Estamira e a loucura. Ou o que é a loucura?

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Tomazio Aguirre · Santo André, SP
3/11/2006 · 79 · 7
 

Vou tentar responder rapidamente a uma pergunta que poucas pessoas que ainda gostam de compreender as coisas têm se feito, já que as ciências aplicadas, como psiquiatria, psicologia e antropologia, têm se restringido a retóricas em torno dos temas que abordam, à medida que se concentram em pequenas disputas de poder institucionais e preciosismos pessoais. A pergunta é: O que é a loucura? E, mais particularmente, o que é a loucura no Brasil?


Vou tentar responder usando um documentário muitíssimo instrutivo, de Marcos Prado, chamado Estamira, sobre uma mulher louca (oficialmente esquizofrênica) moradora de um lixão no Rio de Janeiro.


Para começar, esqueçam o lugar-comum: a crença mundialmente difundida de que a loucura é uma doença do cérebro, de nome esquizofrenia, e a crença de que quem dela entenderia seriam os psiquiatras ou profissionais da “saúde mentalâ€. Alguns poucos, raríssimos profissionais, sim, ainda se esforçam para não serem apenas cegos num tiroteio, mas a maioria deles não entende nada sobre loucura. São apenas práticos, prescritores de remédios ou de terapias vazias, mas sem compreender a essência daquilo com o que lidam. Também os antipsiquiatras, psicólogos e antropólogos têm se convertido apenas em ilusionistas, ideólogos, às vezes bem intencionados, que querem salvar o mundo, começando pelos loucos, mas pouco entendendo daquilo a que se referem. Apenas tentam arregimentar seguidores, e muitas vezes conseguem. O Brasil é um país de messiânicos.


Quem atualmente estuda radicalmente a loucura se envolve com a junção de filosofia ontológica, antropologia filosófica e um pouco de antropologia social e de antropologia biológica, ou evolutiva, mas de um modo que não tem aparecido no academicismo brasileiro, e praticamente em academicismo algum, já que este tem se reduzido a disputas por bolsas, vaidades e dinheiro, com muito pouco além disso. Nesse percurso, a medicina tem sido entendida apenas como uma "ciência" com técnicas para fins específicos, porém com explicações falsas sobre o ser humano - embora acreditadas popularmente como verdadeiras (do mesmo modo como popularmente se acreditava em demônios e paraísos celestiais na baixa idade média - e ainda se acredita no Brasil). Ou seja, a visão psiquiátrica sobre loucura é, em essência, uma questão de fé. E as demais visões da psicologia e antropologias que se popularizaram, muitas vezes concorrendo com a visão psiquiátrica, nada mais são do que uma espécie de "reforma protestante" da psiquiatria - apenas dogmas alternativos, porém nada além de novos dogmas.


O Brasil é um país infestado de loucos em hospícios, nas ruas, amarrados em quartinhos de fundo de quintal, trancados nas delegacias ou estendidos nos IMLs. Mas muito pouco, por aqui (como tudo o mais), se discute seriamente (se é que dá pra levar discussões intelectuais a sério atualmente) o que vem a ser a loucura humana.


Curiosamente, fui surpreendido pelo documentário Estamira, que é justamente interessante por não apresentar voz de narradores ou especialistas da psiquiatria, da saúde mental, da psicologia ou da antropologia brasileira abrindo a boca para explicar o que estava sendo mostrado. O documentário é apenas a voz de uma louca se auto-explicando, e explicando o mundo que a fez ser como é, e no qual ela vive do jeito que é possível: bruta, enraivecida, solitária, sofrida, que prefere viver no meio do lixo, cercada de outros restos humanos como ela, do que com sua família; vendo o mundo como um lugar de violência, conspirações, barbaridades, falsidades, genocídio, em que cada um tem que ser seu próprio herói, seu próprio deus, seu próprio mito e seu próprio guia, auto-construindo seu próprio sentido de vida; porque tudo o mais além do que a própria pessoa pode inventar para si mesma são mentiras que a levarão no máximo a uma vala comum de indigentes, de bandidos ou de loucos humanizados, medicados e intolerados.


Sei que após a década de 1960 loucura passou a ser sinônimo de "rebeldia", de "transgressão", de "desbunde", de "porralouquice", e muitos bem-nascidos passaram a ter um certo prazer em se auto-denominar ou se exibir como loucos, diferentes, extravagantes, viajandões, rebeldes, etc. Mas não é a este deleite burguês que me refiro como loucura.


Também não me refiro aos "loucos-artistas", a associação tipicamente modernosa entre a loucura e a “arte", a contemplação estética burguesa, de vanguardas européias criando o estranho para chocar e para escandalizar, ou mesmo para se expressar existencialmente. Nem me refiro às ideologias que querem ver no louco, assim como em índios ou em quaisquer outras minorias, um ser de valor cultural que poderia salvar o decadente homem moderno de sua autodestruição. Nada, portanto, de dar pincelzinho pra meia dúzia de condenados, trancados em hospícios ou lugares similares, ficarem fazendo umas telas ridículas com as quais passam a ser ovacionados como “artistasâ€. Isso tudo quase nada tem a ver com a loucura dos milhões de loucos brasileiros que andam se arrebentando ou sendo arrebentados em sua loucura. Tem apenas a ver com utopias intelectuais e humanistas.


