Entrevista com o poeta Hélio Ferreira

Ben-Hur Demeneck
“sou do tempo em que livro / era enfeite na estante, / não brinquedo de criança”
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Ben-Hur Demeneck · São Paulo, SP
4/6/2010 · 25 · 6
 

Nesta segunda parte da entrevista, Hélio Ferreira responde sobre seu trabalho autoral. Trata-se de uma poesia atravessada pela experiência de incorporação do livro na rotina de uma criança interiorana e de seu choque com uma cultura familiar em que se valoriza o trabalho braçal. Como pano de fundo, um subúrbio paranaense com característica de sítio entre as décadas de 1970 e 1980. Essa “leitura do êxodo” compõe “Guardião de datas”, sua obra de estreia.

“Escrevo quando tenho vontade, quando sinto necessidade (...) Pretendo dar voz a mim, independentemente se essa voz vai ser ouvida ou não pelo outro”, revela o poeta como os motivos de sua escrita. Ao procurar outras interpretações sobre seu processo criativo, qualifica como sua “maior descoberta” como leitor a de ter compreendido que podia dar voz a sua história e tratar de seus personagens. Entre essas figuras está “tiu Fidirico” – o “guardião das datas, / necrológios e genealogias”.

A fala, durante a conversa, fica numa altura média, quase baixa, sem haver pausa nas considerações. A palavra corre contínua. Apesar do espaço fechado, o entrevistado veste boné e mantém um leve desconforto ao dar as respostas, por falta de hábito de falar sobre sua produção autoral, antes expressão que explicação. Depois, surpreende-se de quantos porquês alinhavou.

Um tom narrativo se esparrama em muitas respostas e o olhar afiado para a realidade (e suas interpretações) vem de se perceber sua identidade em contraste as comuns aos lugares em que circula, desde ao se perceber livre de ambições dentro da Universidade ou pelo fato de cultivar epifanias em um mundo deslumbrado pela tecnologia. E se por um momento parece estar resignado, adiante recobra sua malícia como se a citação a Pedro Malasartes não fosse coincidência.

O MAL DA POESIA
Para Ferreira, o mundo carece muito de poesia. Haveria, em sua análise, um descompasso entre o número de autores e de leitores desse gênero literário. A partir do trabalho como diretor da Biblioteca Municipal Bruno e Maria Enei (em Ponta Grossa, PR) por dez anos, avalia que não circula no senso comum a convicção de que para ser poeta se exige leitura, especialmente a de outros poetas. No entanto, considera a verborragia o pior dos males na hora de fazer um poema. Isto é, refere-se ao exagero retórico, aos penduricalhos verbais, à falsa erudição.

Hélio Ferreira é professor de Língua Portuguesa na rede pública de ensino desde 1999. Na vida acadêmica, durante o mestrado, pesquisou a obra de Luiz Vilela sob o tema da morte. Ele concedeu duas poesias do livro “Guardião de Datas” para o portal Overmundo, após a entrevista. O diálogo que segue foi realizado na casa de empadas Otto, em 11 de Agosto de 2009, no bairro São José (Órfãs), em Ponta Grossa (PR). Para acessar a primeira parte do conteúdo, clique aqui – o tema central é a formação do poeta como leitor (“Minha leitura do êxodo – I”).


BHD - Como surgiu esse seu interesse de escrever poemas sobre um êxodo rural no interior do Paraná lá pelos final dos anos 1970, início dos anos 1980?
Hélio Ferreira – Eu nunca racionalizei as coisas no momento em que elas aconteceram. Eu demorei muito tempo para chegar a essa palavra “êxodo”. Sempre fiz as coisas intuitivamente. Até hoje eu padeço de falta de objetividade, de decisão, por esperar as coisas chegarem até mim. E a forma que eu elaboro meus pensamentos é impressionista. A percepção das minhas origens, eu fui tendo aos poucos, principalmente nos últimos tempos. Estudar a literatura na universidade me ajudou muito. Em especial, da forma que o Miguel [Sanches Neto] trabalhou. Me ajudou a perceber que literatura podia ser algo próximo de mim.

