Quando sobrou pra mim a tarefa de continuar tentando uma entrevista com o fodástico Max Gehringer, entrevista que há muito os colegas aqui da redação tentavam desenrolar para o house-organ de um de nossos clientes, de imediato eu pensei: “se os profissionais que trabalham aqui comigo na Assessoria de Imprensa (muitos deles também fodásticos) ainda não conseguiram a bendita, um inexperiente estagiário com pretensões à trainee como eu é que não vai conseguir”.
No entanto, dois meses e meio após o início das conversas, eu já estava editando as respostas oferecidas pelo Max aos meus questionamentos e me perguntando o porquê daquela descrença toda em mim mesmo. Pois veja só: além de conseguir a entrevista para o jornal corporativo, ainda vi o Max responder prontamente a uma entrevista exclusiva que lhe propus para meu blog pessoal sobre construção de uma carreira fora do mercado corporativo — ou seja: sobre uma possível futura carreira para este pretenso escritor.
A verdade é que, como o Max é “o cara” para falar sobre gestão de carreiras, pensei comigo: “por que não pedir a esse cara dicas para quem, como eu, não tem vocação para o escritório, mas que precisa e gosta tanto de grana quanto qualquer engravatado?”. Bem... arrisquei.
Mandei-lhe um e-mail propondo as entrevistas, brincando com o fato de elas terem uma importância especial para mim — afinal, uma exclusiva com Max Gehringer seria um incentivo e tanto para meus chefes me darem a tão aguardada promoção. E na verdade, não “seria”: foi. Entrevista já no meu disco rígido, assino trainee agora. Talvez não “só” por causa disso, mas muito provavelmente “também”. Segue a bendita abaixo.
Pretenso Literato: Minha pergunta tem a ver com quem, assim como eu, não deseja enveredar-se pelo mundo corporativo, mas sim por outros campos de profissão como Artes Plásticas, Música Popular, Literatura ou Circo, por exemplo. É possível para estas pessoas construir sistematicamente uma carreira tal qual se faz no mundo corporativo? Como?
Max Gehringer: A vantagem do mundo corporativo é a coletividade. Numa empresa, um empregado que executa uma determinada função pode ser substituído por outro, com escolaridade e experiência. No mundo das Artes, o que conta é o talento individual. O que existe em comum em dois mundos tão díspares é a necessidade de construir um bom networking. Uma mãozinha sempre ajuda, tanto para quem quer conseguir um emprego quanto para um músico que quer mostrar seu trabalho.
P. L.: Mas existem perspectivas de prosperidade financeira para quem deseja se lançar nestas carreiras menos formais? Pergunto porque algumas destas carreiras prescindirem em parte da formação acadêmica, ou de um “plano padrão” de desenvolvimento, como a inserção em uma grande companhia, o aprimoramento através de cursos etc.
Max: Ao contrário do mundo corporativo, em que uma carreira é progressiva, e vai sendo construída através dos anos, o mundo das artes requer habilidades que podem ser constatadas muito cedo. Um escritor que não tenha imaginação aos 20 anos não a terá aos 40. Qualquer pessoa que pretenda viver da arte deve ter em mente que, se nada acontecer até os 30 anos, dificilmente algo irá acontecer depois disso. Portanto, seria conveniente ter uma carreira paralela, em uma empresa formal, para o caso de o pendor artístico não resultar em um meio de vida.
(Pensamentos inevitáveis deste pretenso literato: “Faço 27 anos em novembro. Merda! Tenho apenas três anos para ‘acontecer’, ou meu destino acabará sendo engordar a barriga atrás da mesa de uma ‘repartição’. Putz, agora ferrou!”).
P. L.: Qual seria então, neste caso, “o caminho das pedras”? Ou melhor: existe um caminho das pedras para estas situações?
Max: Um bom exemplo é o dos palestrantes profissionais. Temos cerca de 10 mil deles no Brasil, sendo que 80% são palestrantes eventuais (professores, consultores e profissionais de empresas que fazem duas ou três palestras por ano). Dos que sobram, não mais que 50 conferencistas conseguiram fazer das palestras uma atividade rentável, o que muita gente estranha, já que falar parece ser a coisa mais simples do mundo. Esses poucos montaram um material diferenciado e possuem carisma suficiente para manter uma platéia ligada durante duas horas. Quando muitos tentam e tão poucos conseguem, a resposta é a que a maioria não gosta de ouvir: a de que o talento que a pessoa imagina ter é menor do que os eventuais contratantes enxergam nela.
