Entrevista com Guy Veloso

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vogue · Belém, PA
2/11/2007 · 112 · 3
 

Em um final de noite com um ar chuvoso, Guy Veloso abre as portas de seu belo apartamento para uma entrevista informal e descontraída, falando um pouco da sua história, carreira e do seu amor pela arte de fotografar.

Ellen - Quando começou a fotografar?

Guy Veloso – Aos 18 anos por puro hobbye, mais depois a fotografia foi ocupando um lugar mais serio em minha vida a partir do momento em que comecei a vender fotos para museus e fazer exposições.

Ellen - Qual a principal característica que destaca seu trabalho dos outros fotógrafos?

GV – Tenho como tema principal à religiosidade isso já é um diferencial, outro diferencial é que eu faço tanto colorido quanto preto e branco, e um terceiro seria o modo como saio para fotografar, não de coletes, nem levo varias maquinas, lentes, aqueles zooms imensos, porque de certa forma isso acaba por intimidar a quem quero fotografar. Vou com uma maquina uma lente pequena, essa minha maquina tem um design antigo, tanto que ninguém nem percebe que estou fotografando, e por isso acabo por me tornar um fotógrafo invisível.

Ellen - De onde vem à inspiração para as suas fotos?

GV – Eu acredito que a inspiração vem antes de tirar fotos, a inspiração vem no momento de escolher um tema. Sempre gostei de estudar questões metafísicas, espirituais, esotéricas, então tenho isso muito comigo e eu passei a procurar isso nas outras pessoas, por isso escolhi o tema religiosidade e isso me inspira.

Ellen - Qual das fotos que você já fez que te emocionou mais ?

GV – Bom na verdade as muitas fotos que mais me emocionaram, não são as mais conhecidas, nem entraram em exposições.
Como eu tenho um contato muito próximo com a pessoa que vou fotografar, por exemplo, eu fotografei uma senhora chorando e antes de fotografá-la eu fui lá conversei com ela, ela me contou a historia dela, e os motivos por ela estar chorando, essa é uma foto que me emociona, ela nunca entrou em exposição e nem a tenho digitalizada no computador. Agora das fotos mais famosas eu gosto de uma que é a da Nhá Pereira, que foi feita em Belém no ano de 91, que era uma senhora de 94 anos que era neta de escravos, que viu o cometa Halley em 1910, e que lembrava perfeitamente que o cometa era uma bola de fogo no céu.
Essa foto faz parte da Coleção Joaquim Paiva de Fotografia Contemporânea que é a principal coleção de fotografia particular do Brasil, das mais conhecidas é a que me tocou mais.

Ellen - Você já ganhou vários prêmios, qual desses deu a você mais gratificação em ganhar?

GV – O que me deu mais prazer o que me pagou melhor, foi a Arte Pará, não que esse tenha sido o mais importante mais na época foi o que melhor remunerou. O mais importante foi Nikon Contest, Tokio-Japão, 1999.
Mas na verdade eu não acho prêmios tão importantes, já achei um dia mais hoje eu não acho tão importante.
Hoje eu acho que os museus que compram meus acervos são mais importantes que os eventuais prêmios, então eu diria que o meu prêmio hoje foi a Coleção de Fotografia de Portugal, do Instituto Português de Fotografia ter comprado uma foto, que a University of Essex Collection of Latin American Art (UECLAA) que tem uma foto minha em seu acervo.
Esses são os meus grandes prêmios, não premiações comuns, mais exposições, acervos em lugares prestigiados, isso é que considero prêmios.
Mais claro que um prêmio é sempre bem vindo, ainda mais se acompanhado por uma boa quantia em dinheiro, que me dê suporte para comprar mais maquinas, lentes, viagens, computadores, enfim uma quantia que me disponibilize melhorar meu equipamento de trabalho.

Ellen - Quantas fotos tem em seu acervo?

GV – Nunca contei, mais são muitas. Por que eu sou um pouco compulsivo, então quando viajo geralmente faço 40 filmes, cada um com 36 poses, agora que também estou com uma digital, que não é um digital seria é uma maquina de uso pessoal faço mais 900 fotos.
Engraçado ano passado eu estava com a minha maquina digital no ano passado e eu acabei fazendo a melhor foto do círio com essa digital porque eu simplesmente a ergui em cima da corda, sem fazer foco nem nada, simplesmente bati, e acabou sendo a melhor foto, feita com uma foto semi-profissional.

