Entrevista com Nego Banjo

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etetuba · Belém, PA
11/9/2008 · 154 · 16
 

Esta entrevista foi feita pelo Instituto Nangetu para a construção de arquivos de memória do Terreiro, participam Táta Kinamboji e Táta Iya Tundelê e aconteceu no final de agosto no Mansu Nangetu.

Ivonildo dos Santos (59 anos), o Banjo, é Huntó e mantém o Terreiro de Omolu Sade, em Icoaraci, e mestre na musicalidade da religiosidade afro-brasileira. Baiano de nascimento, vive em Belém desde meados da década de 1980, e aqui se dedicou a ensinar o que aprendeu a filhos de terreiros de várias origens, sendo reconhecido pelo Departamento de Patrimônio Histórico da Fundação Cultural do Município de Belém como a matriz geradora da musicalidade do candomblé praticado em Belém.

Como a maioria dos mestres em cultura popular, vive sem salário ou aposentadoria, recebendo doações para sobreviver. Aqui ele fala de sua trajetória religiosa e musical, de sua vida e suas necessidades, e fazemos neste resumo de conversa a nossa homenagem ao trabalho desse homem.

Instituto Nangetu: Em resumo, quem és tu, que conhecimentos tu guardas?

Nego Banjo: : Meu nome é Ivonildo dos Santos, nasci em Santo Amaro da Purificação, eu estava com a idade de dois anos quando fui suspenso (escolhido, destacado) no Ilê-Axé do sr. Benedito, que era feito na casa do Ciriáco, que era angoleiro. Aos quatro anos fui suspenso na casa Kassu Lemdembê, da nação Ketu, onde minha mãe e minhas irmãs eram iniciadas. Aos doze anos fui confirmado no cargo de Alabê para o Orixá Xangô na casa do sr. Cícero Fernandes de Araújo. Aprendi o que sei com muitos Mestres: com Nuca de Jacó, em Santo Amaro, e Manoel Cremildo da Cruz no terreiro de Sr Benedito Gamoiace de Peraculê Grande, que foi feito pelo finado Ciriáco, fundador do Tumba Junssara, que era irmão carnal e filho de santo de Bernadino da Paixão, fundador do Bate Folha. Também aprendi junto com o sr. Rosalvo da Cruz, ou Táta Kalendé, e Maria Rosália dos Santos, ou Mametu Sindalucaia e com Jilobi de Nanã – era eu que levava as maiongas (banho ritual) do inicio das suas iniciações. Aprendi a tocar com a idade de quatro anos com o sr. Mário, que não era confirmado, mas que sabia tocar e ensinou não só a mim, como a várias pessoas em Santo Amaro. Depois que fui pra casa de sr. Cícero, por motivos dos meus conhecimentos anteriores de toques e cânticos, fui escolhido pelo Orixá Xangô para ser seu primeiro Alabê. Neste período marcava-se presente na minha iniciação Antônio Pegigan, da Corcunda de Yayá, sr. Dagoberto, Ogã confirmado para o caboclo Pena Verde, angoleiro e meu pai pequeno, e sra. Guiomar de Oxum, minha mãe pequena, com eles eu continuei meus aprendizados e a essas pessoas eu agradeço tudo o que sei. Meu caminho foi assim, eu ainda criança ia com minha mãe pro terreiro e lá aprendi a tocar muito cedo. Aos doze anos fui confirmado no cargo de Alabê de Xangô do Babalorixá Cícero Araújo na cidade de Salvador, e desde então assumi a função e a exerço até hoje, somando mais de quarenta anos, e continuarei com essa função enquanto Xangô me permitir.

IN: e a escolha por Belém?