BHD - “Chovia demais naquela manhã, uma chuva que molhava o piso de vermelhão da varanda da casa onde morávamos, naquela época já de aluguel. Uma casa velha de madeira, a varanda circundada pela mureta de alvenaria. A chuva alagando o território onde aquele que fui brincava de escorregar no piso”. O que me diz sobre essa passagem de “Chove sobre a minha infância”?
Hélio Ferreira – Esse livro do Miguel é um livro definitivo na minha vida. Eu tinha saído da universidade, estava trabalhando como professor. Quando ele lançou, estava curioso pelo conteúdo. Sabia mais ou menos como era a história. Eu tinha falado algumas vezes com ele e ele me contava. Havia crônicas dele na Gazeta do Povo que prenunciavam, pré-anunciavam, o romance. Quando eu consegui um exemplar, foi uma leitura de cabo a rabo. Uma leitura visceral, onde eu percebi que a minha matéria de vida poderia, mais que ser escrita, ter um padrão cultural, artístico. Porque, até então, apesar do volume de leitura, a produção literária era algo distante para mim. Eu já escrevia algumas coisas, mas era mais um exercício casual, despreocupado.

PORTA-VOZ DE UMA CULTURA ILETRADA
BHD - O escritor saía da prateleira para o dia-a-dia...
Hélio Ferreira – ...e com uma história bastante similar, ainda que diferente em eventos, nas intensidades, nas buscas. O personagem Miguel tem uma busca, a de ser um escritor desde cedo, diferentemente de mim. A leitura do livro do Miguel foi um divisor de águas na minha vida. Até então eu tinha a minha história de vida como uma coisa da qual eu procurava fugir sempre. Era uma história de privações. E se não chegou a ser uma história de miséria humana e social, era de precariedade. Então eu comecei a perceber, como dizia o Drummond, que ...eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robison Crusoé . Ou, como coloca o Miguel, no livro dele, que poderia ser porta-voz de uma cultura iletrada, de pessoas que viveram o silêncio por gerações seguidas. Percebi minha família dentro do contexto do Paraná da década de 1970, participante do êxodo rural.

BHD – Personagens como “tiu Fidirico”, que era o guardião das datas, / necrológios e genealogias”, por sinal o título de seu livro.
Hélio Ferreira – Talvez a maioria das pessoas que viveram a sua volta não tinha noção da importância dele para o entorno social. Ele tinha uma memória prodigiosa, sabia de tudo: as datas dos acontecimentos, os detalhes da geada de mil novecentos e qualquer coisa. Era uma biblioteca. Uma pessoa que não teve estudo formal, provavelmente um analfabeto. Não importa, era um dos caras que eu gostava de ouvir. Só que em vez de serem histórias do imaginário, eram verídicas, de pessoas de carne osso. Com certeza seria um grande jornalista se tivesse tido as condições. Diferente do Nhô Adélio e seus causos de lobisomens e fantasmas, que nunca tinha visto um carro de perto e vivia muito bem com isso. Carros e avenidas eram coisas completamente imaginadas para ele, como as visagens que descrevia.

BHD – Você que realizou uma dissertação a respeito, como se apresenta a morte na obra de Luiz Vilela?
Hélio Ferreira – Como em “Chove sobre minha infância”, de alguma forma, a obra do Vilela fala comigo. E comecei a gostar dele pela mesma razão da poesia do Manuel Bandeira, pela presença do mínimo, do cotidiano, do irrelevante. Por eles darem visibilidade ao que é invisível, falarem do mundo prosaico. A maior parte da vida das pessoas é comum e o maior aprendizado junto a esses mestres é entender que não é preciso de um evento grandioso para encontrar simbolismo. Agora, voltando a tua pergunta: a morte é prosaica. Talvez a mais prosaica de todas as ocorrências, embora as pessoas tentem distrairem-se dela a partir da religião, da filosofia, da cultura. No entanto, como dizia meu avô, a “nossa única certeza da vida é a morte” – fato que depois ele confirmou na prática. Eu procuro uma relação que não é sob nenhum viés religioso, antropológico, sociológico. Penso apenas que ela é inevitável. É comum uma pessoa pensar na morte e optar por um ritmo alucinante de vida, para não ser pega de surpresa, enquanto que eu prefiro continuar no meu ritmo – devagar. No Luiz Vilela, eu vejo essa descrição da vida e da morte em seu cotidiano. Outro tema que me atrai na obra, é o êxodo, que reflete aquilo que também aconteceu biograficamente com o autor, sua saída de Ituiataba (MG) para Belo Horizonte, já com um projeto de ser escritor muito bem definido.

