Entrevista com Toninho Vaz

Toninho Vaz.
Torquato Neto veste uma capa (parangolé) de Hélio Oiticica.
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Bruno Delecave · Rio de Janeiro, RJ
27/2/2008 · 135 · 3
 

Toninho Vaz é jornalista e autor das biografias de duas importantes figuras da cena contracultural brasileira: Paulo Leminski e Torquato Neto. Esta entrevista com o jornalista foi realizada por e-mail, em 11 de janeiro deste ano e teve continuação em 19 de janeiro, também por e-mail.

1)—Toninho, você participou ativamente da contracultura durantes os anos 60 e 70?
TV—Sim, na condição de jornalista desempregado e perseguido, não me restava alternativa a não ser trabalhar por baixo do pano, escondido da censura e dos “homens”. Criei e participei, em Curitiba e no Rio, de vários jornais e revistas da chamada “imprensa nanica”, como eram conhecidas estas iniciativas de romper o silêncio imposto pela ditadura. Publiquei textos e poemas em folhas avulsas e espalhei pelas cidades.

2)—Para você, quem são os maiores ícones deste movimento no Brasil?
TV—Aqueles que continuaram trabalhando, experimentando e fazendo a cultura não imposta pelo governo ou pelo establishment. Em várias modalidades, José Agripino de Paula, Hélio Oiticica, Torquato Neto, Caetano Veloso, Paulo Leminski, Raul Seixas, José Celso, Jorge Mautner, Rogério Sganzerla e uma legião de iluminados.

3)—A poesia marginal se caracterizou no Rio de Janeiro por produções coletivas mimeografadas. A produção de Paulo Leminski também era assim?
TV—Não. O Leminski teve a sorte de produzir impressos numa cidade sofisticada e conhecida pelo seu parque gráfico, como é Curitiba. Seus primeiros trabalhos publicados, ainda como edição de autor, eram ricos estética e graficamente. Vide Polonaises e o álbum branco da ZAP, requintados produtos que em outras cidades sairiam em mimeografo. O Paulo era apaixonado pelo avanço da tecnologia e da publicidade.

4)—Quais as influências, não só literárias, mas comportamentais de Leminski?
TV—Jesus Cristo, Maiakovski, Bob Dylan, Lennon e Alice Ruiz, com sua constante consciência feminista.

5)—Por que podemos dizer que Leminski era extremamente ligado à contracultura?
TV—Porque ele não fazia a cultura oficial. Seus primeiros livros foram editados por ele mesmo e estavam sempre sob suspeita de entidades reguladoras da moral e dos bons costumes.

6)—Você está prestes a publicar um livro sobre um dos mais importantes pontos de encontro da contracultura carioca?
TV—É isso. Estou terminando de contar a história do Solar da Fossa, folclórico casarão colonial que havia em Botafogo antes de existir o shopping Rio Sul. A pensão tinha 85 apartamentos e entre 1964 e 1971 abrigou uma verdadeira legião de talentos contraculturais: Caetano, Leminski, Gil, Paulo Diniz, Paulo Coelho (no momento que conhecia Raulzito), Ítala Nandi, Cláudio Marzo, Tim Maia, etc... O livro vai sair pela editora Record.

7)—Que outros locais também atraiam a contracultura brasileira?
TV—A praia, as dunas da Gal, o posto 9 em Ipanema e os botequins de Copacabana. Shows de rock.

8)—A relação entre contracultura e uso de drogas sempre foi estreita. Qual a explicação para este comportamento?

TV—Estava sendo cada vez mais difícil ser feliz. Este mundo, um hospício, fugi pelos furos do vício. Este é o trecho de um rock de Paulo Leminski. A maconha, que hoje está sendo usada como remédio, naquela época já era.

9)—A contracultura já foi definida como a oposição juvenil contra o regime tecnocrático. Como você a definiria?
TV—Esta definição é interessante. Mas existem outras que podem dar uma idéia política do acontecimento. Se você não tinha interesse que o seu ato cultural fosse enquadrado pelos militares, qualquer ato seria contracultural, ou seja, fora da chancela oficial do governo (e vou bater na madeira três vezes).

10)—Hoje, passados mais de meio século desde que os primeiros beatniks surgiram, a contracultura parece estar bastante integrada à tecnocracia e muito diluída para representar uma oposição tão grande como era no passado. Qual sua opinião sobre o assunto?
TV—Não existe mais necessidade e nem possibilidade de movimentos de contracultura. Pelo contrário, a época é de globalização. O mundo de George Orwell chegou. Somos todos replicantes e Deus está morto. A Terra e a natureza selvagem já estão no catálogo virtual do homem, que continua rompendo os espaços das galáxias. Diante disso, você pode se descabelar ou apenas ler um poema de Walt Witman. Vai depender da sua sensibilidade.

