos que fiz sobre teatro em geral. Essa escolha foi feliz sim. Acabou que o livro é um panorama da época.

Nesses 50 anos, o teatro mudou muito?

Mudou bastante. Mudou de várias maneiras. Quando eu comecei ainda estava aquela briga, o Nelson (Rodrigues) tinha aparecido há pouco tempo e ainda havia aquele conflito entre o teatro moderno e o teatro mais antigo. Eu testemunhei essa leva do novo teatro brasileiro. Justamente nessa época, apareceu a Companhia Celli-Tônia-Autran, em (19)56. Em (19)59 apareceu o Teatro dos Sete, depois apareceu o Teatro Cacilda Becker. Quer dizer, o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) foi se desmembrando e foi dando espaço para novos conjuntos de alta categoria que fizeram espetáculos extraordinários. Foi um período maravilhoso! Fantástico!

Isso se perdeu quando? Com a censura?

Nossa! A parte da censura foi uma coisa horrorosa. Ceifou carreiras de autores sensacionais que estavam surgindo e acabaram desistindo, e o pior, novos autores não tinham acesso livre aos palcos para começar a experimentar. De maneira que foi uma coisa que prejudicou demais o teatro. Mas, de algum modo, o teatro foi conseguindo se manter vivo, com espetáculos teatralmente válidos, mas menos profundos. E aos poucos a coisa foi piorando muito e muito.

A censura ou o teatro foi piorando?

A censura. Ela tornou o teatro inviável.

Existiu recuperação?

Então, depois que acabou a gente foi perceber como o recomeço é doloroso. Até ser possível juntar os pedaços e recomeçar... Quando acabou se teve a prova da cretinice, esse é o termo da censura. Quando anunciava uma peça que finalmente seria liberada, a gente ia ver e não era nada. Ficava a pergunta: por que censurou? Não tinha nada demais na peça.

Então, foi quando o teatro brasileiro passou por uma época de comédias ridículas?

As pessoas ficam espantadas quando digo que essa época foi importante para o teatro. O besteirol foi um caminho ótimo para a reconquista do público. Porque depois da censura estava tudo morto. Qual é a maior tradição do teatro brasileiro? Justamente a comédia de costume. E o besteirol não é nada mais que uma pequena comédia de costume caricata, não é isso?

Esse então foi o caminho da recuperação?

Exatamente. Eu acho que agora está havendo uma coisa importante: muito teatro brasileiro. Não estou dizendo que tudo é bom, mas se não existir muito, não vai haver bom. A grande diferença é que ainda na década de 60 apareceu a ‘Lei Dois por Um’. Para cada dois textos estrangeiros, você tinha que encenar um nacional. Aí os grupos estreavam com um infantil nacional pela manhã e à noite levavam o estrangeiro. Aí se você olha o teatro hoje e vê que a maioria dos espetáculos é de texto nacional, você percebe a evolução, a diferença. Naquela época o estrangeiro tinha um domínio muito grande. Eu tenho uma lembrança que durante (19)50 e (19)60, se fazia sucesso em Paris, Londres ou Nova Iorque, era importado de qualquer maneira, relevante ou não para o público brasileiro.

Isso fez com o que perdesse o espaço do teatro universal? Das encenações que formam as pessoas? Shakespeare? Sófocles?

Para o universal sempre existirá. Mas existe um pouco mais de critério, não mais se importa por importar. Acho que se tem uma peça muito boa a ser apreciada aqui, tem que trazer mesmo. Por que é bom ver bom teatro, mas acho que a descoberta do Brasil pelos brasileiros é o que fez a maioria das peças serem nacionais. Acho que isso é um resultado do processo do Brasil.

Gostaria que a senhora falasse de políticas públicas para o teatro?

