Escritora de A a Z

Ricardo Sabóia
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Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE
6/3/2006 · 99 · 9
 

Natércia Pontes, escritora. Mas pode chamá-la apenas de Natércia. O título ela insiste em recusar e o sobrenome é dispensável, porque o meio que ela encontrou para se apresentar ao mundo foi se transformar em 23 nomes. Curtos, simples, como as estórias que saltaram do blog Natércia Soluça Lúcida para compor o livro az mulerez. (com um til no "l" e um ponto final).

A mulher em questão conseguiu a proeza de parir outras 23 em um intervalo de quatro meses, batizando cada uma com uma letra do alfabeto, de Ana a Zaíra. Parir tanto dói? "Escrever é muito cansativo", diz. Para Natércia, não se faz literatura sem sacrifício. "É ser escravo de uma força criativa, uma escravidão. Me faz mal".

az mulerez., que ela apresenta simplesmente como "23 corações, 23 cartões", é o resultado de quem está na condição de mãe de uma reca de mulheres. Não tira o olho das crias, mas sabe que é impossível segurá-las depois que crescem e ganham o mundo. Sabe, mas sofre. E tenta dividir a dor - e a alegria, também, porque são inseparáveis - deixando que outros 23 artistas as retratem. O resultado é um livrinho vermelho, de contos curtos, tragicomédias femininas, com uma qualidade gráfica surpreendente para um projeto bancado sem respaldo editorial algum, com apoio exclusivamente dos amigos mais próximos e do pai.

Natércia também escreve na rede mundial de computadores. Soluços que formam um conjunto inconstante, ora desabafos ao som de Roberto Carlos e Serge Gainsbourg, ora herméticos, oníricos. Estes adjetivos ela provavelmente recusaria. Mas é no blog, desde 2001, que constrói suas visões sobre o cotidiano. Cotidiano de quem nasceu no Ceará, morou em Brasília e atualmente escolheu Copacabana para escrever e tentar dar conta do mundo. As ruas do bairro carioca, com suas putas, gringos, milhares de aposentados e poodles, é também lugar de quem compara a escrita com bruxaria. Perfeccionista - com seis planetas em virgem - cigana leitora de mãos, nascida em 2 de fevereiro, dia de Iemanjá, de 1980, é arredia a entrevistas. "Sempre acho que não tenho muito a dizer". A gente entende e agradece o sacrifício. Só as mães são capazes disso.

Até o lançamento de 'az mulerez.', você tinha dificuldade de se reconhecer como escritora...

...(Interrompendo) E ainda tenho. E não é uma falsa modéstia. Eu não quero cobrança e a partir do momento em que eu me intitulo escritora, uma profissão que é, sei lá, mais ou menos como bruxa... Hoje em dia as pessoas falam "o que você é? Escritora?" ou "eu quero ser escritora", todo floreado, ou com misto de ironia e admiração, talvez. Então eu prefiro ser mais simples. Acho que escrever um livro não justifica o título de escritora. Tem uma frase do Saramago que acho interessante, "todo mundo é escritor mas alguns resolvem escrever, outros não". Eu vejo por aí. Ao mesmo tempo, tenho medo dessa coroa que se coloca em uma pessoa, e não tenho muita disciplina pra exercer esse posto ainda. E nem sei se quero. Se eu publicar outro livro, aí sim talvez aceite.

Mudou a relação que você tem com seus textos depois do livro?

Mudou. Eu sempre escrevi, desde criança, livrinhos que circulavam na família. Mas eu tenho encarado isso agora mais profissionalmente, fiquei mais exigente.

Por que está impresso, em formato de livro?

Não, os textos do livro não tiveram essa exigência, não. Eles foram escritos em quatro meses. Fiquei mais exigente com os textos que foram publicados depois. Na verdade eu sempre fui muito perfeccionista, porque, é engraçado, eu não me considero escritora mas vejo isso como um trabalho, não vejo como porralouquice, nem falta do que fazer, acho muito sério. Sério no sentido de que é um objeto sagrado, qualquer texto.

