Entrevista: Fl√°vio Medeiros Jr.

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Romeu Martins · S√£o Jos√©, SC
28/8/2007 · 253 · 5
 

O escritor que saiu de Andr√īmeda

Entre um plant√£o e outro na emerg√™ncia de um pronto-socorro de Belo Horizonte e visitas ocasionais a diversas localidades vizinhas um m√©dico mineiro fez a a pesquisa para um dos mais imaginativos livros de fic√ß√£o cient√≠fica lan√ßados no Brasil. Nesta entrevista, o autor de Quintess√™ncia conta hist√≥rias sobre a produ√ß√£o de sua obra independente, descreve cole√ß√Ķes de quadrinhos que ocupam caixas de papel√£o, kombis e quartos inteiros, d√° dicas sobre como interpretar uma cadeira no palco de teatro e detalha como foi a forma√ß√£o de um escritor de FC nascido em Andr√īmeda, vulgo Minas Gerais. Com voc√™s, o lado B do doutor Fl√°vio Medeiros Jr.

Seu livro de estréia pegou muita gente de surpresa - mesmo entre os especialistas mais dedicados em acompanhar a produção nacional de FC, no famoso eixo Rio-São Paulo. Poderia fazer uma revisão de outros textos ficcionais seus e contar um pouco dos bastidores da publicação de seu primeiro romance?


Penso que essa "surpresa" se justifica. Costumo dizer, em tom de brincadeira, que vivo em Andr√īmeda, pois Minas Gerais, no universo da FC nacional, fica t√£o distante do tal eixo Rio - S√£o Paulo quanto outra gal√°xia. Na verdade sou um √°vido leitor de fic√ß√£o cient√≠fica desde adolescente. Comecei com Perry Rhodan, depois Asimov, e da√≠ n√£o parei mais. Tenho toda a cole√ß√£o da saudosa Isaac Asimov Magazine brasileira. No entanto, s√≥ quando j√° estava escrevendo o Quintess√™ncia foi que eu soube que existiam f√≥runs virtuais para discutir FC. Por isso as pessoas ligadas √† FC nacional s√≥ souberam de minha exist√™ncia quase simultaneamente √† publica√ß√£o do meu livro. Antes dele, s√≥ publiquei contos, cr√īnicas e cartoons (que eu escrevi e desenhei) em jornais locais e universit√°rios, a maioria tratando de temas cotidianos. Tamb√©m escrevi algumas pe√ßas de teatro, que dirigi e encenei com grupos amadores, uma delas inclusive de fic√ß√£o cient√≠fica, chamada Proteu, o Prot√≥tipo.

Quanto ao Quintess√™ncia, a id√©ia inicial surgiu da seguinte preocupa√ß√£o, resultado de minha estupefa√ß√£o diante da crescente banaliza√ß√£o da viol√™ncia ao meu redor: at√© que ponto as pessoas n√£o cometem crimes, dos mais leves aos mais hediondos, obedecendo aos pr√≥prios valores morais, e n√£o ao temor de serem pegos e punidos? Ent√£o decidi criar o "supervil√£o do novo mil√™nio", um personagem com poderes praticamente ilimitados para fazer o mal, e que comete seus atos com a certeza absoluta da impunidade. O interessante foi que eu pretendia que esse vil√£o fosse a encarna√ß√£o do Mal absoluto, mas ao longo do texto que fui escrevendo o pr√≥prio personagem me fez entender que em termos humanos isso n√£o existe: o ser humano que pratica o mal sempre carrega suas raz√Ķes pessoais para isso, sempre busca ou fabrica justificativas para seus atos. Aprendi muito com ele.

