Será que é?
Uma questão principal insinuou-se e repetiu-se em mais de um dos encontros do colóquio Rumos Literatura 2007, entre os dias 14 e 17 de março, no centro Itaú Cultural, em São Paulo. Em sua terceira edição, o programa abordou, este ano, a crítica com foco na produção literária contemporânea do Brasil. E acabou reprisando uma pergunta que deu título a outro colóquio, o Encontros de Interrogação, ocorrido em 2004 no mesmo Itaú Cultural: Cadê a nova Clarice Lispector? Cadê o novo Guimarães Rosa?
A reprise não se dá por cochilo dos organizadores dos eventos em relação à programação. A insistência com que o tema sempre é retomado em qualquer debate sobre a produção literária brasileira atual; o fato de não se esgotar em uma, duas ou dez discussões; seu jeito vago de propor e esperar a chegada do Grande Romance Contemporâneo, aguardá-lo com cara de moça virginal e sonhadora à janela, tipo de moça que, como o Grande Romance, não existe faz tempo – tudo isso nos diz que estamos diante de uma busca crucial da crítica literária. Fora do universo em que essa questão consegue oxigênio para sobreviver, no entanto, no âmbito em que é produzida a nova literatura brasileira, tal busca insistente pode repercutir como disparate. Afinal, nos mesmos debates em que se lastima a ausência de uma Clarice ou de um Guimarães na prosa contemporânea, reclama-se do irremediável (não há cura para essa doença) aspecto fragmentado do romance contemporâneo. Devem os novos escritores juntar seus caquinhos e tentar, em mosaico, formar uma Clarice inteira? Um Guimarães com cola Pritt?
A mesa "Funções e importância da crítica literária", no dia 15, com Alcir Pécora, Beatriz Resende e José Miguel Wisnik, mediada por Regina Dalcastagné, evidenciou a importância de uma crítica aparelhada para avaliar a nova produção – e interessada por ela. "A crítica é contemporânea sempre, os objetos (que analisa), não," afirmou o professor de Teoria Literária da UNICAMP, escritor e ensaísta Alcir Pécora.
"Escrevam e morram"
"Estamos na eminência da extinção do leitor, porque hoje todo mundo escreve. É um desequilíbrio absurdo. Escrevam menos, leiam mais. Escrevam e morram," decretou Pécora. Na platéia, alguns jovens autores talvez tenham desejado possuir ao menos um marca-passos, na falta de pontes de safena.
De acordo com a fala de Pécora, é uma questão de "Saúde vs. Doença", de "Luz vs. Trevas": "Se estivéssemos vivendo a Era das Trevas nas letras, eu tomaria partido das Trevas," devolveu, ao ouvir a pergunta da platéia dirigida a ele, "vivemos a Era das Trevas nas Letras?".
Sobre a possibilidade de encontrar textos novos de alguma qualidade literária na web, Alcir não tem dúvidas: "Eu acho a internet ótima para a pornografia, mas não sei se é boa para a literatura. Essas novas mídias geram um desastre, esse excesso de produção literária, esse excesso de saúde de gente que tenta se enfiar ali, entre os mortos, entre os que permanecem e com quem dialogamos."
O escritor mato-grossense Joca Reiners Terron, autor de, entre outros, Sonho interrompido por guilhotina (ed. Casa da Palavra) e do blog Hotel Hell – destacado como erudito durante o debate pela pesquisadora, crítica e professora da Unirio Beatriz Resende, dentre os autores surgidos na década de 90 – reclama que há também um excesso de críticos. "Fui visitar meu pai em Santos. Na cozinha, puxei uma cadeira, abri uma cerveja... Aí vem um tio meu, se vira para minha mulher e diz: 'Esse aí sempre desenhou muito bem. Mas como escritor...'," comentou Joca, rindo. Se hoje todo mundo acha que pode escrever literatura, a mania de "dar uma de crítico" também é bastante popular.
Para a escritora paulistana Andréa Del Fuego – autora de Nego tudo (ed. Fina Flor), Minto enquanto posso (ed. O Nome da Rosa), entre outros, e do blog que leva o seu nome –, presente no colóquio, "a crítica consegue ser contemporânea se o olhar se estende sobre uma obra concluída, muitas vezes, de um autor morto. É difícil ser contemporânea com um objeto de análise em andamento, isso complica a crítica. A crítica pode ser até mesmo uma peça literária; para isso, a escolha do crítico se dará por motivos de empatia intelecual, por algo que o instiga a verificação e até sua poesia particular e interna. Nós faríamos o mesmo no lugar deles."
