(Continuação da parte 2)
Chamava-nos a atenção a figura daquela senhora, alegre e assoviante, movimentando-se a cuidar mimosamente de suas flores, deitando-lhes a água fresca que havia acabado de tirar do poço. Ajeitava aqui um galho de flor, alí um vaso verdejante de folhas, molhava um pouco mais a trepadeira que serpenteava a casa e assim se entretinha nos deixando à vontade.
Os dois anciões mantinham-se sentados e calados. Um com expressão dócil e outro de cabelo ouriçado, sisudo e ligeiramente contrariado com a nossa presença. As crianças pareciam encantadas com a vista de dois brancos amarelados. Sorriam correndo espevitadas nos lançando olhares curiosos. Capitão Manoel, também sentado, permanecia tranqüilo e calmo, olhar baixo, pouca conversa, porém, parecendo-nos mais receptivo àquela inesperada visita.
Ambrósio foi quebrando o gelo e esquentando a conversa enquanto a senhora, depois de pentear seus longos cabelos negros, agora se ocupava em fiar algodão, sempre assoviando. Em dado momento capitão Manoel cedeu e nos deixou ligar o gravador para iniciar a seguinte entrevista:
Nome: “Manoel Roberto”.
Filiação: “Miguel Roberto e Cecerina Moreira”.
Local de nascimento: “Eu nasci aqui na aldeia no ano de 1960”.
Etnia: “Kinikinawa”.
Atividade na aldeia: “Já faz bastante tempo que sou Cacique tribal da Aldeia São João”.
Como é escolhido o cacique?
“A escolha é da comunidade, que elege uma pessoa”.
Quantas famílias Kinikinawa existem nesta região?
“40 famílias, a maioria é Kinikinwa, tem Terena e 2 família Kadiwéu. Nós convivemos aqui nessa área mas não é área do Kinikinawa, é área dos Kadiwéu”.
Como é esta relação entre as etnias?
“No início era meio complicado pra gente, nós lutamos bastante; e agora está mais fácil pra gente”.
Como é a relação entre a cultura do branco com a cultura Kinikinawa?
“Cinco anos atrás nós começamos a ter algumas pessoas como o seu Ambrósio morando na cidade, aí foi onde ele teve um meio de entrar em contato com os brancos, pra nós ter outros artesanatos um pouco diferente”.
De onde vieram os ancestrais dos Kinikinawa?
“Quem disse isso foi meus avós, que existia a guerra nos outros Municípios onde eles começaram a perder as áreas pros fazendeiros. Ouvi falar que era no Município de Miranda, num lugar chamado Limão Verde, que hoje está ocupado pelos Terena.”
Qual o artesanato Kinikinawa?
“Vaso, pote, gamelinha de madeira e colar”.
Existe alguma cerimônia que vocês cultuam durante o ano na aldeia?
“Nós temos o dia 19 de abril que nós apresentamos as nossas danças indígenas aqui na sede. Vem todas as famílias e até gente branca de fora pra tirar foto e filmar”.
Como é a relação dos habitantes da aldeia com o município e as autoridades de Murtinho?
“Aqui nós temos pouco apoio do nosso Município, mas apoio vem mais de Bonito. Porto Murtinho é bem pouco. Tem também o problema da distância, Bonito fica mais perto”.
Vocês recebem turistas aqui? “Aqui é aberto e de vez em quando os turista vem aqui pra gente vender o nosso artesanato e nossa cerâmica”.
Quais os artesãos Kinikinawa mais conhecidos? “Dona Zeferina, Dona Flaviana e Dona Agda”.
Quais os lugares mais bonitos que existem aqui na Serra da Bodoquena? “A cachoeira do rio Aquidabã, que tem 120 metros de altura. Todo final de semana a gente ta indo pra lá, porque está entrando muita gente de fora na cachoeira sem participar com a gente aqui da aldeia, tá sendo explorada pelo turista sem a participação da nossa comunidade”.
Qual a mensagem que o Sr. passa para a juventude Kinikinawa? “É que a gente continua a lutar e pensar na nossa etnia”.