NB: Eu conheci Belém em 1981, numa obrigação (ritual de passagem) do sr. Pedro Corre-beirada, que morava alí na Pedreira, mas quando em vim pra ficar foi em 1985, vim trazendo o Babalorixá Valmir da Luz Fernandes e as circunstâncias fizeram com que me radicasse na capital paraense. Valmir é do Orixá Odé, é filho de meu pai Cícero, tinha sido iniciado em Salvador um tempo antes, e nesse momento ele tinha acabado de se tornar Babalorixá pelas mãos de meu pai. Mas ele sozinho em Belém não daria conta de formar o seu Ilê Axé de acordo como tem que ser a casa de um filho de Cícero, então eu vim com ele por que eu tinha a vivência do terreiro de Xangô, por que eu sabia cantar, tocar, dançar, sabia os segredos dos ebós, sabia fazer as comidas de santo, enfim, eu sabia os fundamentos da religião, e por isso fui designado para ensinar os filhos do Valmir, que seriam netos de Cícero, e ajudar o próprio Valmir naquilo que ele se sentisse inseguro.

IN: e por que ficaste?

NB: Hoje tem candomblé quase todas as semanas aqui, e tem sábados que tem dois, três terreiros tocando no mesmo dia. Mas nesse tempo tinha muita Umbanda, Tambor de Mina... Mas Candomblé só tinha o Angorense Bessenvi, que era filho do finado Rufino de Dandalunda, o Walter de Nkossi iniciado pela dona Branca, o Manoel da Jóia, que vem do Zé do Macotó, a Esther de Iansã, a Iyalorixá baiana Dewi, que já morava e cultuava o candomblé há algum tempo por aqui, e o Hydee de Oxalá, e talvez mais um ou outro que eu esteja esquecendo agora. Mas o importante é que os terreiros de Candomblé a gente contava nos dedos da mão, e sem a prática como temos em Salvador – de ter candomblé todos os dias -, eu achei importante ficar um pouco mais por aqui para acompanhar os primeiros anos do Ilê-Axé. Eu morava num quartinho nos fundos do terreiro, que era chamado de Ilê Bahia - no lugar onde hoje é a cozinha, e quando os filhos da casa tinham alguma dúvida ou queriam aprender alguma coisa eles sabiam que iam me encontrar lá. Então todo dia aparecia ao menos um pra aprender alguma coisa, o bom é que todos os dias eu fazia as mesmas coisas que fazia em Salvador, e mesmo que não tivesse a quantidade de festas que tem na Bahia, os filhos do Nilé podiam tocar, cantar, dançar todo santo dia e todo dia santo.

IN: Então foi em nome do Axé do seu pai Cícero que...

NB: Nessa época outras casas já me chamavam pra ensinar também, aqui na Nangetu, que é filha do Jorlando, eu ensinei os toques de Angola ao Kongoande, pro Kamugeji, pro Kitamukuene, ensinei as autoridades a dançar, corrigi passos de Muzenza.... Sabe como é, vocês também estavam a maior parte do tempo sozinhos, o Jorlando vinha mas não ficava aqui o tempo todo, ai eu comecei a ensinar. Depois o Carlinho de Gongombira, que é confirmado pela Mametu Samba Diamongo para o Ajunsú de Jorlando, se encarregou de manter a prática dos toques e dança no Mansu da Nangetu, mas quando ele chegou eu já tinha começado os trabalhos. Também ensinei toques e cantigas aos Ogãs do fundamento da mãe Dewí, como o Romeu, o Omilodé e o Makaibê, e fui eu que fundei terreiro da Zazá de Oxumaré, que é neta da Dewí, filha do Odé Bessí - Sr. Guilherme, também ajudei no Odé Mussamburá – que era filho do Edson de Oxum, fundei o terreiro de Obá Loqueji, e tantos outros... Eu ensinei muita gente!

IN: E teu trabalho foi só em candomblé?