(Pensamentos mais que inevitáveis: “Não me fala que eu não quero ouvir! Não me fala que eu não quero ouvir!”).
Então é isso. A verdade é que gostei tanto do lance das entrevistas que, de agora pra frente — se a sorte e o acaso me ajudarem a conseguir entrevistados bacanas como este —, frequentemente vou publicar uma entrevista interessante em meu blog. (Talvez nem sempre com um caso engraçado antes, vá lá, mas sempre com o foco relacionado à pauta do blog).
* Max Gehringer é dos maiores especialistas do Brasil em carreira e nas regras do mundo corporativo, além de estar tirando do prelo o seu nono livro sobre o mundo empresarial: “Emprego de A a Z”. Max escreve semanalmente para a revista Época, dá dicas na rádio CBN e mantém um quadro fixo no programa Fantástico.
Minha pergunta inevitável é: palestrantes profissionais, para Max Gehringer, são executivos que decidiram seguir a carreira artística? :)
Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 8/7/2008 14:15
Aê P.L. vc consegue cara, essa entrevista ta muito bacana.
Se você manter esse humor, acho que da p/ segurar por duas horas.
:)
Valeu, Alberto! Se um dia eu realmente conseguir segurar um leitor por duas horas em um texto meu, arrisco-me de imediato a escrever meu primeiro romance! Rs. Valeu a força! :)
Ewerton Martins Ribeiro · Belo Horizonte, MG 9/7/2008 10:37Alberto, parabéns pela entrevista e por conseguir o contato. E faço minha a questão viktor. Não concordo com o "f..." Max. A arte pode surgir numa pessoa depois de uma crise de algum movimento que desorganize o que está cristalizado. Daí vale a pergunta do Viktor. Esses "viraram" artistas?
Compulsão Diária · São Paulo, SP 9/7/2008 19:45
Legal, conhecia muito pouco (conheço pouco ainda) sobre o entrevistado e muito menos ainda sobre as teorizações do sucesso alheio. Acho temerário estas investidas de decifrar, tecer, receitar
uma trilha de alguém que possa servir a outrém. Acho tudo isto igual a receituario de traficante. Traficante de droga. Só tem dois caminhos a droga e a bala.Acho igual temerário se não igual
abraço
andre.
Parabéns !!! Grande trabalho!! perfeito!
Meus votos
abraço
Ewerton, cá pra nós, o Max não entende nadinha do mundo das artes! Em primeiro lugar ele sugere a necessidade da "panelinha" ao falar da importância de um bom networking para a carreira. Em segundo lugar ele reforça esse conceito romântico de que o artista já nasce pronto quando diz que se o talento não se manifesta aos 20 anos não vai se manifestar mais (certamente ele não conhece a obra de Saramago, por exemplo, que começou sua "carreira" bem depois dos 40 e é, reconhecidamente, um dos grandes escritores mundiais contemporâneos). Depois, ainda, sugere que o pretenso artista que não consegue viver de sua arte deve procurar uma colocação paralela que o sustente, numa clara indução ao conformismo e à mediocridade (pq se o cara é um artista tão medíocre que não se sustenta, vai também ser um empregado medíocre, obviamente). Por último, como um golpe certeiro no papel da arte e do artista na sociedade, compara o palestrante profissional a um artista, como se uma coisa tivesse a ver com outra: será assim que o cara vê a arte? (Votando à pergunta do Viktor) E será que é assim que devemos ver a arte e a cultura?
Espero que a opinião do cara não influencie sua carreira de escritor, pois se for levar em conta o que ele diz, com seus 27 anos vc já pode perder todas as suas esperanças! heheh
abraços e boa carreira!
Claudia, achei bacanérrimas suas colocações. Realmente você analisou tudo de uma outra perspectiva - muito coerente, por sinal. Penso que tudo isso é muito interessante até mesmo para percebemos o hiato que existe entre as profissões "normais" e as profissões "artísticas". São realidades bem diferentes.