Como você enxerga as 23 mulheres?

São fantasmas da minha figura de mulher. Apesar de andarem soltas por aí, todas são eu.

E por que são mulerez, com z e til?

O pessoal diz que é para ser fiel ao sotaque cearense, mas não foi por isso. Acho que foi inspirado numa grafia Glauber Rocha, foi para ficar esteticamente mais interessante, acho que o z e o til dão um bom acabamento ao título.

Publicará outros livros?

Estou com três projetos. Uma novela, mas está parada porque eu vi que preciso de mais tempo para que saia do jeito que eu quero. O segundo é o livro do naipe de az mulerez., mas parei porque estou com pouco tesão pela narrativa curta. Estou mais interessada em narrativas longas, em alongar minha narrativa. O terceiro, que estou empenhada mesmo, mergulhada 24 horas por dia, é um livro de contos. É só isso que eu posso adiantar.

az mulerez. foi publicado de modo completamente independente, sem nenhuma editora. E os próximos?

Eles terão que sair por editoras. Por conta do az mulerez., conheci alguns editores, escritores relacionados a editores e, bom, abriu um leque. Não mandei ainda, mas acredito que é um material publicável, até por conta do "mini-sucesso" de livro, que o pessoal gosta, um livro respeitado.

Pois é, aqui em Fortaleza o livro teve uma boa repercussão, mas e nos outros lugares em que ele foi lançado, Brasília e São Paulo?

Em Brasília teve o apoio do Governo do Distrito Federal, foi bacana, lançado no Cine Brasília. É engraçado, porque eu tenho que organizar tudo, desde as flores de plástico até o campari e o malibu. Mas lá e em Fortaleza é aquela coisa, a relação afetiva com a cidade... Foram pessoas interessadas, escritores. Acho legal, para um livro desse porte, independente, conseguiu uma repercussão boca-a-boca. E em São Paulo foi o primeiro lançamento que eu apostei no livro em si.

O livro foi lançado no reduto dos "novos escritores", a Mercearia São Pedro.

Que eu nem sabia (risos).

Como é sua relação com os novos escritores brasileiros?

Acho importantíssimo ler o pessoal novo. E acompanhar não só a literatura, o cinema, a moda. Acho que é uma forma de reverenciar a própria vida. É algo que afeta sua vida, seja você um escritor, um crítico... Eu gosto muito do Ricardo Lísias, uma narrativa interessante, uma novela que se chama Dos nervos, Índigo, Leonardo Marona e também o Marcelo Mirisola, o Marcelino Freire. E a Beatriz Bracher, que começou a publicar agora, mas é uma escritora com maturidade, publicou Azul e dura. Aqui de Fortaleza, a Tércia Montenegro, que tem um livro de contos chamado Via Férrea, e Virna Teixera, uma poetisa daqui que mora em São Paulo. O mais importante, enfim, é publicar, tenho horror à distinção entre "alta literatura" e "baixa literatura", acho que todo livro é válido. Até Sabrina, que eu leio também. O que importa é quem está lendo, e não o livro. Enfim, mas eu tenho pouca convivência com escritores, poucos amigos escritores, dois ou três.

E o blog, vai continuar escrevendo?

Sim, claro. Acho uma iniciativa muito válida, é maravilhoso. O fato de ser gratuito, de poder publicar tudo que vem a cabeça, fotos, vídeos, música. Isso me fascinou desde o primeiro dia que eu soube, em 2001, e desde então não parei. A segurança que eu tive para publicar o primeiro livro veio do blog, de escrever nele.

A crítica literária ignora os blogs?

Ignora. Agora está começando a abrir mais um pouco. Mas ser blogueiro é tratado como se fosse algo pejorativo. E muita gente ainda nem conhece blogs, eu digo "eu tenho um blog", a pessoa diz: "tu tem o quê?"