E tem? Existe? Antigamente existia o serviço nacional de teatro, agora supostamente existe, mas cadê? Eu não vejo. Acho que o Ministério da Cultura ignora o teatro completamente. Ele tem se ocupado de cinema e música popular, agora, artes plásticas e teatro? Eu não vejo. Dizer que existe uma política? Não! Falta uma política esclarecedora. Há certas coisas que são incompreensíveis.

Como o quê?

Os aluguéis das casas de teatro, não os municipais, nem estaduais, mas os particulares são abusivos, horrorosos de caros, no entanto, alguém baixa uma lei e diz assim: ‘você tem que cobrar 50% aos maiores de 60 e aos estudantes’. Quer dizer, o Estado ou a prefeitura não pagam esse 50% que foi tirado. Ninguém está pensando que foi muito bonitinho... Ah! que ótimo! Mas quem está trabalhando está sendo prejudicado. É uma dificuldade sobreviver com essas condições. Aluguel é caro, construir cenário é caro, tudo é caro.

Como é a sua rotina, Barbara? Você consegue acompanhar todos os espetáculos?

Não vejo todas, mas vejo o máximo possível. Às vezes vou a cinco espetáculos por semana, três, quatro é o normal. E olhe, vou dizer uma coisa, geralmente desses cinco, quatro são horríveis. Agora, às vezes tem coisas maravilhosas. O que acontece é que a média é muito desigual.

Quem você citaria como exemplo de bom teatro? Em Minas, por exemplo?

De Minas: O Galpão. É sensacional! Eu adoro, é um grupo especial. Acho um grupo tão dedicado ao teatro. Eles fazem tudo com tanto amor, é impressionante. Eles lançaram agora o ‘Romeu e Julieta’ em DVD, estou louca pra ver. Eles gravaram em Londres, né? É um ‘Romeu e Julieta’ maravilhoso.

Por quê?

Por que é o tal negócio. É cortado? É. É absolutamente fiel, linha por linha? Não. Mas acho que a essência da peça é tão preservada que acho que eles fizeram com um carinho tamanho pra preservar o que é o ‘Romeu e Julieta’ que ficou emocionante. Lindo! Eu adoro também a ‘Rua da Amargura’. Fantástica!

Pra encerrar, gostaria que a senhora falasse do Paulo Autran.

Nossa! Comecei a fazer crítica em 1958, mas antes de escrever, eu já acompanhava muito teatro. Lembro de ter visto a primeira peça dele e a última. Vi, em 1949, ‘Um Deus dormiu lá em casa’, com ele e a Tônia (Carrero). Vi esse e vi também ‘O Avarento’. De maneira que é uma carreira que eu acompanhei com bastante detalhe. O Paulo é um exemplo de vida dedicada ao teatro, né? O Paulo cuidou de si não por ser bonito, mas por saber que o corpo dele era um instrumento de trabalho. Então ele trabalhava a voz, o corpo, ele lia muito, ele conduzia a vida dele para manter-se como um bom instrumento para o teatro. E fez uma carreira tão bonita... O Paulo nunca parou, era uma peça atrás da outra. É uma perda muito grande e bastante séria para o teatro. Ele é a mostra que talento somente não basta, é preciso ter disciplina, buscar melhorar sempre.

O teatro brasileiro seria melhor se houvessem mais críticas como Barbara Heliodora, mais atores como Paulo Autran e provavelmente, o Brasil seria melhor se existissem mais lugares como o Beco do Boticário e mais janelas como a que inspira essa entrevistada.

A CRÍTICA (DAS VÍTIMAS)

Fernanda Montenegro:

“Se no futuro alguém quiser saber como fomos, o que fizemos, como éramos, certamente nesse livro está a opinião de uma crítica vocacionada, uma crítica que não é passiva”

Você já foi vítima das críticas dela?

