Esse é o mistério do samba?

1
Fernando Kuki · São Paulo, SP
3/10/2008 · 177 · 5
 

Envio aqui, com autoriazação do Renato Martins, seu autor, texto bastante interessante sobre "o mistério" (ou não) do samba (do blog http://terreiro-grande.blogspot.com/).
abraços,
Fernando Kuki

Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008
Esse é o mistério do samba?

Não pretendo entrar no mérito do filme, nem sobre sua qualidade técnica ou nada disso. Mas, sobre o título do filme, que nos levanta questões relevantes.
Em entrevistas sobre o documentário, seus autores Lula Buarque e Carolina Jabor e a cantora Marisa Monte, muito falaram sobre a idéia do filme e as questões que ele trazia à tona. Uma delas, o título do filme, chamou-me a atenção. "O Mistério do Samba". Eis o que diz a cantora Marisa Monte, com relação a isso:

"A gente não quis fazer algo muito biográfico, queríamos mostrar como os sambas "brotam" desses sambistas que têm um cotidiano cheio de valores fortes, e às vezes muito duro. Como aquilo se transforma em música altamente sofisticada, mesmo eles não sendo músicos profissionais? Esse é um dos mistérios do samba", disse Marisa. "

O samba tem uma porção de mistérios. Muitos, de fato. Mas, acredito que esse não seja um deles. Por que é um mistério que sambas geniais, magníficos, obras espetaculares e personagens incríveis, nasçam de cotidianos "às vezes muito duro"? Qual é o mistério aí? A sofisticação, quando vinda dessa gente pobre, analfabeta, muitas vezes, sem a tal "cultura" formal acadêmica, é mistério por que? Mistério pra quem? Desde quando se mede sofisticação, pelo grau de intelectualidade ou pela especialização musical? Desde quando a música, pra ser sincera, boa, sofisticada, precisa disso? Ou seja, o mistério é: como essa gente pobre, de vida difícil, consegue fazer músicas sofisticadas? É isso o que o filme pretende mostrar. E isso é uma pena.

Penso que essa argumentação, esse pensamento, é preconceituoso e simplista demais. Como aquele cara que diz: "Ah, o Cartola é um gênio, e se pensar que ele é semi-analfabeto, então... nossa!" Como se isso, o diploma acadêmico, ou a quantidade de livros lidos, respondessem as questões todas da vida, que todo ser-humano é capaz de pensar e falar sobre, sendo ele letrado ou não. Balela! Preconceito puro! E como se o Cartola, ou o Chico Santana, ou o Alvaiade, ou qualquer outro gênio, misteriosamente tornou-se gênio num passe de mágica. Um dia, pintando parede, ou lavando um carro, pronto, nasceu o "Hino da Portela". Isso é mais que preconceito. Isso é diminuir o valor da obra e do autor, e todo o trabalho que ele teve pra fazer algo bonito, sofisticado. Não foi por acaso que o Villa Lobos não fez nenhum samba de terreiro, assim como não foi por acaso que o Paulo da Portela não escreveu nenhum concerto para orquestra. Discordo radicalmente dessa opinião simplista. Me recuso a aceitar que o mistério do samba seja esse. Não é esse. Nem ninguém sabe qual é.
O que eu sei, é que esse jeito europeu, medieval, de pensar, já tá mais que na hora de mudar.

E afinal, que diabos é sofisticação musical?

Abração!
às 19:09 Postado por Renato Martins

compartilhe

comentários feed

+ comentar
dudavalle
 

Uma coisa que eu achei estranha no filme foi que todas as aparições do Paulinho da Viola foram fora da quadra da Portela e em todas as músicas gravadas na quadra ele não estah presente.
Mistérios sempre hão de pintar por aih, jah cantava o ex-ministro.

dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 2/10/2008 22:00
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Não sei se chegaria a todas essas conclusões por causa da frase que ele reproduz da Marisa Monte. Mas entendo o incômodo com essa ligação entre estudo e sofisticação. Houve outras coisas que me incomodaram no filme, mais que o título, na verdade. Achei que o formato ficou muito parecido com o Buena Vista Social Club, com a Marisa fazendo as vezes de Ry Cooder. Enquanto no disco "Tudo azul", da Velha Guarda, que a Marisa produziu, ela aparece discretamente em uma faixa, no filme ela aparece muito (na minha opinião), mais do que os que deveriam ser os personagens principais...
Mas isso não me impediu de sair emocionada do cinema. :)
Abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 3/10/2008 18:25
sua opinião: subir
Spírito Santo
 

Renato e Fernando,

Não assisti ainda o filme e minha opinião vai mesmo baseada no que o Renato diz e que eu considerei muito relevante e pertinente. Já disse varias vezes aqui que andei (e ando) envolvido muito com este tema por conta de ter escrito um livro sobre Samba. Tanto que o eixo central do trabalho que visava explicar apenas a evolução das baterias de Samba (o aspecto etnomusicológico da questão) teve que ser alterado para uma análise destes supostos 'mistérios'.
O fato é que fiquei bastante surpreso, durante a pesquisa, com a quantidade enorme de mitos, mistificações e tabus que cercam o assunto. As razões de ser destas impropriedades são várias e muito complexas, mas, no meu modesto entender, tem o seu eixo marcado por um interessante paradoxo socio cultural que é o fato do símbolo nacional mais forte, a imagem mais original que projetamos de nossa personalidade e cultura para o mundo exterior, ser um gênero musical tão 'subalterno', criado pela parcela de nossa população mais marginalizada, mais vilipendiada, mais desprezada. Não é uma questão fácil de ser exclarecida.

São instigantes também as comparações que a Helena sugere entre os formatos deste filme e o Buena Vista Social Club que, em sendo mesmo ocorrentes (vale conferir) poderiam ser atribuidas a um equivocado pragmatismo comercial, que tenta pegar carona na onda dos músicos cubanos que são, sob vários aspectos, incomparáveis
Olhando bem de perto, o Samba brasileiro teria uma relação muito mais direta com a música de Santería Cubana de rua (o candomblé de rua lá, deles) estando o Buena Vista mais para a música de um Moacir Santos, um Dom Salvador, um Erlon Chaves etc. (uma galera até meio discrimidada pela velha Bossa Nova)
Enfim, cada país tem o Ry Cooder que merece.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 4/10/2008 09:23
sua opinião: subir
Doroni Hilgenberg
 

Fernando,
Não assisti o filme mas acho o samba uma das maiores expressões da cultura brasileira.
E não há mistério, acho que a vida ensina.
No entranto a midia explora as pessoas como se fossem enexpressivas.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 10/3/2009 11:37
sua opinião: subir
Wuldson Marcelo
 

Momentos de genialidade podem brotar em qualquer solo. não precisa erudição ou formação acadêmcica para isso. O Cartola teve vários momentos geniais. Se você for pensar bem, José saramago era autodidata. Eu não sei se o filme segue essa linha preconceituosa de tratar sofisticação como mistério se for obtido por pessoas de baixo poder aquisitivo. Mas vale a revolta do escritor Renato Martins. É melhor se indignar do que render-se a letargia. Valeu, Kuki.

Wuldson Marcelo · Cuiabá, MT 20/9/2010 18:25
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados