Entrevista com o Maestro Emmanuel Coêlho Maciel

montagem Joca Oeirass
O histórico encontro do compositor Possidônio Queiroz e seu "descobrido"r
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Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI
17/3/2009 · 85 · 3
 

Nos idos de 1980, quando o maestro Emmanuel Maciel o conheceu, o octogenário Possidônio Queiroz já era, sem dúvida, reconhecido pelos oeirenses como o seu grande herói, intelectual respeitadíssimo e músico inspirado. Já não tocava a sua flauta de prata, com a qual presenteara o filho Francisco no dia 11 de fevereiro de 1973, mas continuava sendo um verdadeiro oráculo para os seus conterrâneos. Teria morrido assim, da mesma forma que morreu, amado e respeitado por todos os seus conterrâneos. Mas uma coisa mudou na aura do velho Possi, como carinhosamente o chamavam, quando um renomado maestro de nome Emmanuel Coelho Maciel entrou em contato com ele e, a partir daí, transformou a música do bruxo velho de Oeiras em um de seus principais objetos de seus estudos e pesquisas, concluindo que a obra daquele auto-didata músico de província possui qualidades admiráveis. Pouco antes de vir a falecer, em 1° de janeiro de 1996, começaram a aparecer os primeiros resultados das persquisas do devotado maestro, com a publicação, pela Fundação Jesus Elias Tajra, da apostila “Possidônio Queiros – Memória Oeirense” onde Emmanuel expõe as suas descobertas. Na entrevista abaixo transcrita, concedida ao Portal do Sertão, uma maestro conta um pouco dessas suas experiências e descobertas.

Portal do Sertão: O livro “Memória Piauiense – Possidônio Queiroz” editado pela Fundação José Elias Tajra e publicado em Abril de 1995 traz, entre outros interessantes artigos, uma monografia, de sua lavra, “sobre as valsas de uma figura extraordinária da cultura piauiense...” estou citando o seu texto de apresentação. Neste mesmo texto o senhor alega que a monografia é “o resultado de uma entrevista...” Conte, para nós, sem economizar detalhes, tudo o que puder lembrar, em que circunstância se deu a citada entrevista.

Maestro Emmanuel: Em meados de 1980, na qualidade de Chefe do recém-criado Departamento de Educação Artística da UFPI, tive a oportunidade de visitar Oeiras (e conhecê-la), em companhia de alguns alunos do nosso departamento, onde realizamos uma Oficina de Música em Canto Coral, com apresentação do Coral comunitário local na Catedral. Além do nosso interesse em conhecê-la, a nossa ida a Oeiras, bem como a outras cidades piauienses, resultou do Projeto elaborado pelo saudoso Prof. Noé Mendes de Oliveira, então Coordenador de Assuntos Culturais da UFPI (CAC), feito em parceria com o nosso Departamento, sob os auspícios da FUNARTE.

O nome do Prof. Possidônio Nunes Queiroz já era conhecido em Teresina por alguns músicos profissionais locais. Passei a admirá-lo através, principalmente, do depoimento de um dos nossos alunos, componente do nosso "Grupo de Música de Câmara da UFPI", o saudoso clarinetista e Ex-integrante da Banda de Música do 25 BC, Antônio Marques Ferreira. Foi em companhia dele que visitei pela primeira vez o Prof. Possidônio.

Ao visitá-lo, tocamos para ele em sua casa e o contemplamos tocando a sua maravilhosa flauta, bem como a falar dos bons tempos seresteiros de sua velha e querida Oeiras.

Ao retornar a Teresina , trouxe duas valsas de sua autoria, com a promessa feita por ele de me enviar outras mais, assim que as encontrasse, bem como outras partituras músicais de sua autoria.

Portal do Sertão: As cartas que recebeu de Possi, inclusive a citada (“O cupim devorou um bocado de garatujens musicais”) no seu trabalho ainda se encontram em seu poder?

Maestro Emmanuel Sim, tenho-as bem guardadas.

Portal do Sertão: O autodidatismo de Possidônio possibilitou a ele escrever as melodias mas, como o senhor mesmo afirma, privou-o do conhecimento de “Harmonia, Contraponto e outras matérias indispensáveis à técnica da composição musical”. Arriscaria a dizer que a música de Possidônio é, para o bem e para o mal fruto do isolamento a que foi submetido historicamente o Piauí?