A seguir, um conto de az mulerez.:

"Queila balança mas não cai

Queila tá ali pra onde Queila vai? Queila em cima do abismo de sandália alta. A sandália oprime o pé de Queila. Queila se equilibra numa linha de nylon na churrascaria. Queila boiando numa garrafa de Malibu. Queila telemarketing. Queila coração de frango:
- Eu vou estar enviando os formulários, senhor.
Queila do pé oprimido e pequeno na churrascaria. Queila 33. Queila não é loura mas é.
Queila Pereira quentinha. Queila Perfume demais. Queila é educadinha:
- Garçon, eu vou estar querendo mais maminha, faz favor."

O livro az mulerez. pode ser encomendado em: azmulerez@yahoo.com.br
Natércia Soluça Lúcida: http://natercia.blogspot.com.

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dv
 

Há dois pontos em questão. Primeiro, a "boa repercussão do livro em Fortaleza" soa como exagero, visto que o livro circulou apenas no meio de amigos da autora e não houve nenhum lançamento ou debate nos meios oficiais de cultura da cidade, tirando-o do meio jovem artístico e alcançando um número significativo de leitores. Dois, a prosa da Natércia, apresentada com essas micro-textos carece de matu

dv · Fortaleza, CE 7/3/2006 15:25
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Ricardo Sabóia
 

Oi dv,
permita-me discordar em relação ao que você considera "exagero" em relação à "boa repercussão do livro" em Fortaleza. Primeiro, considero como boa repercussão o fato do livro ter sido bem avaliado nos jornais locais na época do lançamento (Sugiro a leitura do texto da jornalista Eleuda de Carvalho publicado na época). Não concordo que o livro ficou restrito ao círculo de amigos da autora,

Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 7/3/2006 20:57
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Ricardo Sabóia
 

(continuação) mas é evidente que estamos falando de um livro independente. Você mesmo coloca um ponto interessante: o livro não circulou em "meios oficiais" ou em "debates". Acho que esse não é o parâmetro para avaliar a repercussão de um livro dessa natureza. A própria autora revela que houve uma repercussão boca-a-boca.

Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 7/3/2006 20:58
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Ricardo Sabóia
 

(cont...) Acredito que você mencionaria no restante do comentário a ausência de maturidade na prosa da autora. Entendo como prosa tanto o livro como os textos do blog. Como destaquei, são textos inconstantes. Natural para a produção de uma escritora iniciante. Respeito sua avaliação dos textos da autora, claro. Mas se são maduros ou não, não vejo como essencial. Considero que são promissores.
Gra

Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 7/3/2006 20:59
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Ricardo Sabóia
 

(cont..) Grande abraço.

Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 7/3/2006 21:00
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Fábio Pacheco
 

O nosso país carece de jovens escritoras que promovam uma renovação literária e percebo que você tem essa pretensão. Torço para que você tenha o mesmo sucesso que teve Clarice Lispector no início da sua carreira, pois tem de se adimitir que inteligência e beleza você tem de sobra.
Parabéns Natércia pela sua coragem. São os votos de um jovem escritor, também da nova geração.

Fábio Pacheco · Recife, PE 8/3/2006 01:38
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farpas
 

nao a conheço pessoalmente. acho que já fomos apresentas.
sempre visito o blog dessa moça. e to muito feliz
em saber que teremo,em breve, um livro dela.

abração. e eu vou garantir o meu.

farpas · Fortaleza, CE 4/4/2006 19:11
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 Carolina Bedê
 

genial! que venham os outros!

Carolina Bedê · Fortaleza, CE 5/4/2006 12:15
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Diana Melo
 

concordo. a natércia é genial.
e ainda vamos ouvir falar muito nela.

Diana Melo · Fortaleza, CE 5/4/2006 17:40
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