O livro foi publicado no sistema de autopublica√ß√£o, ou seja, eu mesmo banquei a edi√ß√£o. Ao contr√°rio de alguns, considero esta uma forma perfeitamente v√°lida e digna de publicar um livro, diante das dificuldades que o mercado imp√Ķe a novos autores. Esse sistema ainda tem a vantagem de dar ao autor total controle sobre sua obra, desde o conte√ļdo at√© a capa. Permite tamb√©m que o autor negocie melhor o pre√ßo de capa do livro e a porcentagem da consigna√ß√£o, que √© como a maioria das livrarias trabalha. A enorme desvantagem da autopublica√ß√£o √© o problema da distribui√ß√£o. Enquanto voc√™ est√° na m√≠dia o seu livro vende bem, mas quando param de falar dele o fantasma do encalhe aparece. Em rela√ß√£o ao Quintess√™ncia, ap√≥s tr√™s anos da publica√ß√£o ainda tenho a alegria de vender exemplares pela internet ou atrav√©s de pessoas que leram, gostaram e indicam a outras pessoas. √Č uma venda em "conta-gotas", mas para mim isso n√£o importa: eu vivo de medicina, escrever √© o meu prazer pessoal.

A FC √© sempre associada a mudan√ßas profundas na tecnologia e no comportamento das pessoas; a dinamismo social, cultural, ambiental. Minas Gerais, por outro lado talvez seja o estado brasileiro mais ligado ao culto √†s tradi√ß√Ķes; um lugar em que o tempo parece correr mais lentamente. Algo que pode ser sintetizado na frase c√©lebre do Otto Lara Resende: "Minas est√° onde sempre esteve". Como √© lidar com este aparente paradoxo de ser um autor de fic√ß√£o cient√≠fica mineiro? Como seus colegas, amigos e familiares reagem a seu lado menos convencional?

Como voc√™ disse, o paradoxo √© aparente. Outro dia li em um romance a cr√≠tica depreciativa de um dos personagens √† fic√ß√£o cient√≠fica, nos seguintes termos: a tecnologia evolui, as descobertas se multiplicam, mas o ser humano continua o mesmo. Naquele momento eu me perguntei: "mas n√£o √© essa a realidade?" Observe a hist√≥ria da humanidade: como na Antiguidade continuamos nos matando por raz√Ķes religiosas, ou por ambicionarmos o que os outros possuem. A diferen√ßa √© que antigamente faz√≠amos isso usando pedra lascada, depois arco e flecha, e hoje empregamos alta tecnologia, armas de destrui√ß√£o em massa e microrganismos geneticamente alterados. Mas a atitude mudou muito pouco. Nossos tabus, cren√ßas e preconceitos mudam de roupa e adquirem formas de express√£o mais rebuscada, mas em ess√™ncia n√£o mudaram muito nos √ļltimos mil√™nios. Por isso, parafraseando o bom e velho Otto, eu diria que "o Homem est√° onde sempre esteve". Minha aposta √© que isso vai persistir ainda por muito tempo no futuro, de modo que a FC, na minha concep√ß√£o, precisa considerar essa possibilidade.

Quanto √† segunda parte da pergunta, outro dia um colega m√©dico me disse que eu sou um dos caras com o "lado B" mais interessante que ele conhece, entendendo-se como "lado B" aquilo que voc√™ faz quando n√£o est√° tratando das trivialidades da vida, como dar aten√ß√£o √† fam√≠lia ou ganhar dinheiro. Esse lado escritor surpreendeu alguns dos amigos mais recentes, pois devido aos caminhos tortuosos que a vida toma, antes do Quintess√™ncia eu havia passado uns cinco ou seis anos sem produzir nada de substancial em termos de literatura. Mas quem me conhece h√° mais tempo, como os familiares e amigos mais antigos, n√£o se surpreendeu em nada. Na verdade eu escrevo desde sempre, e as pessoas se acostumaram a me ver crescendo assim. No curso prim√°rio as professoras liam minhas reda√ß√Ķes para a classe inteira, e emprestavam para as outras professoras lerem em suas classes. Com uns oito ou nove anos pedi ao meu pai dinheiro para comprar um caderno; o dinheiro deu para dois cadernos, e comecei a escrever neles meus dois primeiros livros: As Aventuras de Falangeta e Cidade Submarina, ambos inacabados. Com onze ou doze anos eu e um primo escrevemos dois livros que eram fanfiction (embora na √©poca eu acho que a palavra ainda n√£o existia) de Planeta dos Macacos e dos Smurfs, que ent√£o se chamavam Strunfs. Esses dois livros tenho em casa, foram datilografados em uma velha Remington que ganhei de minha m√£e naquela √©poca, e encadernados em uma gr√°fica do bairro. Infelizmente, s√£o livros de um s√≥ exemplar. Ou seja, tirando aqueles cinco ou seis anos de hiato, sempre fui metido a escritor, e suspeito que agora n√£o vou parar nunca mais.