Ao final da entrevista, nosso guia fez sinal indicando hora de partir. Antes da despedida aceitamos o convite para prestigiar a produção artesanal da família. Compramos alguns colares e uma gamela entalhada em madeira de pequi. Despedidas feitas, partimos no Land Rover pelo mesmo caminho de nossa chegada.
Resumindo nossa breve passagem pela aldeia São João, pouco podemos relatar além do óbvio. Formada por algumas habitações rudimentares espalhadas em meio ao cerrado, constituídas de madeira, em duas águas, ora cobertas com telhas de barro, ora com fibra de amianto, lona ou folhas de palmares, apresenta-se nos moldes dos povoados brasileiros mais modestos.
No centro da aldeia havia uma casa de alvenaria onde morava a professora brasileira e seu companheiro. Ao lado cinco outras de madeira onde residiam nativos. Esse núcleo tinha abastecimento energético provindo da captação de energia solar através de equipamento específico. No agrupamento funcionava também a Escola Indígena Municipal Extensão Aquidabã (composta de uma sala de aula improvisada sob uma choça sem paredes coberta de folhas de palmares), pertencente ao Município de Porto Murtinho, operando sob a tutela da FUNAI, tendo como professores João Moreira (Kinikinawa), Inácio Roberto (Kinikinawa) e Rosane Gabriel (brasileira).
Fora do núcleo, espalhadas pelos campos, havia outras habitações onde residiam nativos de três etnias. Todos aparentavam ter o mesmo modo de vida, sobrevivendo do cultivo de pequenas roças e do trabalho em fazendas, mantendo uma incipiente relação de comércio com a cidade de Bonito através da venda de artesanatos e produtos da terra. Economicamente, pareciam bastante dependentes do sistema monetário.
A produção artesanal estava em processo de reestruturação. Produziam e comercializavam colares, entalhes, cerâmicas e pinturas em couro. Lutavam para resgatar a cultura perdida no tempo, buscando sinais de uma antiga iconografia destruída nos conflitos com a sociedade envolvente.
Notamos também que os nativos da aldeia São João buscavam formas de participar do fluxo turístico que adentra a reserva de forma aparentemente descontrolada.
De um modo geral, os nativos dessa aldeia não possuem conhecimentos sobre suas origens, costumes ou crenças, encontrando-se em estado de ostracismo histórico e cultural. Vestem-se nos moldes brasileiros mais simples e a comunicação é bilíngüe, falando-se mais o português do que a língua nativa.
Como não possuem mais as tradições de seus antepassados, comemoram apenas o Dia do Índio, em 19 de Abril. No entanto, estão conscientes de que se trata de uma data inventada pelos brancos. Segundo o cacique, o importante é comemorar à maneira deles, inventando rituais e emprestando significado próprio aos mesmos. O fato é que estão dispostos à reverter o quadro e lutar pela reafirmação de sua identidade.
Embora alguns fossem católicos ou protestantes, mantinham ainda conhecimentos naturais que lhes permitiam uma considerável simbiose com o meio. Ainda eram portadores de traços do misticismo xamânico, motivo pelo qual percebe-se, mesmo em meio a outros objetos, signos de uma cultura ligada aos elementos da natureza.
Entre os Kinikinawa nota-se maior adaptação ao contato com a cultura envolvente. Embora monetariamente pobres, suas habitações são mais zeladas, suas fisionomias mais alegres e seu ânimo mais disposto. Mostravam-se entusiasmados com a perspectiva de um fortalecimento cultural que os levasse a uma existência digna, sem a perda de sua referência nativa. Como disse um Kinikinawa: “nem que seja preciso a gente inventar nossa tradição”.
Notamos que entre as três etnias presentes, Kadiwéu, Kinikinawa e Terena, embora não houvesse hostilidade aparente, transparecia o receio comum contra os Kadiwéu, pois o convívio muito próximo constituía-se em motivo para constante insegurança entre os Terena e Kinikinawa, não apenas porque a reserva territorial pertence aos Kadiwéu, mas também pelo histórico das relações intertribais. Já conhecemos a estratificação social dos Kadiwéu e é bem provável que ainda hoje existam cativos em algumas aldeias, fato que não pudemos constatar, mas que chegou ao nosso conhecimento através de fonte segura.