“Já, já, já. Eu acho que não só a crítica ou o crítico tem direito de achar o que ele quiser. A gente todos os dias se submete a uma platéia que coloca o polegar pra cima ou para baixo, não é isso? Então, a vida não é feita de críticas consagradoras, não é! Porque há diversos gostos, diversas idéias de uma mesma proposta de trabalho”

Sérgio Britto:

“A Barbara é uma das pessoas mais cultas que tem um trabalho ligado ao teatro. Ela fez um trabalho, nesse livro, profundo. Ela analisou teatro como uma estudiosa e não apenas como aquele que lê. Eu li muito teatro, mas a Barbara estudou tudo aquilo que li”

Othon Bastos:

“A Barbara é uma das críticas mais importantes do teatro brasileiro. Acho que é uma pessoa digna da sua profissão. Uma pessoa que escreve o que gosta, escreve o que quer e escreve realmente com o coração”

Arlete Salles:

“Às vezes as críticas são dolorosas. A gente trabalha para agradar, mas nem sempre conseguimos. A gente não ganha todas. A Barbara nos ensina a cada dia a importância disso e a importância de aprender com isso, principalmente”

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procuradosaber
 

Seu texto está fantástico, não precisa ser mudado em nada, nadinha mesmo, a introdução está super poética... bom ler coisas boas, obrigada pela oportunidade!

procuradosaber · São Paulo, SP 3/11/2007 08:07
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Jan Moura
 

Parabéns pela entrevista. Deu uma imensa vontade de ler o livro. Barbara é de uma lucidez incrível. Viva o teatro.

Jan Moura · Cuiabá, MT 7/11/2007 23:06
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Saramar
 

Encantador!
Sou fã da Bárbara e a entrevista reforça a imagem que tenho de sua lucidez e honestidade.
Obrigada.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 8/11/2007 11:55
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crispinga
 

Excelente entrevista com a Crítica de teatro mais temida por atores, autores e produtores, figurinistas...É dura nas palavras mas quando elogia, deve ser um bálsamo para o elenco! Sempre leio suas colunas antes de ir à qualquer espetáculo...E ela geralmente acerta!

crispinga · Nova Friburgo, RJ 8/11/2007 12:10
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Leandro Lopes
 

Valeu turma... foi uma grande experiência ficar cara a cara com a Barbara. E fico feliz que tenha resultado nesses elogios. Obrigado digo eu!!

Leandro Lopes · Belo Horizonte, MG 8/11/2007 13:18
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Mansur
 

A Bárbara é realmete bárbara...grande entrevista...

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 8/11/2007 15:22
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stefano ferreira
 

Adorei ler seu texto, você conseguiu desmitificar a Bárbara.
Mostrando sua seriedade e sobretudo, a sensibilidade e sinceridade que rege seu trabalho.

stefano ferreira · Oeiras, PI 8/11/2007 15:38
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Paulo Apolonio
 

Muito bom seu texto e a entrevista maravilhosa!

Paulo Apolonio · Salvador, BA 8/11/2007 18:08
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Rê.
 

Como você é bom, menino Leandro! ;-)
Beijos e até breve.

Veja: www.sempreumpapo.com.br
Gente bem bacana, viu.

Rê. · Belo Horizonte, MG 13/2/2008 13:49
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Natália Amorim
 

Rapaz, a Bárbara. Lerei sem falta.
Votado.
Abs!

Natália Amorim · Rio de Janeiro, RJ 18/4/2008 14:12
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Natália Amorim
 

Se puder dê uma olhada no espetáculo teatral O Império de São Benedito na fila de votação da Agenda.
http://www.overmundo.com.br/agenda/o-imperio-de-sao-benedito

Natália Amorim · Rio de Janeiro, RJ 18/4/2008 14:15
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iarinha
 

Muito bom o texto, e pude ver que ela como crítica amplia o entendimento do espectador!!!!!!!!!!!!!!!!!

iarinha · Salvador, BA 3/5/2008 07:00
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Charles Antonio
 

Maravilhoso.

Charles Antonio · Magé, RJ 27/1/2010 02:03
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