Observatório

Captcha X spam automático
Esta semana a comunidade se deparou com algo novo - no que se refere à rotina do Overmundo, mas muito comum no universo da internet. Usuários foram criados para disseminar spams com convites pornográficos por mensagens privadas a colaboradores. Provavelmente, eles foram disseminados automaticamente em milhares de perfis no site.

Lamentamos imensamente que, depois de quase três... leia

Fóruns

Observatório · tudo sobre o Overmundo

Ajuda · tire suas dúvidas aqui

Código · sobre o sistema do site

Conversas · sobre culturas de todo o Brasil

Classificados · produtos e serviços culturais

 
Estrela de uma vida inteira
Cida Almeida · Goiânia (GO) · 18/1/2007 10:58 · 141 votos · 19 comentários ·  
 
1
overponto
Imagem
Manuel Bandeira, por Portinari (1931)
(Re) lendo Bandeira, o Manuel de todas as deliciosas horas entre procuras e prateleiras, as lombadas de letras douradas, da modesta biblioteca do Colégio Estadual Professor Pedro Gomes, que me encheu os olhos de uma febril cobiça. Entre química orgânica, fisico-química, trigonometria, matrizes, tabela periódica, números atômicos, camadas de cebola no microscópio, a biblioteca, o rito de delícias quase secretas, a minha imensa Alexandria! Aqueles corredores de aço sustentando o vôo de Pégaso, a inscrição que acredito, com toda a nitidez da memória – até faço uma oração se for preciso -, ali, no pátio. Tomara que perdure ainda hoje, tomara, aguçando a pinotes minha imaginação, algo como Pégaso transportou os deuses à fonte da sabedoria. Meu Deus, que momento sublime! Ainda hoje não consigo uma palavra, uma imagem que dê a real e imaginária dimensão daquela sensação de estranha leitura fazendo cócegas na minha alma querendo aquelas asas, aquela fonte, aquele olimpo, aquela viagem, aquela força!

E nos últimos dias, mergulhada conscientemente em Bandeira, o poeta de rosas e estrelas, o que ria mais porque era dentuço e que amava de devoção Carlos Drummond de Andrade – ao ponto de dizer categoricamente que quem não concordasse que este sim era o maioral favor nem cumprimentá-lo... O poeta que dava valor à inspiração e acreditava na reabilitação do lugar-comum. Novamente, a lombada dourada do livro de capa encarnada, Estrela da Vida Inteira, atiçando a fome de todos os meus sentidos. Fecho o livro, fecho os olhos, e recito mentalmente poemas inteiros, que se apossaram definitivamente da minha alma naquelas manhãs e tardes da primeira biblioteca da minha vida – e era o máximo, para quem cresceu numa casa desprovida de livros e em um tempo que boa literatura não se comprava em banca de revistas.

E lá vem Bandeira, todo faceiro, irreverente, modernoso como muitos mesmo hoje, no tempo de todos os experimentalismos e possibilidades, não ousariam. Rabisco – a lápis, pois jamais cometeria a heresia de uma esferográfica na página de um livro. Rabisco e rabisco, sublinhando inusitadas construções. E fico ali, minutos afoitos, de queixo caído. Bandeira, o poeta que pintava musical e afinadamente paisagens surreais, febris, as suas palavras ali, vigorosas com pinceladas geniais comendo nossa emoção e nossos ouvidos. E nem fico embasbacada nos poemas-emblemas, passando ao largo do Itinerário de Pasárgada e nem ousando entrar naquele consultório do médico maluco que habitava o poeta e receitava sem cerimônias um tango argentino...

Não, fico com o Bandeira dos becos e dos mangues de Recife, das festas populares e das ruas frenéticas, da geometria do corpo das mulheres, que tirava poesia de comerciais, como a Balada das três mulheres do sabonete Araxá, do Capibaribe numa transposição musical de vogais, curva sonoramente perfeita acariciando os ouvidos, Capiberibe... (Evocação do Recife). O Bandeira na folia da poesia que se travestia de moço na gandaia, que tomava alegria como quem toma éter, pedindo às moças... Na boca, na boca, na boca...

Na boca, na boca, não resisto às palavras de Bandeira. Penso no aeroporto com poesia. Aviões que chegam, aviões que saem, que cortam os ares e as almas, nos dando as lições da partida. Penso, profundamente, no forro da mesa posta, no campo lavrado da labuta diária e na minha mãe, às portas do nunca mais, preocupada em que colocássemos água no filtro, e a indesejada das horas chegando. Penso, no silêncio das cinzas da fogueira apagada das festas juninas sobre as quais caminho na poesia de Bandeira e nos terreiros varridos nos junhos perdidos da devoção dos santos da minha avó. Penso e aspiro o perfume de todas as pétalas da rosa poética de Bandeira e na estrela luzindo alto no firmamento de suas palavras encantadas...