BHD – O tema da morte está desde as primeiras obras de Luiz Vilela?
Hélio Ferreira – No conto que dá nome a seu primeiro livro, Tremor de Terra, ele mostra a tomada consciência da morte [obra publicada aos 24 anos do autor]. Uma visão destituída de qualquer laivo religioso, sociológico. Prosaico, apenas. A morte em Luiz Vilela é inusitada, acontece em momentos em que não se espera. E, na prática, é mais ou menos isso que acontece. Um texto que ilustra essa morte prosaica é o conto Piabinha . Em que dois menininhos vão nadar no rio. Um deles não sabe nadar e, segundo o imaginário do local, ele tem que pegar uma piabinha, engolir o peixe e depois pular na água para sair nadando. Quando estão na beira do rio, o maiorzinho pega o peixinho, dá para o outro. Você percebe a forma com que o Vilela coloca os dois personagens, em um lugar longe das casas. O outro garoto hesita, lembra que gostava de brincar com a cachorra. Uma cena lírica. Ele pula no rio, depois de decidir levar tudo até o fim. O primeiro menino o espera voltar da água, mas ele desaparece, não volta mais. E o Vilela termina o conto com a imagem de uma garça que estava num lado do rio e voa tranquilamente para a margem oposta. Não tem nenhum drama nisso, nenhum adjetivo. Nenhuma tragédia. Morreu e pronto. Prosaísmo. E existem muitas outras mortes na obra dele. Como em outro conto, em que a mulher chega em casa e o marido está sentado no sofá. Percebe-se que ele está desgostoso com a vida. A mulher começa a brigar dizendo que ele é folgado, que tem de trabalhar. Ele continua impassível no móvel. Ela se exaspera, pega um vaso e bate na cabeça dele. Você percebe, em duas linhas, que ele está morto. E pronto. E acaba aí o conto. Não há nenhum drama, nenhum “depois”. No livro O fim de tudo [contos, 1973], há textos assim. No meu ponto vista, o principal tema da obra dele é a morte.

A ESCOLHA DA POESIA
BHD - E na poesia “meu olho brinca / de ciranda, cirandinha / procura no roda-a-roda / da filha da vizinha / o anel que se quebrou”. A infância é recorrente nos seus textos.
Hélio Ferreira – Isso também é recorrente quase um lugar-comum em artistas de forma geral, pelo lado positivo ou negativo. E em autores de que gosto, talvez por identificação, a infância é muito cara. Para um Manuel Bandeira, para um Miguel Sanches Neto, um José Lins do Rego. E a minha, apesar de não ter sido das melhores do ponto de visto econômico, foi a fase menos sofrida do ponto de vista psicológico. De vez em quando eu me ralava, apanhava e mesmo assim a vida continuava. Eu não tinha um desconforto metafísico.

BHD – Teve algum motivo para você escolher a poesia como forma de expressão?
Hélio Ferreira – A poesia, ou ser poeta, são nomenclaturas de que eu fujo bastante. Eu não chego a ser um poeta no sentido exato da palavra. Quando eu penso em poeta, vejo alguém que quer fazer da sua poesia uma bandeira. A minha poesia eu escrevo basicamente para mim, esse é o meu objetivo. Escrevo quando tenho vontade, quando sinto necessidade. E, se me tornei conhecido por algumas pessoas, foi por puro acaso.

BHD – Para alguns talvez, no entanto, você acha que um Augusto dos Anjos escrevia por que hasteava uma bandeira?
Hélio Ferreira – Não, ele não. Ele ou um Fernando Pessoa não se preocupavam em ser escritores. Eu nem chamaria um Augusto dos Anjos de escritor, era poeta. Eu faço uma distinção bem grande entre escritor e poeta. O escritor, para mim, é quem faz da escrita uma profissão, mesmo que seja produtor de texto ficcional. E o poeta é quem escreve absolutamente por necessidade, para dar expressão, vazão, a algum sentimento ou alguma coisa que o perturba ou comove, ainda que seja alguma coisa mínima do cotidiano. Eu pretendo dar voz a mim, independentemente da possibilidade dessa voz ser ouvida ou não pelo outro. E é claro que quando você se envolve com a literatura, como eu me envolvi, isso acaba escapando. Algum amigo vê o que você escreveu, pega o material e leva para um jornal. Algo que, digamos, de minha própria atitude, não faria. Eu não teria essa iniciativa. Eu nunca mandei um texto para publicar por minha própria iniciativa.

