Escrever: luta inglória?
Um clássico da literatura (seja brasileiro ou estrangeiro) é atemporal. Transpôs a barreira do tempo. Cem anos depois de escrito, por exemplo, um clássico ainda toca a sensibilidade do leitor de hoje, assim como tocou por ocasião do seu lançamento.
A obra permanece imutável, através dos anos. Ela não se transforma, quem muda são os homens que a lêem, e se em algum ponto ela envelhece, se aqui e ali aparecem algumas ruguinhas, a essência é sempre atual e única, e os netos dos netos dos netos vão sentir tanta emoção quanto seus antepassados sentiram.Mesmo as obras datadas, como Ulisses, Lusíadas, e outras, ainda tem o seu fascínio e encanto, e permanecerão para sempre.
Mas a formação do autor é temporal e cumulativa, como a própria vida. Vai mudando, com o tempo. Novas experiências e informações são agregadas, dia após dia.
O escritor trás consigo uma bagagem de conhecimentos anteriores, crenças e convicções, uma forma toda pessoal e particular de olhar o mundo que vai se refletir inteiramente em sua prática autoral.
Muitos dos bons autores aprenderam a trabalhar a palavra na prática, acertando e errando. Esta é uma aprendizagem sofrida, ligada à própria sobrevivência profissional do autor. Seria o famoso ”aprender a nadar, nadando”.
Vencida essa etapa de um saber experimental, algumas vezes adquirida por tentativa e erro, finalmente vem a fase das “certezas”, quando o escritor apropria-se dos macetes do ofício e o escrever passa a ser quase que uma rotina de trabalho. Escrevi “certezas” entre aspas, pois em literatura, dois e dois podem dar cinco e não existem fórmulas prontas, ao menos naquela literatura em que há um compromisso maior por parte de quem escreve.
Esses saberes que o autor trás consigo e acaba refletindo-se em seus escritos provêm de diversas fontes: o ambiente familiar em que foi criado, a sua história de vida, o seu conhecimento empírico e também a formação acadêmica. (Essa é talvez a que menos conta. Mas conta).
Houve uma época em que para se analisar a obra levava-se em consideração também a biografia do autor. Anos depois, passou a ser quase um crime analisar a obra tendo como parâmetro o autor. Era considerado sacrilégio. Hoje, vejo que os teóricos voltam a valorizar a vida do autor, diante da análise de uma obra. Creio que o caminho é esse.
Citei há pouco tempo em uma comunidade da internet o fato de que quando Machado de Assis escreveu :”não quero transmitir a ninguém o legado da minha miséria” poderia ser uma frase autobiográfica, pois ele estaria falando de si mesmo. Responderam que Memórias Póstumas era uma ficção, e que eu estava afirmando que Machado voltara depois de morto para falar de si.
Ora, eu não tirei essa tese da minha cabeça! Até poderia tê-lo feito, mas apenas repeti o que li de um crítico literário. Há uma corrente que acha que essa frase de Machado foi escrita porque ele sofria de epilepsia, e nunca teve filhos, por medo da doença ser contagiosa. São suposições, não podem ser tidas como verdades incontestes, mas é uma interpretação. As pessoas que discordam dessa teoria partem para a conclusão equivocada de que quem assim pensa está misturando autor/narrador. Não é nada disso. Sabe-se sobejamente que narrador na primeira pessoa não significa memórias biográficas. Posso escrever um livro todo na primeira pessoa e ainda assim não estarei falando de mim. Narrador na primeira pessoa não é nem jamais foi considerado como o próprio autor falando de si. Grande equívoco de quem pensa assim. Seja qual for o foco narrativo, o autor pode colocar na boca do personagem palavras e atitudes que seriam suas. Ou não.
No entanto, uma das formas de se analisar um texto é recorrer à biografia do autor. Apenas dando um exemplo rápido, quem lê a obra inicial de Jorge Amado vai notar cores fortes voltadas para a literatura engajada, de cunho social. Ao estudar a biografia do autor, vai-se constatar que, nessa época da juventude ele era perseguido pelo governo Vargas, pelo fato de pertencer ao partido comunista e ser amigo pessoal de Prestes.