O excesso de produção literária, para o compositor e professor de Teoria Literária da USP José Miguel Wisnik, aparentemente não fede nem cheira: desfaz-se em fumaça. "Está na moda a obra que 'se esfuma', que se lê e esquece imediatamente depois de o livro ser fechado," criticou. "Temos manifestações espalhadas nos blogs, nos muitos livros que não conseguimos ler, mas nada que possa ser fixado."
Provocação por provocação...
"Tenho pesquisado muitas manifestações literárias que não foram consideradas como literatura em seu momento," explicou Beatriz Resende. "A necessidade canônica, quando se vai trabalhar com o contemporâneo, de saída nos coloca diante dessa questão: O que é literatura?"
"Em meio às manifestações que surgem hoje, a defesa do imaginário no ficcional é uma coisa que me agrada imensamente; e há ainda a literatura da realidade excessiva, há a literatura egótica – em que um sujeito de 25 anos escreve sua 'biografia definitiva'; há a literatura realista da periferia... com todas as diferenças entre as manifestações, é preciso saber o que é literatura."
E quanto à crítica? "Sou pela militância da sedução, nos veículos de imprensa. Não vale a pena gastar um parco e disputado pedaço de papel num jornal para falar mal de um autor. Se um livro não me interessar, prefiro não escrever sobre ele." E na internet também há manifestações de crítica fast-food: "Há a crítica imediata nos blogs, nos sites; mas há blogs provocativos que tornam esse imediatismo interessante." Para Beatriz, o único e maior pecado que um escritor pode cometer hoje tem mais a ver com cifrões do que com letras propriamente ditas. "Só me tira do sério o caminho da busca do mercado, às vezes por autores realmente bons que caem nessa tentação."
A mediadora Regina Dalcastagné lançou um contraponto à questão, anunciando como uma pequena provocação à mesa sua pergunta sobre quais seriam os critérios utilizados pela crítica para decidir o que é relevante e o que é descartável nesse cenário. "Provocação por provocação," brincou Wisnik, introduzindo sua resposta, "devemos ter a capacidade de reconhecer textos cuja complexidade e densidade podem fazê-los canônicos, mas cânones devem sempre ser postos em discussão."
"Devíamos reconhecer que trabalhamos em condições adversas. Quem trabalha com a cultura letrada no Brasil, trabalha em condições adversas," lembrou Wisnik. "No Brasil, considerando que é um país iletrado, o fato de Clarice Lispector e Guimarães Rosa (para citar os dois ícones) terem sido reconhecidos, o fato de termos estabelecido algum cânone, como o que temos, é impressionante."
"O contemporâneo está próximo demais para que possamos olhá-lo sob a perspectiva canônica," concluiu Wisnik.
Eterno retorno
Ou seja: também na literatura, nada como um dia depois do outro. Mas o assunto retornou ao auditório do Itaú Cultural na sexta-feira, 16, na mesa que discutiu a "Crítica literária: entre a academia e a mídia". A conversa entre a professora Heloisa Buarque de Hollanda (titular de Teoria Crítica da Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ), Luiz Roncari (professor de Literatura Brasileira do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP) e a editora do caderno literário "Prosa e Verso", do jornal O Globo, Manya Millen, não ficou restrita ao tema destacado pelo título do encontro, mas lembrou mais uma vez a desconfiança que paira sobre o novo.
"A gente pode estar perdendo o novo Guimarães Rosa ali, no meio daqueles 70 e tantos livros que recebemos por semana. Nós nos sentimos na obrigação de dar conta de todos os livros que chegam, mas não é possível. Hoje em dia se produz muito mais literatura," disse Manya, que consegue ver diferenças entre os livros de papel e aqueles publicados somente na internet. "Na internet, os personagens e as histórias são mais fragmentados (...)." Além disso, "o papel ainda tem um peso muito grande. Às vezes damos uma resenha no blog e o autor fica meio desapontado, como se não valesse. É como se o autor só se sentisse escritor quando é publicado em papel, a resenha só valesse quando é publicado em papel."
Assim como o aumento da produção literária, o filtro "O que é literatura" também foi repensado neste encontro. "Quando fiz minha tese sobre os poetas marginais (26 poetas hoje. Rio, Ed. Labor, 1976), havia um reforço muito grande da academia dizendo que meu objeto de pesquisa não era literatura," contou Heloisa, que, com a tese, acabou se tornando "madrinha dos marginais". "Sou obcecada pela margem, pelo que para os outros não presta", afirmou.