Ellen – Miguel Chikaoka, Walter Firmo e Fernando del Pretti, que são mestres na arte de fotografar fizeram parte de sua formação com fotografo, de alguma forma eles influenciam ou influenciaram em seu trabalho?

GV – Claro. Del Pretti foi quem me ensinou a parte técnica, o Miguel foi quem envolveu o lúdico que foi quem me fez entender que a fotografia é muito mais do que colocar imagens na parede, ele foi quem me deu a idéia de como se faz um ensaio fotográfico, quantas informações devem existir atrás dessas fotos. E o Walter me ensinou os truques do colorido, de como fotografar em cores, técnicas de abordagem às pessoas, de como perder a timidez.
Então de cada um eu peguei um pouco, fora outros grandes fotógrafos que são meus ídolos.

Ellen – Quando você começou a desenvolver seu trabalho como escritor?

GV – Sempre gostei de escrever desde pequeno.
E eu tinha uns textos assim com uns 18 anos, que eu entregava pra namorada, outros para uma paquera, às vezes não davam em nada mais tudo bem (risos).
Em 1993 aos 23 anos, eu fiz o Caminho de Santiago de Compostela, que é uma rota medieval que vai da França até o final da Espanha, fiz a pé o mais tradicional possível. Assim fiz um diário de bordo e achei interessante compartilhar, já havia outros livros sobre o assunto na época, mais não de uma pessoa comum que fez o caminho sem conhecer direito.
Os outros livros eram muito esotéricos, falavam muito da parte de magia que envolvia o caminho, por isso resolvi fazer o livro sobre alguém comum que fez o caminho de mochila nas costas, fotografando, passando por tudo aquilo.
Então foi o primeiro livro sobre o Caminho mais “pé no chão”, o titulo do livro é Via Láctea, já tem uma editora querendo fazer a 5a edição, porque ele está esgotado no momento.

Ellen - Seu trabalho como escritor te ajuda na hora de fotografar?

GV – O trabalho de escritor me ajuda sim, nas legendas eu tenho a preocupação de colocar em baixo das fotos em que momento elas foram captadas, que data, quem são aquelas pessoas, para que no futuro isso vire um documento histórico e que não vires só uma obra de arte.
Eu quero que ao mesmo tempo em que a pessoa olhe aquilo com a emoção, que ela sinta a emoção da foto, eu quero que ela tenha também esses dados técnicos.

Ellen - É difícil ser fotógrafo em Belém?

GV – É difícil sim. Porque eu ainda não consegui viver somente da fotografia. Eu tenho um emprego público que sustenta esse meu lado artístico. Hoje em dia eu já vendo muitas fotos, eu já ganho para expor, sou convidado para exposições e às vezes tem o cachê, mais ainda não consegui igualar o que eu gasto do que ganho estou quase chegando lá.

Ellen - Maiorias dos seus trabalhos são em cima da religiosidade e neles você consegue captar com excelência essas demonstrações de fé. Em que momento você consegue captar essa "fé"?

GV – Acho que uma foto tem que ser pensada. Ao mesmo tempo embora pareça contraditório, eu fico completamente concentrado, eu fico sempre fazendo a leitura mesmo que eu não tire a foto, eu já estou como exemplo no círio, já estou com a leitura do fotômetro pronta para batê-la.
Para mim o principal é a concentração, eu fico 100% concentrado, e eu fico muito perto das pessoas sentindo um pouco do que eles estão passando.
Eu já consigo antever situações fotografáveis, e são nessas situações em que eu sinto que é a hora de bater a foto.

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Jornalista81
 

É difícil ser um fotografo invisível, ao fazer documentários, mesmo com uma câmera pequena as pessoas ficam olhando, ficam acuadas


Leia quando puder
http://www.overmundo.com.br/overblog/um-pequeno-exemplo-cosmico-do-caos

Jornalista81 · Brasília, DF 1/11/2007 17:00
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Marcos Paulo Carlito
 

Válido pelo registro do personagem. Votado.

Marcos Paulo Carlito · , MS 3/11/2007 11:28
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Benny Franklin
 

Ok! Votado.

Benny Franklin · Belém, PA 3/11/2007 17:56
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