O MUNDO PRECISA DE POESIA
BHD - O Manoel Barros pratica uma literatura de tudo que é próximo e vivenciado pelo poeta: o quintal é maior que o mundo, uma formiga é mais importante que uma usina nuclear, os caramujos fazem as árvores crescerem. Como você interpreta essa escolha do poeta?
Hélio Ferreira – O Manoel de Barros é uma grande referência para muitos poetas, não tanto para mim. Já li, sem chegar a estudar a obra dele. Ele redimensiona o mundo dele em comparação com todo o resto. E se ele diz que um evento é mais importante que o resto, ele está certo. É assim que ele sente e o que define a identidade dele. Se mais pessoas fizessem a mesma opção, seriam mais felizes e o mundo giraria de uma forma bem mais cordata que hoje. Francamente, o mundo carece muito de poesia. E principalmente essa poesia mais consciente, mais próxima das origens. Talvez os problemas se resolvessem de uma forma mais pacífica.

BHD - Há uma reclamação que se lê pouco no Brasil. E a poesia não é bem o gênero mais popularizado. Da sua rotina como professor, o que observa sobre o hábito da leitura em poesia?
Hélio Ferreira – Posso dizer que as pessoas tendem a procurar o caminho mais curto. E a poesia exige do sujeito um esforço de leitura maior. É até um lugar-comum dizer que a poesia é uma arte da palavra. Logo, para decifrar esse universo, é preciso maior repertório e observação. Poesia exige esforço dentro da linguagem. E o que existe muito na sociedade, hoje, não só no interior do país, é que a pessoa acha que ser poeta é uma escolha qualquer. Há quem escreva poemas pensando num status social que, na verdade (riso), é ilusório. Principalmente por querer obter uma distinção pública através de alguma coisa que em que ela não tem habilidade. Há quem enverede para uma das artes como uma forma de escape. E o campo mais acessível para isso é a poesia: você só precisa de um pedaço de papel e uma caneta. Se você vai escrever um romance, um conto, o gênero exige uma mão-de-obra considerável. E a poesia parece mais fácil, pois dá para escrever em qualquer tamanho.

BHD – Nessa hipótese, a mesma preguiça que distancia as pessoas de ler poesia é a mesma que as aproximaria para escrever.
Hélio Ferreira – Com certeza. Agora você definiu o que eu estava tentando dizer. A preguiça que as pessoas sentem para ler é a mesma que as aproxima de escrever poesia. Conheço vários casos. Quando eu trabalhei na Biblioteca, fazia parte do meu dia-a-dia, pois chegava muita gente pedindo ajuda para publicar um livro e nove em cada dez eram de poesia. Então, se a poesia não é valorizada social ou economicamente pelo mercado editorial, o valor que se atribui a ela é inversamente proporcional na prática. A pessoa pensa “porque é que vou comprar um livro de poesia, se eu posso escrever o meu?”. Bem, eu não sei se funciona assim, mas é a impressão que passa. Não faz parte do senso comum a ideia de que para ser poeta é preciso muita leitura, especialmente a leitura de outros poetas. E, primeiro de tudo, é preciso dominar a palavra. Para você chegar e escrever como um Manuel Bandeira, você tem que conhecer o português de cabo a rabo. Diante da simplicidade do autor, você pensa que vai escrever igual – e não escreve. É uma economia que é o inverso da escrita imediata. Para chegar até ela tem que dominar todo o resto. Não que eu faça isso, estou muito longe desse patamar. Apenas estou respondendo a tua pergunta.

