Entrevista com Marcelo Birck

Ricardo Frantz
Birck prepara seu segundo disco: mais música de risco
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Marcelo Mendes · Brasília, DF
30/5/2007 · 150 · 5
 

Marcelo Birck está prestes a lançar seu segundo CD, depois de sua estréia solo com um dos melhores discos das próximas décadas – apesar de ter sido lançado no começo desta que transcorre (2000). O novo CD, ainda sem título, está previsto para o segundo semestre desse ano (2007) e trará no repertório músicas inéditas – algumas delas sendo finalizadas diretamente no estúdio de gravação, em Porto Alegre – e recriações de pérolas do disco anterior, além de algumas surpresas, no que o músico considera seu trabalho feito em melhores condições (o que é interessante, considerando sua extensa carreira, que conta com participações em bandas seminais, como Graforréia Xilarmônica e Aristóteles de Ananias Júnior, além d’Os Atonais). Dessa vez, Birck grava com uma banda fixa – o que deve trazer uma sonoridade diferente da do primeiro disco, uma vez que aquele contava com edições sobre diversos takes e muito material gravado em condições adversas, coisa que não vai se repetir, por conta do investimento da Petrobras, que financia essa produção, através de seus programas culturais. A nova banda é composta por Alexandre Birck (bateria), Buno Alcalde (guitarra e voz) e Valdi Dalla Rosa (baixo). Além disso, o CD conta com as participações especiais de Adolfo Almeida Júnior (fagote), Rodrigo Siervo, (sax-tenor), músicos das bandas de apoio de Caetano Veloso (Ricardo Dias Gomes, baixo, e Marcelo Callado, Bateria) e Los Hermanos (Gabriel Bubu, guitarra), mais Gustavo Benjão (guitarra) – sem contar as composições e parcerias com Leandro Blessmann (Atonais) e Demétrio Panarotto (Repolho). A seguir, uma entrevista feita por e-mail com o guitarrista, cantor e responsável pelas edições e sons eletrônicos do CD, Marcelo Birck.

Pergunta: O que está sendo feito? Que disco você está fazendo?

Birck: Estou na correria para conciliar produção artística e executiva, mas o processo vem sendo de um aprendizado incrível. O repertório inclui músicas de 2000 para cá, incluindo algumas coisas que serão finalizadas durante o processo de gravação. Acho ótimo compor no estúdio, a sensação de achar soluções justo no momento do registro definitivo é muito estimulante. Gravar este CD está sendo como fazer um apanhado da minha vida no espaço entre o primeiro e o segundo disco, poder reviver as circunstâncias em que as músicas foram criadas. Acrescenta oportunidades extraordinárias de reflexão, em um momento de tomadas de decisões importantíssimas. Talvez este seja um bom argumento para lançar um trabalho em uma mídia cuja continuidade é uma incógnita. Em uma época de suportes cuja principal característica é a abertura e nos quais a noção de finalização se tornou bastante relativa, lançar uma obra em uma mídia de menor grau de interatividade pode ser um exercício de equilíbrio de percepções (diferentes contextos, diferentes sensações). Seja como for, estou pensando em incluir faixas de dados, com trechos para remix. No site é certo que vai rolar, mas para o CD tem algumas questões técnicas a considerar.

Pergunta: Depois do disco de 2000, para onde ir? Ainda é possível ir além?

Birck: Acredito que sempre há para onde ir. Minha experiência de morar em diferentes cidades do Brasil me sugeriu outras perspectivas estéticas. A sonoridade do CD novo está mais arredondada em relação ao anterior, os timbres mais amadurecidos, e o fato de ter uma banda tocando em todas as faixas (muitas vezes interagindo com bases computadorizadas) foi um desafio que me obrigou a encontrar soluções muito específicas. Na sua maioria, as musicas foram compostas no computador, e depois tive que achar um jeito de colocar o pessoal a tocar para valer. Faixas mais inusitadas convivem com outras mais pop, mas o diálogo entre os estilos é constante. Não posso deixar de dizer que o patrocínio recebido da Petrobras foi fundamental, talvez seja o trabalho em que eu tive as melhores condições para fazer o que eu queria.