Quadrinhos americanos, ingleses e italianos são uma referência mais que explícita em seu trabalho. Em certos momentos, obras como Sandman, Punisher e Dylan Dog são elementos importantes para se compreender a motivação e o universo particular de alguns dos personagens. Qual o papel dessa mídia na sua formação como escritor? Qual o tamanho de sua coleção de gibis e quão eclética ela é?

Entendo que, antes de ser escritor, voc√™ necessariamente tem que ser um leitor convicto. E eu aprendi a ler com as hist√≥rias em quadrinhos. Os adultos compravam os gibis, primeiro de Walt Disney, depois tamb√©m de Mauricio de Souza, e liam para mim. Eu ficava do lado acompanhando a hist√≥ria e perguntava, de vez em quando, o nome de alguma letra. Um belo dia, e me lembro da cena como se houvesse sido ontem, j√° sabendo o nome das letrinhas, uma luz se acendeu na minha mente, e compreendi que bastava juntar o som de cada letra para ler uma palavra. Nesse dia eu li pela primeira vez, antes que a escola me ensinasse, para alvoro√ßo dos adultos ao redor. E desde ent√£o n√£o parei mais. Ainda crian√ßa, um dos melhores amigos do meu av√ī era dono de uma banca de revistas, onde ocasionalmente eu passava o dia inteiro lendo de tudo. Na adolesc√™ncia me especializei nos quadrinhos de super-her√≥is, e nos √ļltimos trinta anos tenho colecionado e lido tudo que foi publicado no Brasil em termos de Marvel e DC, al√©m de brasileiros como Ziraldo (A Turma do Perer√™), Laerte e Angeli. Tamb√©m sou f√£ de Uderzo e Goscinny (Asterix), e de cartunistas, como o argentino Quino (Mafalda) e Bill Watterson (Calvin e Haroldo). Atualmente ainda leio de tudo isso, mas me d√£o mais prazer os chamados "quadrinhos adultos", de autores como Neil Gaiman, Alan Moore, Frank Miller, Garth Ennis, Mark Millar e Warren Ellis.

Eu n√£o saberia te dizer o tamanho da minha cole√ß√£o, mas apenas para dar uma id√©ia, no ano passado eu vendi parte dela para uma feira de gibis usados, promovida por uma livraria de Belo Horizonte. Um funcion√°rio teve que vir at√© minha casa para separar o material, depois veio uma kombi com mais dois caras para buscar doze caixas de papel√£o grandes cheias de revistas. Isso me rendeu um cr√©dito de quase oitocentos reais na livraria, e hoje o quartinho de despejo do meu apartamento ainda est√° cheio mais da metade com grandes caixas repletas de revistas. Aproveito a oportunidade para agradecer publicamente √† minha esposa pela compreens√£o e pela paci√™ncia e toler√Ęncia infinitas.

Você já deve ter pensado na possibilidade de continuação para Quintessência, não? Uma adaptação do livro para HQ ou mesmo uma sequência em tal formato já estiveram em seus planos?

