Pra fazer um texto sobre Estamira, não se pode ser suave. Devo começar com alguma provocação, algo assim: a gente só escuta os outros se houver grife na palavra? Explica-se: se Jesus Cristo não detivesse a lepra ao mero toque, não trouxesse de volta à vida com um pedido e não tivesse sucumbido e renascido após a cruz, que valor teriam os evangelhos? As pessoas estariam tão dispostas a ir à igreja, preencher copos d’água frente à televisão e amar o próximo como a si mesmo? Esse, talvez, o espaço entre o messias e o atual Inri Cristo. A distância que o separa de Estamira, a protagonista do documentário com o mesmo nome: catadora de lixo, esquizofrênica, mulher de sessenta e três anos. Duela com a tempestade. Profetiza, às vezes.
Ela não tem marca, nem grife ou glamour, como a mulher que dorme em frente à locadora aqui embaixo de casa. Parece sorrir todo o tempo. Está sempre conversando alguma coisa. Aparentemente, consigo mesma. Também como o homem que risca desenhos nas calçadas, dois metros de círculos ou quadrados, ou talvez algo com mais significado, mas não pude decifrá-los. Essas pessoas são todas semelhantes porque nos parecem fáceis de entender. Existe um momento no filme em que Estamira passa a ser menos protagonista para ser mais objeto de análise; quando o espectador ganha a opção de um veredicto redutor: a demência da personagem pode se explicar por uma razão genética ou por seus tantos traumas sofridos. Não há razão para tentar compreendê-la além do superficial.
Como talvez não houvesse para esse nosso conhecido, se atrás dele não sobrassem aleijados subitamente curados. Compartilham características, Estamira e ele: consideram-se destacados da humanidade, sofreram um bocado e possuem uma filosofia a propagar. Se a vida daquela mulher fosse acompanhada, editada e publicada em quatro versões conflitantes e/ou complementares entre si, com o efeito, assim, de eternizar a discussão, o que se poderia dizer dela, daqui a duzentos anos? Porém isso não será feito jamais. Observe os textos mais fáceis de se ver na internet. O de valor que fora dito por Estamira é tratado como estalos de sabedoria num todo de loucura. E só.
Estamira postula um mundo absolutamente abstrato, o que obriga a afirmar a impossibilidade de conhecimento concreto do que constitui o mundo. A ciência seria limitada, a psicologia também, mesmo a pessoa que afirma essa teoria: ela diz ser a visão de cada um. Sustenta que sua missão é revelar a verdade e repugna o que chama de “trocadilho”, o que mente – logo, o que disfarça e distorce o real. O bem e o mal, talvez, e, como é de costume, estamos no meio. Entendendo com “lucidez” o viver dinâmico; com “sentimento” a parte que “grava e acolhe” os fatos, (compare com o inconsciente da teoria freudiana). Se escaparmos das ilusões, seremos “cientes”, como ela: é o que ela diz ter acontecido com Jesus Cristo. Sem saber ler nem escrever, aprendeu de tanto ver.
Se o todo é abstrato e estamos em aprendizado constante, o mundo muda conforme se evolui o conhecimento que se tem dele. Transforma-se de acordo com a interpretação. Estamira afirma que o homem é o único condicional. O único ser ligado inexoravelmente ao contexto em que está. Já se poderia aqui falar em Rosseau, do conceito de que o indivíduo nasce feito folha em branco, e o mundo o faz; e esta teoria de Estamira mesmo determina ou explica a receptividade que darão a ela. Pois entendemos também os outros menos pelo que são e mais pela situação respectiva de cada um.
Dessa forma, uma catadora de lixo esquizofrênica não pode ter um raciocínio complexo no detrás de suas idéias. Assim, os desenhos nos chãos da minha cidade nada dizem. É também só delírio o que aquela mulher resmunga à madrugada. São nosso oposto, absolutamente compreensível. Deles, só se perdoa um rompante de inteligência, como um dito espirituoso de uma criança. Jesus quiçá fosse de mesmo modo recebido – mas havia os milagres, e amar o próximo e largar as riquezas pareceu logo tão interessante... talvez Moisés e similares tivessem sido solenemente ignorados, se não nos coagissem as bolas de fogo e massacres de primogênitos narradas em certo livro.
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*leia outro texto sobre Estamira no Overblog.
**veja textos, fotos e trailer no UOL.
Seria Estamira esquizfrênica já que ela alcança mesmo de forma fragmentada conhecimentos universais? Não seria os pragmáticos materialistas esquizofrenicos, pois presos estão na neurótica razão?
Sou fã de Estamira!! Bela matéria!
Agradecido, José
esse documentário é sensacional...
estamira cria uma realidade paralela ao que é real. é tudo muito coerente de sua forma... =]
Bacamarte, que texto belo! Desde que assisti ao documentário, compartilho dessa mesma opinião: mas afinal, o que é suficiente para considerar alguém santo? Ou: e se tivesse havido tanta leitura científica, o que seriam dos Jesuses de dois mil anos atrás? Adorei o conflito. E reconheço a importância de se falar, aqui, de filme tão importante. Abraço.
Labes, Marcelo · Blumenau, SC 26/5/2007 12:10Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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