Maestro Emmanuel Esta questão merece uma melhor análise. excetuando os Estados brasileiros onde predominou a cultura da cana de Açúcar e a extração de Minério, que possibilitou riquezas incontáveis e prática musical à européia, com orquestras, formação de corais gregorianos, líricos, construção de teatros de ópera, escolas de música etc, e favoreceu a formação de músicos compositores da estirpe de Emérico Lobo de Mesquita e José Maurício Nunes Garcia, entre outros notáveis, a formação musical no Brasil era totalmente empírica, excetuando àqueles Estados citados que recebiam músicos famosos da Europa, cantores, compositores, instrumentistas-organistas, violinistas, harpistas etc., e orquestras completas que sat isfaziam as nossas elites colonizadoras, quer no culto religioso ou no lazer. No Piauí a colonização partiu do interior para o litoral a custa da dizimação de índios e da exploração do negro escravo. A partir de meados do Século XX é que o processo educacional foi-se aperfeiçoando, com a formação de bandinhas interioranas e de músicos militares ou civis, amadores ou profissionais, que aprendiam a fazer fazendo, porém, na base do empirismo.

A música do professor Possidônio Queiroz mostra que ele foi um talentoso auto-didata, conhecedor dos processos técnicos que envolviam a teoria musical e a morfologia. Por isso as suas valsas são perfeitas na escrituração rítmica e na morfologia. Quanto ao aspecto harmônico ele dependia da escolha feita pelo grupo regional do qual participava. Contudo esclareço que este meu depoimento baseia-se no que consegui recolher da produção musical do prof. Possidônio. Quem sabe ainda existe, por aí, algo de sua lavra, original para piano ou banda de música ou orquestra, harmonizado e instrumentado por ele?

Portal do Sertão: Em determinada altura de sua Monografia o senhor chega a insinuar um parentesco de algumas valsas de Possidônio chamando-as de “semelhantes ao esquema formal da valsa vienenses” mas cita como principal influência as valsas do francês Émile Waldteufel. Foi Possidônio quem lhe falou dessa influência musical? Em seu período mais criativo ele teve acesso à Valsa Vienense? Possidônio lhe mostrou os discos de Patáppio Silva que ele ouvia?

Maestro Emmanuel: A valsa é um rítmo dançante por excelência, de orígem européia, em compasso ternário. No Brasil a encontramos em três estilos diferentes: a vienense, a francesa e a portuguesa . A vienense é, de certa forma, mais rápida que as demais, predominando nela um estilo nobre e dançante. A francesa, embora semelhante à vienense, é mais lânguida e romântica, podendo ser em andamento mais lento. A portuguesa, como originária de povos latinos, mantém em sua estrutura o estilo afrancesado, porém mais curto e mais lento, em três partes, A/B/A e coda. Como exemplo basta observar as nossas valsas seresteiras.

Quanto às Valsas do professor Possidônio, embora possuam uma morfologia mais rebuscada à la européia, a meu ver se aproximam mais das valsas francesas. Ele se beneficiou, como toda a sua geração de músicos, poetas, artistas de modo geral, das benesses do Rádio, com a divulgação de músicas que fizeram o retrato cultural-musical do nosso povo, ouvindo Patápio Silva, Pixinguinha, entre outros chorões e, quem sabe, Villa Lobos.

Portal do Sertão -Seu encontro com o professor Possidônio Queiroz é retratado, por muitos, como um acontecimento histórico da maior relevância para Oeiras e para a música piauiense, mas também de grande relevância emocional para o próprio Possidônio Queiroz. Ele teve, no final da vida, seu talento reconhecido, pela primeira vez, por um musicista de grande nomeada. É por isso, pelo significado histórico-emocional de que se revestiu este encontro, que eu pedi ao amigo que nos contasse o episódio sem economizar minúcias. Então, fica um pouco vago para mim, sou sincero em confessar, a utilização de expressões como “meados de 1980” só para ficar no exemplo mais evidente. Por outro lado, a apresentação de sua monografia data maio de 1992, o que já é uma data, convenhamos, bem mais precisa. Quais as datas das cartas que recebeu de Possidônio?. Nelas havia, da parte dele, algum comentário mais pessoal e menos, digamos, técnico. O Senhor toparia nos disponibilizar cópias destas cartas digitalizadas?