Na verdade, a princ√≠pio eu pretendia acabar a hist√≥ria ali mesmo, apesar de que o final do livro gerou rea√ß√Ķes bem diversas: alguns adoraram, outros quiseram me matar e exigiram uma continua√ß√£o. Eu respondi, na √©poca, que s√≥ escreveria uma continua√ß√£o se tivesse uma id√©ia que realmente valesse a pena. Acontece que no √ļltimo ano eu tive e j√° andei amadurecendo essa id√©ia, da√≠ que a continua√ß√£o do Quintess√™ncia dever√° ser meu pr√≥ximo romance. Quanto a adapta√ß√Ķes, n√£o penso que os quadrinhos sejam o melhor formato. Observe que o livro √© contado em primeira pessoa, e tem que ser assim mesmo, para que o leitor v√° fazendo as descobertas, e tendo as surpresas e sustos junto com o protagonista. Ou seja, a hist√≥ria √© contada dentro da mente do personagem, que atua como narrador. Os quadrinhos s√£o uma linguagem muito mais visual e din√Ęmica do que narrativa e reflexiva, ent√£o uma adapta√ß√£o de Quintess√™ncia ia ser cheia daqueles bal√Ķes cheios de falas e recordat√≥rios intermin√°veis, e n√£o gosto de HQs assim. Se voc√™ precisa falar mais do que mostrar, melhor contar a hist√≥ria em texto. Por outro lado, j√° foi iniciada uma adapta√ß√£o do livro para roteiro de cinema, que a meu ver est√° no meio termo entre a literatura e as HQs em termos de est√©tica narrativa. Essa adapta√ß√£o est√° meio parada depois que a pessoa respons√°vel come√ßou a fazer mestrado, mas √© uma adapta√ß√£o que considero muito mais interessante.

Além de comics e fumetti, quais as obras e autores que influenciaram seu thriller policial-científico? Entre os escritores, há algum brasileiro na lista, como Ignácio de Loyola Brandão de Não verás país nenhum? Pergunto isso porque há alguns pontos de semelhança entre seu livro e o daquele autor, como a questão ambiental em São Paulo e a unificação de forças de segurança, sua Polícia de Elite e os civiltares de Brandão.

Confesso que n√£o conhe√ßo a obra de Brand√£o, embora meu interesse por ela tenha surgido recentemente, ap√≥s ler nos f√≥runs de discuss√£o a opini√£o de outros leitores e escritores de fic√ß√£o cient√≠fica a respeito dela. Mas antes de come√ßar a escrever Quintess√™ncia eu senti que precisava ler algo em termos de literatura policial de autores nacionais, ent√£o li BR 163, de Tony Bellotto, e Enquanto Seu Lobo n√£o vem, de Alu√≠sio Santiago Campos Jr. Meu estilo nada tem a ver com nenhum dos dois, mas ap√≥s ler essas obras me senti mais tranq√ľilo sobre escrever um romance policial com uma ambienta√ß√£o e personagens brasileiros. Quanto a autores internacionais, achei divertido quando alguns leitores compararam meu estilo ao do Dan Brown, e quando li O c√≥digo da Vinci entendi o motivo: ele usa alguns truquezinhos como eu tamb√©m usei, de terminar cada trecho de a√ß√£o num momento de suspense, como nos epis√≥dios dos antigos seriados policiais, de maneira a fazer o leitor n√£o querer largar o livro, para saber o que vir√° a seguir.

Quanto a minhas prefer√™ncias, em termos de estilo admiro autores como Neil Gaiman (Deuses americanos, Os filhos de Anansi) e Stephen King. Deste √ļltimo destaco as obras O iluminado, na qual ele retrata de forma magistral a crise no relacionamento de um casal sob o ponto de vista de uma crian√ßa pequena, e Salem’;s Lot, quando na cena do sepultamento de uma crian√ßa morta ele mistura as falas do padre, que realiza sua fun√ß√£o de maneira protocolar e impessoal, com as do pai do garoto morto, tomado por um desespero que beira a insanidade. Recentemente tamb√©m me tornei f√£ de Philip Roth e seu Compl√ī contra a Am√©rica, para mim um dos melhores livros de todos os tempos. Esses s√£o os caras que eu quero ser quando crescer.