Penso, amorosamente, no meu primeiro encontro com Bandeira, no labirinto divino da biblioteca em que descobri a meada do fio de Ariadne e naquele instante mágico que suas palavras construíram em mim outros sentidos e encadeamentos, e tome poesia na minha cadeia atômica... Moléculas de oxigênio, carbono, hidrogênio, ácido, base, fórmulas... Hidroxila! Que palavra mais linda! Poeticamente, cheia de Bandeira, ouso os encontros inesperados da poesia... E solto sem medo as rédeas de Pégaso e Bandeira tremula dentro de mim com a amplidão sempre virgem e inexplorada da sua poesia.

Por mais que a habitemos e por mais que ela perpetue em nós a devoção de um espaço sagrado, ela vem fresquinha, como uma brisa nova por uma fresta de palavra mais nova ainda... E tem aquele sabor de primeiro amor, sedução de ângulos e sentidos e sons e irreverência. Mesmo naquela levada de tristeza, quanto humor rangia fundo dentro do espirituoso Manuel.

E a poesia de Bandeira eu quero sempre na boca, na boca, como um esguicho de alegria de palavra recém-brotando da fonte, estalando na ponta da língua, mesmo que nos tortuosos e sombrios caminhos das dores da alma que não têm cura.

Tremula Bandeira, tremula! As suas palavras poéticas habitam o mar aberto e o porto de passagem das almas onde inexiste a possibilidade de âncora. E o Capibaribe de sua poesia deságua em Alexandria de todos os tempos futuros e a fonte jorra e Pégaso transporta suas rosas e estrelas para a eternidade dos deuses. E sempre haverá uma estrela luzindo no fim do dia, no começo de tudo, com alumbramento, cada vez que alguém abrir um livro de Manuel, o Bandeira de uma vida inteira.

tags: Goiânia GO literatura


 
canto_esquerdo comentários rss postar novo comentário canto_direito
 
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia

Estes versos de Manuel Bandeira me lembram meu professor de português da Oitava série do curso Fundamental: Paulo Afonso Carneiro, que me mostro que a poesia é essencial na vida de todos. Lendo seu texto hoje, me lembrei do Paulo e me deu uma vontade enorme de reler a Antologia Poética de Bandeira e também Testamento de Pasárgada. Doces lembranças.

Tacilda Aquino · Goiânia (GO) · 15/1/2007 21:21 
3 pessoas acharam útil
Sua opinião: Útil   

menina obrigada por esse post...acabei de ganhar o "estrela da vida inteira". depois eu faço um comentário decente pra esse seu texto dá hora! obrigada!
dáia flórios · Rio de Janeiro (RJ) · 16/1/2007 09:42 
2 pessoas acharam útil
Sua opinião: Útil   

Muito bem lembrado, Cida!
Sempre bom reler este super-inspirado brasileiro!
Ótimo texto!
Carlos ETC · Salvador (BA) · 16/1/2007 23:09 
3 pessoas acharam útil
Sua opinião: Útil   

Bandeira é fundamental.
Obrigado pelo belo texto, Cida.
Fábio Fernandes · São Paulo (SP) · 17/1/2007 15:32 
2 pessoas acharam útil
Sua opinião: Útil   

Cida,

Gostei do ritmo do texto e do modo como você vê (mosta) Banderia.

Luiz Carlos
Luiz Carlos Garrocho · Belo Horizonte (MG) · 17/1/2007 23:56 
2 pessoas acharam útil
Sua opinião: Útil   

A poesia de Bandeira também me fascina. Seu texto me prendeu do início ao fim. Parabéns, Cida.
Antonio Rezende · Palmas (TO) · 18/1/2007 10:58 
2 pessoas acharam útil
Sua opinião: Útil   

Ah... reparando o retrato, de Portinari, lembrei-me de um poema (isso mesmo) do próprio poeta das tintas. Achei por acaso, num impresso que destacava o acervo de quadros de uma colecionadora. Lembro-me bem do desfecho:
"Todas as coisas frágeis e pobres
Se parecem comigo."
Acho que publiquei o poema aqui no Overmundo, com uma foto. Ele também pode ser visto/lido aqui
Antonio Rezende · Palmas (TO) · 18/1/2007 11:06 
2 pessoas acharam útil
Sua opinião: Útil   