Politicamente, internamente parecem estar organizados através de um cacicado patriarcal sobre o tronco Aruwak, mantendo relativa unidade tribal mesmo em face às constantes rupturas e migrações forçadas. A inexistência de um território fixo demarcado para cada etnia contribui para a instabilidade desse quadro.
Externamente, não estão completamente inseridos no contexto político e democrático brasileiro, representando inexpressivo coeficiente eleitoral, motivo pelo qual, talvez, recebam pouco apoio das instituições públicas. De maneira generalizada vivem como a maior parte da população nativa no Brasil, lutando pelo reconhecimento de seus direitos, e como a maior parte da população brasileira, sem ter a quem recorrer.
Imbuídos destas análises complexas e sempre incompletas, partimos rumo à aldeia Tomásia. Queríamos um contato direto com os Kadiwéu. Nosso guia ficou, recusando-se definitivamente a nos acompanhar. Foi inútil insistir, sendo impossível dissuadir Ambrósio. Despedimo-nos e partimos.
(Continua)
Que trabalho bonito, Marcos.
Esta Expedição deve ter sido muito gratificante, não foi? Temos mesmo é que agradecer por repartir conosco os frutos desta viagem tão bonita, produtiva e enriquecedora. Me impressionou a frase do Kinikinawa: “nem que seja preciso a gente inventar nossa tradição”.
Abraços
Pois é Nydia,
Esse fenômeno da reinvenção das tradições vem sendo estudado pelos antropólogos porque está se manifestando em várias tribos remanescentes.
Mais uma vez o elemento pejorativamente chamado "índio" (palavra que coisifica étnica e culturalmente um povo) está nos ensinando algo importante: como eles, muitos de nós também precisamos inventar uma nova cultura, uma nova identidade se quisermos escapar da massificação alienadora do consumismo desenfreado e das faces escravizantes do processo civilizatório globalizado.
Quanto a expedição foi de fato importante e especial. Experiência única, produtiva e gratificante. Sem falar na aventura...
Abraços Guaicuru!!!
Muito bom teu trabalho. Talvez a busca por uma identidade mais "pura" seja somente uma ilusão. Quem pode ter uma identidade que não se contamine com outras identidades? No entanto, lutar por uma identidade também é uma questão política. A reinvenção da cultura indígena para eles é uma questão de sobrevivência. É pena ver uma data inventada pelo branco, ser incorporada a sua "tradição". Nas escolas, só se fala de índio justamente nesta data. As professoras fazem as inocentes crianças se pintarem de índios apaches, que ficam todas felizes. Afinal, onde está a cultura indígena?
Lu&Arte · Porto Alegre, RS 15/1/2008 09:29
Carlito
Bela continuação, concordo que é dever reinventar, aprimorar, sem deixar a essência ir embora.
Parabens pela continuação postada.
abç
Marcos, acho que você usou bem cada termo, principalmente o "Reinventar". Desde os primórdios, as tribos indígenas vêm sofrendo com a influência do homem branco e, em todos os aspectos. Uma boa parcela delas resiste aos modismos do consumismo tecnológico; aparelhos de TV, telefone, internet e até mesmo motocicletas. Porém, o pior de todos os males é o alcoolismo que dilacera a essência de algumas tribos brasileiras.
Parabéns, Marcos.
abço.
Mais uma de suas belas entrevistas. Texto artesanal.
Frazao my brother · Anastácio, MS 16/1/2008 13:24Estou arquivando a serie e tinha esquecido de votar neste numero. um abraço andre.
Andre Pessego · São Paulo, SP 26/1/2008 00:34
Marcos Paulo Carlito · Coxim (MS
Um Trabalho Admirável como é costume de mestre Marcos Paulo Carlito fazer.
Entrevista com os ex-extintos Kinikinawa (parte 3).
Dando uma Certidáo de existência para esse povo Heróico e ao mesmo tempo dando um conforto a todo Povo Brasileiro por ter o Resgate deste povo Indio, numa Cancáo de Esperanca sobre nossos Indios Brasileiros.
Um Novo tempo, Um Grande Trabalho.
Parabéns e voto de merecimento.
Abracáo amigo
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