NB: Não, mas tudo tem relação. Quando decidi ficar em Belém montei uma oficina e com ela consegui viver por vários anos, a marcenaria me sustentou enquanto minha saúde permitiu, mas hoje já não consigo agüentar a lida da oficina. Nessa marcenaria fiz muitos instrumentos musicais pra terreiros – atabaques; e ‘cadeiras de cargo’ (cadeiras que ficam em destaque nos terreiros, destinadas ao uso exclusivo de sacerdotes), por exemplo: eu fiz a cadeira de cargo da Ekedi Kiriobá, que é confirmada pelo Pai Jorlando de Salvador, fiz a do Táta Kinamboji, do Táta Kongoandê, no Mansu Nangetu, fiz cadeiras do Ilê-Axé do Nilé, e de muitos outros, é difícil eu ir numa ‘casa de santo’ que não tenha cadeira minha. Passei a maior parte da minha vida em Belém em rodas de conversa nos terreiros e em rodas de samba nos quintais das casas dos sacerdotes, nas conversas contamos estórias, relatamos mitos e trocamos experiências, nas rodas de samba treinávamos toques e incentivávamos a dança. Das rodas de samba informais foram formados dois afoxés (Italemi e Bandagira) que são liderados por sacerdotes e desfilam na avenida dos festejos oficiais no período do carnaval, somando a outro que já existia e que hoje está extinto, o Axé Dudu, dirigido pelo CEDENPA. Com os Afoxés difundimos a nossa crença e visão de mundo para além dos muros dos terreiros, e eu componho pros dois e tem ano que ambos cantam música minha.

IN: e qual a tua importância para a cidade?

NB: O que eu construí, e que eu vou esperar que no futuro se reconheça, é a música que fiz para os Afoxés e que divulgam a nossa cultura religiosa, e (a qualidade do) o candomblé que se faz hoje, e que eu sei que vai continuar assim, em Belém, Ananindeua, Marituba, Santa Bárbara e até Macapá...

IN: Queres registar mais alguma coisa?

NB: Quero agradecer a entrevista, e dizer que meu desafio é conseguir viver com dignidade sem abandonar o candomblé, e pra isso estou procurando meios de sobrevivência... Pois se eu não tenho aposentadoria é por que minha vida foi em candomblé, e não dava para conciliar empregos com a vida nos terreiros, e com a situação em que me encontro hoje já pensei até em vender minha casa e investir em canoa e ir viver de pesca na Bahia. Eu estou vivendo da ajuda dos amigos em troca de aulas de canto - e não recebo dinheiro, pois eles também não tem muito a dar - dou aulas em troca de alimentos e vale-transporte, mas tem dia que eu não sei o que vou dar de comer aos meus filhos, e me magoa saber que aqueles que estão bem de vida, fingem que me esqueceram... Essa ingratidão me dói.

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delen
 

Excelente trabalho , fiz uma ótima leitura , posso dizer que foi uma entrevista e tanto , aplausos. Abraço...

delen · Cotia, SP 8/9/2008 02:02
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Eloy Santos
 

Trabalho competente e informações valiosas sobre a cultura e a história do Brasil de hoje.

Eloy Santos · Rio de Janeiro, RJ 8/9/2008 09:53
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Doroni Hilgenberg
 

Etetuba,
Bela entrevista
É muito triste quando alguém que se doou por inteiro a uma causa sem o auxilio de um emprego digno, se veja agora, esquecido por todos e a mercê de ajudas provisórias. Já que o Condomblé necessita de seus adeptos, porque não providencia aposentadoria para os mesmos?
É Nego Banjo, a ingratidão dói!

bjssssssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 8/9/2008 10:54
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Karla Gohr
 

O Banjo, pode-se dizer, que é uma lenda, né? Bela entrevista, com profundas informações. (adoro esse tipo de reportagem). Beijo.

Karla Gohr · Curitiba, PR 8/9/2008 11:30
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Saramar
 

De início devo dizer que fiquei encantada com a riqueza onomástica, com a beleza do sons destes nomes todos que, por si só já se eocam música.

Saber da história de Nego Banjo e das condições terríveis em que se encontra, depois de ter trabalhado tanto e feito do candomblé sua vida, reflete exatamente a "valorização cultural" dos grupos religiosos brasileiros, alheios ao cristianismo.
Pelo pouco que entendo, apenas aqueles que se prestam a ser chamariz de turistas auferem algum tipo de benefício, nem que seja passageiro e ilusório.
Triste país falso que renega suas origens e descuida daqueles que dão o sangue para mantê-las.

beijos, obrigada pela entrevista.