VERBORRAGIA x EPIFANIA
BHD - Se fosse para apontar um “vício” comum entre quem se arrisca na poesia, qual seria?
Hélio Ferreira – Seria a verborragia. As pessoas pensam que para escrever coisas importantes ou se tornarem importantes bastaria escrever bastante e, principalmente, usar muitos adjetivos. Uma verborragia que não tem profundidade. Há também uma confusão do prosaico, do cotidiano, com o vulgar, com o senso comum. O que eu tento fazer é escrever com elementos simples, do cotidiano, diria até populares, usando até mesmo lugares-comuns, mas de uma forma em que tento encaixá-los de uma forma diferente daquela que é vista pelo senso comum. Lugar-comum como uma metáfora desgastada pelo uso, e aplicá-la no texto. Quando eu faço isso, eu tenho a pretensão de utilizá-la como uma forma de representação de um universo que eu vivi, que existiu e não como a tônica do sentimento que me levou a escrever. Até porque tenho recursos da minha formação acadêmica suficientes para criar uma metáfora “nova”, se quisesse. Poderia escrever algo ao estilo “ Você é mais bonita que uma bola prateada / de papel de cigarro
”, presente num poema do Ferreira Gullar. Os meus poemas são mais essencialmente descritivos, eu tento descrever a sensação, às vezes, para um momento que é simples, mas que, mais para a frente, vai se perceber que é algo que vai se romper, aparentando uma epifania. Isso está presente na vida de todos. O seo João pode representar qualquer um de nós. Para eu chegar a esses versos, eu não escrevi em cinco minutos. Eu levei dias, meses e, se brincar, talvez, se eu pegá-lo de novo, eu mexa nele, mude algo de lugar. Esse trato estético que eu procuro formalizar - dar forma aos sentimentos, às percepções -, pode levar as pessoas a confundir com falta de criatividade, de conhecimento teórico-formal. O que também não me preocupa.

BHD - Você dá aulas num distrito de Ponta Grossa, Guaragi. É um retorno ao rural?
Hélio Ferreira – Eu poderia escolher qualquer escola da cidade por conta da classificação obtida no concurso, qualquer uma. E como eu já tinha a experiência dessa escola, quando trabalhei como professor substituto, eu a escolhi para me aproximar mais do universo rural, que fez parte da minha infância e que agora eu posso atuar sobre ele. Eu me vejo nas crianças, nas pessoas que vivem lá, nos cumprimentos, nos bate-papos com o Luciano.

BHD - Conta um pouco dessa pessoa.
Hélio Ferreira – O Luciano é um cara da mesma formação que eu, no que tange ao universo onde foi criado. Esse mundo rural, mas nem tão rural. Urbano, mas preso ao mundo rural. Ele também é um fruto do êxodo, mas que não teve a minha trajetória acadêmica, uma educação formal, mas que se educou na famosa escola da vida. Um mestre do improviso. Ele representa um Pedro Malasartes [1] [2], personagem das histórias que mais ouvi quando era criança. Está um pouco no Luciano, a criatividade em prol do menor esforço. Se ele vai construir uma cerca, dá um jeito de usar menos material e explica isso como uma economia, mas, no fundo, menos material é menos trabalho (risos). O pensamento dele é sempre para a frente, resolve seus dilemas particulares na hora, se está bom para ele, tem que estar bom para o mundo. Eu admiro esse figura...



ANEXO
Seguem duas poesias presentes na obra Guardião de datas. Material inédito.

#1(POEMA SEM TÍTULO)


tio frederico
de quem puxei as feições
tinha memória de elefante,
cabeça também.


tiu fidirico, como diria minha mãe,
que morava n’Os Penteados,
quando ia lá em casa
monologava horas a fio,
pitando seu “paiêro” na porta da sala,
desfiando a história da nossa família:
era o guardião das datas,
necrológios e genealogias.
“antão-se...”
batia a cinza do palheiro
com o dedo anular
e começava mais um causo.


quando olho o seu retrato,
me vejo num espelho;
quando me olho no espelho,
vejo o seu retrato:
cabelo em meia-lua, testa larga
olho azul, cabeça grande.


contudo, não tenho a lembrança
da memória-prodígio;
por isso escrevo estes poemas-lembretes.



#2 (POEMA SEM TÍTULO)


seo João tomou banho
enxugou as orelhas, calçou as botinas
acendeu um cigarro.

de repente, o olhar surpreso
fixa-se no nada; e na boca,
no estertor do susto, emudece
o grito!


dentre as mãos perplexas
sobre o peito surge
a ponta da foice invisível:
infarto agudo do miocárdio.


botinas inertes que apontam para a rua
iniciam a infinita jornada ao insabido.


alguém apagou o último cigarro
no cinzeiro da sala:
só o cheiro do tabaco ainda permanece no ar.