Crítica literária, porém, com algumas ressalvas ("Tenho um desconforto gigantesco com a posição de crítica, é uma assunto sobre o qual não costumo falar"), Heloisa apontou a questão que mais prende sua atenção na cena literária atual: "É a questão da autoria, que começa a se cindir, com a internet, com Creative Commons, com os blogs... e vejo nos escritos mais novos uma certa 'flutuação', nesse sentido", disse, lembrando que o autor, a noção de autoria, é uma construção moderna. "Quero muito saber como vai ser a crítica com comments, comentada, interativa. Quero ver como o crítico acadêmico, que detesta essa interatividade, vai se comportar diante da web 2.0, quando começarem a ser interpelados por leitores na internet." A interação virtual sugerida foi bem recebida pela mesa. "Acredito na importância vital da crítica para a literatura e da literatura para a crítica. Aprendem mais uma com a outra do que com sua própria sombra," completou Luiz Roncari.
"Sonhei com um escritor que queria me matar"
Foi com a narrativa de um sonho que José Castello abriu seu comentário no encontro "Crítico-escritor e Escritor-crítico", em que dividiu a mesa com Cristóvão Tezza e Marco Lucchesi, e o mediador Flávio Carneiro. "Quando fiz o livro do Vinicius de Moraes, sonhei várias vezes que ele me perseguia e queria me atacar. Com um facão," contou Castello, falando um pouco do seu lado de crítico literário.
Para Tezza, "a nova geração ainda não se consolidou." Foi Cristóvão quem, durante o encontro, mais falou sobre "a vida dupla, o viver dos dois lados do balcão, como autor e crítico". Castello, que tem um romance publicado, O fantasma (ed. Record, 2001), desdobrou os comentários à produção literária contemporânea: "A literatura brasileira hoje está muito mais rica do que a crítica reconhece. Com todas as ressalvas que se pode fazer às novas gerações, a variedade de narradores é maravilhosa. Minha posição em relação à literatura hoje é otimista."
Marco Lucchesi, por sua vez, aproveitou para explicar sua "Jihad universitária": "A primeira coisa que detestei na universidade foi o casamento espúrio entre pesquisa e burocracia. Muitas vezes a burocracia ditando o caminho da pesquisa". E protestou contra as engrenagens enferrujadas do pensamento: "Eu gosto de encontrar um rapaz de 20 anos que acha que sabe tudo, com aquela força. Mas não é bom encontrar um velho que pensa que já sabe tudo".
É fato que a proliferação da literatura na internet trouxe malefícios: o excesso de produção acabou afogando todos nós, escritores, críticos e leitores, num mar insondável. Por outro lado, não se pode negar que o espaço foi democratizado, quem é bom que se estabeleça. Mas todo escritor quer se ver publicado em letrinhas de tinta, papel, capa. Talvez o caminho seja o mesmo da música, exibir primeiro o trabalho na rede para que depois este trabalho seja publicado em livro. É um caminho sem volta.
Marcus Assunção · São João del Rei, MG 26/3/2007 16:20
parafreseando o bonitão James Dean
escreva rápido, morra jovem e deixe um belo cadáverpara trás
Eu que nem tinha começado a sério,
Marquei meu suicídio para um ato público,
Juro, no melhor mausoléu do cemitério
Confiram na Tevê Qualquer, no Não Notícias Nacional
Isto que foi romãntico, mas não é inédito,
Até, que eu saiba, já é trivial, banal, coisa e tal
Eu, dinheiro, não tinha, agora os doutos
Negar-me-ão a escrita
(Tem muita gente aí querendo escrever, pode parar, pode parar!)
Ficou-me o cérebro louco,
Que oco já era, conforme diagnosticaram
sob aplausos mil, senhoras e senhores muito doutos
Que pena, dirá a repórter assanhada pelo vento
Que era tão menina e um talento
Que as amigas de escola e convento todas
reconheciam precoce.
Morreu!
Se fudeu!
Não valeu...
Inda bem que acordei a tempo de afrouxar esta corda no pescoço.
Antes mostarda que ketchup,
Antes nunca que nadando
Antes dando que nada.
Vou-me já que tá pingando.
Alguém aí empresta um guarda-chuva pra fazer sombrinha?