11) — Os anos 70 ficaram famosos pela permissividade sexual. Afinal, tinha-se a pílula, mas não existia a AIDS. Nós, que nascemos depois da camisinha, gostaríamos de saber mais sobre as transas que rolavam naquela época. Ou seja, explica o Amor Livre no Solar da Fossa, por exemplo.
TV — Quando se diz que nos anos 60 houve uma revolução nos costumes e no comportamento, estamos falando numa convergência de fatores raros e excepcionais. Assim, à explosão dos meios de massa, rádio e televisão basicamente, veio se juntar a explosão do rock e o fim da rotina horizontal das famílias. Os jovens foram informados de tudo (não me pergunte o quê, certo?) e deixaram o cabelo crescer; decidiram sacudir o corpo com o rock and roll, experimentar o prazer das drogas e outras cositas mais. Diante das liberdades conseguidas a tapa, as mulheres puderam igualar sua libido ao referencial masculino de prazer e sexualidade. Elas fizeram uma revolução sexual. O homem que conseguiu ser parceiro das mulheres neste processo de transformação, certamente cresceu como homem e se beneficiou deste momento. Como conseqüência, temos o amor livre e a amizade coloria. Era o fim do pecado.

12) — A palavra desbunde supostamente surgiu na esquerda, para designar quem largava a luta armada. Entretanto, começou a designar quem se encaixava no padrão da contracultura. Qual a relação entre esquerda e contracultura no Brasil?
TV — A esquerda no Brasil refletia influências da revolução russa, chinesa ou apenas marxista, com base na divisão de trabalho, etc. O foco era a liberdade política e suas conseqüências no socialismo da economia. O prazer, o investimento hedonista, as águas de Eros, estas tinham o estigma do pecado, eram considerados desvios típicos dos porras-loucas e desbundados. Embora utilizando os mesmos meios da contracultura, no que tange a clandestinidade, a esquerda (clandestina ou oportunista) fazia o papel da formiga na fábula com a cigarra. Hoje sabemos que – sem remorso – é possível ser formiguinha durante o dia e cigarra à noite. A terceira via é ser cigarra o tempo todo e foda-se o mundo. Também sem remorso.

13) — Você conheceu alguém que se autodefinia desbundado? Quem?
TV — Quase todos da minha geração foram desbundados ou tiveram momentos de desbunde. O Mautner, o Caetano, o Zé Celso, o Raul Seixa, Leila Diniz, Elke Maravilha são pessoas desbundadas – e creio que nenhuma delas negaria isso. O professor Timothy Leary era desbundado.

14) — Conte um pouco sobre o Solar da Fossa. O local era bem ao estilo sexo, drogas e rock and roll? Eles pagavam aluguel? Conte um “causo” legal.
TV — Agora você pode pegar aquela convergência de fatores referida ai em cima e colocar tudo dentro de um casarão. O resultado é que ali estavam porras-loucas, revolucionários, cabeludos, destemidos, grandes talentos e garotas espetaculares que não tinham medo de transar. Para melhor apreciar e entender o fenômeno da contracultura brasileira, o Solar deveria ir para a lâmina do microscópio. Todos os vestígios típicos dos anos 60 vão aparecer nos 85 apartamentos da pensão Santa Teresinha, como era o nome oficial. Pelo menos nos três primeiros anos (dos oito de existência) todos pagavam aluguel, depois o esquema foi se alterando e, nos dois últimos anos, ninguém pagava aluguel.
Ficaram famosos os passeios da Maria Gladyz, completamente nua pelos corredores do Solar, talvez sob o pretexto de fazer “laboratório de teatro”. Audácia e ousadia eram impulsos comuns entre estes jovens. Como diz o Roberto Talma na abertura do meu livro: “No Solar da Fossa – onde havia um grande elenco de mulheres bonitas – se você não tivesse alguma literatura, um pensamento filosófico atualizado, uma conversa definida sobre arte, você não comia ninguém.”

15) — Hélio Oiticica parecia querer ligar a sua arte, altamente contracultural, diga-se de passagem, com o conceito de marginal. Entretanto outras pessoas, como Waly Salomão, se incomodavam com o rótulo de poeta marginal. Qual sua opinião?
TV — Não era só o Waly que implicava com esta pecha. Conheço vários poetas que consideram o termo pejorativo. Eu gosto do conceito de marginal. Ele trás um estigma muitas vezes desconfortável porque é excludente, é verdade, mas mesmo assim me agrada.

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Cintia Thome
 

Excepcional entrevista.
Já é certo o sucesso do Livro No Solar da Fossa.
abçs.

Cintia Thome · São Paulo, SP 27/2/2008 21:09
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Living Brasil
 

ótima entrevista! parabéns!

Living Brasil · São Paulo, SP 3/3/2008 11:44
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Bruno Delecave
 

Obrigado pelos elogios.
Esta entrevista fiz como parte de minha monografia. Se quiserem ler o trabalho completo: http://contraculturabrasil.blogspot.com/
Abraços.

Bruno Delecave · Rio de Janeiro, RJ 5/3/2008 00:15
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