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Viktor Chagas
 

Boas as considerações do Hélio sobre a poesia de modo geral. E achei ótimas as colocações sobre a obra do Luiz Vilela. Conheço ainda pouco a obra desse grande escritor. Tive a oportunidade de conhecê-lo em seu ambiente natural - Ituiutaba (MG) - há cerca de 4 anos, e ele se mostrou uma pessoa tímida mas muito simpática. :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 4/6/2010 10:43
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Ben-Hur Demeneck
 

Viktor, cada conto que eu leio do Vilela eu me impressiono pela economia e pela força do relato. Como jornalista, me recordo de "O inferno é aqui mesmo" (1979) pelo modo que ele descreve uma redação de jornal. Quanto ao Hélio, eu gosto de como ele tem essa relação com a leitura. Na primeira parte da entrevista, ele conta que era comum voltar da escola para casa aos tropeços, enquanto devora um texto de ficção. Não porque achava útil ou porque ganharia cultura, mas porque era uma das maneiras que tinha de se dedicar a uma diversão e tanto para uma criança cheia de "causos" na cabeça. A legenda da fotografia traz uns versos que revelam consequências de seguir o rumo das páginas: quem lê fica pouco, nunca mais descansa. Mas não ficava louco, segundo dizia a tia analfabeta. Apesar da leitura receber elogios pelo mundo que ela cria, relatos que a expressam de forma tão concreta trazem consigo uma emoção a mais. Abraço,Viktor. Obrigado pela leitura e pelo comentário.

Ben-Hur Demeneck · São Paulo, SP 5/6/2010 13:02
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Viktor Chagas
 

Muito bacana, Ben-Hur. Bom você ter chamado a atenção para os versos dos áudios, que eu curiosamente tinha prestado pouca atenção na primeira leitura - possivelmente o bom texto acabou desviando o foco do olhar. Ótimos áudios. É sempre bom ter esses recortes de depoimentos ilustrando a reportagem. A gente fica mais íntimo dos personagens. :)

Sobre a fala do Hélio, de que as pessoas procuram sempre o caminho mais curto, se referindo à preferência pela prosa, que exigiria um esforço de leitura menor que a poesia, eu posso confrontar com uma passagem bem curiosa que me marcou bastante. Num dos primeiros trabalhos de campo que fiz na faculdade, entrevistei uma senhora bem velhinha, frequentadora assídua de um sebo e que folheava muitos livros de poemas. Nós nos aproximamos e perguntamos, entre outras coisas, por que ela lia poemas e o que achava de romances e contos. A resposta foi muito simbólica, ao menos para mim. Ela disse, com todas as letras algo como: "meu filho, eu já li muitos romances quando era mais nova, depois fui migrando para os contos e hoje, como tenho pouco tempo de vida, só posso mesmo ler poesia". :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 6/6/2010 12:03
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Ben-Hur Demeneck
 

Viktor, obrigado por compartilhar nesta página uma história que você obteve em seu trabalho de campo. Ela conseguiu me pôr para pensar, talvez pelo inusitado de uma senhora procurar a poesia por acreditar que esse é o gênero que lhe cabe numa altura em que lhe sobre "pouco tempo de vida", segundo as palavras dela.

Li na seção Agenda a sua divulgação do Concurso de Contos Luiz Vilela. Vou encaminhar o regulamento aos meus correspondentes, pois além da oportunidade de participarem de uma atividade literária talvez tenham a sorte de visitar Ituiutaba e trocar umas palavras com o autor.

Ben-Hur Demeneck · São Paulo, SP 6/6/2010 15:52
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Cintia Thome
 

Hélio Ferreira, enorme poeta, sempre promissor.Carecemos de poesia e menos razão.Poeta como este abranda as agruras do cotidiano , do racional. Muito bom.

Cintia Thome · São Paulo, SP 7/6/2010 01:42
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Nydia Bonetti
 

De encher os olhos... Que beleza. Vou correndo procurar mais de Hélio Ferreira!

Nydia Bonetti · Piracaia, SP 15/7/2010 19:24
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“batia a cinza do palheiro / com o dedo anular / e começava mais um causo”

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“meu olho brinca / de ciranda, cirandinha / procura no (...)”

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