Saber esses dados vai auxiliar na interpretação das obras de Amado escritas nessa fase. Nem por isso, eu, leitora, vou achar que o pequeno Ernesto, personagem que morre de disenteria no livro “Seara Vermelha’, seria filho de Jorge! Não era a família de Jorge, retratada ali, mas sabe-se que, durante a feitura desse livro, o autor estava muito envolvido com os problemas sociais que existiam no país.
Faço aqui uma pausa para falar que o livro “Seara Vermelha”, de Amado é muitas vezes confundido com “Arara Vermelha”, obra posterior a esta e que foi escrita por José Mauro Vasconcelos, escritor injustiçado pela intelectualidade brasileira, a meu ver.
(Falando ainda de José Mauro, ele escreveu um livro chamado “Barro Blanco”.Conta-se que quando foram perguntar ao lendário Oswald de Andrade qual a opinião dele a respeito do livro de José Mauro de Vasconcelos, Oswald apenas teria respondido: “Achei-o FLACO”).
Fecho aspas.
O conhecimento do autor não é apenas teórico e conceitual; é também uma soma de sua bagagem de vida. O escritor ( vocacionado) é um operário das letras, vive a serviço de sua criação.Ele vai escrever sempre, mesmo que não ganhe um centavo por isso. Quem trabalha com a interação, seja ela no plano físico ou apenas no mundo das idéias, (como ocorre com o autor), tem de aprender a contar consigo mesmo, pois em algumas ocasiões, ele só vai ter a seu favor a capacidade e o talento para se ancorar. Caso contrário, ele sucumbe.
A prática de se criar um texto literário envolve emoções; exaure e alimenta quem escreve, e o produto final desse trabalho provoca efeitos e às vezes até mesmo mudanças em quem lê. As mudanças são raras, mas os efeitos, sejam eles bons ou maus, são percebidos logo após a leitura.
O leitor reage sempre de forma emocional ao que lê. Ora amando e mudando seus conceitos e vindo a tornar-se admirador do escritor, ora odiando o que lê e estendendo esse ódio àquele que fez o texto. Às vezes quando ouvimos ou lemos algo que provoca em nós um profundo sentimento de rejeição queremos tirar de diante de nós aquele texto. Alguns vão além, e querem tirar de vista também o autor, esquecendo-se de que todo homem é igual diante da lei.
Se não estou ferindo a lei, posso escrever o meu pensamento. Ninguém é obrigado a aceitar, mas também ninguém deveria ter o direito de me calar. Aqueles que têm mais idade e viveram o período de exceção que o nosso país atravessou sabe que muitos pagaram com a própria vida pelo direito de expressar-se.
Triste daquele cujos escritos não provocam reação nenhuma. Esses são os mornos. E segundo diz a Bíblia, “Por seres morno, vomitar-te-ei da minha boca!.”.O morno não provoca resistências, mas também não provoca mudanças.
O autor alcança grandes façanhas contando apenas com o código das letras.É a sua matéria prima. São apenas 23 letrinhas. Mesmo que ele faça uso do K, Y e W, ainda assim serão meras 26 letrinhas. Arranjá-las no papel de forma a mudar convicções arraigadas, esse é o grande desafio. Ele não poderá contar com nenhuma expressão corporal, nenhuma ajuda sonora para ajudar na comunicação escrita. É só isso: o autor, a letra como veículo e o leitor.
Pense no sapateiro: para executar um lindo par de sapatos que irá embelezar os pés de Gisele Bundchen, ele vai precisar de couro, sola, verniz, cola, e outras coisas mais. Assim será em tantos outros ofícios. E o escritor? Ele, suas idéias e sua mente são a matéria prima mais importante. Se o escritor não tiver papel e lápis não importa, ele fará como José de Anchieta: escreverá na areia.
Mas quando as adversidades se acumulam, chega-se a um ponto às vezes, em que o próprio autor se questiona quanto ao valor do seu texto e ao seu “saber fazer”, ou seja, ele põe em dúvida até mesmo a sua estética da sensibilidade.
