Outubro de 2004. Livraria Amadeu, Belo Horizonte. A primavera anda seca e quente, só que hoje amanheceu um friozinho europeu, o céu nublado prenunciando as chuvas de verão. Esperança de que não causem os desastres pluviais dos anos anteriores. O clima inspira a literatura, como cantou Djavan em “Nem um Dia”.
Nesta livraria, cartapácios volumosos refreiam qualquer pretensão de sabedoria. Não há catálogo: os mais de 50 mil livros estão todos ordenados na cachola do octogenário alfarrabista. Ao fundo, um cofre de segredo, mais ou menos de mil novecentos e quando eu ainda nem pensava em nascer. De lado, um extintor de incêndio, a julgar pelo formato, mais velho que o cofre.
Aqui na Livraria Amadeu o clima, mais do que nunca, evoca Sócrates: no sebo mais antigo de Belo Horizonte paira no ar, além de conhecimento, a idéia de que nada se sabe, face ao tanto que ainda há para se conhecer.
E Amadeu, às vésperas dos 90 anos, é cultura sem presunção. Nada de “Amadeu Rossi” ou “Amadeu Rossi Cocco”. Apenas Amadeu: o Amadeu de uma vida inteira devotada aos livros — se perguntado sobre um possível afastamento dos livros devido à idade avançada, ele não diz que não quer: diz que não pode.
Em meio a vários “está funcionando isso aí?”, em relação ao vistoso gravador disposto em uma de minhas mãos, Amadeu versa quotidianamente sobre livros, literatura, história, sentimento, cultura, mineiridade: a entrevista corre em ritmo de conversa — a vida deste senhor encanta ao entrevistador como um avô encanta o neto em uma tarde sem hora pra acabar.
* Entrevista publicada originalmente no blog Pretenso Literato.
Pretenso Literato: Como começou sua história com os livros?
Amadeu: Eu fundei minha loja em 1948, mas desde 1932 [então com 16 anos] eu já trabalhava na livraria Morais, aqui em Belo Horizonte. Era muita luta. Havia umas dez livrarias aqui; naquela época as pessoas liam muito.
P.L.: Agora não tanto...
Amadeu: Ah, não... hoje a vida anda muito agitada. Naquela época eu entregava livros em casa, tantos que eram os pedidos. Os livros eram fechados, as páginas coladas — eram preciso espátulas para abri-los, página a página, num saboroso ritual de paciência. Hoje ninguém tem paciência nem mais tempo para ler. Era uma gente muito culta. Lia-se o francês com se lia o português.
P.L.: Francês?
Amadeu: Até a década de [19]40 a cultura francesa dominava o mundo inteiro. As pessoas falavam francês e português. Liam francês e português. Depois do Hino Nacional Brasileiro, La Marseillaise [hino francês] é a música mais linda do mundo. De tanto sofrimento, de tanto sofrimento, aquele povo fez um hino espetacular. Todo 14 de julho [tomada da Bastilha] eu ouço esta música. (silêncio) Naquela época tinha aí um professor de inglês passando dificuldade porque não tinha aluno. Hoje é ao contrário. Depois da Segunda Guerra americanizou tudo. Esculhambou tudo.
P.L.: É um apreço especial pela literatura francesa?
Amadeu: Ainda ontem eu estava comentando com um freguês, como a cultura francesa... ah, aquele século... olha, Victor Hugo, Balzac, Voltaire, Alexandre Dumas... Naquela época as pessoas tinham tempo de raciocinar e escrever. Hoje nem se lê direito. (silêncio) Mas deixa eu te contar a minha luta...
P.L.: Luta?
Amadeu: Eu era arrimo de família, trabalhava dia e noite. De sete da manhã às seis da tarde eu trabalhava na livraria Morais. De sete à meia-noite eu trabalhava numa leiteria. De dia, alimento para a alma. À noite, alimento para o estômago! (Risos) Ah, e quando eu perdia o último bonde, que passava meia-noite? Tinha de ir pra casa a pé! (risos) O caso é que fui mudando de livraria para livraria. Em [19]32, ganhava 60 mil réis; em [19]33, 80; em [19]34, 100; em [19]35, 120 mil. Aumentava 20 mil réis por ano, mas divide pela inflação, né!? Já viu... Era muito apertado... mas quando entrei para a [livraria] Rex a coisa melhorou, eu ganhava mais, e ganhava comissão.
P.L.: A Rex foi uma grande livraria, não é mesmo?
Amadeu: Ah, sim. Antes do incêndio... Um representante contava que, antes do incêndio, a Rex comprava 50% do que se vendia para todas as livrarias de Belo Horizonte.
P.L.: Então sua vida profissional sempre esteve cercada por estantes?
Amadeu: Sim, sempre no meu ramo. Até que uma vez um cliente amigo me ofereceu um emprego público. Ele era funcionário do governo. Era garantido. Eu ganhava 120 mil réis, e ele me oferecia 200 mil. Nesta vez eu quase saí.
P.L.: O que houve de errado? Ou “certo”, não sei dizer...
Amadeu: Bem, ele me deu um memorando e me mandou procurar o Presidente do Estado, Olegário Maciel. Naquela época ele atendia a todos pessoalmente. Era setembro de 1933. Estava uma fila enorme, cada qual “chorando as suas mágoas”, e quando chegou a minha vez ele me deu uma senha e me mandou voltar no dia seguinte.