Pelo lado profissional, no entanto, concordo com o Max em relação à importância do network. Mas concordo que isso não pode ser fator sine qua non para definir o espaço de alguém que é bom no mercado. Não podemos ficar reféns do networking, até porque muitos artistas não tem uma habilidade natural para esta prática. Acho que é tudo muito incipiente nesta discussão em relação à atividade artística profissional e, para falar a verdade, estou achando legal demais esta coisa de Overmundo. Postei este primeiro texto e acabei vendo opiniões que vão muito além de meu raciocínio inicial na elaboração do texto, o que me acrescenta muito. Show de bola.
Ewerton, primeiramente, parabéns pela matéria. Lendo seu postado agora, em especial, o que o entrevistado diz sobre mundo corporativo, mundo das artes etc., lembrei rapidamente de vários amigos meus, artistas, que têm que "se virar e revirar" pra vender o "seu pão". Em muitos pontos, acho plausível o que o entrevistado diz quanto ao fato de que, não estamos sozinhos ou não podemos ficar sozinhos, mesmo em se tratando do mundo das artes. Tenho amigos que já são reconhecidos pela sua arte e que somente passaram a ganhar uma boa grana depois de assinar contratos, de se unir a outras pessoas para divulgar e vender o seu trabalho, etc. Foi exagero do entrevistado dizer que "quando não acontece algo até os 30 anos dificilmente acontecerá depois"? Foi! Mas entendo o raciocínio que é: "se você não desenvolve e não persiste no seu talento cedo, quando você tiver na idade de pagar muitas contas, talvez não seja possível recuperar o tempo perdido e daí, o jeito é se entregar ao mercado corporativo".
Ewerton, talvez eu esteja sendo chata por concordar em alguns pontos com o "fodástico" (?) como você diz, e até jurei pra mim mesma não fazer mais comentários contrários dos demais nos postados aqui pra não ser mal interpretada. Mas, como gostei da sua matéria, achei interessante a abordagem e lembrei da realidade que vejo aqui, com pessoas que gosto muito, preferi deixar minha opinião. Por aqui esse network é algo que está dando muito certo, o problema, é o pouco acesso a isso para alguns poucos artistas. Tenho um amigo que teve virar um microempresário em algo que não tem nada a ver com seu talento artístico porque não poderia viver somente dos quadros que pinta depois de se casar. Entende? Não sei a realidade em Minas, São Paulo, Rio, etc. mas aqui, interior do Ceará, viver da arte não é fácil e "juntar as mãos" é o que está dando certo para muitos! Quase todos os meus amigos que são artistas, buscam a net para divulgar o seu trabalho e estão se unindo a outros, na net ou não... No mundo real, na prática, essa união está sendo imprescindível e o talento não será nada se não houver persistência em desenvolvê-la e divulgá-la da forma correta. A oratória também é uma arte. Não é qualquer um que tem esse dom da fala, e olha, posso te dizer isso por experiência própria até pelo meu ofício.
Ewerton, por favor, não leve a mal a minha opinião. Mas cara, é que, como falei, o que vejo aqui de talento sobrando e não reconhecido x contas pra pagar e família constituída não tá no "gibi"! Só quem tá na "pele" é quem sabe! Abraços e sucesso na carreira.
Ainda bem que vc entendeu que a crítica é pro Max, e não para o seu texto!
Sobre a questão das networkings, que a Jack também fala aqui, é preciso não confundir uma rede de ajuda mútua, organizada ou não em associações e cooperativas, que são sempre válidas e necessárias, com a tal rede a que ele se refere, que no mundo empresarial é mesmo a tal da panelinha (é quem janta com quem ou janta quem). E acho que um dos grandes problemas da produção artística aqui é exatamente a tal panelinha: se o artista está fora dela (ou seja, não conhece as pessoas certas, nos lugares certos), tem poucas chances de mostrar e vender seu trabalho. E, cá pra nós, a lógica da arte não deve nem pode ser a lógica do mercado: o mercado não está nem ai pra arte, quer mais é o lucro que pode vir dela.