Excesso de produção não é, por si mesmo, desastroso. Se todos estão escrevendo e “publicando” e lendo o que outros escrevem e comentando, que maravilha. Acho que esse sentimento do Pécora tem um nome: melindre. A Internet não é boa para a literatura? Acho que ele nunca se deu ao trabalho de procurar bons sites de literatura na web ou, ainda, blogs de escritores consagrados ou não, iniciantes ou não. Algumas afirmações do Pécora me deixaram de cabelo em pé. Afinal, a literatura só dialoga com os mortos? Se for vivo, perde a graça? Me permitam um puta-que-pariu bem sonoro: PUTA QUE PARIU!!!
Uma analogia: ninguém reclama que tem muita gente querendo ser jogador de futebol ou modelo ou publicitário ou mesmo advogado. Ou pintor. Ou cineasta. Parece que, na cabeça de alguns críticos, a literatura anda mesmo de salto alto e não desce do pedestal pra nada. Alimenta-se de fluidos divinos e excreta pozinhos mágicos. Mais uma vez: PUTA QUE PARIU!!!
Outra coisa: não sei se faria o mesmo se estivesse no lugar de algum crítico de literatura. Talvez sim. Talvez não. Talvez... talvez. Mais uma coisinha: está na moda a obra que se esfuma? Isso é coisa de hoje, da moda de hoje? Vocês concordam com isso? OU SEMPRE HAVERÁ TEXTOS QUE NÃO PASSARÃO PARA A POSTERIDADE, ESFUMANDO-SE NO TEMPO E NO ESPAÇO? De tudo que se produz, hoje, nada se fixa, nada presta, nada contribui para nada? Só mesmo um iluminado para dizer tamanha besteira. Gente... gente... E se “o contemporâneo está próximo demais para que possamos olhá-lo sob a perspectiva canônica”, que se olhe sob outra perspectiva. Ou será que a canônica é a única ferramenta de que dispõe um crítico literário?! O que não dá é aceitar a negligência de alguns críticos, que insistem em ficar apenas sentados nas suas bundas.
Ai, meu Deus, fico triste ao perceber que eles, os críticos, esperam bater à porta das editoras um novo Guimarães e uma nova Clarice, quando, no máximo, o que posso oferecer sou eu mesmo. Euzinho da Silva. Pois foi.
Por fim: palmas para Castello e Heloísa e outros aguerridos defensores da literatura – nem bom, nem ruim, nem atual ou antiga – apenas da literatura, seja ela feita em papel higiênico ou na Internet. E também pra você, Cecília, que nos deu esse texto ma-ra-vi-lho-so, abrindo uma discussão fun-da-men-tal.
Abraços a todos!
Sabe, sempre achei Clarice Lispector meio chata, fala demais, é feminina na literatura. Guimarães Rosa é elencado à maior escritor mas ninguém o suporta. Se ainda fosse o Machado...
Porém, se hoje não temos um expoente literário não é por falta de qualidade dos escritores, mas im pela FALTA DE ORGANIZAÇÃO MENTAL deles próprios que não foram capazes de expor os pensamentos da geração. Mas isso é explicado pois somos a geração sem perpectivas e consequentemente sem percepção de si mesma.
Quando morrermos e acharem nossos textos na interNerd, ai sim...
Aviso Fúnebre
O escritor quase inédito e ainda não publicado, Adroaldo Bauer, vulgo Adroaldo Bauer Spíndola Corrêa para os do Rio Grande do Sul e Piauí, acaba de falecer após ler este artigo.
E aproveitou para deixar um recado que mandará para a gráfica sua primeira novela (cuja continuação, segundo episódio ou o que valha, já começou a ser psicografada).
E deixou agradecimentos a todos os que já leram (e aos que venham a ler) os três capítulos da novela O dia do descanso de Deus já publicados no blog dele.
Tem ainda a informação de que já vendeu a cotistas, apoiadores e leitores desavisados de que não seja uma Clarice ou um Rosa, 250 exemplares antecipados e quer fechar metade da primeira edição de 1000 exemplares ainda antes do lançamento, talvez em fins de abril, maio, o mais tardar, já de olho na Feira do Livro.
E, pelo que prometeu, estará de corpo presente na cerimônia dos autógrafos.
Será um milagre de pós-páscoa.
(rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs e rsrsrsrsrsrsrs)
Agora, penso (então existo!) que deve dar conta do escritor o leitor. A crítica é sempre benvida, porque crítica é crítica, tem papel, lugar e, usualmente, espaço na cena literária.
Penso que o que falta é espaço para a própria cena literária.
Portanto, mãos à abóbora, como diria Romão.
- Vá de retro capataz! Explodiu entusiasmado o amigo Alarico.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!