P.L.: Já sei: o senhor não voltou...
Amadeu: Que nada! Voltei todo arrumadinho, até. O Palácio estava cheio de repórteres, todos num grande alvoroço. Quem não voltou foi ele. Havia morrido naquela manhã. (Risos)
(Olegário Maciel faleceu repentinamente no dia 5 de setembro de 1933, pela manhã, durante o banho, no Palácio da Liberdade, no exercício da presidência do Estado).
P.L.: Quer dizer que se Olegário Maciel não tivesse morrido no dia em que morreu provavelmente hoje não existiria a Livraria Amadeu?
Amadeu: Pois é. Mas o fato é que morreu, e eu sempre trabalhei em livrarias. Aos poucos vi que as pessoas procuravam por livros usados e não havia onde comprá-los. Em 1948 apareceu um crítico literário amigo meu, que estava indo para o Rio, e falou “Amadeu, estou indo para o Rio e vou te vender minha biblioteca”. Eram uns mil volumes.
P.L.: Nasceu a Livraria Amadeu.
Amadeu: É. Montei meu sebo perto da Igreja São José, na rua Tamóios. No primeiro dia eu vendi apenas um livro: Poesias Completas de Manuel Bandeira. Um livrinho pequeno. Mas eu entusiasmado. Com o fim do primeiro mês eu já estava ganhando mais do que em qualquer outra livraria que já tinha trabalhado. Eu fechava a loja as seis da tarde e ia até a casa de fregueses, comprar livros. Ia de bonde, sempre com dinheiro no bolso, e voltava de táxi.
P.L.: Por quê?
Amadeu: Por causa do tanto de livros. Uma vez, eu gripado, um médico amigo meu me ofereceu uma quantidade de livros a bom preço. Falei que não podia buscá-los, pois estava mal da gripe. Lembro que ele falou “você vem aqui, pega os livros e eu te dou um remédio que vai te curar rapidinho”. Lembro que fiquei muito animado, pois eram muitos livros, e até uma geladeira entrou no negócio. Botei tudo em um Aero Willys de aluguel [leia-se taxi], levei pra casa, tomei uma minestra e dormi. No outro dia me lembrei da gripe e do remédio, que havia esquecido de tomar na casa do médico. Mas não precisava mais: já não havia nem mais sombra de gripe. Fiquei tão empolgado com o bom negócio que esqueci a gripe lá (risos).
(Minestra é uma espécie de sopa italiana temperada de maneiras variadas, mas que normalmente leva arroz, feijão, alho, legumes [como cenoura e batata] e verduras cozidas no caldo de carne ou galinha).
P.L.: Mudando de assunto: o senhor é casado, não é mesmo? (ao fundo “Amadeuzinho”, o filho de 48 anos que assumiu a livraria para a aposentadoria do pai - que, na prática, nunca aconteceu -, entrega: “ele enrolou minha mãe por mais de dez anos!”, e ri).
Amadeu: Sou. Fizemos bodas de ouro agora em julho [de 2004]. (Amadeu fala e desconversa, tímido).
P.L.: Desde quando você e seus filhos trabalham juntos?
Amadeu: Nem lembro. Emprego nunca esteve fácil. Mesmo formado em Engenharia, ele [Amadeuzinho] e o irmão [Lourenço] passaram a tomar conta da livraria para mim.
Amadeuzinho: Ele nos passou a livraria em 1979 para se aposentar, mas nunca parou de trabalhar.
P.L.: É difícil de se afastar dos livros?
Amadeu: Ah, não posso. É difícil. Até que, no fim do dia, eu fico doido para chegar em casa para descansar. Mas não posso.
Amadeu tem dois filhos e três netos, e é tido como verdade que ele foi de longe o "inventor" do sebo em Belo Horizonte, quiçá no Brasil. Sua livraria fica na rua Tamóios, 748, e a filial na São Paulo, 925, loja 5, ambas no centro de Belo Horizonte. Os livros usados normalmente custam a metade do preço de um exemplar novo. Sua história já inspirou entrevistas, homenagens...
Em 2006, a sétima edição do (ao que parece, inadvertidamente extinto) Salão do Livro de Belo Horizonte prestou uma (mais que devida) homenagem a Amadeu enquanto destaque da literatura na capital mineira. Já em 05 de setembro de 2007 foi a vez da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte prestar reverência a este ponto de convergência das letras de nossa cidade.
...E até mesmo a composição de um livro:
Em 2003 Ronald Claver publicou, pela Editora LGE, “A Livraria do Amadeu”, uma ficção infanto-juvenil inspirada no clima lúdico da livraria, onde personagens se aventuram pelo sebo do Amadeu atrás de um exemplar raro e precioso da bíblia impressa por Gutemberg.
Aiii que lindo!!!
Fiquei emocionada! Juro!
Ewerton vc escreve gostoso demais...
E com uma entrevista dessas! Seu Amadeu é demais.. A história linda...
Ahhh minino vc vai longe!!
Vou espalhar pros meus amigos!!!
Sorte e sucesso!!!
Muito massa a sua entrevista, cara.
abço.
Parabéns pelo texto e pela entrevista! Abço!
Nely · Rio de Janeiro, RJ 13/12/2008 00:25
oi Ewerton!
que entrevista héin!uma viagem ao passado com sabedoria
obigado
de grande sensibilidade.votado com carinho.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 14/12/2008 23:22Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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