Povos indígenas sempre estiveram à margem dos padrões culturais brasileiros, pela intolerância e discriminação social e racial da cultura dominante que obviamente estabelece as regras da informação e comunicação. No entanto um passo positivo foi dado na FLIMT, Feira do Livro Indígena de Mato Grosso, de 06 a 11 de outubro de 2009, em parceria com a Secretaria de Cultura/Governo do Estado do Mato Grosso, Nearin e Inbrapi, quando demonstraram seu potencial nas artes e nas letras, trazendo para a visibilidade sua cosmovisão e demandas. É uma nova forma de trabalho pelos direitos humanos.
Quando líderes promovem informações em rádios, vídeos, TVs Comunitárias, contrapondo às aldeias globais ou ainda quando criam cartilhas de alfabetização na língua materna, ou quando criam sites para promover a cura de doenças ou comerciar a venda do Guaraná, por exemplo, o fazem numa tentativa de sair da invisibilidade cultural, objetivando a tonificação daquele povo ou cultura, e no objetivo de expressar-se, seja na luta pelos direitos humanos ou trazer à luz do conhecimento oficial, científico, acadêmico e religioso a sua contribuição na história, enfim o seu conhecimento tradicional, na realidade sua propriedade intelectual. Isso precisa ser respeitado e ampliado! Povos indígenas já não precisam de muletas, são protagonistas da sua história.
Quando parteiras e mulheres indígenas questionam programas de esterilização, quando pajés e curandeiros se reúnem nas matas e montanhas, ou quando líderes interceptam estradas ou hidrelétricas na defesa de suas terras, o fazem para defenderem suas tradições e meio-ambiente. Isso é voz!... A voz da biodiversidade indígena.
Quando indígenas criam grupos de dança, músicas, grupo de teatro, coral infantil, quando promovem imprensa escrita na Internet, promovem a literatura indígena (oral ou escrita), o fazem no objetivo pleno de difundir informações e comunicações que não conseguem, devido à desvalorização dessa cultura milenar, que por questões históricas, éticas, precisa finalmente ser reconhecida e respeitada na prática e porque não também, ser atendida por uma política compensatória, através de ações afirmativas, implantadas nas políticas públicas. A Lei 11.645 que orienta ao ensino étnico nas escolas é um caminho que precisa ser mais fortalecido pelas Secretarias de Educação e Cultura.
Todas essas variantes fazem parte da cultura indígena e estão interligadas numa única cosmologia: o território ancestral, o espaço ético, mítico, místico, mágico e sagrado da ancestralidade fortalecidos pelos anciãos e anciãs e perpetuados pelos jovens, através da educação informal e natural, reforçados pela educação formal, daí a importância também da Universidade Indígena, dos Círculos dos Saberes, para atender a uma educação diferenciada. Essa visão indígena é uma grande contribuição de vida para a sociedade brasileira que precisa ser estimulada para um respeito à diversidade cultural, onde a cultura indígena seja também um expoente.
Nossas ervas medicinais, nossa cerâmica marajoara de origem indígena, nossos alimentos tradicionais, nosso guaraná, cupuaçu, nossos lugares sagrados, nossas terras, nossos cemitérios, nossas cantigas, histórias e lendas, nossas orações, nossos cânticos sagrados, nossa caça, nossa pesca, nossa educação, saúde e agricultura são as nossas vidas. Essa cosmologia pode ser difundida na sociedade de informação, fortalecida pelas Redes de Comunicação Indígena, pelas rádios comunitárias, pela internet através dos sites, pelos canais de televisão, e mesmo pelas Conferências ou Seminários indígenas, olho a olho ou virtuais, mas não mais precários, mas de uma forma digna, tecnológica, científica, educativa e sistemática, apoiada pelo GOVERNO. Assim abrimos espaços nas Feiras de Livros, a exemplo da FNLIJ, FLIFLORESTA, FLIMT, entre outras que estamos percorrendo. É uma vitória.
É um desafio que deve ser ultrapassado através da conscientização, da capacitação, da formação técnica, da criação de bancos de dados indígenas para garantir todo acervo histórico, garantindo suas patentes, conhecimentos e propriedade intelectual. A cultura tradicional também sofre evoluções com o modernismo e tecnologias. Essas tecnologias devem ser usadas como ferramentas para a defesa dos direitos indígenas. Desenvolvimento para povos indígenas deve ser um processo que coaduna cultura tradicional e novas tecnologias e novas esperanças. Povos indígenas devem se espelhar neste modelo de desafio, como foi na FLIMT, Feira do Livro Indígena de Mato Grosso.
*Eliane Potiguara indicada em 2005 ao Projeto Internacional Mil mulheres ao Prêmio Nobel da Paz, é escritora, poeta, professora, formada em Letras (Português-Literaturas) e Educação, ascendência Potiguara, fundadora do GRUMIN / Grupo Mulher-Educação Indígena. Membro do Inbrapi, Nearin, Comitê Intertribal, Ashoka, Associação pela Paz, Projeto Cultural Abrali, Rebra, Moína Produções Artísticas e Cônsul de Poetas Del Mundo. Trabalhou pela Declaração Universal dos Direitos Indígenas na ONU em Genebra. Site pessoal: www.elianepotiguara.org.br Institucional: www.grumin.org.br E-mail: elianepotiguara@grumin.org.br
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Será que alguém leu e porque não dizer: li.????
Excelente iniciativa e texto.Realmente o povo indígena não precisa de muletas, tem sua estória , sua força e não deve andar de lado mesmo. Ninguém melhor do que essa força tamanha ser contada pelos próprios povos. Discriminação nunca, isso já foi
Parabens Eliane , você é força, continue assim guerreira.
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Cintia, obrigada pelos comentários, coloquei ontem esse texto e não tive tempo de divulgar, ae puder avise aos seus amigos , por fvaor, ainda não sei muito mexes nesse overmundo, vou ver como faço para convidar as pessoas do site para vê-lo, beijo de luz. eliane potiguara
Escritora Eliane Potiguara · Rio de Janeiro, RJ 19/10/2009 13:29Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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