A gente pode ver a cultura como produto sem medo. Mas é preciso saber que é um produto com certas especificidades, pois é o que a humanidade tem de subjetivo, de não mensurável. Não dá pra colocar a produção artística numa planilha, fazer quadros comparativos e traçar um plano de metas. Nem dá pra saber direito, como artista, qual é exatamente a própria meta! (isso até lembra aquela canção do Gil, metáfora). E muito menos qual é a meta do "consumidor" de arte.
É claro que é preciso pagar as contas! E, também, buscar maneiras inteligentes de paga-las com seu trabalho. Mas enquadrar a produção artística na mesma forma da produção empresarial é dar um tiro no próprio pé descalço.
Invertendo o raciocínio com um pequeno exemplo: sem grana nenhuma, chego à frente de um escultor que fez uma linda peça que está exposta, e daí, passo um tempão conversando com ele falando da sua obra, das características dela, etc., deixando claro o quanto aprecio e compreendo a sua arte. Chega depois uma outra mulher, mal olha a peça e diz: "eu compro, quanto é?"
Pergunta: a quem vai pertencer a escultura?
Conclusão: o mercado talvez não se importe com a verdadeira arte, mas o artista que sobrevive dela, precisa dos consumidores/mercado.
Já as "panelinhas" existem de todas as formas, em todos os lugares... é difícil destruí-las, e são realmente injustas para os pequenos artistas que não têm conhecimento de como "vender seu peixe" da melhor forma.
O meu amigo que virou microempresário e que dei como exemplo no comentário anterior (e que não está nas "panelinhas") me disse: "A coisa é séria, primeiro a gente é artista pra fazer arte, depois, tem que ser artista pra vender nossa arte!"
A arte tem sua essência, claro, e é nela que está o seu valor real! Muitos artistas querem, não somente ter seu talento reconhecido por suas peças, mas também, ganhar dinheiro com elas, e, não podemos culpá-los nem julgá-los por isso! É isso... mera opinião, somente, e respeito muito todas as opiniões contrárias. Ewerton, acho que sua matéria abre discussões para vários outros postados aqui, não acha? Bjs.
"Ewerton, acho que sua matéria abre discussões para vários outros postados aqui, não acha?". Com certeza, Jack, haja vista estes desdobramentos que vocês tem feito nestes post que, como escrevi no post anterior, vão muito além do que eu pensava inicialmente quando da realização a entrevista. Concordo plenamente com você.
Essa questão do network é super complicada mesmo. Definir estes "limites éticos" entre a simples rede de contatos e as panelinhas, que se vendem internamente, talvez seja mais complicado ainda. Limite muito tênue. Realmente a questão se desdobra em um debate amplo, mas bem interessante. Legal demais. (E é isso mesmo, Cláudia: entendi perfeitamente as suas colocações e críticas - não se preocupe!).
Eu acho que, neste contexto, o grande desafio que se apresenta para os artistas é conseguir tornar o seu trabalho rentável, capaz de sustentá-lo (evitando assim a ter de ter " uma carreira paralela, em uma empresa formal" citada por Max) mas mantendo sua produção íntegra e honesta. Coisa difícil...
Olá Ewerton e Max,
Gostaria de saber o que pensam sobre:
No quesito arte, que tipo de artista se refere? E o que Max considera uma carreira de sucesso? Sucesso não é um conceito pessoal, ou sucesso é igual para todo mundo?
Essa idéia de até os trinta ainda vigora? Então para os homens seria a idade limite do poder, assim como é para as mulheres a idade limite para a beleza...Isso que entendí?
E qa Inovação e a gestão em carreiras? Existe?
Outra? O que seria uma carreira/vida de sucesso para uma mulher? ela tem que virar uma workaholic também?
Questões que gostaria que comentassem...
Abração.
Não sei se o Max está acompanhando este debate tão bacana sobre esta despretensiosa entrevista que fiz com ele, Natália, mas creio que não... :)
Mas de qualquer forma, digo o que eu penso. Eu, no meu caso, sou um pretenso escritor, mas nas perguntas tentei dar uma abordagem mais generalizada, de forma às respostas servirem não só para este pretenso literato aqui, como também para, sei lá, um cara que quer ser malabarista, por exemplo, e que vê no futuro desta pretendida carreira uma enorme dificuldade para pagar as contas e comprar o leite dos futuros malabaristazinhos (filhos). Rs.
