Quem leva o Oscar a sério? Todos os anos, ali pelo fim de fevereiro, início de março, essa pergunta é repetida mundo afora. São pouquíssimas as pessoas a responder "eu levo!". Mas, no dia da premiação, é aquela audiência na casa das centenas de milhões mundo afora.
A dissimulação é compreensível: como levar a sério uma premiação que nunca contemplou mestres como Hitchcock, Max Ophüls e Fritz Lang e que só concedeu duas estatuetas meio de esgueio ao grande Charles Chaplin: uma pela música de Luzes da Cidade (Limelight, 1952) e outra, honorária (que ele, aos 83 anos, se conservasse o ativismo político da juventude teria feito muito bem em recusar)?
Mas não é preciso olhar para o passado distante para questionar os Academy Awards: nos últimos anos, filmes atolados de estatuetas têm-se revelado mera repetição de fórmulas ou mesmo produções medíocres quando “confrontados” no cinema mais próximo.
Quem quer ser um milionário (Slumdog Millionaire), contemplado com 8 estatuetas e que estreou recentemente no circuito nacional, não foge à regra. Dizer que a produção foi influenciada pelo filme brasileiro Cidade de Deus (2002) é eufemismo. Ele copia descaradamente a estrutura narrativa, o tema (a evolução de um grupo de crianças pobres, com suas trajetórias reconstituídas em flashback a partir do único personagem que se tornou um adulto bem-sucedido, exatamente como no filme aqui produzido) e até os padrões fotocromáticos da obra dirigida por Fernando Meirelles e Kátia Lund. A coisa é tão descarada que até um clímax dramático baseado na violência brutal contra crianças os dois filmes têm em comum. (Aliás, como acontece com o filme de Meirelles e Lund, Quem quer ser um milionário também tem dois diretores: o inglês Danny Boyle e o indiano Loveleen Tandan. O fato de você, eu e o resto dos mortais só termos ouvido falar do primeiro não tem nada a ver com herança colonialista, claro que não, imagina...).
O que diferencia essencialmente o filme estrangeiro é que a ação se passa na Índia e há um suspense, meio forçado, que atravessa toda a narrativa: conseguirá o ex-menino de rua que protagoniza o filme ficar milionário ganhando o prêmio máximo de um desses jogos televisivos à la Sílvio Santos? Tan, tan, tan, tan...
Deve-se, a bem da verdade, reconhecer que o diretor Danny Boyle demonstra todo seu talento. Pena que este se resuma a dar um tratamento de videoclip frenético, anfetamina pura, à narrativa – o que, somado aos tiques maneiristas de cinema indiano, diluições “pra inglês ver”, trazidos por Tandan, sumariza toda a originalidade do filme. Oito Oscars? É pouco, por que não 12?
Muitos críticos apontaram que a exageradamente generosa premiação a Quem quer ser um milionário - reforçada pelo prêmio de Melhor Atriz coadjuvante para a espanhola Penélope Cruz - seria um indício do ímpeto multiculturalista que estaria a assolar a “academia”. Será mesmo? Enquanto a exigência de que os filmes concorrentes sejam falados em inglês, a tendência é que ela siga preferindo a bugiganga-pastiche aos originais de qualidade.
Na veia, Mauricio, tá votado com muito prazer. Por que será que a gente não vê mais na midiazona opiniões com a qualidade crítica do seu texto? Que venha mais daí!
Savio Grossi · Belo Horizonte, MG 14/3/2009 20:08
Concordo com seu ponto de vista, Do ponto de vista do roteiro o filme possui muitas caracteristicas da produção brasileira, talvés por se tratarem de dois países economicamente semelhantes a historia possa ser comum a ambos.
Discordo quando você fala dos quesitos técnicos. A fotografia de Cidade de Deus é muito melhor do que a do similar indiano. e a trilha de quem quer ser um milionário é muito superior ado brasileira. Na minha opinião injustiça seria não premiar este filme com as estatuetas que ganhou. Não havia nenhum outro filme a sua altura nestes quesitos. Talvés o Caso do Button pudesse ter abocanhado a estatueta de melhor filme mas a opinião da academia é um tanto subjetiva. Só deicxando bem claro que não estou defendendo Holywood, concordo plenamente que as escolhas são políticas e não técnicas. Já era hora de mudar um pouco a cara do Oscar.
Parabéns.
Obrigado a todos pelos comentários. O texto muito provavelmente não atingirá os 70 votos (muita coisa, né?), mas é gratificante compartilhar idéias com vocês. Valeu!
Mauricio Caleiro · São Paulo, SP 15/3/2009 15:56Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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