H√° toda uma reflex√£o que os leitores testemunham no fluxo de consci√™ncia de Tom Rizzatti sobre quest√Ķes de fundo moral: o bem, o mal, o livre arb√≠trio, a ess√™ncia mais profunda e definidora disso tudo. Refletir sobre pontos como esses fizeram com que voc√™ repensasse pontos de vista? Foi poss√≠vel chegar a alguma conclus√£o no final da jornada de 230 p√°ginas?

Talvez essas reflex√Ķes sejam a ess√™ncia do livro, ou a principal raz√£o de sua exist√™ncia. Na verdade esses questionamentos s√£o os que ficam ali, como a pulga atr√°s da orelha da humanidade, h√° muitos s√©culos. E s√£o importantes, uma vez que se referem nada menos que √† pr√≥pria exist√™ncia. Muitos buscam as respostas na religi√£o, e se contentam com isso. Outros preferem n√£o pensar a respeito, embora curiosamente essas quest√Ķes sempre retornem, marcadamente naquelas situa√ß√Ķes de profunda como√ß√£o humana, como mortes e doen√ßas na fam√≠lia, por exemplo. Outros, mais inquietos, continuam buscando. A pr√≥pria ci√™ncia come√ßa a se enveredar nesse caminho, o que n√£o deixa de ser uma ousadia: tratar cientificamente de quest√Ķes metaf√≠sicas. As melhores e mais satisfat√≥rias respostas que encontrei at√© agora est√£o na Logosofia, ci√™ncia que aborda essas quest√Ķes e muitas outras partindo do conhecimento de si mesmo. O mais interessante √© que, quanto mais respostas, ou partes delas, voc√™ encontra, mais quest√Ķes surgem. Mas √© um estudo muito gostoso de fazer, a partir do momento que voc√™ come√ßa a n√£o se frustrar sempre, como se atingisse uma barreira intranspon√≠vel. E, assim como a vida, n√£o tem fim.

Sua forma√ß√£o como m√©dico e a experi√™ncia de ex-professor universit√°rio certamente foram √ļteis para lidar com o lado cient√≠fico do livro. Mas e os demais elementos da trama? Como foi a pesquisa a respeito dos v√°rios locais reais descritos em detalhes ao longo das p√°ginas, sem falar no b√°sico em termos de t√©cnicas investigativas para a por√ß√£o policial da obra?

Quanto aos locais de Belo Horizonte, minha cidade, foi mais f√°cil. Fui at√© o BH Shopping e fiquei de p√© exatamente no topo das escadas rolantes, onde ocorre o atentado da abertura do livro. Ali desenhei mentalmente toda a cena. Depois "invadi" a galeria t√©cnica do shopping onde o terrorista vai se refugiar, e imaginei toda a cena da explos√£o. Para a cena do congresso de neurologia no Minascentro, onde o orador metralha a audi√™ncia, aproveitei minha presen√ßa l√° em um congresso e subi ao palco, para ter a vis√£o exata do agressor. Passei pelo Viaduto Oeste v√°rias vezes para memorizar detalhes e escrever a cena em que Tom Rizzatti escapa de seus perseguidores subindo o viaduto pela contra-m√£o. Cenas como as de Lavras Novas e sua cachoeira, e tamb√©m Visconde de Mau√°, tamb√©m n√£o foram dif√≠ceis, pois conhe√ßo bem as duas localidades. Fiz mais de um passeio ao lado oposto da Serra do Curral, caminho para Macacos, onde no meu livro vai ser constru√≠do o Memorial Le√īncio Lamas, para verificar a viabilidade de minhas "teorias".