Concordo com você que o conceito de sucesso é específico para cada um. Para mim, tem muito a ver com me sentir realizado com o que faço e, ao mesmo tempo, ganhar dinheiro com isso de forma que dê para pagar as contas e viver com certo conforto. Ah, e no meu caso específico, sucesso também está um pouco relacionado com reconhecimento. Almejo ser reconhecido. Tenho lá meu egozinho, fazer o quê? Rs. Quanto ao que o Max define como sucesso, para isso realmente não obtive resposta na entrevista. Infelizmente...
Esse lance de até os trinta realmente acho complicado. Temos exemplos interessantes de gente que só apareceu bem depois, como Saramago (do qual nem sabia isso, que só tinha começado após os 40), citado pela Cláudia, ou Lya Luft, citada por uma colega de trabalho. Mas em minha opinião, são casos pontuais. Levando-se em conta que as carreiras artísticas, em alguns casos, prescindem de uma formação acadêmica tradicional, creio que a questão das "habilidades que podem ser constatadas muito cedo" apontada por Max faz sentido. Creio que é preciso realmente que o cara se avalie para perceber se tem talento e vocação ou se apenas acha que tem os dois (ou se realmente tem, mas não em tão grande proporção como imagina). Mas não vi nas respostas dele alguma construção que dê direcionamento para estas conclusões e relação ao limite para a beleza (mulheres) e limite do poder (homens). Mas creio que interpretação é uma questão particular, não é verdade? Quero mesmo refletir sobre isso para entender melhor este desdobramento que você fez. A construção textual parece mesmo um organismo vivo, se desdobrando em mais e mais informação, não? Interessante...
" Inovação e a gestão em carreiras? Existe?". Rs... estou ainda na fase de tentar "começar" a carreira. A inovação deixo para depois... rs.
E quanto à carreira de sucesso no caso da mulher, não creio que se diferencia muito do caso dos homens, ou seja: tem a ver com o conceito de sucesso decada pessoa, questão que você levantou. É isso. Obrigado pelas questões. Agora vamos esperar o Max se pronunciar... rs. (Para falar a verdade, do tanto que ele é simpático e solícito, eu não me assutaria se, de repente, aparecesse um comentário dele aqui). Rs.
Abraço.
Consegui, Ton! Vou continuar sempre torcendo por você.
Luana Damasceno · Belo Horizonte, MG 10/7/2008 22:51
Oi Ewerton, muito legal sua iniciativa, que penso fará muita gente que pensa em viver na área cultural pensar nos seus passos com mais estratégia.
Respeito muito o Max e gostaria de deixar algumas indagações, como contraponto, para pensarmos:
1 - Max afirma "(...) No mundo das Artes, o que conta é o talento individual".
Eu penso que nem tanto ao céu, nem tanto a terra. Para o que eu visualizo dos diferentes mundos das artes, conta também o coletivo e não só individual.
2 - Max cita também "(...) O que existe em comum em dois mundos tão díspares é a necessidade de construir um bom networking".
Acho que a gente pode pensar no tal do networking como algo mais amplo, não apenas a lista de potenciais pessoas podem vir a me indicar para algo e que em função deste interesse preciso aturar tudo e viver sendo um eterno diplomata, mas pessoas com as quais posso ter prazer em trocar e construir idéias, projetos, realizações.
3 - Esta considero a mais polêmica. Max é enfático em dizer "(...) Ao contrário do mundo corporativo, em que uma carreira é progressiva, e vai sendo construída através dos anos, o mundo das artes requer habilidades que podem ser constatadas muito cedo. Um escritor que não tenha imaginação aos 20 anos não a terá aos 40. Qualquer pessoa que pretenda viver da arte deve ter em mente que, se nada acontecer até os 30 anos, dificilmente algo irá acontecer depois disso". Eu comecei quase aos 30 anos a desenvolver a minha atividade de produtor cultural independente e acho que muita gente neste país começa mais tarde, como eu, pela falta de informação e por causa de "dogmas" como este.
Mas acho que procede a preocupação de ter um outro trabalho. Como o mercado cultural brasileiro está se estruturando e ainda está muito concentrado, não é fácil realmente viver somente de uma atividade cultural. Mas é possível e muita gente está virando o jogo.
