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Esper, Sobel, Eloy

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Maurício Alcântara · São Paulo, SP
15/4/2007 · 89 · 6
 

Pessoal que faz teatro é tudo bicha, drogado e adora uma putaria, e todo mundo sabe disso (pelo menos todo mundo que não gosta ou não faz teatro). É a partir desse preconceito que surge um dos personagens da peça "Na Noite da Praça": um morador da praça Roosevelt que odeia todo o movimento gerado pelos teatros. Apesar de não serem citadas na peça, certamente outras características do personagem seriam jogar ovo nos boêmios da calçada, ligar para o Psiu para reclamar do barulho e dormir abraçado a seus poodles (a Roosevelt é certamente a maior concentração de poodles da cidade, é cachorro chato demais para tão pouca praça).

Em uma noite de terça-feira repleta do que fazer, ele testemunha e denuncia uma cena de pederastia ao ar livre que vê de sua sacada, bem ali na praça. A polícia cai em cima e descobre um famoso estilista da TV com a boca numa botija que, para seu azar, pertence a um menor de idade. A partir deste acontecimento fatídico, a peça - inspirada em um conto de Alberto Guzik - apresenta as versões de diversos personagens para a história: o vizinho moralista, o estilista afetado, o garoto de programa "dimenor" e a divertidíssima garçonete de um bar da região, que sempre acaba sabendo de tudo o que acontece na praça.

Em tempos de estilistas roubando vasos em cemitério, e de rabinos de cabelo engraçado afanando gravatas mundo afora, não é difícil de entender a repercussão deste fato na vida de Elói, o protagonista do escândalo. Mas se analisarmos com calma, vemos que a peça não é exatamente sobre isso, ou não em sua totalidade: ao entrarmos no teatro já percebemos que o camarim foi convertido em parte do cenário, e os atores estão vestidos como se estivessem em uma montagem de Sade, nos revelando que existe mais um ponto de vista, que é o mais forte na montagem: a visão dos Satyros com relação aos problemas que vêm enfrentando com seus vizinhos. Esta metalinguagem se repete nos diversos momentos em que os atores oscilam entre os personagens da trama e atores que discutem no camarim sobre o escândalo de Elói.

A direção do espetáculo tem grandes méritos pela escolha de abordar o tema com humor e sem grandes aprofundamentos, excelente saída para não tornar o espetáculo pedante: é uma fotografia de alguns personagens que transitam pela praça, sem pretensão de ser uma radiografia. A ressalva fica apenas na construção do garoto de programa, que traz uma consciência social sobre sua própria realidade que parece ter mais cara de um ator e crítico de teatro do que de um garoto de programa de dezesseis anos. Fora isso, este espetáculo sem grandes pretensões é uma das melhores opções do projeto "E se fez a Praça Roosevelt em 7 dias", da companhia Os Satyros.

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FILIPE MAMEDE
 

Texto fluente e divertido, talvez se tivesse algumas fotos, ficaria bem melhor. Abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 11/4/2007 09:44
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Maurício Alcântara
 

Oi Filipe,
Vou ver se encontro alguma. As únicas imagens que tenho são da Lenise Pinheiro, estou aguardando o OK dela para colocar. Espero que dê tempo.
ABs

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 11/4/2007 22:10
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FILIPE MAMEDE
 

Pois é brother, umas fotos ai; ia ficar muito bom. Abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 12/4/2007 10:32
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Juliene Codognotto
 

Adooorei esse texto. Contextualizar é muito foda. Fica mais engraçado e mais relevante!

Beijos,
Juli =)

Juliene Codognotto · São Paulo, SP 13/4/2007 16:17
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Roberto Maxwell
 

O texto eh muito bem escrito, mas queria que o autor explicasse porque a superficialidade merece elogio em detrimento do aprofundamento. Aprofundar-se em um assunto eh errado? O correto seria estar sempre na superficie? Pecas que analisam profundamente determinados temas sao, entao, sempre pedantes? Ou pedante fica a peca que, a guiza de aprofundamento, tem um autor que nao conhece o assunto a conduzindo?

Roberto Maxwell · Japão , WW 16/4/2007 11:52
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Maurício Alcântara
 

Roberto,

Antes de qualquer coisa, é importante ressaltar que quando eu digo que foi uma boa escolha não aprofundar, eu não faço uma apologia da superficialidade em detrimento ao aprofundamento.

Acontece que, dependendo da linguagem de encenação e objetivos definidos pelo dramaturgo e pelo diretor, nem sempre a superficialidade é ruim, assim como não é em todas as ocasiões o aprofundamento é necessário - e nestes casos, torna-se pedante.

Neste caso, o espetáculo foi concebido para ser mais leve e descontraído, e isso funciona muito bem. No fim das contas, essa descontração e superficialidade acabam gerando um resultado final bastante positivo. E, creio eu, muito melhor do que teria ficado se o diretor o conduzisse de forma mais sóbria ou crítica, por isso eu digo que a levesa da montagem a salvou de ser pedante.

Para um espetáculo realmente aprofundado sobre o mesmo universo, recomendo muito buscar conhecer o espetáculo "A Vida na Praça Roosevelt", da dramaturga alemã Dea Loher. A montagem brasileira, realizada pelos Satytos (e que eu considero a obra-prima do grupo), e que tinha inclusive o próprio Guzik no elenco.

Abraços,
Maurício

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 16/4/2007 13:07
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