Para a cena ambientada em Paris, no final do livro, entrevistei brevemente uma amiga que morou l√°: "voc√™ est√° de p√© sobre a Pont Neuf; olha para um lado, e o que v√™? E do lado oposto?" Com um mapa da cidade obtido na internet e uma foto da ponte, foi como se eu tivesse mesmo estado l√°. Coisas "futuristas" como o domo sobre a regi√£o da Savassi e uma rede de autovias passando pelos subterr√Ęneos da Pra√ßa da Liberdade, s√£o projetos que talvez jamais se tornem realidade, mas que existem, de verdade: alguma imagina√ß√£o insana pensou nisso antes de mim. Quanto √† parte policial, aproveitei que trabalho em um pronto-socorro para onde convergem todos os casos de viol√™ncia urbana de BH, e sempre que chegava uma turma de policiais trazendo alguma v√≠tima ou bandido, eu "colava" nos caras e come√ßava a fazer perguntas. Olha, ouvi coisas que voc√™ n√£o acreditaria, nem se eu escrevesse em um livro de fic√ß√£o.

Passado algum tempo de sua estréia no ramo da literatura de gênero já deve ser possível fazer um retrospecto. Entre perdas, ganhos e empates qual é o saldo destes primeiros três anos?

O saldo √© totalmente positivo, j√° que correspondeu exatamente √†s minhas expectativas. Escrever para mim √© um prazer, n√£o um meio de vida. Quando voc√™ escreve por gosto, sem press√Ķes, a chance de ter um bom resultado √© melhor. Minha maior alegria √© o retorno, geralmente positivo, de quem leu e gostou. J√° tive coment√°rios curios√≠ssimos de leitores de todas as idades, que para mim servem de sinal de que, apesar do trabalho que d√° e do tempo que consome o ato de escrever, a recompensa √© sempre superior. N√£o pretendo parar t√£o cedo.

Em uma perspectiva mais geral: em sua opinião, o que está faltando para a literatura de entretenimento ganhar mais espaço entre os brasileiros? Quando falamos de ficção científica nacional, especificamente, há algo que se possa fazer para popularizar o gênero e atrair novos leitores e escritores?

Um de meus leitores fez um dos coment√°rios mais significativos, ap√≥s acabar a leitura do Quintess√™ncia: "gostei muito do seu livro, apesar de ser fic√ß√£o cient√≠fica". Observo que a maioria das pessoas que afirmam n√£o gostar de fic√ß√£o cient√≠fica nunca leu um livro do g√™nero, e baseia sua opini√£o na m√≠dia do cinema ou da TV. Ent√£o minha proposta √©: vamos escrever boas hist√≥rias! Coisas com conte√ļdo, mesmo que n√£o seja nada filos√≥fico, mas um texto inteligente e bem escrito. Ser FC, ou horror, ou policial, ou fantasia, √© secund√°rio desde que a hist√≥ria seja boa. De prefer√™ncia com id√©ias originais, pr√≥prias. Se minha hist√≥ria de FC n√£o passar da descri√ß√£o de uma persegui√ß√£o espacial, se meu texto de fantasia n√£o for mais que a descri√ß√£o da luta entre um pr√≠ncipe e um drag√£o, talvez a m√≠dia certa seja mesmo a TV ou o cinema.

A pista que dou, porque √© a que tento seguir, √©: boas hist√≥rias t√™m que ter um conte√ļdo humano. Uma vez perguntaram a Stanislawski, um dos g√™nios do teatro, se ele seria capaz de representar uma cadeira no palco. A resposta dele foi: "Se essa cadeira tiver o sonho de virar uma poltrona, ou se tiver o medo de morrer em um inc√™ndio, eu represento. Se n√£o tiver nada disso, voc√™ n√£o precisa de um ator: use uma cadeira". Penso que na literatura seja a mesma coisa. Tenho lido muita coisa boa de gente nova na literatura de g√™nero, e se tivermos mais oportunidades de mostrar esses trabalhos para mais pessoas, atrav√©s da divulga√ß√£o e da melhoria do acesso das pessoas √† literatura, esse panorama vai mudar. E esse trabalho tem que come√ßar junto √† juventude, que tenho encontrado sem muitas motiva√ß√Ķes e incentivos que transcendam a superficialidade.