Não podemos esquecer que o autor é gente, é um ser humano, e antes de tudo, mesmo amando a interação e a comunicação, acima de qualquer coisa ele é uno, primeiro de tudo ele é um indivíduo, e como o nome já diz, in-divisível. Em princípio ele escreve para si, depois para o outro. Ele tem de ser coerente com o seu modo de pensar e agir, ou será um hipócrita que escreve apenas para agradar. O autor é um só, os leitores são mihares ou milhões. Digo isso referindo-me ao autor já consagrado, é claro. Ele está falando para uma multidão e não pode, para agradar cada leitor em particular, mudar seus conceitos e convicções. Mesmo porque cada leitor também possui o seu universo próprio, e ele, autor, não conseguiria a aprovação unânime.
Esse questionamento do autor sobre o seu interagir e os efeitos que isso pode causar no outro (leitor) faz com que o escritor lance mão de uma grande carga emocional e até mesmo afetiva e tenha uma enorme necessidade de esmiuçar as suas emoções e descobrir até onde ele pode contar com sua própria capacidade de ação.
Escrever é portanto, um ato solitário.
O autor gosta de ser lido porque a leitura de sua obra é uma forma de resposta que ele tem.
Ele aprende, pelos olhos do leitor, a mensurar o alcance de suas emoções e valores, vistos agora sob uma ótica nova, a ótica de quem lê. Antes, o autor falava sozinho; depois da leitura do outro, ele pode não estar mais tão só. Alguém mais pode pensar como ele. Quando o autor morre, ainda assim a sua obra continua a dialogar por ele.
Mesmo depois de vencida a primeira barreira, ou seja, convencer o leitor a ler o seu texto, o autor não consegue ir além disso. O leitor só vai “comprar” a idéia exposta no texto quando ele mesmo, leitor, aceita partilhar dessa interação e cumplicidade. Muitas vezes o leitor já parte para o texto com uma opinião pré-concebida, ele já sabe, de antemão, que vai discordar do que leu. Até aí, tudo bem. Discordar do texto sim. Jamais estender isso ao sujeito da ação. Mesmo porque há opiniões e opiniões. Ninguém é senhor da verdade. Quem lê a crítica que Monteiro Lobato fez aos quadros de Tarsila do Amaral fica inquieto com tanta agressão dirigida à jovem pintora, que voltava da Europa com a mente repleta das grandes mudanças nas artes que ocorriam no mundo todo. O nosso querido Monteiro Lobato chamou os quadros de Tarsila de “rabiscos de uma louca”, ou coisa semelhante.
Além de escrever, o que não é nada fácil, o autor tem ainda diante de si a luta titânica de convencer, de ser sedutor e persuasivo, e para isso ele lança mão de algumas estratégias que auxiliam nas relações humanas. Mas não de todas as estratégias. Como já foi dito aqui, não entra nessa relação o olhar, a expressão corporal, a entonação da voz, as pausas, reticências, exclamações. Ou seja, tudo, aquilo que auxilia no contato humano. Ganhar o leitor seria quase como ganhar um amigo.
Escrever é como percorrer uma longa estrada. E nem sempre se chega lá. Já conversei com autores cujo único motivo de serem discriminados foi o fato de serem talentosos. Falavam uma linguagem que não era interessante para os poderosos que a mesma fosse veiculada.
O autor, sempre que escreve um texto acha que vai alcançar a linha de chegada. Aposta tudo. Lança no pano verde todas as suas letras. É isso: o texto é apenas uma aposta. De vez em quando, muito raramente, quase nunca, a gente ganha a rodada. A maioria são perdas. São meras palavras lançadas ao vento. E sabemos que o vento não lê.
Fecho aqui com uma frase de Ítalo Calvino: “Ler significa despojar-se de toda intenção e preconceito a fim de estar pronto a acolher uma voz que se faz ouvir,quando menos se espera”.
Luna,
Gosto muito de seus textos. Este, tanto quanto os outros, me anima em prosseguir.
Abraços,
Ólha o que foi escrito pensando neste teu artigo:
A ti, dentro de um século ou de muitos séculos.
A ti, que não nascestes, procuro.
Estás lendo-me.
Agora o invisível sou eu.
Agora és tu, compacto visível, quem intui os versos e me procura. Pensamento em como seria feliz se eu pudesse ser teu companheiro.
Sê feliz como se eu estivesse contigo.
Não tenhas muita certeza de que não estou contigo.
(Walt Whitman, 1883)
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!