Estou aqui falando da loucura trágica, da loucura catástrofe, da loucura fim-de-mundo, da loucura que leva um sujeito a se desesperar e a viver em um mundo delirante próprio, solitário, correndo pelas ruas e rejeitando a vida com os demais seres humanos, e sendo ao mesmo tempo rejeitado por todos, como seres indesejáveis e insuportáveis. Loucura esta que a Estamira do documentário expressa aos berros, sem ter sido silenciada por drogas, caridade, psicologias, polícia ou assassinato - que é o fim que tem levado a maioria dos milhões de loucos reais desse país. Mas curioso é que, por ser o Brasil um país que não se civilizou, Estamira conseguiu escapar a todas essas armadilhas modernas para os inadaptados, sobrevivendo sem ser silenciada e ainda indo parar em um filme. Trágica contradição deste país moribundo: apenas no caos a loucura tem voz própria. A Alemanha não deixou nem mesmo Nietzsche continuar berrando audivelmente depois de ter se tornado oficialmente doido. Mas aqui os loucos conseguem fugir ao controle dos "normais".


Essa loucura real, de loucos reais, subumanos, e não dos desejosos de serem artistas ou transgressores em suas "modinhas" intelectuais, é a solidão extrema e total a que o ser humano pode chegar; é quando tudo que existe aos olhos de todos os outros deixa de fazer sentido, só restando à pessoa reinventar solitariamente seu próprio mundo, sua própria crença, seus próprios fantasmas, seus próprios ídolos míticos, sua própria identidade, a par de todos, diferentemente de todos os outros em suas ilusões compartilhadas coletivamente.


A Estamira do filme foi uma mulher brasileira comum até o período da vida em que a sucessão de atos típicos do caos nacional a levaram a não mais conseguir acreditar e sentir o mundo como ela fazia até então, com valores morais cristãos, acreditando em um Deus bom, protetor e coerente, sendo boa mãe, cordial, limpa, educada, contida e auto-controlada. Mas quando a realidade do caos ao seu redor desnudou todas essas suas fantasias morais e ilusões de um mundo que não mais existia, ela tornou-se uma pessoa sem "mundo" no qual acreditar: perdeu seus valores e suas ilusões necessárias à vida compartilhada com outras pessoas, e não conseguiu ter novas ilusões (crenças, ou sentidos para a vida), no lugar das anteriores. Ao contrário, em seu mundo anterior à loucura, a brutalidade real da vida brasileira não podia existir, e quando esta brutalidade foi escancarada em sua vida, sucessivamente, com estupros, violências e caos sem coerência, ela tornou-se uma pessoa sem um mundo dotado de sentido. Ela tornou-se um vazio existencial completo, um ser amorfo, com restos de identidades fragmentadas, com resquícios de valores morais contra os quais agora passava a lutar, por sabê-los irreais, com restos de crenças em Deus e coisas do tipo das quais agora tinha apenas raiva - por ter se descoberto uma pessoa enganada quanto a si mesma e quanto ao mundo real, brutal, caótico, genocida, no qual o ser humano não tem valor algum, a não ser em jogos de palavras hipócritas, com falsos humanismos – ou seja, o típico mundo da pobreza urbana brasileira, cercado de violênicia e de intelectuais humanistas.


Assim amorfa, aos olhos dos outros ela tornou-se louca, alguém a quem não se dá crédito, a quem não se compreende, com quem não se consegue compartilhar opiniões e crenças. Se lhe dessem ouvido, e se compreendessem o que ela fala, somado ao que falam os milhões de loucos brasileiros que não têm voz (por isso são loucos aos olhos dos outros), e sobre os quais não se faz filmes, viria à tona a realidade de um país e de um mundo de que a maioria da população não quer saber - preferindo todos continuar vivendo em seus estragados castelos de areia. Viria à tona um país brutal, catastrófico, apocalíptico, um povo se auto-destruindo e ainda tendo que se acreditar alegre, carnavalesco e humanista-cristão. Quem quiser ver este país, no entanto, basta apenas parar de assistir a Matrix, de jogar vídeo-game, de fumar maconha, e assistir a Estamira; e, principalmente, basta abrir os olhos e a mente para o que está ao seu redor - se conseguir. O Brasil apocalíptico de Estamira está escancarado. Pena que os cristãos e humanistas brasileiros vão apenas achar o filme bonito, com boa fotografia, com uma personagem cativante e digna de ser celebrada como pobre e excluída, por quem se deveria lutar ardorosamente por "inclusão social" e dignidade. Mas isto é apenas parte da ilusão dos que querem coletivamente continuar sonhando com um país que não existe e nunca existirá.