"O futuro é uma página em branco dentro de um quarto escuro em uma noite de neblina". Foi assim que, à altura da página 90 de Quintessência, você definiu o porvir. Mesmo com toda a nebulosidade e escuridão para atrapalhar a vista, o que o futuro lhe reserva como escritor?

Id√©ias √© o que n√£o me falta. Estou com um novo romance pronto para publica√ß√£o, chamado Casas de vampiro. Enquanto Quintess√™ncia √© uma mescla dos g√™neros fic√ß√£o cient√≠fica e policial, no novo livro misturo FC e horror. Tenho tamb√©m pronta uma colet√Ęnea de contos leves, de humor e temas cotidianos, chamada Leia e fique rico. Acabo de terminar um conto de FC inspirado por uma m√ļsica da cantora Tanita Tikaram, que dever√° sair publicado em uma antologia de v√°rios autores de fic√ß√£o cient√≠fica, horror e fantasia. Al√©m disso estou fazendo as pesquisas para um conto no universo da Intempol, e para o romance que ser√° a continua√ß√£o do Quintess√™ncia. E j√° tenho algum material guardado para o romance que vir√° logo depois dele, uma fic√ß√£o cient√≠fica mais "pura", sem muita mistura de g√™neros, para variar. Ah, nos hor√°rios vagos eu cuido do "lado A": trabalho, fam√≠lia e sa√ļde.

Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Converg√™ncia, que pretende tra√ßar um panorama da fic√ß√£o cient√≠fica nacional atrav√©s de resenhas de livros significativos lan√ßados ao longo da √ļltima d√©cada e de entrevistas com seus autores. O livro Quintess√™ncia foi resenhado no Overblog: http://www.overmundo.com.br/overblog/o-dominio-do-mal

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comentŠrios feed

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toinho.castro
 

excelente entrevista. hoje mesmo deixei na fila de publica√ß√£o um texto sobre literatura de FC e estou escrevendo um blog, o sub-literatura, dedicado ao g√™nero. √© bom ver que as publica√ß√Ķes sobre fic√ß√£o cient√≠fica est√£o aparecendo de verdade aqui no overmundo. vamos abrindo aqui um espa√ßo v√°lido para discuss√£o do tema e para uma nova produ√ß√£o de textos. isso deixa-me feliz.

convido você a ler meu discreto texto e assim movimentarmos o overmundo em torno desse debate. grande abraço.

toinho.castro · Rio de Janeiro, RJ 29/8/2007 15:52
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Romeu Martins
 

Lerei, Toinho.

Vale a pena buscar periodicamente por "ficção científica" no Overmundo. Já há material muito bom no banco de cultura do site, por exemplo. Só do Fábio Fernandes, recomendo o livro "Interface com o vampiro", o conto "Para nunca mais sentir medo" e os vários posts que formam o "Pequeno dicionário de arquétipos de massa".

Abraço e obrigado pelo comentário,

Romeu Martins · S√£o Jos√©, SC 29/8/2007 18:33
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Brud
 

Parabens, agora tambem somos underground!
O texto é fantastico, espero que a continuaçao saia logo!!
Estaremos esperando ...

Bruno

Brud · Belo Horizonte, MG 3/9/2007 08:23
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Romeu Martins
 

Opa, Bruno, valeu.

Já foram publicados seis textos deste projeto e há um sétimo na fila de edição: Estranhos em terras estranhas.

Abraço e valeu,

Romeu Martins · S√£o Jos√©, SC 3/9/2007 15:11
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alemaopazeamor
 


A fantástica série de ficção científica espacial, Perry Rhodan, tem no Brasil o encontro de centenas de fãs na comunidade do Orkut: Perry Rhodan Brasil
onde se trocam informa√ß√Ķes e debates sobre projetos em prol da s√©rie. Participe tamb√©m.
Até lá...

alemaopazeamor · Campina Grande, PB 20/6/2008 01:05
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