Pergunta: Não te incomoda estar à frente de seu tempo? Eu acho que “iconoclasta” é uma boa palavra para definir seu trabalho...

Birck: Não creio que eu esteja à frente do meu tempo, assim como também não acho que eu seja um iconoclasta. Observo o que está acontecendo e procuro fazer uma música que tenha a ver com isso. Na verdade, sempre fiz a musica que eu gostaria de escutar, e esse é o critério de avaliação dos resultados. Registrar o trabalho é sempre um risco, e produzir um CD é um período muito propício para descobertas pessoais. Dúvidas sempre existem, se vai ficar como eu queria, como o CD vai ser recebido, mas é tudo administrável.

Pergunta: Como definir o que você faz? Há uma continuidade entre o primeiro e esse?

Birck: Creio que música de risco seja um bom começo (a primeira pessoa que ouvi usar o termo foi o maestro Antonio Carlos Borges Cunha, professor de composição da UFRGS). E com certeza há uma continuidade. A principal diferença é que o primeiro foi gravado em uma situação bem mais complexa e fragmentada do que a atual. No CD novo a produção está mais dirigida, tudo gravado em um mesmo estúdio, com os mesmos músicos. No primeiro, fiz questão de aproveitar ao máximo os recursos de edição de áudio, até porque muitas faixas originalmente eram demos, que precisaram ser retrabalhadas até adquirir cara de produto final. Era a única possibilidade que eu tinha de gravar, mas, seja como for, creio que eu teria escolhido este método de qualquer maneira.

Pergunta: Nesse caso, levando em conta as edições e as bases eletrônicas, Como transpor o Cd para o palco?

Birck: Muitas músicas precisam ser recriadas, e nessa recriação surgem coisas interessantíssimas. Tanto é que duas músicas do primeiro foram regravadas no segundo (“Tchap Tchura” e “Ié-Ié-Ié do Oiapoque ao Chuí”), agora em versões executadas ao vivo (as originais eram edições a partir de várias gravações).

Pergunta: Mudando de assunto, e quanto ao público? Você acha que seu som exige algo do público?

Birck: Algumas composições, devo admitir que sim. Mas outras são bastante pop (como, por exemplo, “Tricicloscópio” ou “Sei que Vou chorar”, do primeiro disco). No disco novo, pelo menos 5 faixas são totalmente pop. Mas, nos shows, já percebi que o estranhamento é consideravelmente amenizado quando rola interação com outras mídias. Em função disso, estou elaborando filmes de animação em película super-8.

Pergunta: Há previsão de shows pelo Brasil, para divulgação desse novo trabalho?

Birck: A possibilidade existe, estou fazendo contatos, mas no momento o foco de atenção é a produção do CD mesmo.

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Edmundo Nascimento
 

Roquenrou ! Espero q essa galera comece a rodar o Brasil tb, quem sabe teremos condições de ver por aqui ?

Edmundo Nascimento · João Pessoa, PB 30/5/2007 13:04
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Marcelo Birck
 

Pois é, Edmundo, vontade é o que não falta. Vamos esperar o lançamento do CD, e ver o que acontece. Valeu!!!!!!!

Marcelo Birck · Porto Alegre, RS 30/5/2007 21:12
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Guilherme Mattoso
 

o legal é que petrobras dando força presse tipo de projeto! sorte pro birck!

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 31/5/2007 08:14
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Moysés Lopes
 

Este é o Birck, baita cara! Espero que o show possa rodar o Brasil, para que as pessoas possam conhecer.

Um abraço,

Moysés Lopes · Porto Alegre, RS 1/6/2007 07:01
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Silvio Cardoso
 

O Marcelo é referência em música de vanguarda no Brasil, seja pela utilização de diversas linguagens e mídias, bem como pelo arrojo e originalidade de suas músicas... Boa sorte!

Silvio Cardoso · Goiânia, GO 2/6/2007 13:34
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