Envelhecer é bom, besta

Montes Claros/MG - 2006 - Roberta Alves Ramos
detalhe da casa da vó
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Roberta AR · Brasília, DF
25/11/2006 · 113 · 6
 

Outro dia estava andando pela rua, ou melhor, pela quadra, que já não existem ruas na minha vida faz tempo, e uns garotos jogavam bola numa escola parque qualquer. A bola caiu bem na minha frente e eu a devolvi. Num ato de simpatia controverso, um dos garotos começou a gritar: “Obrigado, senhora”, num tom mais zombeteiro do que agradecido.

Eu sou professorinha de formação, fiz magistério, que comecei a cursar com 14 anos. Estou acostumada a ser chamada de tia desde muito cedo. O que aquele garoto pretendia era me deixar encabulada, porque parece que ele já se ligou que não há nada pior do que fazer uma mulher se sentir velha.

A sensação foi ótima nos segundos em que constatei a intenção sinistra do futuro machistinha: percebi que, de cima dos meus 32 anos, estou absolutamente satisfeita em estar envelhecendo. Foi uma delícia perceber que eu podia ser mãe daquele pirralho, que seria mais educado se fosse meu filho. Gritei um “de nada”, rindo.

Não acredito que haja idade certa para se fazer o que quer que seja. Vamos supor que o tempo não é linear, que seja circular. Num círculo não há começo. Quando entramos na roda, entramos em qualquer ponto, e isso não faz diferença no andamento do tempo, porque ninguém está se dirigindo para um fim, do mesmo jeito que se entra, se sai. Então o que para alguns acontece na adolescência, para outros pode acontecer na maturidade.

E foi exatamente isso que eu li no novo de Gabriel Garcia Marquez. Em Memórias de Minhas Putas Tristes ele descreve o primeiro amor de um homem que surge em seu aniversário de 90 anos. Um primeiro amor como todos são, inseguro, apaixonado, angustiado. Um homem que achou que ia acordar morto no dia em que se tornasse um nonagenário e acabou renascendo num amor pueril, cheio de contradições.

Nem me sinto capaz de dizer mais sobre esse livro que li em apenas um dia. Nesses tempos em que a velhice se torna uma possibilidade palpável, já que a expectativa de vida do brasileiro tem aumentado bastante, é um alento ver a maturidade registrada com tanto cuidado.

Coincidência ou não, acabei investindo no tema esta semana. Peguei na locadora O Outro Lado da Rua, que traz também a Fernanda Montenegro como uma mulher frustrada, que foi traída e abandonada por seu primeiro marido e vive amargurada por isso. Ela trabalha como vonluntária para a polícia do Rio de Janeiro como uma espécie de dedo-duro profissional de supostos crimes que ocorram em Copacabana. Raul Cortez faz um juíz aposentado, que ajuda a abreviar a vida de sua esposa, que sofre de câncer. Esse suposto crime é o que aproxima esse novo casal e traça um outro horizonte na vida dos dois.

Lindo e sensível. Pode não ser um filme estupendo, mas a impecável atuação do casal força um olhar diferente para a sexualidade na chamada terceira idade. É linda a cena de sexo entre os dois, que foi a mais falada pela crítica na época em que o filme saiu no cinema. Nem é nada demais, mas parece que o mundo realmente não está preparado par a a vida após os trinta anos.

Lembro de uma conversa que tive com uma nova amiga. Ela tinha medo de estar velha demais para realizar sua “missão”. Eu disse, e repito, que o tempo é só uma convenção. Sempre é tempo para tudo. Tem que ser. Os manuais de auto-ajuda não entendem nada da vida, porque ela não serve para nada. A gente só deve buscar ser feliz. Quer coisa mais difícil?

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Helena Aragão
 

Oi Roberta, legal sua reflexão, sobretudo quando fala da relação do livro e do filme com a velhice. Vou fazer um comentário que pode ser meio nada-a-ver, até pq não tava no momento. Mas quando você interpreta que o menino falou "Obrigada, senhora" com a intenção de te constranger, soou bem estranho para mim... Como disse, não posso adivinhar qual foi o tom da frase para você interpretar isso, mas daí a chamar o menino de "futuro machistinha" e pirralho ("que seria mais educado se fosse seu filho"), parece que você também tá fazendo um baita juízo de valor, não?? Não tô falando isso para provocar não, só para tentar entender!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 23/11/2006 15:52
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Roberta AR
 

Posso não ter me expressado direito, mas quando disse "ato de simpatia controverso", achei que tinha deixado claro que o menino falou mais com tom de zombaria, do que de agradecimento, não tive intenção de humilhar a mãe de ninguém

Roberta AR · Brasília, DF 23/11/2006 16:01
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Ana Cullen
 

Gostei do texto! Traz umas boas reflexões, envelhecer não é fácil, mas pensar que o tempo não é tão linear como estamos acostumados a pensar, já traz algum conforto...
Adoro Gabriel Garcia Marquez, principalmente Do amor e outros demônios, vou ler esse aí nas férias! É o mais recente dele né?
Abraços!

Ana Cullen · Brasília, DF 27/11/2006 10:47
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Ana Cullen
 

Atenção! Atenção! Vai acontecer o 3º Encontro de Overmanos e Overminas de Brasília...
Vamos nos encontrar dia 20 de dezembro, no Bar e Distribuidora de Bebidas Piauí, na 403 sul, ao lado do Gate´s Pub, às 19 hrs. Só para terminar o ano... Presenças confirmadas: Ana Cullen (eu), Daniel Cariello e Ju Santana!
A idéia é se encontrar no bar, conspirar um pouco, trocar idéias, angústias, anseios e frustações, comer um churrasquinho, ou mandioca para os vegetarianos, beber uma cerveja para os que bebem cerveja, suco para quem bebe suco ou refrigerante, àgua... já deu para entender né? Depois ir para o Gate´s relaxar, pois dia 20 é uma quarta-feira, isso quer dizer: Quarta Vinil do Gate´s Pub! E o DJ convidado é o Daniel Cariello! Enfim, quem não estiver afim de esticar a noite, dá só uma passadinha no Piauí para conhecer a galera de Brasília do Overmundo ao vivo, a virtualidade tem suas vantagens mas nem tanto!
Os freqüentadores de Brasília no Overmundo aumentaram muito nos últimos tempos, estamos curiosos para trocar idéias e conhecer essas pessoas, compareçam! São todos mais do que bem-vindos! Os novos e os antigos...
Abraços e até!
Ana Cullen.

Ana Cullen · Brasília, DF 12/12/2006 12:15
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Roberta Tum
 

Roberta, meninos são criados assim, para serem superiores... infelizmente. E jovens cada vez "se acham" eternos em sua juventude, depreciando as outras idades que chegam após os 20.Gostei muito do seu texto. Também tenho saudade do tempo que a gente atravessava ruas, e não quadras, e acho que a vida fica mais saborosa à medida que aprendemos a apreciá-la (aprendizagem que só vem com a idade).
Parabéns!

Roberta Tum · Palmas, TO 16/3/2007 15:20
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Capoeira Cambará
 

Olá, Roberta AR,
Legal seu texto e depoimento. Ele me instigou algum interesse que já tenho na diferenciação entre o que chamamos de o passar do tempo e velhice. Ambos parecem ser criações da mente humana. O primeiro vejo, no momento, como necessário. Já o segundo apenas como um rótulo social. Um dia vou cranear isso melhor . Parabéns e obrigado pela força lá no meu modesto "O varejo do preconceito".

Capoeira Cambará · Ananindeua, PA 13/8/2007 18:16
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