Saramar · Goiânia, GO 8/9/2008 23:23
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alexleovan
 

Tenho o orgulho de dizer que Nego Banjo é meu mestre, ontem mesmo aprendi passos de dança de muzenza e kongo com ele, sem contar com os toques de candomblé n´gola.
Obrigado Mestre!
Obrigado Táta Kinambojí!
Abraços.

alexleovan · Belém, PA 9/9/2008 08:51
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carlos magno
 

Eu achei muito interessante esta intrevista, amigo Etetuba. Meus sinceros aplausos e abraços.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 9/9/2008 19:50
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joe_brazuca
 

joe_brazuca · São Paulo, SP 10/9/2008 00:27
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joe_brazuca
 

"...Quero agradecer a entrevista, e dizer que meu desafio é conseguir viver com dignidade sem abandonar o candomblé, e pra isso estou procurando meios de sobrevivência... Pois se eu não tenho aposentadoria é por que minha vida foi em candomblé, e não dava para conciliar empregos com a vida nos terreiros, e com a situação em que me encontro hoje já pensei até em vender minha casa e investir em canoa e ir viver de pesca na Bahia...."

homens do "puder" !...providenciem imediatamente a aposentadoria para o nosso patrimônio vivo, o Nego Banjo !...pelo seu mínimo, obrigação cívica, de honra ao mérito e moral !...
( se acharem ruim, lembrem-se que alguns muitos de vcs, parlamentares, acumulam aposentadorias ilegalmente, sem falar que continuam a mamar nas tetas dos emolumentos públicos, a nossa revelia, sempre !)

joe_brazuca · São Paulo, SP 10/9/2008 00:34
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clara arruda
 

Uma ótima matéria meu querido.
Deixo aqui meu imenso carinho e leitura.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 10/9/2008 11:16
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José Carlos Brandão
 

Interessante conhecer os personagens da nossa cultura popular. Agraceço-lhe as informações.
Abraços.

José Carlos Brandão · Bauru, SP 10/9/2008 22:51
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Marcos Pontes
 

Parabéns pelo trabalho. Coincidentemente, quando recebi o convite estava conversando via MSN com uma amiga do candomblé de Belém. Deve ser coisa dos orixás...

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 10/9/2008 22:55
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Aglacy
 

Boa contribuição para ampliar a percepção que temos de nossos bens culturais. Espero que isso provoque mais, vá além...

Aglacy · Aracaju, SE 10/9/2008 23:02
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Cidade_dos_Diamantes
 

Nego Banjo sabe

Xangô justiceiro olha por quem zela o que é dele.

O que importa é passar adiante baseado no que trazemos o nosso conhecimento para que sempre exista essa corrente de Axé vibrando.

Cidade_dos_Diamantes · Lençóis, BA 11/9/2008 00:55
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Cintia Thome
 

Eu estou vivendo da ajuda dos amigos em troca de aulas de canto - e não recebo dinheiro, pois eles também não tem muito a dar - dou aulas em troca de alimentos e vale-transporte, mas tem dia que eu não sei o que vou dar de comer aos meus filhos, e me magoa saber que aqueles que estão bem de vida, fingem que me esqueceram... Essa ingratidão me dói.


E ainda os parlamentares pedem pra gente estender a mão para pegar "santinhos" para votar...e ainda usam a caneta alheia para que a gente cumpra o dever para quem nos deve tanto e lá no cume da semvergonhice destroem até a pesca, até água para beber....
Sinto vergonha de mim e acredito que 99% são lesados...está dificil ter a dignidade de pé ...
Bela entrevista, isso que é dignidade...

Cintia Thome · São Paulo, SP 11/9/2008 06:39
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Lena Girard
 

Trabalho competente, menino!!! Valeu cada linha!

Lena Girard · Belém, PA 11/9/2008 17:58
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