Li o poema de Portinari, que desconhecia. Muito obrigada pela informação, que veio numa hora oportuna, pois acabei de ler as cartas do Mário de Andrade para o Portinari, por quem o autor de Macunaíma nutria uma amizade devotada e encantada. E Portinari entrou definitivamente na minha alma pelas palavras encantadas de Carlos Drummond, no poema A Mão... "E voa para nunca mais a mão de olhos azuis de Candido Portinari..."
Cida Almeida · Goiânia (GO) · 18/1/2007 11:41 
2 pessoas acharam útil
Sua opinião: Útil   

Não resisti e entrei aqui de novo para reler seu texto. E vendo os comentários das pessoas, me lembrei que quando Bandeira disse que "o que poderia ser e que não foi" (...) interessantemente O Overmundo, através de seu texto encostou esse poeta na vida de todos nós , assim como ele se constituiu: ponto de aproximação entre várias coisas e pessoas...
Tacilda Aquino · Goiânia (GO) · 31/1/2007 22:48 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Que bom que o poema bateu, Cida. Por falar em Drummondo e em poema pra "parte de corpo de gente", lembrei-me de versos que ele fez pra bunda (isso mesmo). Uma foto e o tal poema me inspiraram uma bestagem que publiquei aqui no site. Acho que você vai rir e, talvez, até filosofar. Ainda deve estar na fila de votação do Banco de Cultura.
Antonio Rezende · Palmas (TO) · 1/2/2007 14:24 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Cida, meu teclado me sacaneia sempre. DRUMMOND não gostaria de ver o "Drummondo" que tasquei no comentário acima.
Antonio Rezende · Palmas (TO) · 1/2/2007 14:28 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Caro Rezende,

Que bom que voltou ao texto sobre o Bandeira. Conheço o poema do Drummond para a bunda. Se não me engano, está no livro Corpo, um dos últimos que publicou antes de morrer. E quanto ao Drummondo, também pode ser Drummond + mondo (em espanhol). Ficaria Drummondo ou Drummundo, com duas mãos e o sentimento do mundo, assim ele nos legou a sua imprescindível poesia. Quanto ao seu texto, não consegui achar. Envie-me, por favor.
Cida Almeida · Goiânia (GO) · 2/2/2007 13:23 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Cida, vc vive de encantamento? Palavras riscam coriscos e ouriços no ar! Quem segura essa mulher? Maravilhaaaaa!! Beijos
Denise Sampaio Ferraz · São José do Rio Preto (SP) · 29/9/2007 14:00 
1 pessoa achou útil
Sua opinião: Útil   

Cida,
Preciso me desafogar um pouco das obrigações e conquistar um espaço para passear pelos seus textos. Vai ser muito bom. Bjs.
Joana Eleutério · Brasília (DF) · 15/10/2007 15:43 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Cida. um link para você chegar ao texto AH, A BUNDA.
Antonio Rezende · Palmas (TO) · 15/10/2007 15:49 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Cida, minha adorada poetisa dos sertões,

chego desta vez com milênios de atraso para me embriagar com suas palavras e história maravilhosas, e me pergunto: como não li antes esse texto, meu Deus? A única resposta que me vem é a única possível: Deus queria me reservar seu canto a Bandeira para alegrar e encantar essa tarde que entristecia minha alma. E foi como ler um pássaro em pleno vôo, como "ouvir estrelas". Que bom ler algo assim, tecido com amor, escrito com paixão (com toda cacofonia dessa com paixão). Votei com prazer e vontade de poder repetir o voto a cada leitura que farei, e serão muitas para eu aprender. Por isso, eu lhe agradeço. Um texto lindo, lindo.

Bjs carinhosos
Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro (RJ) · 7/11/2007 16:33 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Paulinha Barboza Lindo, sensível, inebriante!!!!
Seu texto é um grande presente, Cida. Um abraço!!
Paulinha Barboza · Camaçari (BA) · 8/11/2007 11:25 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Irene no céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco.

E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene, você não precisa pedir licença.

Não sei quase nada de cor. Sei esse aí. E o

Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:
- Passei o dia à toa, à toa.

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste:
- Passei a vida à toa, à toa.

Manuel Bandeira encanta. Encanta e dói. Como naquele do beco, que também devo saber de cor - e que vai direto:

O que eu vejo é o beco.

Quer mais poesia. Até a poesia do nada é grande poesia. O homem sabia das coisas.
Parabéns e abraços.

José Carlos Brandão · Bauru (SP) · 20/6/2008 13:38 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Faltou o ponto de interrogação depois de "Quer mais poesia." Fica parecendo que o poeta está insatisfeito com a falta de poesia no beco - e na vida (e todos temos um beco a vida). E não está?
José Carlos Brandão · Bauru (SP) · 20/6/2008 13:40 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   
 



  Adicione seu comentário: para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

 
canto_esquerdo   canto_direito