ESTAMIRA

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Renan Barbosa · São Paulo, SP
24/8/2006 · 73 · 3
 

ESTAMIRA
Mire-veja: Estamira. Esta mira. Esta mirada. Este jeito de olhar. Esse modo particular de ver. A singularidade do ser. Para além dos delírios, dos sintomas, todos facilmente enquadráveis numa classificação epidemiológica, um discurso. Absurdo, mas não sempre. E não sem sentido. Ela repete freqüentemente seu nome: Estamira. E parece estar dizendo: mire-veja, ouça-me, encare o meu ponto de vista. Respeite-me. Acredite-me. No final ela diz algo como: eu trago a boa sorte, mas a minha sorte não é boa. Ela se sabe, no fim das contas, infeliz, tratada como lixo a maior parte da vida. Condenada a viver do lixo, dele extraindo vida, força e garantindo a sobrevivência dos filhos. Ela renega Deus. Ela manda enfiar Deus no cu. Ela conhece o pode ilusório e massificante que a fé pode assumir. Blasfema? Ela sabe que em algum momento seus pensamentos perderam a linha da “normalidade”. Mas ela sabe que tem algo a dizer. Que tem um discurso, uma originalidade, uma personalidade, uma pessoa, por trás da mulher-urubu que mergulha em montanhas de lixo e dele se alimenta. Ela é Estamira. Mire veja: ela não acredita que ainda existam inocentes. Ela diz que existem espertos ao contrário. Ela enxerga inimigos, ouve vozes provocadoras, se agita e grita. Mas ela é Estamira. Ela é mais uma esquizofrênica, do tipo paranóide, seu discurso não é inclassificável nos parâmetros médico-psiquiátricos, como li um pensador dizendo num jornal. Não, ela cabe nos critérios diagnósticos , há um CID (classificação internacional de doenças) para ela, há remédios para aliviar uma parte de suas dores mentais. Mas há uma mulher, um nome, um rosto. Ela se diz grata ao lixo. Ela o freqüenta com gosto. E não é por nenhum capricho escopofílico fruto de sua doença. É porque ali ela se sente gente, ela trabalha, ela encontra nos restos algo que nutre a sua dignidade de cidadã excluída. Foi dali que ela conseguiu alimentar a família. Que reluta em tirá-la do lixo e dos sintomas porque sabe que isso seria lhe tirar uma parte da existência. Sempre comentei com amigos mais próximos que não dá pra deitar e dormir tranqüilo sabendo que há pessoas se alimentando do nosso lixo. Porque já me peguei pensando: “Não vou misturar esse queijo que estou jogando fora com o resto do lixo, senão vou inviabilizar a refeição de alguém”. Para aquém de preocupações ecológicas, embora eu seja um simpatizante da reciclagem, um pensamento que é covardemente conivente com a miséria, a fome, a sub-humanidade a que tantos brasileiros são condenados para sustentar nosso conforto. Mas Ela está lá. Vem trazer a verdade. Vem nos alertar sobre o inimigo, disfarçado, o esperto ao contrário.

Lembrei de tantas coisas: de como rimos, às vezes, interiormente, com as construções delirantes de nossos pacientes, ou comentamos depois com os colegas, ou de como apenas os ouvimos rapidamente e logo cortamos a frase para receitar a medicação que os deixará livres de suas inquietações (o que ele terão para colocar no lugar?). Estamira não quer se livrar da sua loucura. Ela quer que a sua verdade seja escutada. Lembrei da luta da minha irmã Vitória, lá em Campina Grande, junto com o Ministério da Saúde, para devolver um mínimo de dignidade a centenas de “loucos” crônicos, confinados num hospital psiquiátrico tão antigo e tradicional quanto criminoso, que deixava os doentes em celas, nas quais eles exprimiam suas aflições escrevendo com fezes nas paredes (como o Marquês de Sade, no filme que eles não viram), trancafiados por décadas, para enriquecer um dono de hospital com fortes vinculações políticas. Desse trabalho Vitória fez registros, não para obter publicidade, mas porque sua indignação não podia ficar restrita aos seus olhos... Fotos, um blog , (http://homemfe.spaces.live.com/PersonalSpace/), crônicas. A experiência irá ilustrar sua tese de doutorado em andamento. Tudo para tornar mais crível o que seus olhos sensíveis quase secaram ao constatar. Ela (e a equipe envolvida) deu a eles casa, assistência médica, sessões de cabelereiro e até os levou a um estúdio para que eles fossem fotografados, cada um com uma foto de si mesmo para enfeitar a parede da nova casa, as chamadas residências terapêuticas. Pessoas que perderam a noção de valores monetários, de como pegar um ônibus ou acender o fogo para fazer um café. Ela, contrariando meus rígidos conselhos, transportava-os em seu próprio carro, às vezes, para as consultas, o banco, o mercado. Deixava-se abraçar por aqueles sorrisos desdentados de hálito fétido e aquelas cabeleiras cobertas de piolhos. O que lhe importava era o afeto que estava dando e recebendo, e respeitar aqueles não-cidadãos, vivendo como escravos, alienados no sentido literal do termo, em pleno século 21. Um dia Vitória foi trabalhar e descobriu que, sem aviso, uma substituta sem experiência na área fora colocada em seu lugar, por obra daquelas forças ocultas que o mundo da política insiste em deixar fluir. Mas o que ela plantou, que não está nem palidamente descrito aqui, há de continuar dando frutos.

Mas voltemos à Estamira. Que usa a lente de Marcos Prado para nos revelar sua missão. Sua missão tem sido exitosa. O documentário já correu o mundo, premiadíssimo, e agora nos alerta, emociona, revolve, nauseia, cutuca nossas almas e nossa vaidade tola, nas telas dos cinemas de São Paulo.

Eu precisaria ver de novo, porque de memória não guardei as frases magníficas da sábia Estamira. Ao colocar este nome no google, milhares de páginas apareceram, e preferi não ler nada além do que está no site oficial para não “contaminar” os pensamentos deste texto, que no entanto é superficial, não mostra nem de longe o impacto, a emoção e as lições aprendidas com o documentário. Mas fica esse registro tosco, para esse nome sonoro: ESTAMIRA.

Mire: veja bem: me ouça: me escute: me enxergue: me toque: me acredite: me respeite: me dê dignidade: me dê vida! Me deixe viver! E ela arremata, como quem indaga, a nós, do mundo, “se é mais inteligente o livro ou a sabedoria”, num tratado condensado (em uma frase) sobre a criatividade, a força das idéias, da vontade humana, da potência dos sonhos, do discurso individual mas não individualista, que teima em querer ser ouvido: “tudo que é imaginário tem, existe, é”.

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Renan Barbosa
 

Este texto deveria constar em "cultura e sociedade". É sobre um documentário e não sobre música. Por algum erro meu, ele foi parar na categoria "música".
Renan Barbosa
www.barbosarenan.blog.uol.com.br

Renan Barbosa · São Paulo, SP 21/8/2006 22:52
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Hermano Vianna
 

mudei lá para "cultura e sociedade"

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 24/8/2006 12:23
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carlos b
 

Salve, Renan:
Hoje saiu uma dica na agenda de Curitiba: estréia nacional de "O filme da rainha". Se vc gostou de "Estamira", fique atento. O filme que estréia neste fim de semana em Curitiba é um tributo a Efigênia, a rainha do papel - uma senhora que mudou o rumo dos dias de muita gente. Daqui a pouco ele chega a SP.
abs,
carlos

carlos b · Maceió, AL 24/11/2006 17:42
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