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Georgia Cynara
 

Muito bacana o texto!
Realmente, a loucura é a mola propulsora das principais atividades artísticas, inclusive o documentário, que lida com o que é supostamente real.
Parabéns!

Georgia Cynara · Goiânia, GO 1/11/2006 13:18
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Farion
 

será que alienado não é o alienista?

Farion · Curitiba, PR 3/11/2006 17:45
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dMart
 

afinal, quem são os loucos?

este documentário é sensacional! mas infelizmente não passou aqui em Porto Alegre. só consegui assistir a uma matéria no Metrópolis (TV Cultura). curti o pouco que vi e ouvi na telinha. imagina no cinema.

será que o diretor não estaria a disponibilizá-lo como o Cafuné?

dMart · Porto Alegre, RS 4/11/2006 00:07
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nascsan
 

Acredito que os profissionais de saúde mental de hoje estejam muito mais integrados dos problemas mentais que ha pouco tempo. Freqüento consultórios psiquiátricos, psicológicos e hospital dia para tratamento de esquizofrenia. Apenas estou com um problema de saúde, pode ser asssim para o resto de minha vida, mas, posso controlar através desses recursos aliados à medicação. Mesmo assim, acho a interpretação do que é a loucura, conforme o texto, muito boa. penso que poderia acrescentar um pouco mais, porém, pode ser que eu não tenha discernimento suficiente ou exatidão, neste momento e acabe por complicar. E também sei que loucura não é rebeldia ou qualquer outra coisa que alguém possa fazer para parecer doidão, ou como um superdotado e também não é dar discursos ou pintar quadros ou fazer músicas idiotas... agora, acho que as palavras usadas e as suas colocações para escrever algo tratando deste tema devem ser usadas e colocadas de forma a se ter um entendimento mais fácil. Mesmo porque muitos dos doentes mentais não tem muitos anos de escola ou não costumam ler com freqüencia, até mesmo, devido a dificuldade ou impossibilidade causada pela doença. Deve-se explicar em detalhes sobe estes problemas para que o doente também se integre de tudo o que se refere ao seu problema. Para que ele possa lidar melhor com seu probelma de saúde. Sei que alguns que vierem aler este comentário poderão zombar, mas, como eu não me lembro o que é "ontológica" vou recorrer ao dicionário. Esse probema discutido aqui é muito sério, quero aproveitar e dizer que tenho três irmãs, dessas dus tem o mesmo problema. Nas famílias do meu pai e da minha mãe, em ambas, há pessoas com o problema. Portanto, acredito ser genético, só que se desenvolve com o tempo, apartir de um choque emocional muito forte, por exemplo. Foi o resultado do conteúdo genético mais a influência do ambiente e o estado emocional de um momento, assim acredito que desencadiou o meu primeiro surto. Assisti a um trailler do filme ESTAMIRA e quero ver o filme inteiro, espero que não seja apenas uma obra de arte para render alguns trocados nos bolsos de uns poucos, espero que não seja uma ficção... eu quero ver a realidade... gostei muito deste tema... é claro que tem muito haver comigo e com milhões de outros.

nascsan · Brasília, DF 5/11/2007 09:10
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nascsan
 

Agora sim, posso dizer, o filme é realmente excepcional! Assisti e adorei. É um caso clássico de esquizofrenia, acredito! Estamira é uma mulher muito inteligente que tem muitas perturbações em sua mente. Sei que ela tem as alucinações e os delírios porque tem carga genética herdada da mãe e outros antecedentes e, também, que devido aos acontecimentos fortes que atormentaram a sua vida fizeram com que ela se manifestasse dessa maneira. Mas, sei que com a ajuda de pessoas realmente interessadas e esforçadas para tal, despertando o seu próprio interesse, Estamira voltará a ter uma vida normal, mesmo que tenha que conviver com os sintomas da doença. Aprender a conviver com os sintomas não é deixar acontecer e ignorar, e sim, saber controlar e procurar mudar a postura, não é ser duro consigo, mas, compreender melhor suas necessidades e os seu próprios sentimentos. O filme é uma maravilha, recomendo! Por coincidência, nasci em Campo Grande, no Rio de Janeiro, e vim morar em Brasília, como a Estamira. Um abraço a todos, fiquem com Deus!

nascsan · Brasília, DF 10/11/2007 00:29
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Carol Leite
 

Consegui assisti na faculdade! É impressionante!
Mesmo já tendo contato direto com estes pacientes, não posso saber até que ponto a loucura lhes causa o mal. Estamira é um exemplo disso!
Ótimo texto!
Abs

Carol Leite · São Paulo, SP 22/11/2007 08:09
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Rogéro Floripa
 

Baixar o Documentário - Estamira - http://mcaf.ee/tvjf4

Rogéro Floripa · Apiacás, MT 12/3/2013 12:03
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