Por fim, acho que iremos avançar, no desenvolvimento de conteúdo e métodos que auxiliem o desenvolvimento de carreiras nas diferentes áreas da cultura, se ao invés de nos apoiarmos no que já foi provado que é possível em outras áreas, buscarmos compartilhar as experiências e as tecnologias contemporâneas que estão proporcionando sustentabilidade para muitas pessoas no país.
Um abraço!
Alê Barreto
No meu mundo utópico todo mundo é artista. Há quem ganhe dinheiro com isso, há quem não ganhe. Quem tem mais talento, amigos, contatos, sei lá mais o quê, ganha dinheiro. Quem não tem nada disso, não ganha dinheiro. Mas continua sendo artista. E daí se não for bem sucedido financeiramente? Tem muita coisa em jogo entre ganhar dinheiro ou não fazendo arte. Uma delas é o talento, sem dúvida. Mas certamente há outras. E, mesmo sem talento e sem dinheiro, que se diga artista quem se vê como tal. Tem uma frase no Interiores (do Woody Allen) que a personagem da Diane Keaton fala sobre a personagem da Mary Beth Hurt: "Coitada, ela tem alma e angústia de artista, só não tem talento para ser fotógrafa". Cruel, não? Deve ser muito ruim ter a sensibilidade de artista e não poder ser um. O Max peca quando associa o sucesso na arte ao talento, que, por sua vez, traz dinheiro. E a lógica, para mim, não está nem no talento, nem no sucesso. Está em colocar para fora "a alma e a angústia" de artista. Nem que seja fazendo algo "ruim", porque daí o julgamento é subjetivo. E Ewerton, gostei muito do teu texto, inclusive da ironia fina em algumas passagens. Gostei muito dos textos do seu blog também. Temos uma afeição comum pelo Kundera :)
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 11/7/2008 12:02
Acho muito boa a colocação do Thiago, mas acho que o Max não está de todo errado ao fazer essa associação entre talento e sucesso. Na verdade, o pensamento do Max (grande pensador "fodástico", aliás) não generaliza. Ele está, no fundo, se referindo especificamente ao talento capaz de proporcionar o sucesso. É como se cada um de nós tivéssemos inúmeros talentos, mas só um ou outro (dos talentos) são capazes de nos proporcionar sucesso. A grande capacidade "fodástica" do Max, para mim (e também para o Fantástico, a Época, a CBN hehe), está em conseguir descobrir este talento inculto em cada ser humano. Este talento único capaz de lhe proporcionar o sucesso. Afinal, já demonstrava Kafka, todos nós somos artistas, mesmo os artistas da fome. A questão aí está em saber se o nosso talento é ou não ser faquir. :)
Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 11/7/2008 12:15
Ser artista faquir com criança para alimentar é fodástiko também, não acham????
Mas, o que o Max precisa de grana para sobreviver, deva ter uma desnivelada com o que outras pessoas (artistas faquires) com crianças para manter precisem. Sucesso ou não? Além da fome, sofrimento psíquico. Arte, e cultura??? Mais amor, carinho e afeto, com barriga cheia. E liberdade, como por exemplo, a de brincr livre, jogando bola na rua em frente a casa, ou mesmo no quintal, tão difícil hoje. Casa de praia? Campo??? Onde estão as transcrições das Sesmarias????!
Para quem não entendeu meu alento, para quem compartilhou da conversa, Agradecida. sempre!
Abraços!
ÔH! OÔH! Habilidades que podem ser constatadas muito cedo". Boa colocação. Quem irá constatar??! O professor, a família, a escola??? Um especialista??? Curso para constatores de "Habilidades específicas cedo". Conheço mil, aos montes, aos borbotões...
Abraços!
O Kundera... nem lembro mais...deve estar em alguma prateleira mofada por mais uma enchente em algum verão da Guanabara. Grata por refrescarem minha lembrança. Fui fã do kundera. Quendera. Kim Dera. Rs, rs, rs.
Natália Amorim · Belém, PA 11/7/2008 13:54Parabéns pela belíssima entrevista... Esclarecedora.
Bruno Resende Ramos · Teixeiras, MG 6/3/2009 01:10
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