Maestro Emmanuel: Travei conhecimento com o Prof. Possidônio na década de 1980, por ocasião do Projeto Interiorização da Cultura, em Oeiras. Ao conhecê-lo pessoalmente (já o conhecia de nome) encantei-me com o intelectual, o poeta, e o compositor emérito que era,trazendo comigo, de volta a Teresina, dois dos seus originais. Os demais me foram enviados à posteriori, à medida em que ele os resgatava dos baús. Em março de 1987 o amigo Rogério Newton (por onde andará?) enviou-me correspondência pondo-me a par de alguns dados valiosos sobre as Valsas do professor Possidônio Queiroz. Em 1991 recebi, do professor próprio Possidônio, duas cartas contendo informações importantíssimas sobre a sua formação musical em Oeiras, e sobre as suas valsas. No ano seguinte, mais três preciosas correspondências do professor Possidônio (em 08 maio, 20.julho, 13 de o outubro e 23 de dezembro), sendo que esta última agradecendo o esforço feito em prol da publicação da monografia elaborada por mim. Evidente que a cada uma destas suas cartas eu as respondia prazerosamente, certo da importância cultural do projeto. Felizmente possuo cópias destes originais.

Acrescento, ainda, a existência, em meu poder, do artigo que ele me enviou, de sua autoria, intitulado "Arte e Educação", bem como, "Valsas de Possidônio: Harmonia e Encanto", de autoria do Dr. Gutemberg Soares, publicado no Jornal "O DIA" de 16.05.1998. Tenho em meu poder, documento oficial da Fundação JET comunicando-me a aprovação do projeto destinado a publicação da Monografia Memória Piauiense, sobre as valsas do professor Possidônio Queiroz, e minha conseqüente resposta. E não só tenho em meu poder a cópia do original da carta que enderecei ao professor Possidônio no dia 26 de outubro de 1994, mas também e a sua resposta, datada de 10 de novembro de 1994. Finalmente no dia 19 de dezembro de 1995 enviei ao professor Possidônio Queiroz pequena mensagem comunicando-lhe o esfôrço que estávamos fazendo em prol da gravação do seu Cd. Valsas Piauienses Espero com estes dados ter acrescentado algo mais, com vistas aos objetivos em questão. Trata-se de material em meu poder, de importância impar para a cultura musical do Estado do Piauí, à disposição do ilustre amigo.
______________________________________________________________

Emamnuel Coêlho Maciel nasceu no dia 16 de outubro de 1935, no bairro Lagoinha, Belo Horizonte, MG. No Rio de Janeiro, foi bolsista do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, cursando o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico.

Em 1963, assumiu uma vaga de professor da Prefeitura do Distrito Federal. Foi requisitado para a Universidade Federal do Piauí, ingressando em 1976, participando da fundação do Departamento de Educação Artística. Em 1977, tornou-se coordenador do Setor de Artes.

Professor, violinista, compositor, arranjador, folclorista e maestro, Emmanuel Coêlho Maciel costuma encantar a platéia nas felizes noites em que apresenta uma peça.

Enquanto morou em Brasília, regeu a Orquestra Sinfônica de Cordas, participou de quartetos, trios, fundou corais escolares, fez arranjos de músicas populares para festivais estudantis da canção, participou da orquestra "Ars Brasiliense" e foi até produtor de TV.

Foi ainda fundador e vice-diretor da Escola de Música de Brasília.

O maestro compôs em 77 uma peça camerística dedicada ao campus universitário da UFPI. Chama-se "Ininga". É uma peça para quatro instrumentos: violino, viola, violoncelo e piano.

Ganhou três prêmios nacionais de composição, pelo Instituto Nacional de Música/Fundação Nacional de Arte, com as obras "Os sapos" (1981), "Ema-Seriema" (1982) e "Módulos" (1983).

Compôs, entre outras, as obras "Quarteto para Flautas Transversais", "Estudo Fugato" e "Quase Andante". Possui diversos trabalhos inéditos, como "Peça Orquestra"(1983), "Reis Pastorinhas" (1990) e "Cadernos de Solfejo Modais e Tonais" (1990). O compositor destaca ainda a "Sonata Duo" (1964), "Musik'A2" (1986), "Aknathon" (1967) e "Dança e Langoroso" (1963).
(fonte Wikipédia)

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Doroni Hilgenberg
 

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 16/3/2009 19:55
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Doroni Hilgenberg
 

Oi JOCA
Grande entrevista
que nos trouxe conhecimento e cultura.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 16/3/2009 20:01
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graça grauna
 

graça grauna · Recife, PE 17/3/2009 13:57
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